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[Opinião] O Funil do Diabo - Júlia Lopes de Almeida

   




Título: O Funil do Diabo

Série: -

Autor: Júlia Lopes de Almeida

Data de Leitura: 29/03/2023 ⮞ 09/04/2023

Classificação: ⭐⭐⭐


Sinopse

No romance O Funil do Diabo  Julia Lopes de Almeida mergulha o leitor em uma intrincada história de mistério no coração de uma família burguesa, em plena era da industrialização brasileira. Intrigantes roubos assombram a casa da abastada família… Quem seria o responsável? Qual a motivação? Quais os meios usados? Desconfiança, intrigas e obsessão são os temperos desta obra.

Como em outros trabalhos, a escritora dá destaque à situação da mulher na sociedade patriarcal, a postura de autoanulação diante da autoridade dos maridos, a histeria feminina, tão em voga na época, são temas que não ficam intocado na trama.

Baseada na publicação póstuma, feita pelo "Jornal do Commercio", em 1934, que, em uma homenagem à autora recém-falecida, compartilhou com o público o texto até então inédito. Como as outras publicações da Janela Amarela, esta reedição teve ortografia atualizada e conta com notas explicativas, para termos e palavras fora de uso.

Esta edição

Texto integral do romance O Funil do Diabo escrito por Julia Lopes de Almeida, publicado postumamente no Jornal do Commercio (RJ).Trecho do discurso de Afonso Lopes de Almeida, por ocasião de sua posse na Academia Carioca de Letras, que traça um perfil da escritora.Biografia de Julia escrita pela filha, Margarida Lopes de Almeida.Primeiro trabalho jornalístico de Julia Lopes de a crítica à atriz Gemma Cinubertti, publicada na Gazeta de Campinas em 1881.



Minha review no GoodReads


Júlia Lopes de Almeida nasceu em 1862, no Rio de Janeiro, filha dos emigrantes portugueses Adelina Pereira Lopes, musicista, e Valentim José da Silveira (Visconde de São Valentim), médico. A família pertencia à classe alta, o que proporcionou uma excelente educação à promissora escritora.

O pai de Júlia descobriu a vocação da filha, e incentivou-a a que escrevesse um artigo para a Gazeta de Campinas. E foi assim que tudo teve início. Júlia foi uma escritora com uma vasta produção literária conseguindo, à época, viver dos rendimentos da sua profissão.

Era uma mulher muito à frente do seu tempo, era republicana, defendia a educação feminina, o divórcio e a abolição da escravatura.



... Os povos mais fortes, mais práticos, mais ativos, e mais felizes são aqueles onde a mulher não figura como mero objeto de ornamento; em que são guiadas para as vicissitudes da vida com uma profissão que as ampare num dia de luta, e uma boa dose de noções e conhecimentos sólidos que lhe aperfeiçoem as qualidades morais. Uma mãe instruída, disciplinada, bem conhecedora dos seus deveres, marcará, funda, indestrutivelmente, no espírito do seu filho, o sentimento da ordem, do estudo e do trabalho, de que tanto carecemos.

- Júlia Lopes de Almeida, em A Mensageira


Júlia Lopes de Almeida teve uma vida intelectual bastante activa, fez parte do grupo de intelectuais que criaram a Academia Brasileira de Letras, mas o seu nome não foi incluído. Era mulher - a ABL era um clube do Bolinha – e em vez dela foi considerado o nome do marido, Filinto de Almeida – Cadeira 3, sem produção literária de destaque.
Após a sua morte, em 1934, Júlia Lopes de Almeida foi caindo no esquecimento, mas o seu regresso aos escaparates das livrarias deveu-se à leitura obrigatória para o vestibular da Unicamp.

Aos mais desatentos (onde me incluo) há em Lisboa um busto da escritora, ali no Jardim Gomes de Amorim.




O Funil do Diabo, de Júlia Lopes de Almeida, é, à primeira vista, um romance de mistério centrado no desaparecimento de dinheiro e na tentativa de descobrir o culpado. Mas rapidamente percebemos que o verdadeiro interesse não está tanto na resolução do enigma, mas antes na forma como este serve de pretexto para explorar tensões familiares, jogos de aparência e a fragilidade da verdade num determinado meio social.


A história acompanha Juliana, que, perante o desaparecimento de rolos de libras do cofre do marido, se vê envolvida numa investigação que a leva não só a desconfiar dos que a rodeiam, mas também de si própria.


(…) mas isto faz com que me martirize a ideia de eu ter recomeçado com os meus pesadelos de criança e, em atos de sonambulismo, de movimento espontâneo ou não, ter por minhas próprias mãos retirado esse dinheiro do cofre... para o esconder... não sei onde!


É interessante como a lucidez feminina pode ser facilmente posta em causa, pela própria, como forma de justificar certos acontecimentos para os quais ainda não há explicação.


Ao longo do romance, há um ambiente de suspeita constante, onde as relações familiares se revelam instáveis e permeáveis a intrigas. Uma família burguesa que vive profundamente das aparências e prefere ignorar as evidências a enfrentar aquilo que pode comprometer a sua imagem.


A figura do padrasto, ligada à hipnose, acrescenta uma nova dimensão à história e reforça a dúvida entre razão e loucura.


Apesar de ser um romance que retrata bastante bem a sociedade da época, faltou-lhe alguma força e a intriga poderia ser mais impactante.


Júlia Lopes de Almeida não teve a oportunidade de ver esta obra publicada. Morreu em 1934, vítima de malária, oito dias após o retorno de uma viagem a Moçambique. O Funil do Diabo foi publicado postumamente pelo Jornal do Commercio, como “uma novela inédita”, no final do mesmo ano — uma homenagem à autora.


A edição que li inclui ainda dois anexos particularmente tocantes: uma homenagem dos filhos, com textos de Afonso Lopes de Almeida (trecho do discurso de posse na Academia Carioca de Letras) e Margarida Lopes de Almeida (biografia de D. Júlia).


Estes textos, para além do seu valor afectivo, ajudam-nos a perceber quem era esta mulher, oferecendo um olhar mais íntimo.


Uma leitura interessante, sobretudo pelo que revela nas entrelinhas, ainda que com alguns aspectos que poderiam ser mais desenvolvidos.

[Opinião] Era uma vez... - Júlia Lopes de Almeida

                                


  

Título: Era uma vez...

Série: -

Autor: Júlia Lopes de Almeida

Data de Leitura: 10/09/2025 ⮞ 11/09/2025

Classificação: ⭐⭐⭐⭐


Sinopse

Em Era uma vez…  Julia Lopes de Almeida, leva o leitor para o mundo da fantasia.

Uma bela princesa que perde a mãe ainda bebê é criada pelo pai com muito zero e excesso de mimos. Crescendo neste mundo onde todas as suas vontades são atendidas a princesa torna-se cruel e egoísta. Um dia passeando pelo reino houve três cegos falarem de seu comportamento abusivo. Revoltada, ela cria desafios impossíveis que eles deverão cumprir para salvar suas vidas.

Esta reedição do livro publicado em 1917 teve a ortografia atualizada e conta com notas explicativas, para termos e palavras fora de uso.


Minha review no GoodReads



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Júlia Lopes de Almeida nasceu em 1862, no Rio de Janeiro, filha dos emigrantes portugueses Adelina Pereira Lopes, musicista, e Valentim José da Silveira (Visconde de São Valentim), médico. A família pertencia à classe alta, o que proporcionou uma excelente educação à promissora escritora.

O pai de Júlia descobriu a vocação da filha, e incentivou-a a que escrevesse um artigo para a Gazeta de Campinas. E foi assim que tudo teve início. Júlia foi uma escritora com uma vasta produção literária conseguindo, à época, viver dos rendimentos da sua profissão.

Era uma mulher muito à frente do seu tempo, era republicana, defendia a educação feminina, o divórcio e a abolição da escravatura.



... Os povos mais fortes, mais práticos, mais ativos, e mais felizes são aqueles onde a mulher não figura como mero objeto de ornamento; em que são guiadas para as vicissitudes da vida com uma profissão que as ampare num dia de luta, e uma boa dose de noções e conhecimentos sólidos que lhe aperfeiçoem as qualidades morais. Uma mãe instruída, disciplinada, bem conhecedora dos seus deveres, marcará, funda, indestrutivelmente, no espírito do seu filho, o sentimento da ordem, do estudo e do trabalho, de que tanto carecemos.

- Júlia Lopes de Almeida, em A Mensageira


Júlia Lopes de Almeida teve uma vida intelectual bastante activa, fez parte do grupo de intelectuais que criaram a Academia Brasileira de Letras, mas o seu nome não foi incluído. Era mulher - a ABL era um clube do Bolinha – e em vez dela foi considerado o nome do marido, Filinto de Almeida – Cadeira 3, sem produção literária de destaque.

Após a sua morte, em 1934, Júlia Lopes de Almeida foi caindo no esquecimento, mas o seu regresso aos escaparates das livrarias deveu-se à leitura obrigatória para o vestibular da Unicamp.


Aos mais desatentos (onde me incluo) há em Lisboa um busto da escritora, ali no Jardim Gomes de Amorim.

O monumento, obra de Margarida Lopes de Almeida, composto de busto em bronze sobre pedestal de pedra, foi oferecido pelas mulheres brasileiras às mulheres portuguesas. O busto, executado em 1939, só viria a ser inaugurado, no Jardim Gomes de Amorim, localizado na Praceta da Av. António José de Almeida, em 28 de Março de 1953.



**********


Era uma vez... é um conto pouco conhecido, escrito pela brasileira Júlia Lopes de Almeida, uma autora que felizmente vem sendo redescoberta nos últimos anos.


O conto tem início como tantas fábulas — com a fórmula mágica do “era uma vez” —, mas o tom ingénuo esconde uma crítica subtil. A história apresenta-nos um rei, uma princesa e um reino que parecem saídos de um livro infantil, mas rapidamente percebemos que Júlia está a brincar com o género. A história mostra como a ambição, a vaidade e a injustiça se instalam até nos lugares onde supostamente deveria reinar a bondade.


A moral é clara: nem sempre os contos de fadas terminam em “felizes para sempre”, e a vida real exige vigilância, consciência e responsabilidade. Mais do que entreter, Júlia Lopes de Almeida quis despertar nos leitores a noção de que os modelos sociais e de poder, tal como nos contos, podem ser questionados e transformados.


Um texto curto, mas cheio de camadas, que confirma a força literária e a atualidade de uma autora que merece cada vez mais espaço nas minhas leituras.

[Opinião] Eles e Elas - Júlia Lopes de Almeida

       


 
          

Título: Eles e Elas

Série: -

Autor: Júlia Lopes de Almeida

Data de Leitura: 03/03/2025 ⮞ 22/03/2025

Classificação: ⭐⭐⭐⭐


Sinopse



Minha review no GoodReads



Júlia Lopes de Almeida nasceu em 1862, no Rio de Janeiro, filha dos emigrantes portugueses Adelina Pereira Lopes, musicista, e Valentim José da Silveira (Visconde de São Valentim), médico. A família pertencia à classe alta, o que proporcionou uma excelente educação à promissora escritora.

O pai de Júlia descobriu a vocação da filha, e incentivou-a a que escrevesse um artigo para a Gazeta de Campinas. E foi assim que tudo teve início. Júlia foi uma escritora com uma vasta produção literária conseguindo, à época, viver dos rendimentos da sua profissão.
Era uma mulher muito à frente do seu tempo, era republicana, defendia a educação feminina, o divórcio e a abolição da escravatura.


... Os povos mais fortes, mais práticos, mais ativos, e mais felizes são aqueles onde a mulher não figura como mero objeto de ornamento; em que são guiadas para as vicissitudes da vida com uma profissão que as ampare num dia de luta, e uma boa dose de noções e conhecimentos sólidos que lhe aperfeiçoem as qualidades morais. Uma mãe instruída, disciplinada, bem conhecedora dos seus deveres, marcará, funda, indestrutivelmente, no espírito do seu filho, o sentimento da ordem, do estudo e do trabalho, de que tanto carecemos.
- Júlia Lopes de Almeida, em A Mensageira

Júlia Lopes de Almeida teve uma vida intelectual bastante activa, fez parte do grupo de intelectuais que criaram a Academia Brasileira de Letras, mas o seu nome não foi incluído. Era mulher - a ABL era um clube do Bolinha – e em vez dela foi considerado o nome do marido, Filinto de Almeida – Cadeira 3, sem produção literária de destaque.
Após a sua morte, em 1934, Júlia Lopes de Almeida foi caindo no esquecimento, mas o seu regresso aos escaparates das livrarias deveu-se à leitura obrigatória para o vestibular da Unicamp.

Aos mais desatentos (onde me incluo) há em Lisboa um busto da escritora, ali no Jardim Gomes de Amorim.


O monumento, obra de Margarida Lopes de Almeida, composto de busto em bronze sobre pedestal de pedra, foi oferecido pelas mulheres brasileiras às mulheres portuguesas. O busto, executado em 1939, só viria a ser inaugurado, no Jardim Gomes de Amorim, localizado na Praceta da Av. António José de Almeida, em 28 de Março de 1953.


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O livro Eles e Elas é composto por 37 monólogos e diálogos alternados entre maridos e esposas, que trocam críticas mútuas num tom satírico e com algum humor à mistura. A história desenrola-se num ambiente burguês, afastado de questões como a pobreza ou dificuldades económicas, mas revela, ainda assim, uma verdadeira batalha entre os sexos, evidenciada pelas diferentes formas como homens e mulheres pensam e se expressam.


Cada Vez Que...

Cada vez que peço dinheiro a meu marido e que ele acompanha o gesto de o tirar da algibeira com estas palavrinhas: “Oh, já acabaste com todo o dinheiro que te dei ontem?!” sinto um calafrio subir-me dos calcanhares à nuca. (…) De humilhada que me sinto, parece-me então que me contentaria com o mais humilde cantinho da terra e que despida de todos os luxos, roendo ervas cruas como os cabritos, eu me sentiria mais gloriosa, por mais independente, do que nesta contingência de pedir, de precisar...


Ah! Os Senhores Feministas!

Ah! Os senhores feministas! Pudesse eu enforcá-los a todos com uma só corda.
São as suas teorias desordenadas, subversivas e a tragédia burlesca das suas justas reivindicações, que tem posto a sociedade neste estado. Pois quando é que se viu uma senhora casada e mãe de filhos, como é a minha, não estar em casa à hora em que o marido entra para o jantar! De mais a mais, nem deixou dito para onde ia.
Plena liberdade, hein? Os tempos aconselham estas independências, aproveitemo-las!... E o marido? O marido que ceda, que se sujeite, que sorria, que diga amém!

Os Serões Familiares

Dindinho esqueceu-se de que se deleitou na vida com a variedade de três lares diferentes, porque casou e enviuvou sucessivamente três vezes, além de vinte paixões avulsas, para atacar agora o divórcio como uma lei destruidora e fatal. E, o senhor meu marido esqueceu-se da felicidade que lhe dou, e que nenhuma outra mulher lhe daria tão perfeita, para defender esse mesmo divórcio, (…) Uma ideia! Para castigo do sofrimento que meu marido me infligiu ontem, quem vai logo à noite fazer a apologia do divórcio, sou eu! Sempre quero ver a cara que ele faz…

Há de ter muita graça

Há de ter muita graça que o senhor meu marido, sabendo perfeitamente que morro por ir ao teatro, tivesse tido a coragem de ir hoje a algum deles sem mim... Não duvido; só para me dizer depois, com aquele arzinho de desdém, quando eu manifestar o desejo de ver esta ou aquela peça: “Não vale a pena, minha filha; aquilo é uma bambochata, não imaginas!”
Amanhã, porém, quando eu lhe pedir que me acompanhe à casa de minha madrinha, para tomarmos chá com ela, adivinho que volverá para mim olhos suplicantes e dirá, com aquele tom de voz, que não sei onde vai buscar quando quer seduzir: “Tens coragem de trocar pela casa dos outros a doçura deste nosso serão a dois, na comodidade desta nossa salinha, onde hoje eu tencionava estudar um pouco, bem pertinho de ti?! Se tens muita necessidade de ir, vamos; sacrifico as minhas leituras, não quer dizer nada, mas…”


Já desanimei

Por que não o hei de enganar do mesmo modo? Em consciência, não há homens nem mulheres: há seres com iguais direitos naturais, mesmas fraquezas e iguais responsabilidades. Mas não há meio dos homens admitirem semelhantes verdades. Eles teceram a sociedade com malhas de dois tamanhos: grandes para eles, para que os seus pecados e faltas saiam e entrem sem deixar sinais; e extremamente miudinhas para nós.

As mulheres pensam

As mulheres pensam... Não! As mulheres não pensam, devaneiam apenas; e isso mesmo às vezes...Pois eu não vejo? Se querem agir por si, ao mínimo embaraço olham logo em redor, procurando socorro! Ainda não encontrei uma única que soubesse fazer um simples requerimento sem pedir conselho ao homem mais à mão... Que deliberasse negócios sérios com a suficiente clareza... Que se não deixasse arrastar mais pela fantasia do que pelo bom senso, nem se desprendesse, em momentos de resolução, de certas ninharias e contemplações sentimentais.


 

[Opinião] A Silveirinha: Crônica de um Verão - Júlia Lopes de Almeida

         


        

Título: A Silveirinha: Crônica de um Verão

Série: -

Autor: Júlia Lopes de Almeida

Data de Leitura: 09/08/2024 ⮞ 25/08/2024

Classificação: ⭐⭐⭐


Sinopse

Em A Silveirinha somos transportados para o cotidiano de um verão petropolitano no início do século XX e às interações entre diferentes famílias que lá passavam a temporada. Bailes, saraus e jantares tinham uma importância essencial na consolidação de relações de interesse econômico, assim como a valorização dos títulos sociais e dos casamentos arranjados. Laços de amizade e intrigas que se formam no decorrer da narrativa, além da atuação feminina, que ganha destaque em uma sociedade onde o poder político, econômico e social estava, em tese, nas mãos de homens. A autora aproveita ainda a oportunidade para levantar um questionamento intrigante para mulheres de sua época, afinal “... uma mulher casada não deve ter opiniões próprias, não é verdade?” As personagens femininas burguesas, a postura no enfrentamento do moralismo e da hipocrisia, e a importância da participação delas nos jogos de articulação e poder são os principais protagonistas desta obra.

Esta reedição do livro publicado em 1914 por Francisco Alves & Cia e Aillaud, Alves & Cia. teve a ortografia atualizada e conta com notas explicativas, para termos e palavras fora de uso.


Minha review no GoodReads



Júlia Lopes de Almeida nasceu em 1862, no Rio de Janeiro, filha dos emigrantes portugueses Adelina Pereira Lopes, musicista, e Valentim José da Silveira (Visconde de São Valentim), médico. A família pertencia à classe alta, o que proporcionou uma excelente educação à promissora escritora.

O pai de Júlia descobriu a vocação da filha, e incentivou-a a que escrevesse um artigo para a Gazeta de Campinas. E foi assim que tudo teve início. Júlia foi uma escritora com uma vasta produção literária conseguindo, à época, viver dos rendimentos da sua profissão.
Era uma mulher muito à frente do seu tempo, era republicana, defendia a educação feminina, o divórcio e a abolição da escravatura.


... Os povos mais fortes, mais práticos, mais ativos, e mais felizes são aqueles onde a mulher não figura como mero objeto de ornamento; em que são guiadas para as vicissitudes da vida com uma profissão que as ampare num dia de luta, e uma boa dose de noções e conhecimentos sólidos que lhe aperfeiçoem as qualidades morais. Uma mãe instruída, disciplinada, bem conhecedora dos seus deveres, marcará, funda, indestrutivelmente, no espírito do seu filho, o sentimento da ordem, do estudo e do trabalho, de que tanto carecemos.
- Júlia Lopes de Almeida, em A Mensageira

Júlia Lopes de Almeida teve uma vida intelectual bastante activa, fez parte do grupo de intelectuais que criaram a Academia Brasileira de Letras, mas o seu nome não foi incluído. Era mulher - a ABL era um clube do Bolinha – e em vez dela foi considerado o nome do marido, Filinto de Almeida – Cadeira 3, sem produção literária de destaque.
Após a sua morte, em 1934, Júlia Lopes de Almeida foi caindo no esquecimento, mas o seu regresso aos escaparates das livrarias deveu-se à leitura obrigatória para o vestibular da Unicamp.

Aos mais desatentos (onde me incluo) há em Lisboa um busto da escritora, ali no Jardim Gomes de Amorim.


O monumento, obra de Margarida Lopes de Almeida, composto de busto em bronze sobre pedestal de pedra, foi oferecido pelas mulheres brasileiras às mulheres portuguesas. O busto, executado em 1939, só viria a ser inaugurado, no Jardim Gomes de Amorim, localizado na Praceta da Av. António José de Almeida, em 28 de Março de 1953.


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Nesta crónica de verão, JLA leva-nos até à cidade imperial fundada por D. Pedro II — Petrópolis — e narra os encontros e desencontros de um grupo de burguesas abastadas a viver um verão em Petrópolis, distantes dos maridos, que só chegavam à cidade no comboio da noite.

(…) nenhuma cidade do mundo tem durante tantas horas uma sociedade quase exclusivamente feminina como Petrópolis, de dia, no verão. Que reparassem: os homens só chegavam à noite, para partirem de novo na manhã seguinte.

O romance é escrito num tom crítico, não só em relação ao clero e à alta sociedade, mas também às mulheres que se entregam ao ócio e à futilidade. A história centra-se na intenção de Guiomar, apelidada de Silveirinha, recém-casada, em converter o marido ateu ao catolicismo. Mas, como em todos os livros de JLA, a mensagem progressista vai-se revelando nas entrelinhas.

[Opinião] Correio da Roça - Júlia Lopes de Almeida

 


Título: Correio da Roça

Série: -

Autor: Júlia Lopes de Almeida

Data de Leitura: 02/01/2024 ⮞ 05/01/2024

Classificação: ⭐⭐⭐⭐⭐


Sinopse

Correio da Roça é um romance epistolar escrito por Julia Lopes de Almeida. Publicado inicialmente como folhetim, o romance virou livro em 1913 e foi muito bem recebido pelos leitores.

Na história quase singela, mas repleta de significados, Maria, viúva e mãe de quatro filhas mulheres, vê-se diante de uma situação financeira desfavorável após vender a maioria de seus bens para saldar as dividas deixadas pelo falecido marido. Restando-lhes como moradia somente uma fazenda e um pequeno sítio as cinco mulheres, educadas para a vida nas grandes cidades, não veem outra solução se não a mudança para o recanto bucólico que parece a elas, a primeira vista, ser o fim do mundo, até que começam a se corresponder com uma amiga da cidade que, em suas cartas, incentiva-as usar a educação que tiveram na cidade em benefício da vida no campo e passa a enviar sugestões para que busquem, em sua nova vida, estímulos para reerguerem a sua fortuna.

De forma primorosa e delicada a autora mostra ao leitor, a importância da valorização dos trabalhadores do campo, e a importância da educação, saúde e infraestrutura para o desenvolvimento.

Esta edição tem a ortografia atualizada e conta com notas explicativas, para termos e palavras fora de uso.


Minha review no GoodReads


Júlia Lopes de Almeida nasceu em 1862, no Rio de Janeiro, filha dos emigrantes portugueses Adelina Pereira Lopes, musicista, e Valentim José da Silveira (Visconde de São Valentim), médico. A família pertencia à classe alta, o que proporcionou uma excelente educação à promissora escritora.

O pai de Júlia descobriu a vocação da filha, e incentivou-a a que escrevesse um artigo para a Gazeta de Campinas. E foi assim que tudo teve início. Júlia foi uma escritora com uma vasta produção literária conseguindo, à época, viver dos rendimentos da sua profissão.
Era uma mulher muito à frente do seu tempo, era republicana, defendia a educação feminina, o divórcio e a abolição da escravatura.


... Os povos mais fortes, mais práticos, mais ativos, e mais felizes são aqueles onde a mulher não figura como mero objeto de ornamento; em que são guiadas para as vicissitudes da vida com uma profissão que as ampare num dia de luta, e uma boa dose de noções e conhecimentos sólidos que lhe aperfeiçoem as qualidades morais. Uma mãe instruída, disciplinada, bem conhecedora dos seus deveres, marcará, funda, indestrutivelmente, no espírito do seu filho, o sentimento da ordem, do estudo e do trabalho, de que tanto carecemos.
- Júlia Lopes de Almeida, em A Mensageira

Júlia Lopes de Almeida teve uma vida intelectual bastante activa, fez parte do grupo de intelectuais que criaram a Academia Brasileira de Letras, mas o seu nome não foi incluído. Era mulher - a ABL era um clube do Bolinha – e em vez dela foi considerado o nome do marido, Filinto de Almeida – Cadeira 3, sem produção literária de destaque.
Após a sua morte, em 1934, Júlia Lopes de Almeida foi caindo no esquecimento, mas o seu regresso aos escaparates das livrarias deveu-se à leitura obrigatória para o vestibular da Unicamp.

Aos mais desatentos (onde me incluo) há em Lisboa um busto da escritora, ali no Jardim Gomes de Amorim.


O monumento, obra de Margarida Lopes de Almeida, composto de busto em bronze sobre pedestal de pedra, foi oferecido pelas mulheres brasileiras às mulheres portuguesas. O busto, executado em 1939, só viria a ser inaugurado, no Jardim Gomes de Amorim, localizado na Praceta da Av. António José de Almeida, em 28 de Março de 1953.


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Correio da Roça é um romance epistolar composto por 58 cartas, entre postais e cartas propriamente ditas. Temos as cartas de Maria e Fernanda, as cartas das filhas de Maria, Joanninha, Cecília, Cordélia e Clara, e por último os escritos de Eduardo Jorge (afilhado de Maria) e Cesário.

É nas cartas entre Maria e Fernanda que temos o fio condutor desta história. Maria, uma viúva que, devido à morte do marido e às dívidas deixadas por ele, é obrigada a abandonar sua residência na Capital e mudar-se com as suas quatro filhas para uma antiga propriedade rural, a fazenda Remanso. Inicialmente, insatisfeitas com a vida no campo, elas sentem saudade da cidade.

Nas cartas que escreve a Fernanda, Maria relata as dificuldades.

Não calculas o horror desta solidão e destes povos dos arredores. Às terras do Remanso, que é, como te deves lembrar, o nome da fazenda, está agora adicionado o sítio da Tapera, herança de meu pai, que por sua vez também o tinha de há muito abandonado. Aqui vivemos sem humilhação, é verdade, mas com uma enorme tristeza e curtos haveres. Minhas filhas, coitadas, passam o dia bocejando e desaprendendo o que estudaram no colégio.
(…)
(…) valeria a pena, para chegar a esse resultado, ter eu gastado tanto dinheiro com a sua educação e ter sofrido uma separação tão longa durante todo o tempo em que estiveram de pensionistas no colégio? Para se plantar batatas e criarem-se aves domésticas não é absolutamente necessário aprender-se francês, inglês, piano e desenho…

Fernanda responde encorajando Maria a transformar a fazenda, com a ajuda das filhas, num lugar agradável e produtivo.

As batatas nacionais, sobretudo as que no nosso mercado têm a denominação de batatas rim, são incomparavelmente superiores a quaisquer das outras estrangeiras que importamos de França ou de Portugal, da Nova Zelândia ou do Chile.

Com vagar te relatarei mais tarde as minhas impressões; entretanto, do que vi posso desde já informar-te de que deverás manter em compartimentos separados as galinhas de raças diferentes; que é bom juntar à sua alimentação de milho, a aveia e o triguilho, assim como é útil, para a higiene do galinheiro, revolver de vez em quando a terra do chão, misturando-lhe cal.

Sob a influência dos conselhos, Maria e as filhas implementam mudanças significativas na fazenda Remanso e na propriedade contígua, a Tapera. Elas iniciam a criação de galinhas, cultivam jardins e pomares, melhoram a vida dos colonos, alfabetizam crianças e organizam um pequeno hospital.

No fim do romance, as fazendas tornam-se locais alegres, vivos, com terras produtivas e vegetação abundante.

Através desta história JLA volta a falar de temas importantes, como a educação, o progresso feminino, o trabalho justo, e o papel da mulher na sociedade.

Já tinha gostado de A Falência – 3 ⭐️ e de A Viúva Simões – 4 ⭐️, mas achei este superior.


[Opinião] A Viúva Simões - Júlia Lopes de Almeida

  


Título: A Viúva Simões

Série: -

Autor: Júlia Lopes de Almeida

Data de Leitura: 26/10/2023 ⮞ 27/10/2023

Classificação: ⭐⭐⭐⭐


Sinopse

«Cada um que seguisse o seu rumo; olhar para trás seria, além de ridículo, pueril e perigoso… Na estrada da vida todos os passos que damos deixam vestígios, mas desde que desejemos voltar atrás, já não lhes encontramos as pegadas. Tudo se esvai, todas as cenas se desligam, ficando aqui e ali, como névoas esgarçadas em penedias calvas, uma ou outra lembrança, uma ou outra saudade. A vida é assim. (…) De dia para dia as coisas mudam de aspecto e muda a observação dos olhos que as vêem.»


Minha review no GoodReads


Júlia Lopes de Almeida nasceu em 1862, no Rio de Janeiro, filha dos emigrantes portugueses Adelina Pereira Lopes, musicista, e Valentim José da Silveira (Visconde de São Valentim), médico. A família pertencia à classe alta, o que proporcionou uma excelente educação à promissora escritora.

O pai de Júlia descobriu a vocação da filha, e incentivou-a a que escrevesse um artigo para a Gazeta de Campinas. E foi assim que tudo teve início. Júlia foi uma escritora com uma vasta produção literária conseguindo, à época, viver dos rendimentos da sua profissão.

Era uma mulher muito à frente do seu tempo, era republicana, defendia a educação feminina, o divórcio e a abolição da escravatura.



... Os povos mais fortes, mais práticos, mais ativos, e mais felizes são aqueles onde a mulher não figura como mero objeto de ornamento; em que são guiadas para as vicissitudes da vida com uma profissão que as ampare num dia de luta, e uma boa dose de noções e conhecimentos sólidos que lhe aperfeiçoem as qualidades morais. Uma mãe instruída, disciplinada, bem conhecedora dos seus deveres, marcará, funda, indestrutivelmente, no espírito do seu filho, o sentimento da ordem, do estudo e do trabalho, de que tanto carecemos.

- Júlia Lopes de Almeida, em A Mensageira


Júlia Lopes de Almeida teve uma vida intelectual bastante activa, fez parte do grupo de intelectuais que criaram a Academia Brasileira de Letras, mas o seu nome não foi incluído. Era mulher - a ABL era um clube do Bolinha – e em vez dela foi considerado o nome do marido, Filinto de Almeida – Cadeira 3, sem produção literária de destaque.
Após a sua morte, em 1934, Júlia Lopes de Almeida foi caindo no esquecimento, mas o seu regresso aos escaparates das livrarias deveu-se à leitura obrigatória para o vestibular da Unicamp.

Aos mais desatentos (onde me incluo) há em Lisboa um busto da escritora, ali no Jardim Gomes de Amorim.




Após a leitura de A falência para o clube de leitura incunábulos, fiquei curiosa em ler mais de JLA. A autora deixou uma vasta obra, mas "A Viúva Simões," disponível no Projeto Adamastor, foi a minha escolha.


A história desenrola-se à volta de uma viúva que reencontra o antigo amor da juventude, Luciano, que regressa do estrangeiro com a intenção de levar uma vida libertina no Rio de Janeiro. A presença de Luciano muda drasticamente a vida da viúva, reacendendo sentimentos de juventude e fazendo-a acreditar que poderia casar novamente. No entanto, obstáculos surgem, como a oposição da sua filha Sara, que cumpre o período de luto, e a relutância de Luciano.


Apesar de Ernestina fazer concessões a Luciano, esse amor tumultua a sua vida, levando a sofrimento, intrigas e, quando Luciano se apaixona por outra mulher, a história de amor toma um rumo trágico com um final surpreendente.


[Opinião] Vozes Femininas: Antologia de Escritoras Lusófonas - Ricardo Lourenço

 



Título: Vozes Femininas: Antologia de Escritoras Lusófonas

Série: -

Autor: Ricardo Lourenço (organizador)

Data de Leitura: 10/11/2022 ⮞ 30/11/2022

Classificação: ⭐⭐⭐⭐


Sinopse

A maioria das escritoras lusófonas do séc. XIX e início do séc. XX são hoje completamente desconhecidas. Embora a obra de muitos escritores desse período também não tenha resistido à passagem do tempo, em grande medida devido à falta de mérito literário ou à incapacidade de dialogar com as gerações vindouras, é certo que as mulheres de letras enfrentaram mais dificuldades do que a sua contraparte masculina para fazerem ouvir a sua voz.

A parcialidade da crítica, reconhecida por algumas figuras de renome, como Camilo Castelo Branco («Publica-se tanta parvoiçada do meu sexo licenciada e gabada pela crítica!»), foi um dos factores que, associado a outros de carácter social, contribuíram para a desconsideração da literatura de autoria feminina. Para além disso, o suporte efémero em que essa literatura era disseminada — a imprensa periódica — limitou bastante o seu alcance.

O efeito da discriminação sofrida por estas mulheres reflecte-se ainda hoje na forma como a sua escrita é encarada (ou talvez ignorada seja o termo mais apropriado). Apesar de este cenário ter vindo a melhorar nas últimas décadas, em muitos casos, descobrir e aceder a obras destas escritoras continua a exigir um autêntico trabalho de arqueologia literária. Nesse sentido, «Vozes Femininas» trata-se de uma modesta tentativa de resgatar textos de qualidade que, de outra forma, dificilmente chegariam até ao leitor contemporâneo.


A antologia reúne os seguintes contos e novelas:

1. «A Trilogia de João Fernandes», de Guiomar Torresão

2. «Marta Sandomil», de Colette (pseud. de Cláudia de Campos)

3. «A Caolha», de Júlia Lopes de Almeida

4. «As Três Idades», de Cândida Fortes

5. «Tourada em Família», de Emília Eduarda

6. «Artigo de Sensação», de Caiel (pseud. de Alice Pestana)

7. «Diário duma Criança», de Ana de Castro Osório

8. «Os Cravos Brancos», de Maria O’Neill

9. «O Conspirador», de Lutgarda Guimarães de Caires

10. «Inocente», de Virgínia de Castro e Almeida

11. «O Regresso do Filho», de Florbela Espanca

12. «Lição Póstuma», de Carmen Dolores (pseud. de Emília Bandeira de Melo)

13. «Um Filho Mais», de Manuela Porto



Minha review no GoodReads

Esta antologia foi organizada pelo Ricardo Lourenço do Projecto Adamastor e segundo o próprio é Fruto de uma pesquisa que envolveu a leitura de mais de 500 contos e novelas de escritoras lusófonas, publicados no séc. XIX e início do séc. XX.

São 13 contos/novelas de autoras lusófonas de quem infelizmente pouco ou nada tinha ouvido falar. Foi uma leitura bastante prazerosa, claro que gostei mais de uns contos do que outros, mas no geral fiquei bastante agradada pela escrita destas Mulheres.

Mais iniciativas como esta são precisas de forma a recuperar textos que foram enterrados pela sociedade machista da época.



[Opinião] A falência - Júlia Lopes de Almeida

 


Título: A Falência

Série: -

Autor: Júlia Lopes de Almeida

Data de Leitura: 02/08/2023 ⮞ 08/01/2023

Classificação: ⭐⭐⭐


Sinopse

«Aquela conquista de fortuna, feita de relance, perturbava-o, desmerecia o brilho das suas riquezas, ajuntadas dia a dia na canseira do trabalho. A vida tem ironias: teria ele sido um tolo?

Talvez, e para se certificar reviu a sua vida no Rio, desde simples caixeiro, quase analfabeto, com a cabeça raspada, a jaqueta ruça e os sapatões barulhentos.

Tinha ainda fresco na memória o dia do desembarque — estava um calor! — e de como depois rolara aos pontapés, malvestido, mal alimentado, com saudades da broa negra, das sovas da mãe e das caçadas aos grilos pelas charnecas do seu lugar.

Pouco a pouco outros grilos cantaram aos seus ouvidos de ambicioso. O som do dinheiro é música; viera para o ganhar, atirou-se ao seu destino, tolerando todas as opressões, dobrando-se a todas as exigências brutais, numa resignação de cachorro.

Assim correram anos, dormindo em esteiras infectas, molhando de lágrimas o travesseiro sem fronha, até que o seu mealheiro se foi enchendo, enchendo avaramente.

Aquela infância de degredo era agora o seu triunfo. Vinha de longe a sua paixão pelo dinheiro; levado por ela, não conhecera outra na mocidade. Todo o seu tempo, toda a sua vida tinham sido consagrados ao negócio. O negócio era o seu sonho de noite, a sua esperança de dia, o ideal a que atirava a sua alma de adolescente e de moço.

Não podia explicar, como, só pelo atrito com pessoas mais cultivadas, ele fora perdendo, aos poucos, a grossa ignorância de que viera adornado. A letra desenvolveu-se, tornou-se firme, e a sua tendência para contas fez prodígios, aguçada com o sentido na verificação de lucros. Relendo cifras, escrevendo cartas, formulando projetos, e observando atentamente o seu trabalho e o alheio, tornara-se um negociante conhecedor do que tinha sob as mãos, e um homem limpo, a quem a sociedade recebia bem.

Não pudera ser menino, não soubera ser moço, dera-se todo à deusa da fortuna, sem perceber que lhe sacrificava a melhor parte da vida. Para ele, o Brasil era o balcão, era o armazém atulhado, onde o esforço de cada indivíduo tem o seu prêmio.

Fora do comércio não havia nada que lhe merecesse o desvio de um olhar… Tempos de amargura e de esperança, aqueles!»



Minha review no GoodReads

Júlia Lopes de Almeida nasceu em 1862, no Rio de Janeiro, filha dos emigrantes portugueses Adelina Pereira Lopes, musicista, e Valentim José da Silveira (Visconde de São Valentim), médico. A família pertencia à classe alta, o que proporcionou uma excelente educação à promissora escritora.

O pai de Júlia descobriu a vocação da filha, e incentivou-a a que escrevesse um artigo para a Gazeta de Campinas. E foi assim que tudo teve início. Júlia foi uma escritora com uma vasta produção literária conseguindo, à época, viver dos rendimentos da sua profissão.

Era uma mulher muito à frente do seu tempo, era republicana, defendia a educação feminina, o divórcio e a abolição da escravatura.






... Os povos mais fortes, mais práticos, mais ativos, e mais felizes são aqueles onde a mulher não figura como mero objeto de ornamento; em que são guiadas para as vicissitudes da vida com uma profissão que as ampare num dia de luta, e uma boa dose de noções e conhecimentos sólidos que lhe aperfeiçoem as qualidades morais. Uma mãe instruída, disciplinada, bem conhecedora dos seus deveres, marcará, funda, indestrutivelmente, no espírito do seu filho, o sentimento da ordem, do estudo e do trabalho, de que tanto carecemos.

- Júlia Lopes de Almeida, em A Mensageira


Júlia Lopes de Almeida teve uma vida intelectual bastante activa, fez parte do grupo de intelectuais que criaram a Academia Brasileira de Letras, mas o seu nome não foi incluído. Era mulher - a ABL era um clube do Bolinha – e em vez dela foi considerado o nome do marido, Filinto de Almeida – Cadeira 3, sem produção literária de destaque.

Após a sua morte, em 1934, Júlia Lopes de Almeida foi caindo no esquecimento, mas o seu regresso aos escaparates das livrarias deveu-se à leitura obrigatória para o vestibular da Unicamp.


Aos mais desatentos (onde me incluo) há em Lisboa um busto da escritora, ali no Jardim Gomes de Amorim.



O monumento, obra de Margarida Lopes de Almeida, composto de busto em bronze sobre pedestal de pedra, foi oferecido pelas mulheres brasileiras às mulheres portuguesas. O busto, executado em 1939, só viria a ser inaugurado, no Jardim Gomes de Amorim, localizado na Praceta da Av. António José de Almeida, em 28 de Março de 1953.


São várias falências


O livro conta a história de Francisco Teodoro, um português, proprietário de um armazém de café, que enriqueceu com o comércio do café, e a esposa Camila, uma mulher de origem pobre, que arranja o casamento como forma de sair da situação que vivia com a família.


Teodoro e Camila tiveram quatro filhos: Ruth, Lia, Raquel e Mário. Junto com a família vive Nina, uma sobrinha de Camila, que assume algumas tarefas na casa e, inevitávelmente, apaixona-se pelo primo Mário, um boémio que se aproveita da mordomia de ter uma família com posses. Noca, uma ex-escrava, é a empregada que faz tudo na casa da família.

Uma das visitas assíduas é o Dr. Gervásio, que Teodoro já considera “de casa”, sem perceber que além da amizade, o médico tem um caso com a mulher.

A falência da família acontece quando Teodoro é seduzido a investir na bolsa de valores, e devido à queda do valor do café, perde toda a sua fortuna. É a falência económica.

Mas há outras falências nesta história, a social, a familiar a ética e a moral. Uma história interessante que aborda muitos assuntos, alguns continuam na ordem do dia.




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