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[Opinião] Húmus - Raul Brandão

         


Título: Húmus

Série: -

Autor: Raul Brandão

Data de Leitura: 1990-1999

Classificação: ⭐⭐⭐

Data de Re-Leitura: 05/11/2022 ⮞ 15/12/2022

Re-Classificação: ⭐⭐⭐


Sinopse

Raul Germano Brandão (Foz do Douro, Porto, 12 de Março de 1867 — Lisboa, 5 de Dezembro de 1930), militar, jornalista e escritor português, famoso pelo realismo das suas descrições e pelo liricismo da linguagem.

Considerada a obra-prima de Raul Brandão, foi publicada em 1917. Trata-se de um romance-monólogo, centrado em dois monólogos interiores: um primeiro orador e o seu alter-ego, um filósofo lunático. Com a narração dominada por estes dois pontos de vista, as restantes personagens são remetidas para o plano do grotesco. A obra explora a contradição entre o mundo aparente e o autêntico, onde se descobrem monstruosidades não sonhadas.


Minha review no GoodReads

Apesar de possuir o formato de diário descontínuo, datado quase mês a mês, Húmus é, sobretudo, uma obra de ficção. Um romance que mistura uma prosa poética e experiências com a linguagem. Ambientado no modorrento cenário de uma vila, Húmus relata o quotidiano desse lugar e é dessa forma que nos leva a uma reflexão metafísica sobre os insolúveis enigmas que cercam a existência humana.


É um livro lento, pesado, profundo, depressivo, angustiante e sem esperança. Mesmo lendo pouco de cada vez voltou a deixar-me exausta.


E todos os dias acordamos mais velhos, todos os dias acordamos mais inúteis. Todos os dias acordamos com mais fel. E todos os dias com mesuras, sem gritos de terror, nos curvamos sobre esta mesa de jogo, não vendo, fingindo que não existe, o espanto que está ao nosso lado, e o espanto pior que trazemos connosco. Chama-se a isto o quotidiano. Isto não tem importância nenhuma. Com isto enchemos a vida até chegar a morte. Esta mesa de jogo é a nossa existência vulgar, a vida de todos os dias, com o galope da outra vida ao lado. Não se passa nada! Não se passa nada! No Verão o calor sufoca, de Inverno a mesma nuvem impregna o granito, e apega-se, amolece, dissolve pilares das janelas, casebres e a oliveira da praça, só tronco e duas folhinhas cinzentas. Em volta um círculo de montanhas, descarnadas e atentas, espera a tragédia — e as montanhas não desistem. De quando em quando, na solidão que à noite redobra, caem do alto da Sé as badaladas, uma a uma, pausa a pausa. O som tem um peso desconforme.


Estamos aqui todos à espera da morte! estamos aqui todos à espera da morte!

[A Vila]



Na realidade isto é como Pompeia um vasto sepulcro: aqui se enterram todos os nossos sonhos…

[A Vila]



(...) trabalho persistente do caruncho que rói há séculos na madeira e nas almas

[A Vila]


Debaixo destes tectos, entre cada quatro paredes, cada um procura reduzir a vida a uma insignificância.(.) edificar um muro feito de pequenas coisas diante da vida. Tapá-la, escondê-la, esquecê-la. O sino toca a finados, já ninguém ouve o som a finados. A morte reduz-se a uma cerimónia, em que a gente se veste de luto e deixa cartões de visita.

[A Vila]


- A alma - diz ele - ao contrário do que tu supões, a alma é exterior: envolve e impregna o corpo como um fluido envolve a matéria. Em certos homens a alma chega a ser visível, a atmosfera que os rodeia toma cor. Há seres cuja alma é uma contínua exalação.

[O Sonho]


E o que me resta nas mãos inermes, nas mãos para que olho com espanto e terror, nas mãos de velho, senão grotesco, farrapos de grotesco, restos de grotesco, com alguma tinta em cima?... Não; viver é que é bom, viver com o instinto, como os ladrões e os bichos, os malfeitores e as feras, sem pensar, sem sonhar, sem palavras nem leis, até cair a um canto, morto e feliz, de barriga para o ar. Isso sim! isso sim!...

[O Sonho]


O tabique caiu, e contemplo a vida. Mas entre mim e mim interpõe-se um muro. O drama não tem personagens nem gestos, nem regras, nem leis. Não tem acção. Passa-se no silêncio, despercebido, entre mim e mim. É um debate perpétuo.

[Atrás do Muro]


Não existindo tu, consciência, o que tu te intrometes na minha vida! E tanto faz analisar-te, discutir-te, negar-te, incomodas-me sempre. Estás morta - estás viva. Na cova hei-de chorar inultimente por te ter obedecido. Hei-de revolver-me com desespero, por teres conseguido amolgar-me e amesquinhar-me. Por mais que queira fazer-me de ti, tu impões-te-me. Quando te julgo aniquilada, aí começas a falar outra vez.

[Atrás do Muro]


É que a morte regula a vida. Está sempre ao nosso lado, exerce uma influência oculta em todas as nossas acções. Entranha-se de tal maneira na existência, que é metade do nosso ser. Incerteza, dúvida, remorso... Nunca se cerra de todo a porta do sepulcro, sentimos-lhe sempre o frio.

[A Vila e o Sonho]


Eu não sei quem sou e até o meu metal de voz estranho. Eu não sou quem falo. A meu lado, atrás de mim, vem um cortejo de fantasmas, uma cauda disforme que me conduz e empurra, e adiante de mim há uma projecção de vida até aos confins dos séculos.

[A Vila e o Sonho]


— Estou farta, senhor padre Ananias! Estou farta de o aturar a si, de aturar os outros, e de me aturar principalmente a mim mesma!

[A Vila e o Sonho]


Por trás do muro é que está a paixão, o crime, o desespero e a vida esplêndida e feroz

[O Sonho em Marcha]


A terra gorda e remexida, todo o planeta que não pode com o peso dos mortos, se revolve até às raízes. Poeira doirada misturou-se a este húmus que estremece é acorda para realizar outra vida a que nunca se atreveram, para pôr em prática o sonho dos vivos e dos mortos.

[Fevereiro]


O tempo era limitado, a paciência pegajosa, o gesto lento. Agora que a vida dura séculos ninguém espera um minuto.

[Outra Vila]


Acuso-te de teres comprometido a minha situação no universo. Acuso-te de não me deixares ser infame. Acuso-te de me dares o remorso. Acuso-te de impedires o instinto. Acuso-te de teres transformado a vida e criado a consciência. Acuso-te de me deixares sozinho com este peso em cima, com a ideia da vida e com a ideia da morte. Acuso-te de me levares para um calvário como o teu, para me tornares grotesco, e de me colocares em frente de ideias com que não posso arcar. Acuso-te de não poder mais, e de me instigares a mais ainda. De me obrigares a olhar cara a cara o assombro que não existe; a morte que não existe; a consciência que não existe. Subverteste o mundo. Forçaste-me a criar outro mundo, a olhar para cima e a clamar no vácuo. Acuso-te de não me deixares atascar à minha vontade em lodo, de não me deixares mentir, matar, chafurdar. Acuso-te de me impelires para cima, quando a minha vontade era ir para o fundo. Acuso-te de não me deixares ser bicho.

[Deus]


(…) de que nos servem estas palavras? É preciso criar outras, empregar outras, obscuras, terríveis, em carne viva, que traduzam a cólera, o instinto e o espanto.

[Céu e Inferno] 

[Opinião] Dentro da Noute: Contos Góticos


 

Título: Dentro da Noute: Contos Góticos

Série: -

Autor: Organizado por Ricardo Lourenço

Data de Leitura: 21/08/2018 ⮞ 17/09/2018

Classificação: ⭐⭐⭐⭐


Sinopse

«É uma história que faz arrepiar os cabelos.»


Assim principia Camilo Castelo Branco um dos seus romances, e, pese embora o sensacionalismo, da mesma forma poderíamos descrever os vinte e sete contos e novelas incluídos nesta antologia, onde se pretende apresentar uma amostra representativa da literatura gótica produzida por escritores portugueses e brasileiros, assim como dos principais temas que caracterizam o género.


Se esse objectivo foi atingido, apenas os leitores o poderão afirmar, mas estamos em crer que mesmo os de índole menos sensível não conseguirão deixar para trás estas histórias sem que uma leve inquietação os acompanhe.


Convidamos-vos pois a embarcar nesta viagem pelos recessos do medo. Terão coragem para desvendar os mistérios que se ocultam dentro da noute?…


Contos e Novelas Portugueses

1. O Defunto — Eça de Queirós

2. A Dama Pé-de-Cabra— Alexandre Herculano

3. A Caveira — Camilo Castelo Branco

4. A Torre Derrocada — Alberto Osório de Vasconcelos

5. O Mistério da Árvore — Raul Brandão

6. O Corvo — Fialho de Almeida

7. A Feiticeira — Ana de Castro Osório

8. A Morta — Florbela Espanca

9. Os Canibais — Álvaro do Carvalhal

10. Uma Récita do Roberto do Diabo — Júlio César Machado

11. O Cadáver — Beldemónio

12. Sede de Sangue — Manuel Teixeira Gomes

13. A Confissão de Lúcio — Mário de Sá-Carneiro


Contos e Novelas Brasileiros

1. Noite na Taverna — Álvares de Azevedo

2. A Dança dos Ossos — Bernardo Guimarães

3. Os Porcos — Júlia Lopes de Almeida

4. Acauã — Inglês de Sousa

5. Violação — Rodolfo Teófilo

6. Maibi — Alberto Rangel

7. Assombramento — Afonso Arinos

8. 11 e 20 — Medeiros e Albuquerque

9. Demônios — Aluísio Azevedo

10. O Defunto — Thomaz Lopes

11. A Causa Secreta — Machado de Assis

12. O Bebê de Tarlatana Rosa — João do Rio

13. Confirmação — Gonzaga Duque

14. Os Olhos que Comiam Carne — Humberto de Campos


Minha review no GoodReads

O Projecto Adamastor é uma iniciativa que se dedica à conversão de clássicos da língua portuguesa, que já estão em domínio público, para formato digital.
Ricardo Lourenço é o responsável pela compilação destes 27 contos e novelas, sendo 13 de autores portugueses e 14 de brasileiros, e que de outra forma não teria lido por desconhecimento de muitos dos autores aqui apresentados.
Obviamente que numa colectânea destas há sempre uns quantos contos que não nos enchem as medidas, mas a experiência foi muito positiva e no fim só não gostei mesmo do conto Os Canibais de Álvaro do Carvalhal.

Os meus favoritos foram:

🇵🇹
O Defunto – Eça de Queirós (já tinha lido anteriormente)
A Caveira — Camilo Castelo Branco
A Torre Derrocada — Alberto Osório de Vasconcelos
A Feiticeira — Ana de Castro Osório

🇧🇷
A Dança dos Ossos — Bernardo Guimarães
Os Porcos — Júlia Lopes de Almeida
Demônios — Aluísio Azevedo