Volvidas mais de duas décadas sobre a desagregação da URSS, que permitiu aos russos descobrir o mundo e ao mundo descobrir os russos, e após um breve período de enamoramento, o final feliz tão aguardado pela história mundial tem vindo a ser sucessivamente adiado. O mundo parece voltar ao tempo da Guerra Fria.
Enquanto no Ocidente ainda se recorda a era Gorbatchov com alguma simpatia, na Rússia há quem procure esquecer esse período e o designe por a Catástrofe Russa. E, desde então, emergiu uma nova geração de russos, que anseia pela grandiosidade de outrora, ao mesmo tempo que exalta Estaline como um grande homem.
Com uma acuidade e uma atenção únicas, Svetlana Aleksievitch reinventa neste magnífico requiem uma forma polifónica singular, dando voz a centenas de testemunhas, os humilhados e ofendidos, os desiludidos, o homem e a mulher pós-soviéticos, para assim manter viva a memória da tragédia da URSS e narrar a pequena história que está por trás de uma grande utopia.
Minha review no GoodReads
Svetlana Alexijevich – Prémio Nobel da Literatura, 2015
"pelos seus escritos polifónicos, um monumento ao sofrimento e à coragem em nosso tempo"
Svetlana dá voz aos entrevistados e apresenta-nos o “Homo Sovieticus” a espécie que floresceu nas sete décadas de comunismo e começou a ser extinta com a ascensão de Gorbachev.
Tal como em Vozes de Chernobyl esta obra é composta pelas histórias de pessoas comuns.
Título:Vozes de Chernobyl: História de Um Desastre Nuclear
Série:Voices of Utopia #4
Autor: Svetlana Alexievich
Data de Leitura: 10/08/2016 ⮞ 29/09/2016
Classificação: ⭐⭐⭐⭐⭐
Sinopse
A 26 de abril de 1986, Chernobyl foi palco do pior desastre nuclear de sempre. As autoridades soviéticas esconderam a gravidade dos factos da população e da comunidade internacional, e tentaram controlar os danos enviando milhares de homens mal equipados e impreparados para o vórtice radioativo em que se transformara a região. O acidente acabou por contaminar quase três quartos da Europa.
Numa prosa pungente e desarmante, Svetlana Alexievich dá voz a centenas de pessoas que viveram a tragédia: desde cidadãos comuns, bombeiros e médicos, que sentiram na pele as violentas consequências do desastre, até as forças do regime soviético que tentaram esconder o ocorrido. Os testemunhos, resultantes de mais de 500 entrevistas realizadas pela autora, são apresentados através de monólogos tecidos entre si com notável sensibilidade, apesar da disparidade e dos fortes contrastes que separam estas vozes.
Vozes de Chernobyl é uma das mais aclamadas obras de Svetlana Alexievich, e tida como o seu trabalho mais duro e impactante.
Minha review no GoodReads
Tchernobyl, a história de um crime.
Era adolescente quando aconteceu o desastre em Pripyat, na Central Nuclear Tchernóbyl. Lembro-me, como se fosse hoje, do choque quando ouvimos a notícia.
A partir daquela altura o famoso slogan dos activistas fez mais sentido que nunca. Acho que ainda hoje e depois de tantos anos continuo com a mesma ideia.
26 de Abril de 1986 – Um teste de rotina acaba no pior desastre nuclear da história. A explosão do reactor 4 foi o equivalente à explosão de 500 bombas atómicas iguais às de Hiroshima.
Apenas 2 dias depois do ocorrido, e após a nuvem radioactiva ter chegado à Suécia, é que a União Soviética admite o desastre.
A dita "energia segura", barata, estava nas notícias de todo o mundo, e pelas piores razões.
Em menos de 2 semanas a nuvem alastrou pela Europa e o mundo deparou-se com uma catástrofe com dimensões difíceis de avaliar. A verdadeira extensão das consequências na saúde dos europeus é, ainda hoje, uma incógnita.
Esta é talvez a uma das grandes tragédias do século XX , e foi varrida para debaixo do tapete.
Este livro partilha as histórias daqueles que viveram aquela aflição, que sofreram e sofrem as consequências de terem sido deixados ao abandono, e sem conhecimento do sucedido.
“Pela rádio, éramos advertidos da necessidade de evacuar a cidade dentro de três a cinco dias, que levássemos connosco agasalhos e roupas desportivas, que iríamos viver nos bosques. (...) Vamos comemorar o feriado do 1º de Maio (...).”
É um livro extremamente angustiante, perturbador, triste, que mexe connosco, que nos revolta, mas que ao mesmo tempo nos apresenta um olhar mais humano, não menos cruel, de toda aquela tragédia. Foi com um coração apertado, muito apertado, que li todos estes testemunhos.
Embora este livro tenha sido lançado em 1997, cerca de 10 anos após o desastre, nunca tinha ouvido falar de Svetlana Alexievich e acho que se não tivesse ganho o Nobel da Literatura em 2015 continuaria sem a conhecer.
E pensar que a central nuclear apenas foi desactivada a 12 de Dezembro de 2000.
Pripyat caiu no esquecimento durante muito tempo. Há coisas que não podem cair no esquecimento ou tendemos a cometer os mesmos erros outra vez.
A cidade de Pripyat 30 anos depois da tragédia:
Video Postcards from Pripyat, Chernobyl by Danny Cooke