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[Opinião] A malcriada - Beatrice Salvioni

                                     


 

Título: A malcriada

Série: -

Autor: Beatrice Salvioni

Data de Leitura: 17/01/2026 ⮞ 04/02/2026

Classificação: ⭐⭐⭐⭐


Sinopse

Depois de A Malnascida, A Malcriada.


Comparada a grandes escritores italianos — Ginzburg, Moravia, Ferrante —, Beatrice Salvioni confirma neste segundo romance, tão terno quanto furioso, que chegou para firmar o nome no pódio das letras italianas.

É noite cerrada, e uma rapariga corre descalça pela cidade deserta. Desesperada, raivosa, acaba de descobrir que foi traída por alguém que jamais julgara capaz de a enganar.

Estamos em Monza, Itália, em 1940. Há quatro anos que Francesca não tem notícias de Maddalena, que foi internada num hospício e não responde a nenhuma carta. Francesca desconfia de que a amiga lhe guarda grande ressentimento. Afinal, Maddalena nunca deixou de ser a rejeitada, a malnascida. Acontece que também Francesca pisou o risco e se passou para o lado dos malditos daquela sociedade conservadora e fugiu de casa para ir viver com Noè Tresoldi, provocando um escândalo na família. A mãe acusa-a de ser uma degenerada, uma filha amaldiçoada.

É a este cenário que Maddalena regressa enfim, ainda pequena e ainda mais magra, como se o tempo não tivesse passado por ela e pudesse fingir ser a adolescente corajosa de sempre. Mas os anos passados no hospício deixaram marcas, e agora a guerra está prestes a começar.


Minha review no GoodReads


Estamos em Monza, em 1940. Há quatro anos que Maddalena, a Malnascida, está internada no manicómio de Mombello, e Francesca não tem conseguido obter notícias dela. As suas cartas nunca chegaram ao destino, tudo por culpa do pai. Com apenas dezasseis anos, Francesca foge de casa, enfurecida e traída, e acaba por se refugiar em casa de Noè, enquanto começa a desenhar um plano para resolver o que ficou por fazer.


— Quero trazer a Maddalena para casa.

— Vamos encontrar uma maneira de fazer isso também.


Em A Malcriada, Beatrice Salvioni devolve-nos Francesca como protagonista absoluta, agora transformada na “maçã podre” que se recusa a caber nas convenções sociais. Se em A Malnascida a ferocidade pertencia a Maddalena, neste segundo romance ela manifesta-se através de Francesca, na sua raiva, na sua recusa do silêncio e na sua obstinação em não abandonar quem foi deixada para trás.


A experiência feminina continua a ser o eixo central do romance. Ser mulher é apresentado como uma condição sem saída, um corpo que não pertence a si próprio, uma existência permanentemente vigiada e corrigida


As palavras da minha mãe tinham-me feito perceber qual era o aspeto mais terrível de ser mulher: eu não pertencia a mim própria. Não havia saída para o facto de ser mulher.


Esta consciência atravessa todo o livro e intensifica-se à medida que a guerra se desenrola. A Itália fascista entra em conflito aberto, e as escolhas individuais tornam-se inseparáveis das escolhas políticas. Francesca e Noè, movidos por um forte sentido de justiça, começam por pequenos gestos de resistência que rapidamente deixam de ser apenas simbólicos.

Maddalena regressa profundamente marcada pela experiência no manicómio. Já não é apenas a rapariga indomável do primeiro livro, mas uma presença mais frágil e instável. A sua voz surge muitas vezes como um eco ou uma lembrança, reforçando uma das ideias centrais do romance. Sobreviver é um acto radical.


Isto é que é importante. Só isto. Mantermo-nos vivas. Para o inferno com o resto, para o inferno com os teus ideais e a tua justiça. Para o inferno com o sacrifício por um bem maior. Para o inferno!


A Malcriada tem um ritmo rápido e uma reconstrução histórica sólida. A Monza dos anos 40 surge bem descrita, e Salvioni mostra novamente a sua capacidade de criar ambientes e relações credíveis. Ainda assim, a narrativa é mais linear e previsível do que a do livro anterior, faltando-lhe por vezes o impacto e a ferocidade que tornaram A Malnascida tão marcante.

Mesmo assim, A Malcriada é um romance poderoso, sobretudo pela forma como insiste na amizade feminina como espaço de resistência, na recusa do esquecimento e na afirmação de identidades consideradas desviantes. 

É um livro sobre mulheres que não aceitam desaparecer, mesmo quando tudo à sua volta conspira para as silenciar.

[Opinião] A Malnascida - Beatrice Salvioni

 


 

Título: A Malnascida

Série: -

Autor: Beatrice Salvioni

Data de Leitura: 14/10/2023 ⮞ 22/10/2023

Classificação: ⭐⭐⭐⭐


Sinopse

Com ecos de autores como Natalia Ginzburg, Alberto Moravia ou Elena Ferrante, eis a estreia fulgurante de uma escritora cuja mestria literária se dedica, neste romance, à procura da origem do mal e dos obstáculos à liberdade individual. PRÉMIO SCUOLA HOLDEN Monza, Itália, 1936. Francesca, de 13 anos, está nas margens do rio Lambro, vergada sob o peso de um homem morto que tentou violá-la. Maddalena, amiga de Francesca, sai da água e ajuda-a a livrar-se do escondem-no no meio de arbustos. Este momento é um marco inolvidável na relação entre as duas raparigas, que começa um ano antes, quando Francesca se deixa fascinar por aquela a quem todos chamam «a Malnascida»: uma rebelde de origens humildes e com estranhos poderes. Contrariando a vontade da sua mãe, obcecada pelas convenções sociais burguesas, e ignorando os rumores que atribuem várias mortes à «Malnascida», Francesca junta-se ao seu bando de amigos «problemáticos», ávida por descobrir um modo de vida em absoluta liberdade. Entre as duas amigas, contudo, imiscui-se a guerra e o fascismo. Francesca e Maddalena terão de fazer uma difícil aliar-se contra a opressão social e a injustiça, ou deixar que o curso da História as separe para sempre. A Malnascida é o elogiado romance de estreia da italiana Beatrice Salvioni, distinguido com o prémio literário Scuola Holden, criado pelo premiado escritor Alessandro Baricco. Uma inesquecível história de amizade e crescimento, sob o pano de fundo da Itália fascista. «O indiscutível fenómeno literário do ano. […] Um livro magnético.»


Minha review no GoodReads


A Malnascida narra a história de duas meninas, Maddalena e Francesca, e das dificuldades que enfrentam numa Itália fascista, sexista e machista dominada por homens que impõem às mulheres o silêncio perante os abusos.


O mundo era feito de regras que não deviam ser violadas. Era feito de coisas de adultos, enormes e perigosas, de erros irremediáveis que te podiam matar ou mandar para a prisão. Era um lugar assustador, cheio de coisas proibidas, em que tinhas de andar devagar e em bicos de pés, com cuidado para não tocar em nada. Sobretudo se eras mulher.


A história desenrola-se em Monza, nas margens do rio Lambro, durante os anos 30, numa Itália fascista que promove o culto de símbolos, saudações romanas, uniformes, cartões do partido, jogos de poder e submissão, ao Duce


Tínhamos sido ensinados a amar o Duce desde a primeira classe, com as lengalengas, aprendidas de cor, que comparavam o seu nascimento ao do menino Jesus e contavam a história da sua vida quase como se fosse uma transfiguração.


aos desfiles com o uniforme de "Piccola italiana"


Também estava previsto um desfile das crianças: os balilla à frente e as piccole italiane atrás, em marcha na praça da catedral, levando a bandeira axadrezada branca e preta, que assinala o fim da competição, para que fosse abençoada pelo arcipreste.


à guerra com a Abissínia


— A Abissínia tem tantas riquezas, que poderia sustentar o País inteiro durante um século (…)


Francesca é uma adolescente de boas famílias que apoia o regime, vai à missa aos domingos e participa nas reuniões populares com uniforme. É educada num mundo de regras, deve manter-se afastada de companhias consideradas más e, sobretudo, de rapazes. Não deve esquecer que é uma mulher e seguir os estereótipos que a família e a época impõem às mulheres.


Maddalena é vista com desconfiança por todos, acredita-se que seja a causa de infortúnios por ter sido beijada pelo diabo. De origem pobre, marcada pelo luto e pelas difamações. Ela é a rejeitada, amaldiçoada, má e perigosa. Ela é a bruxa, o diabo. Ela é o perigo. Ela já sabe quem é. Acima de tudo, ela não tem medo.


Chamavam-lhe Malnascida e ninguém gostava dela.

Dizer o seu nome dava azar. Era uma bruxa, daquelas que te pespegam em cima o hálito da morte. Tinha o diabo dentro de si, e eu não devia falar com ela.


A amizade improvável destas duas raparigas é muito mais do que isso, é uma história de amizade profunda e visceral, de superação, de desejo pela liberdade, de amor e de coragem.


Resumindo, gostei da escrita, da história, das personagens e dos cenários. Se me lembrei da Amiga Genial durante a leitura, de Lila e de Lenù? É claro, mas fiz o possível para não me condicionar na leitura.