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[Opinião] A Estrutura da Bolha de Sabão - Lygia Fagundes Telles

                            


 
          

Título: A Estrutura da Bolha de Sabão

Série: -

Autor: Lygia Fagundes Telles

Data de Leitura: 06/06/2026 ⮞ 20/06/2026

Classificação: ⭐⭐⭐⭐


Sinopse

Esta reunião de oito contos escritos por Lygia Fagundes Telles em épocas e circunstâncias diversas atesta não apenas a excelência da prosa da autora mas também a sua condição de notável "pesquisadora de almas", conforme a definiu o crítico Nogueira Moutinho.

Os protagonistas destas histórias encontram-se, em geral, numa relação crítica com as pessoas e ambientes que os cercam - e também consigo próprios. Secretos podres familiares, desenganos amorosos, vocações frustradas, o desejo extraviado, nada é confortável nessas narrativas descontínuas, que alternam descrição objetiva, discurso indireto livre e fluxo de consciência, num autêntico tour de force literário. A vida, parece nos dizer a autora, é frágil, fugaz e misteriosa como uma bolha de sabão.


Minha review no GoodReads


N'A Estrutura da Bolha de Sabão, os contos que mais me marcaram foram:

A Testemunha,

O Espartilho,

A Fuga

Gosto da forma como a Lygia escreve, da maneira como constrói as personagens e cria certas atmosferas mais tensas e psicológicas. 

Sendo uma colectânea de contos, é normal que nem todos tenham o mesmo impacto, mas no conjunto a leitura foi positiva e valeu claramente a pena.

[Opinião] As Meninas - Lygia Fagundes Telles

                      



Título: As Meninas

Série: -

Autor: Lygia Fagundes Telles

Data de Leitura: 10/04/2025 ⮞ 15/05/2025

Classificação: ⭐⭐


Sinopse

Num pensionato de freiras paulistano, em 1973, três jovens universitárias começam sua vida adulta de maneiras bem diversas. A burguesa Lorena, filha de família quatrocentona, nutre veleidades artísticas e literárias. Namora um homem casado, mas permanece virgem. A drogada Ana Clara, linda como uma modelo, divide-se entre o noivo rico e o amante traficante. Lia, por fim, milita num grupo da esquerda armada e sofre pelo namorado preso.

As meninas colhe essas três criaturas em pleno movimento, num momento de impasse em suas vidas. Transitando com notável desenvoltura da primeira pessoa narrativa para a terceira, assumindo ora o ponto de vista de uma ora de outra das protagonistas, Lygia Fagundes Telles constrói um romance pulsante e polifônico, que capta como poucos o espírito daquela época conturbada e de vertiginosas transformações, sobretudo comportamentais.

Obra de grande coragem na época de seu lançamento (1973), por descrever uma sessão de tortura numa época em que o assunto era rigorosamente proibido, As meninas acabou por se tornar, ao longo do tempo, um dos livros mais aplaudidos pela crítica e também um dos mais populares entre os leitores da autora.



Minha review no GoodReads

Gosto muito da Lygia Fagundes Telles, mas como diz o ditado, “no melhor pano cai a nódoa”.

As Meninas é muitas vezes apontado como um dos grandes romances da literatura brasileira do século XX. Publicado em 1973, em plena ditadura militar, acompanha o dia-a-dia de três meninas que partilham um quarto num pensionato de freiras em São Paulo.

Vêm de mundos muito distintos e isso faz com que o romance se construa como um mosaico de vivências femininas marcadas por várias formas de opressão: a familiar, a social, a política e até a que cada uma impõe a si própria.

Lorena é uma estudante de Direito, a família pertence à alta burguesia paulistana, foi educada num ambiente conservador, vive dividida entre os valores tradicionais que interiorizou e um desejo de liberdade que não consegue realizar. É romântica e fantasiosa, marcada por uma relação doentia com a mãe e por um amor platónico por um médico casado com uma catrefada de filhos, que alimenta com cartas nunca enviadas.

Lia é uma militante política de esquerda, que se envolve em acções clandestinas contra o regime militar. O companheiro desapareceu e a família faz parte da classe operária. 

Ana Clara vem de uma família humilde e vive numa espiral de degradação marcada pela toxicodependência, pela prostituição e por distúrbios do foro emocional. É vítima da violência e da indiferença daqueles que a rodeiam. 

A narrativa alterna constantemente entre os pensamentos das três raparigas e, dessa forma fragmentada e com mudanças bruscas de ponto de vista, Lygia Fagundes Telles constrói um retrato complexo da juventude urbana brasileira nos anos 1970.

O uso do fluxo de consciência exige uma atenção constante e torna-se cansativo, especialmente quando as vozes das personagens se misturam de forma tão subtil. Aqueles saltos repentinos entre presente, memória e devaneio podem mesmo parecer labirínticos.

É um romance sobre intimidade feminina, resistência, alienação e a busca de sentido num tempo de censura, medo e silêncio, mas há algo na forma como está escrito que não me agradou e a mensagem perdeu-se.

[Opinião] A Disciplina do Amor - Lygia Fagundes Telles


 


Título: A Disciplina do Amor

Série: -

Autor: Lygia Fagundes Telles

Data de Leitura: 03/04/2022 ⮞ 21/04/2022

Classificação: ⭐⭐⭐⭐⭐


Sinopse

A obra traz textos (contos, reflexões curtas e notas cotidianas) fragmentários escritos à margem da vida, em que a realidade confina com as invenções da ficção e da memória afetiva.


Minha review no GoodReads


A Disciplina do Amor é uma espécie de diário, uma compilação de momentos de uma vida, alguns autobiográficos outros ficcionados.


Encontramos relatos de:


Viagens

Hotel Chein-Mein

Pe-King. Visitaremos amanhã a Cidade Proibida com seus gramados, quiosques e pavilhões de tetos arrebitados, os leitos de marfim e jade reservados às concubinas dos imperadores. Passaram os imperadores, passaram as concubinas, ficaram as escadarias de mármore e as colunas que contam histórias nos baixos-relevos. Em seguida, os visitantes irão a Shangai. Visitantes que voltam dizendo maravilhas ou dizendo horrores: ou são tomados do delírio bajulatório ou do ódio preconceituoso que já existia antes da viagem, na hora mesmo em que o convite era aceito. Serei justa na minha avaliação?


Memórias de infância

Hotel dos Viajantes

Volto à antiga cidadezinha da minha infância em busca dos meus fantasmas. Entro no velho Hotel dos Viajantes sem viajantes e sei que ninguém me conhece e eu não conheço mais ninguém. Depois da sopa de letrinhas, saio sem ser vista. Já é tarde e o Largo do Jardim está deserto na noite fria. Fecho o casaco e me sento num banco da praça. A igreja. O coreto. Olho as casas fazendo um círculo em redor do jardim e não sei mais qual delas teria sido a nossa casa: são parecidas na decadência e no escuro. Me levanto num susto: não era detrás daquela figueira que minha pajem Ana gostava de se esconder? Procuro o Beco das Cocadas. A casa da velha doceira desapareceu mas ficou o muro coberto de musgo.


Esboço para um romance

As Meninas

Sempre fomos o que os homens disseram que nós éramos. Agora somos nós que vamos dizer o que somos — declarou a personagem do meu romance As Meninas.


Memórias

Tenho um gato

Tudo passa sobre a Terra! estava escrito no romance que achei triste. Olhei para a outra Iracema que já fazia em silêncio a sua delicada toalete. Apanhei uma almofada e deixei-a assim próxima, Também você vai passar, Iracema?! perguntei em voz baixa. Não sabia ainda que ela permaneceria infinita na memória da minha finitude.


Provocações

A Garota da Boina

Mexendo em antigas pastas na tentativa de ordená-las, acabei encontrando o recorte de uma crônica publicada em 1944. É sobre um pequeno livro de contos que escrevi quando cursava a Faculdade de Direito. Diz o cronista: “Tem essa jovem páginas que apesar de escritas com pena adestrada, ficaria melhor se fossem da autoria de um barbado”.

Afetei certo desdém pela crônica mas fiquei felicíssima: escrever um texto que merecia vir da pena de um homem, era o máximo para a garota de boina de 1944. Eu trabalhava, estudava e escolhera dois ofícios nitidamente masculinos: uma feminista inconsciente mas feminista.


Feminismo

As frases Ideais

Enquanto não se superar a necessidade da empregada doméstica (como acontece nos países desenvolvidos) eu não acredito que possa haver um feminismo no Brasil.


Apontamentos

O Jardineiro

Só colhia as rosas ao anoitecer porque durante o sono elas não sentiam o aço frio da tesoura. Uma noite ele sonhou que cortava as hastes de manhã, em pleno sol, as rosas despertas e gritando e sangrando na altura do corte das cabeças decepadas. Quando ele acordou, viu que estava com as mãos sujas de sangue.


É um livro maravilhoso.



Progressão de leitura e citações


pág. 11 

E não obedeceria porque gato não obedece. Quando a ordem coincide com sua vontade, ele atende mas sem a humildade do cachorro, o gato não é humilde, ele traz viva a memória da liberdade sem coleira. Despreza o poder porque despreza a servidão. Nem servo de Deus. Nem servo do Diabo.


pág. 78 

Pequim é uma cidade reta, rígida um pouco como um quartel sem soldados (...) povo uniformizado, calça e túnica azul, boné. O corte rente do cabelo, esse corte é obrigatório por motivos de higiene, a população da antiga China estava perdida de piolhos. (...) muita bandagem em qualquer pequeno corte ou ferida, numa quase obsessão de desinfetar um povo que foi assolado por toda a sorte epidemias (...)


pág. 102 

Me lembro do tio dizendo à minha mãe que rompera o seu noivado porque ela era inteligente demais, culta demais, andava exausto com as elucubrações intelectuais, queria uma gueixa e não uma Minerva. (...)

Minha mãe riu, eu fiquei rindo junto mas um tanto preocupada, era uma adolescente com certos planos.


pág. 144 

Este é um jantar, foi em 43? Ou em 44? Não importa, Erico Veríssimo chega com uma capa de chuva, cachecol azul-marinho e chapéu desabado, faz tudo...

💜


[Opinião] Durante Aquele Estranho Chá - Lygia Fagundes Telles

 



Título: Durante Aquele Estranho Chá

Série: -

Autor: Lygia Fagundes Telles

Data de Leitura: 25/01/2022 ⮞ 30/01/2022

Classificação: ⭐⭐⭐⭐


Sinopse

Estes textos de origens, naturezas e épocas diversas, compõem um painel de memórias de Lygia Fagundes Telles, com destaque para seus encontros e diálogos com personalidades literárias que, de um modo ou de outro, marcaram a sua formação como escritora. A autora passa em revista as conversas com Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre, as visitas a Jorge Amado e Zélia Gattai, a amizade com Hilda Hilst, um diálogo com Jorge Luis Borges e uma entrevista concedida à amiga Clarice Lispector.


Minha review no GoodReads



Foi o que comecei por lhe dizer durante aquele nosso estranho chá na Confeitaria Vienense ao som de violinos e piano. O céu tão limpo e o terno de linho de Mário de Andrade era tão branco. Lá sei se estou sendo exata com os fatos, mas as emoções, essas sim, são as mesmas que passo a narrar em seguida. A ênfase com que respondia às suas perguntas, lisonjeada com tanta curiosidade. Comecei por dizer que a minha ousadia, tudo somado, se resumia nisso, assumir a minha vocação.

Ele estranhou, mas eu falei em ousadia? Tomei meu gole de chá: escrever não era considerado um ofício de homem? Ter entrado para uma escola masculina como a Faculdade de Direito, não era também desafiar um preconceito? Nos vestibulares, entraram cerca de duzentos rapazes e seis ou sete mocinhas... No curso, matérias tão fortes que o professor de Medicina Legal, antes de começar certas aulas, chegava a advertir que se as moças quisessem sair, podiam sair, nenhum problema.

Mário de Andrade achou muita graça, E vocês saíam mesmo?

Mário de Andrade


Almoçamos num restaurante do bairro, o sol delicado a se infiltrar por entre a folhagem das grandes árvores. Achei-a mais magra com seus claros olhos de cantos caídos, o apertado turbante de lã do mesmo tom do casaco de couro e as botas do mesmo tom esbraseado da folhagem. Pouca gente no bistrô modesto. O garçom tratou-a com respeitoso afeto, devia ser uma presença constante na casa. Abriu a grande bolsa e tirou de dentro o livro que me ofereceu, La Femme Rompue. Cortou com um gesto o agradecimento que ensaiei fazer e com aquela letra sem fronteiras, fez a dedicatória. Em seguida, olhou firme nos meus olhos e assim inesperadamente fez a pergunta, Você tem medo de envelhecer?

Baixei a cabeça e fiquei muda, pensando. Na realidade, começava a ensaiar a resposta naquele meu francês tropeçante, cheio de curvas e ela preferia a linha reta. Tocou de leve na minha mão, Então está com medo.

Espera um pouco, eu não disse isso, comecei por contestar mas tão fracamente que ela sorriu enquanto consultava o cardápio. Aconselhou-me o melhor prato da casa. E começou a falar pausadamente, que nada me escapasse enquanto ia acertando suas ideias: todo aquele que faz o elogio da velhice, esse não pode mesmo amar a vida, não pode amar a vida.

Simone de Beauvoir


Aproximei-me. Ele me reconheceu pela voz. Líria! disse e sorriu. Inclinei-me para apertar-lhe a mão que tremia. Sim, esperava pelo secretário, devia embarcar de volta no dia seguinte.

Eu sabia que não ia vê-lo mais e o tempo tão curto e aquela festa borbulhando em redor. Trocamos algumas palavras. E inesperadamente, fiz a pergunta, o que ele gostaria de dizer assim no feitio de uma despedida, ou melhor, de uma mensagem? Evitara a palavra mensagem e foi a única que me ocorreu.

Ele fixou em mim o olhar de névoa e a larga cara abriu-se numa expressão iluminada: O sonho! ele exclamou. Acreditar no sonho, entregar-se ao sonho porque só o sonho existe. No dia em que meu amigo escritor deixou de sonhar, matou--se.

Jorge Luis Borges


(…) fiquei lembrando da viagem que fizemos juntas para a Colômbia, um congresso de escritores, tudo meio confuso, em que ano foi isso? Ah, não interessa a data, estávamos tão contentes, isso é o que importa, contentes e livres na universidade da cálida Cali. Combinamos ir no mesmo avião que decolou sereno mas na metade da viagem começou a subir e a descer, meio desgovernado. Comecei a tremer, na realidade, odeio avião mas por que será que estou sempre metida em algum deles? Para disfarçar, abri um jornal, afetando indiferença, oh! a literatura, o teatro. Clarice estava na cadeira ao lado, aquela cadeira que comparo à cadeira de dentista, cômoda, higiênica e detestável. Então ela apertou o meu braço e riu. Fique tranquila porque a minha cartomante já avisou, não vou morrer em nenhum desastre! E o tranquila e o desastre com aqueles rrr a mais na pronúncia que eu achava bastante charmosa, desastrrre!

Desatei a rir do argumento. A carrrtomante, Clarice?... E nesse justo instante as nuvens se abriram numa debandada e o avião pairou sereníssimo acima de todas as coisas, Eh! Colômbia.

Clarice Lispector


Pensei então no Lobato que fui visitar quando estivera preso no velho e frio casarão da Avenida Tiradentes. Eu tinha acabado de entrar para a Faculdade de Direito quando de repente, num impulso de audácia, resolvi visitar o escritor dos meus verdes anos. Entrei no pátio da Escola para a primeira aula quando um colega veio me contar que ele fora preso por crime de opinião e achei que devia levar-lhe minha solidariedade. Quando o guarda do presídio pediu meus documentos eu entreguei-lhe minha carteirinha de estudante. Ele teve uma expressão divertida e encolheu os ombros, que eu entrasse mas antes teria que vistoriar a minha bolsa, nenhuma arma? Na saleta com algumas cadeiras e uma mesa tosca lá estava o escritor de terno, gravata e barba feita. E tão bem-disposto que cheguei a tropeçar nas palavras, afinal, viera trazer-lhe o meu consolo e era eu que devia ser consolada. Falei sobre os seus livros que ocupavam duas prateleiras da minha estante mas ele desviava o assunto, queria saber dos meus estudos, do meu trabalho. Eu mal disfarçava a minha surpresa por vê-lo assim tão desligado daquela prisão, daquele castigo. Sim, eu já sabia que era um homem que sempre fugira das honrarias, das homenagens, avesso a formalismos, preconceitos. Mas não esperava vê-lo assim como que fortalecido, crepitando como uma fogueira. E sem perder o humor, sem perder a ironia de quem, em meio do caos político reinante, não podia mesmo levar coisa alguma a sério. Perguntei-lhe pela saúde, já tinham me falado de sua constituição delicada.

— Que saúde?! perguntou e riu gostosamente. Tomou um ar secreto, confidencial: O importante é não entregar os pontos, fincar o pé.

Monteiro Lobato


[Opinião] Verão no Aquário - Lygia Fagundes Telles


              

Título: Verão no Aquário 

Série: -

Autor: Lygia Fagundes Telles

Data de Leitura: 11/05/2020 ⮞ 14/05/2020

Classificação: ⭐⭐⭐⭐


Sinopse

No verão mais quente e abafado de sua juventude, Raíza oscila entre a memória do pai, que entregara sua vida ao alcoolismo, e a figura um tanto alheia de sua mãe, Patrícia, escritora madura que se dedica à criação de mais um romance. O sentimento de rejeição e rivalidade que se apossa de Raíza aumenta diante da ligação misteriosa de Patrícia com o ex-seminarista André - um rapaz tão tímido quanto atraente. Serão amantes? Forma-se assim, na imaginação angustiada de Raíza, o triângulo amoroso que prenderá o leitor de Verão no aquário da primeira até a última página.

Nesse segundo romance de Lygia Fagundes Telles, a autora aprofunda os temas que tinha explorado em Ciranda de pedra. Mas avança ainda mais no domínio formal do seu ofício. Escrito no início da década de 1960, tempo de transformações profundas no Brasil e no mundo, o livro se afasta da narrativa convencional.

A autora adota o ponto de vista hesitante e aflito de Raíza: experiências, recordações e devaneios se entrecruzam, formando o mosaico desordenado de uma geração colhida pelo desmoronamento da família tradicional, sem que nenhum modelo bem definido viesse ocupar o lugar dela. Assim aquecidas, as paredes do aquário ameaçam se quebrar a qualquer momento.



Minha review no GoodReads

A conturbada passagem de Raíza da adolescência para a vida adulta.

— Vou pedir à titia que vista uma roupa de fada e me transforme num peixe. Deve ser boa a vida de peixe de aquário — murmurei.
— Deve ser fácil. Aí ficam eles dia e noite, sem se preocupar com nada, há sempre alguém para lhes dar de comer, trocar a água… Uma vida fácil, sem dúvida. Mas não boa. Não se esqueça de que eles vivem dentro de um palmo de água quando há um mar lá adiante.
— No mar seriam devorados por um peixe maior, mãezinha.
— Mas pelo menos lutariam. E nesse aquário não há luta, filha. Nesse aquário não há vida.
A alusão não podia ser mais evidente. Estou me despedindo do meu aquário, mamãe, estou me preparando para o mar, não percebe? Mas nem você percebe isso?

 

[Opinião] Ciranda de Pedra - Lygia Fagundes Telles

 



Título: Ciranda de Pedra

Série: -

Autor: Lygia Fagundes Telles

Data de Leitura: 23/05/2018 ⮞ 25/05/2018

Classificação: ⭐⭐⭐⭐⭐


Sinopse

Na magnífica casa de Natércio, que Virgínia visita semanalmente, há num recanto frondoso do jardim, uma fonte dentro de uma roda formada por cinco anões de pedra. Ela efabula que essas cinco figuras são as suas irmãs, Bruna e Otávia e os amigos Afonso, Letícia e Conrado. Porém, Virgínia sente o peso da rejeição junto dessa família idealizada. Por isso, ao descobrir quem é o seu verdadeiro pai, após a morte trágica de Laura e Daniel, pede a Natércio que a deixe estudar em regime de internato. Voltará quase adulta para finalmente descobrir o que se oculta por detrás do mito familiar que cristalizou na imagem da ciranda dos anões de pedra. Este é o romance de estreia de Lygia Fagundes Telles (1944), autora agraciada com o Prémio Camões/2005.



Minha review no GoodReads

“Li-o, emocionei-me com suas páginas (…) na literatura brasileira, nada há que se possa comparar com seu trabalho: trama de assunto, arquitetura de livro, singular poder de reunir o que parece disperso, de dispersar o que se pensaria, continuasse na sequência do tempo, emoção, grande emoção, mas contida, quase sóbria, tipos excelentemente criados, língua conveniente a cada um dos personagens, tudo espontâneo, fluido e límpido, sem atitudes preconcebidas, sem tiradas patéticas, uma delícia!! (…) há no livro uma grande ciranda de caracteres, de seres que se sucedem, que se contrastam entre si, muito humanos, dessa humanidade que eu diria desumanidade, nada porém de pedra, tudo de sangue e lágrimas, com os poucos parênteses de felicidade que Deus abre na sequência de sofrimentos que é a vida. Que tipos, porém! O de Virgínia, figura central do romance, é extraordinário.”
Prof. Silveira Bueno

 

imagem de sandra guinle

[Opinião] Antes do baile verde - Lygia Fagundes Telles

 



Título: Antes do baile verde

Série: -

Autor: Lygia Fagundes Telles

Data de Leitura: 20/05/2018 ⮞ 23/05/2018

Classificação: ⭐⭐⭐⭐⭐


Sinopse

Reunião de narrativas escritas entre 1949 e 1969, Antes do baile verde é considerado por muitos críticos o livro de contos literariamente mais bem-sucedido de Lygia Fagundes Telles.

As situações narradas são as mais diversas. Em "A caçada", um homem fica a tal ponto intrigado com uma velha tapeçaria encontrada num antiquário que acaba por mergulhar na cena retratada na peça, como se tivesse participado dela numa outra vida ou numa outra dimensão. Já no macabro "Venha ver o Pôr-do-Sol", um rapaz leva sua ex-namorada a um jazigo de família abandonado. Conflitos amorosos também são tema de "Apenas um Saxofone", "Um Chá bem Forte e Três Xícaras", "O Jardim Selvagem" e "As Pérolas". Mas o enfoque é sempre diverso e surpreendente. Em "O Menino", por exemplo, uma infidelidade conjugal é observada de modo oblíquo, pelos olhos de um garoto que vai ao cinema com a mãe.

Mas o escopo humano e literário de Lygia não se restringe aos dramas de casais. "Natal na Barca" é uma pequena parábola, com final epifânico. "Meia-noite em Ponto em Xangai" é o balanço que uma prima-dona da ópera faz de sua vida solitária e vazia. Em "O moço do Saxofone" um motorista de caminhão hesita em ir para a cama com uma mulher casada numa pensão de beira de estrada. Em "A Janela", um louco visita um bordel dizendo que é a casa onde seu filho morreu.

Com sua prosa segura e elegante, alternando com desenvoltura gêneros e vozes narrativas, a autora expõe aqui no mais alto grau sua capacidade de seduzir e emocionar o leitor.



Minha review no GoodReads

Lygia Fagundes Telles, São Paulo - 19 de Abril de 1923, é considerada a primeira dama da literatura brasileira e a grande representante do pós-modernismo. É membro da Academia Brasileira de Letras e da Academia de Ciências de Lisboa. Entre os muitos prémios que recebeu destaco as quatro vezes com o Prêmio Jabuti (1966, 1974, 1996 e 2001) e uma vez com o Prémio Camões(2005). Em 2016 foi a primeira mulher brasileira a ser indicada para o Prémio Nobel da Literatura.

Antes do Baile Verde é um livro de contos.
Inicialmente esta compilação era composta por 16 contos, posteriormente passou para 20 e agora, nesta edição da Companhia das Letras cuja versão é definitiva por desejo da autora, são 18 contos escritos entre 1944 e 1969.
É um livro incrível. A narrativa é intimista, a linguagem é rica, cheia de detalhes e subtilezas. Os contos são episódios do dia-a-dia, simples e sem grandes enredos mas cheios de alma e sentimento, mostram as nossas falhas, os nossos desassossegos, os nossos desejos, transitam entre o amor e o ódio, a vida e a morte, o ciúme e a insegurança.

No posfácio Antonio Dimas resume de forma soberba a escrita de Lygia.

“A grande dama não conta: ela murmura, fala baixinho. Aproxima-se do leitor como seus gatos, de que ela gosta tanto. Parece até que são apenas estórias em torno daquelas mesas de barzinhos refinados, em fim de tarde de verão. Não as mesinhas da calçada, propícias ao chope, à algazarra, à voz elevada. Mas aquelas protegidas pelo ar-condicionado e pela luz indireta, nem um pouco solar. Não se engane com essa sinuosidade felina, felpuda. Não vá na conversa, não relaxe. Fique esperto. Porque, quando você menos espera, as unhas retráteis aparecem e, logo depois delas, o risco na carne, o filetinho de sangue escorrendo. Nada muito profundo, mas o suficiente para incomodar, na hora e por tempo extenso, cravadas na memória. O suficiente para se lembrar de que, nas próximas vezes, você não deve se aproximar tão desguarnecido e confiante, porque o bote pode vir, quando menos se espera, não se sabe de onde. A cada aproximação, um aprendizado, independentemente do conto que você escolha. Fique esperto! Não confie no ron-ron de Lygia Fagundes Telles.”

Contos favoritos:
Verde Lagarto Amarelo
Apenas um Saxofone
Venha ver o Pôr do Sol
O Menino