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[Opinião] Quando os Lobos Uivam - Aquilino Ribeiro


  

Título: Quando os Lobos Uivam

Série: -

Autor: Aquilino Ribeiro

Data de Leitura: 02/11/2018 ⮞ 16/11/2018

Classificação: ⭐⭐⭐⭐⭐


Sinopse

Serra dos Milhafres, finais dos anos 40, o Estado Novo resolve impor aos beirões uma nove lei: Os terrenos baldios que sempre tinham sido utilizados para bem comunitário e onde essa comunidade retirava parte vital do seu sustento, seriam agora "expropriados" e esses terrenos utilizados para plantar pinheiros. Assim, sem mais nem menos, o Estado chega e diz que, a partir daquele momento, acabou. Implanta-se um clima de medo nas gentes e é esse clima que Manuel Louvadeus, que havia emigrado para o Brasil anos antes, vem encontrar quando regressa à aldeia. Homem vivido e culto devido, segundo o próprio, aos muitos livros que por lá havia lido, Manuel tem uma visão para os dois lados e um sentido de justiça que rapidamente o fazem cair nas boas graças das gentes do povo. Toma então parte da sua gente, homens honestos e humildes que trabalham de Sol a Sol mas que não deixam de viver em condições miseráveis. A revolta acaba por suceder e entre mortos e feridos tudo acaba numa caçada aos homens por parte da polícia que leva muitos homens à prisão acusados de serem instigadores e cérebros da revolta. O Estado mostra então todo o seu esplendoroso poder. Aqui representado está a saga dos beirões na defesa dos terrenos baldios perante a ditadura do Estado Novo.



Minha review no GoodReads

Aquilino Ribeiro, escritor, conspirador anti-monárquico, propagandista republicano e resistente democrata, é um dos grandes nomes da literatura portuguesa e repousa, desde 2007, com a dignidade merecida, no Panteão Nacional.
A sua vida foi bastante atribulada. Depois de vir viver para Lisboa foi preso em 1907, acusado de ataque bombista e anarquismo. Fugiu, e exilou-se em Paris. Após a proclamação da República voltou a Portugal mas, em 1928, volta a exilar-se. Foi casado duas vezes e teve um filho de cada relacionamento, Aníbal, o primogénito e para quem escreveu O Romance da Raposa, e Aquilino Ribeiro Machado que foi Presidente da Câmara Municipal de Lisboa entre 1977 e 1979.
Em 1960 foi proposto para o Prémio Nobel da Literatura.

Quando os Lobos uivam retrata a luta dos beirões em defesa dos terrenos baldios, durante a ditadura, nos finais dos anos 40 e início dos anos 50.

"A serra foi dos serranos desde que o mundo é mundo, herdade de pais para filhos. Quem vier para no-la tirar connosco se há-de haver."

 

A sua publicação em 1958 valeu-lhe um mandado de captura e a apreensão de todos os exemplares, já vendidos, pelo Estado Novo. Tornou-se um dos livros banidos pelo regime de Salazar.




TRANSCRIÇÃO do Relatório/Censura N.º 6282 (7 de Fevereiro) relativo a
"QUANDO OS LOBOS UIVAM" DE AQUILINO RIBEIRO,no blog Ephemera - Biblioteca e Arquivo de José Pacheco Pereira

«O autor intitula este livro de romance, mas com mais propriedade deveria chamar-lhe de romance panfletário, porque todo ele foi arquitectado para fazer um odioso ataque à actual situação política.
Escrito numa prosa viril, classifica o governo de "piratas" e descreve várias Autoridades, Funcionários, Polícia, Guarda Republicana e Tribunais em termos indignos e insultuosos.
Um interrogatório num posto da G.N.R. e uma audiência dum Tribunal Plenário, são focados de uma forma infamantes.
São desnecessárias mais citações, porque basta folhear o livro, encontra-se logo matéria censurável em profusão.
É evidente que, se o original tivesse sido submetido a censura prévia, não teria sido autorizado, porque é, talvez, a obra de maior ataque político que ultimamente tenho lido.
Sucede, porém, estou disso certo, que já devem ter sido vendidos muitas centenas de exemplares, e muitos outros também, já devem ter passado a fronteira, por isso, deixo ao esclarecido critério de V.Exa., decidir se nesta altura, será de boa política mandar apreender o livro, fazendo-lhe (...)».

Com base no Relatório, lê-se, foram tomadas as seguintes decisões:
«1) Não autorizada a reedição;
2) Não permitidas críticas em imprensa;
3) Apreender os poucos exemplares que, possivelmente, existam (...)».
Despacho assinado pelo censor.

Uma curiosidade é que enquanto, em terras lusas, o regime tentava amordaçar o escritor, no Brasil era publicado um livro chamado Quando os lobos julgam a justiça uiva – texto integral da acusação e defesa no processo de Aquilino Ribeiro.

António de Oliveira Salazar acabou por reconhecer a mestria de Aquilino:

"É um inimigo do Regime. Dir-lhe-á mal de mim; mas não importa: é um grande escritor."

Desengane-se quem acha que é um escritor fácil, porque não é. A escrita é magnífica, a riqueza do vocabulário exuberante, original e pitoresco - lembrou-me por vezes Camilo Castelo Branco – cheia de regionalismos e arcaísmos que dão força à narrativa. Para um bicho da cidade, como euzinha, alguns termos regionais são praticamente impossíveis de entender, por isso, tive que socorrer-me do Glossário sucinto para melhor compreensão de Aquilino Ribeiro, Elviro da Rocha Gomes.
Bendita internet, fazes milagres quando mais precisamos.

Talvez, hoje em dia, não se dê a devida importância a Aquilino mas sem dúvida que é um dos maiores prosadores da língua portuguesa.






 

[Opinião] Romance da raposa - Aquilino Ribeiro

  


Título: Romance da raposa

Série: 

Autor: Aquilino Ribeiro

Data de Leitura: 26/10/2018 ⮞ 26/10/2018

Classificação: ⭐⭐⭐⭐


Sinopse

O Romance da raposa (1924) é uma narrativa infantil de requintado virtuosismo estilístico, substituindo as ilustrações a preto e branco que foram utilizadas a partir dos anos 60 pelas originais a cores da autoria de Benjamim Rabier numa solução plástica que se adequa na perfeição à fábula. Esta edição de Romance da Raposa é, assim, um regresso à versão original de um livro que gerações e gerações de crianças leram.


Minha review no GoodReads

Aquilino Ribeiro dedicou este romance ao seu filho Aníbal.

“As aventuras maravilhosas da Salta-Pocinhas — raposeta pintalegreta, senhora de muita treta — contei-tas, sentado tu nos meus joelhos. Contando-tas, veio-me ideia de as escrever. Além de inspirador, colaboraste com teus silêncios, perguntas e interrupções na frágil meada. Que mais não fosse, só por este título o livrinho teria de levar o teu nome.”

O Romance da Raposa editado pela Bertrand, em 2012, e com as ilustrações de Benjamin Rabier é um bocado caro (+20€) e enquanto não encontro, num alfarrabista, uma cópia um pouco mais em conta, resolvi pesquisar um pouco e encontrei uma adaptação feita para audiobook pelos pelos Estúdios Raposa.

Como era um romance infantil resolvi ouvi-lo, e em boa hora o fiz.

Foi como se tivesse regressado à infância, àquelas tardes em que para dormir a sesta era preciso uma boa e longa história. Que delícia!

A linguagem, para uma criança, é desafiante. Um texto cheio de humor, com uma mistura de gíria intercalada com uma linguagem mais clássica, rimas, trocadilhos e onomatopeias.
É um daqueles textos que só ganha com a leitura em voz alta.
A ambiguidade moral da Salta-Pocinhas é perfeita. A raposeta é espertalhona, corajosa, hábil e cheia de manhas, mas simultaneamente e por uma questão de sobrevivência é trapaceira, ratoneira, velhaca e egoísta. Adorei a Salta-Pocinhas. 🧡🦊

É engraçado que Aquilino Ribeiro não cai em moralismos, não distorce a verdade e nem tenta dourar a pílula para proteger as crianças. A violência e a morte fazem parte da vida e a moral da história é que a inteligência supera a força bruta.
Uma fábula de encantar.