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[Opinião] Harry Potter e a Pedra Filosofal - J.K. Rowling

                 

2000-2010


2026


Título: Harry Potter e a Pedra Filosofal

Série: Harry Potter #1

Autor: John Steinbeck

Data de Leitura: 2000-2010

Classificação: ⭐⭐

Data de Re-Leitura: 09/01/2026 ⮞ 02/04/2026

Re-Classificação: 


Sinopse

Harry Potter é antes de mais o fenómeno editorial de 1999. É-o porque demove crianças de jogos de computador e de infindáveis horas frente ao televisor. É-o porque está traduzido em cerca de 30 idiomas. É-o porque tem angariado os mais importantes prémios de literatura infanto-juvenil. É-o, por fim e entre outras inúmeras razões, porque ocupa há meses consecutivos os primeiros lugares das mais importantes listas de vendas mundiais. Mas Harry Potter, o personagem dos livros de J. K. Rowling, não é um herói habitual. É apenas um miúdo magricela, míope e desajeitado com uma estranha cicatriz na testa. Estranha, de facto, porque afinal encerra misteriosos poderes que o distinguem do cinzento mundo dos muggles (os complicados humanos) e que irá fazer dele uma criança especialmente dotada para o universo da magia. Admitido na escola Howgarts onde se formam os mais famosos feiticeiros do mundo, Harry Potter irá viver todas as aventuras que a sua imaginação lhe irá propocionar. Um grande sucesso editorial que os mais jovens adoram e que apetece também aos adultos.


Minha review no GoodReads

Revisitei o mundo encantado de Hogwarts através do audiobook Harry Potter e a Pedra Filosofal (full cast edition) e foi uma experiência surpreendentemente envolvente. As várias vozes dão uma nova vida à história e tornam esta versão especialmente imersiva, mesmo para quem já conhece tão bem este universo criado por J. K. Rowling.

Ainda assim, Severus Snape será sempre, para mim, Alan Rickman.



[Opinião] Hamnet - Maggie O'Farrell

                               


        


Título: Hamnet

Série: -

Autor: Maggie O'Farrell

Data de Leitura: 15/03/2026 ⮞ 31/03/2026

Classificação: 


Sinopse

Hamnet é um romance sobre o filho de Shakespeare. Mas esse é apenas o ponto de partida para Maggie O’Farrell construir uma obra actual, que interroga a origem da dor e envereda por caminhos menos conhecidos do amor e da maternidade.

Numa narrativa que mistura realidade e ficção, a autora irlandesa cria uma das mais importantes obras literárias deste início do século XXI.


Minha review no GoodReads


4,5

Hamnet, de Maggie O'Farrell, é um romance que se impõe mais pela forma como nos faz sentir do que pelo que conta. Partindo de um episódio periférico da vida de William Shakespeare, a morte do seu filho, a autora constrói uma história íntima, onde o centro não está no dramaturgo, mas na figura de Agnes, uma mulher de contornos quase indomáveis, intuitiva, enraizada na natureza e naquilo que escapa à razão.


A escrita é, sem dúvida, o grande trunfo do romance. Há nela uma delicadeza envolvente, uma cadência que nos conduz por entre gestos mínimos, sensações subtis e emoções densas. Maggie O’Farrell cria uma atmosfera onde tudo respira, desde os silêncios da casa até aos ritmos do corpo e da terra.


O episódio da propagação da peste é conduzido através de um percurso inesperado e quase autónomo dentro da narrativa. Esse “conto” introduz uma mudança de ritmo decisiva, expandindo o espaço do romance e ligando a esfera íntima da família a uma tragédia de dimensão global. É também aí que se instala uma tensão e uma sensação de inevitabilidade que nos acompanham até ao desfecho.


Dois momentos destacam-se pela força emocional:

✨ A cena em que Hamnet, diante da doença da irmã, tenta ocupar o seu lugar. Do ponto de vista realista, pode parecer pouco verosímil, mas funciona como um poderoso gesto simbólico. Mais do que um acontecimento credível, trata-se de uma expressão extrema de amor e desespero, que intensifica o peso da perda e confere ao romance uma dimensão quase mítica.

e

✨ A cena em que Agnes amortalha o filho. Este momento não é apenas narrativo; é uma experiência intensa, carregada de dor e silêncio, onde cada gesto, cada dobra do pano, cada respiração transmite a profundidade do luto. Sentimos o peso do corpo de Hamnet. É um instante de grande intensidade, de vulnerabilidade e de emoção, que se impõe como um ponto alto da maternidade e da perda.

O seu filho era feito, é no que está a pensar, dele e dela. Fizeram-no juntos; sepultaram-no juntos. Nunca mais voltará. Uma parte dela gostaria de enovelar o tempo, guardá-lo num novelo, como um fio de lã. Gostaria de fazer a roda de fiar andar para trás, de desfazer o novelo da morte de Hamnet, da sua meninice, da sua infância, do seu nascimento, sempre para trás, até ao momento em que ela e o marido se uniram naquela cama para gerar os gémeos. Gostaria de desbobinar tudo isso até ser de novo lã crua, de encontrar o caminho de volta até àquele momento, e levantar-se-ia, voltaria o rosto para as estrelas, para o céu, para a Lua, e pedir-lhes-ia que alterassem aquilo que estava reservado para ele, rogar-lhes-ia que planeassem um desfecho diferente para ele, por favor, por favor. Tudo faria por isso, daria tudo, sujeitar-se-ia àquilo que os céus quisessem.


O ritmo, sobretudo na primeira metade, pode revelar-se por vezes lento, com longos momentos de contemplação que nem sempre nos agarram a atenção. No entanto, quando o romance encontra o seu equilíbrio, o impacto é inegável. Hamnet é, acima de tudo, uma meditação sobre o amor, a maternidade e o luto, conduzida com uma sensibilidade que evita o excesso e privilegia o silêncio, o gesto e a memória.


Achievement Tale Spinners

[Opinião] As Filhas do Falecido Coronel - Katherine Mansfield

                                    


  

Série: 

Autor: Katherine Mansfield

Data de Leitura: 29/03/2026 ⮞ 29/03/2026

Classificação: 


Sinopse

«Vamos ser fracas, está bem, Jug? Ser fraco é muito mais agradável do que ser forte.»

Que portas se fecham — e que janelas se abrem — nas vidas de duas irmãs em luto pela morte do velho pai, o coronel?


Minha review no GoodReads


O conto As Filhas do Falecido Coronel não assenta num enredo tradicional. Acompanhamos duas irmãs, Constantia e Josephine, após a morte do pai, um homem autoritário que dominou as suas vidas.

Após a morte do pai, seria de esperar que as irmãs conquistassem alguma liberdade, mas, em vez disso, revelam um bloqueio emocional e mostram-se incapazes de tomar decisões. O peso da figura paterna mantém-se mesmo após a sua morte, como se a sua autoridade tivesse sido completamente interiorizada.

O conto termina de forma ambígua, mas profundamente simbólica, revelando a incapacidade das irmãs de romper com a vida que sempre conheceram. Essa incapacidade torna-se evidente no diálogo final:


— Não achas que talvez… — começou.

Mas Josephine interrompeu.

— Estava a pensar se agora… — murmurou.

Pararam; esperaram uma pela outra.

— Continua, Con — disse Josephine.

— Não, não, Jug; tu primeiro — disse Constantia.

— Não, diz o que ias dizer. Tu é que começaste — insistiu Josephine.

— Eu… prefiro ouvir primeiro o que ias dizer — retorquiu Constantia.

— Não sejas tola, Con.

— A sério, Jug.

— Connie!

— Oh, Jug!

Uma pausa. Depois Constantia disse debilmente:

— Não posso dizer o que ia dizer, Jug, porque me esqueci do que era… do que ia dizer.

Josephine ficou em silêncio durante um momento. Contemplou uma grande nuvem, onde antes tinha estado o Sol. Depois respondeu laconicamente:

— Eu também me esqueci.

[Opinião] Um Corpo na Biblioteca - Agatha Christie

                                




Título: Um Corpo na Biblioteca

Série: Miss Marple #2

Autor: Agatha Christie

Data de Leitura: 26/03/2026 ⮞ 28/03/2026

Classificação: 


Sinopse

O coronel Bantry e a esposa, Dolly, vivem tranquilamente retirados em St. Mary Mead. Uma manhã, a criada, ofegante e histérica, interrompe o sossego quotidiano: «Oh, minha senhora, oh, minha senhora, está um corpo na biblioteca.» Mrs. Bantry pede à sua amiga Miss Jane Marple que investigue o caso e limpe o nome do seu marido.


Minha review no GoodReads


 



Se eu já tinha lido o livro? Já, algures na adolescência.

Se eu tenho o DVD desta adaptação? Tenho.

Se eu já tinha visto o episódio da série? Já, várias vezes.

Se eu me lembrava da história? Não, tirando o corpo da loira na biblioteca!

Se eu descobri o assassino? Não!


Dame Agatha Christie no seu melhor.


[Opinião] As Árvores - Percival Everett

                                  


   


Título: As Árvores

Série: -

Autor: Percival Everett

Data de Leitura: 15/03/2026 ⮞ 26/03/2026

Classificação: 


Sinopse

Uma série de homicídios macabros toma de assalto a cidade de Money, Mississípi. O xerife, os seus ajudantes, o médico-legista e demais habitantes daquela localidade orgulhosamente branca reagem com desconfiança quando uma dupla de detetives estaduais, negros, chega para ajudar na investigação. Em cada uma das cenas do crime, um mesmo elemento deixa-os a todos cada vez mais perplexos: um segundo corpo, de um homem incrivelmente semelhante a Emmett Till, rapaz negro linchado naquela cidade 65 anos antes. Quando os detetives se convencem de que se trata de uma vingança, são surpreendidos pelo facto de haver registo de mortes em moldes idênticos um pouco por todo o país. À medida que os corpos se amontoam, a investigação é conduzida até à casa de uma senhora centenária com um assombroso arquivo histórico. As Árvores é um romance audacioso, de sátira mordaz, que avança a ritmo veloz, sem desviar o olhar dos fantasmas que encontra pelo caminho. Livro do ano para publicações como The New York Times, NPR, The Chicago Tribune e TIME, recebeu, entre várias distinções, o Prémio Bollinger Everyman Wodehouse para escrita de comédia e foi finalista do Prémio Booker 2022.


Minha review no GoodReads


Percival Everett nasceu em 1956, na Geórgia, Estados Unidos, e é um dos nomes mais originais da literatura contemporânea americana. 

Com mais de trinta livros publicados, Everett escreve entre géneros — romance, sátira, western, ficção filosófica — e aborda frequentemente questões de identidade, linguagem, racismo e história americana. As Árvores foi finalista do Booker Prize, e exemplifica bem a sua capacidade de provocar, desconcertar e obriga-nos a pensar para lá do óbvio.


Antes de mais, um aviso: 

Este não é um livro para leitores sensíveis. Há violência explícita, linguagem dura, racismo, descrições gráficas de crimes, bem como humor negro e um sarcasmo que podem não agradar a todos.


O ponto de partida leva-nos até Money, Mississippi, que parece exatamente o que o nome sugere, num retrato inicial que mistura ironia e crítica: uma marca de constrangida ignorância que poderia muito bem ser assumida pois […] não vai desaparecer. E talvez esteja tudo aí, esse passado que insiste em ficar.


É neste cenário que começam a surgir homicídios estranhos. Homens brancos assassinados, sempre acompanhados pelo corpo de um homem negro que ninguém consegue identificar… e que insiste em reaparecer. Quando os casos começam a ligar-se, entram em cena dois detectives enviados para investigar.


Há aqui ecos claros da história real de Emmett Till a pairar sobre toda a narrativa. E é impossível ignorar o peso disto. Não é apenas um mistério, é um confronto directo com um passado de violência racial que nunca desapareceu verdadeiramente.


Mas o mais interessante é a forma como o autor constrói tudo isto. As Árvores começa como um policial, mas rapidamente se recusa a ficar por aí, mistura crime, sátira, horror e absurdo de uma forma que nunca nos deixa assentar. Quando achamos que estamos a ler um thriller, surge o humor; quando começamos a rir, volta a violência.


E esse humor é muitas vezes desconcertante. Surge em diálogos inesperados, quase absurdos 


— O relatório diz que você trouxe consigo o cadáver do negro para Hattiesburg.

— Parece que as pessoas em Money não conseguiam acompanhar o passo dele — disse Ed.

— Então, acha que alguém levou o corpo?

— Os mortos não andam — disse Jim.

— Exceto Jesus — disse Safer.


ou em piadas que escondem verdades incómodas, 


Contava-se como uma velha piada em Money, Mississípi, que quem quisesse descobrir quem pertencia ao Klan só precisava de ficar à espera na Lavandaria do Russell.


E, por vezes, o humor é tão seco que quase passa por choque directo:


— Eu fiz mal àquele pretinho. Como diz o bom livro: cá se fazem, cá se pagam.

— Que bom livro é esse? — perguntou Charlene. — O Armas e Munições?

— Não, a Bíblia, sua ateia.


Ao mesmo tempo, há frases que nos obrigam a parar 

 

A História é muito cabrona


directa, seca, impossível de ignorar. Ou ainda aquela ideia inquietante de que (…) A morte nunca é um desconhecido. É por isso que temos medo dela.

E depois há o que está por baixo de tudo isto, a memória. A necessidade de registar, de nomear, de não deixar desaparecer. Uma das passagens mais fortes do livro resume isso de forma quase dolorosa:

 

— Quando escrevo os nomes, eles tornam-se reais, não meras estatísticas. Quando escrevo os nomes, eles voltam a ser reais. É quase como se ganhassem mais uns segundos aqui. Percebe o que eu quero dizer? Eu nunca seria capaz de inventar estes nomes todos. Os nomes têm de ser reais. Têm de ser reais. Não têm? 

Mama Z encostou a mão à face de Damon.

— Porquê a lápis?

— Quando acabar, vou apagar todos estes nomes, libertá-los.

— Continua, meu filho — disse a velha senhora.


É talvez aqui que o livro se revela por completo.

O próprio título não é inocente: As Árvores remetem, por um lado, para o cenário dos linchamentos (testemunhas silenciosas de uma violência brutal) e, por outro, para as árvores genealógicas, onde essa mesma violência parece prolongar-se de geração em geração. Entre memória e herança, tudo está ligado.

À medida que a história avança, essa ideia torna-se ainda mais clara, e o que Everett faz é precisamente recusar esse esquecimento.


— Toda a gente fala de genocídios por esse mundo fora, mas quando o morticínio é lento e se estende ao longo de centenas de anos, ninguém dá por ela. Onde não há valas comuns, ninguém repara.


O que mais me impressionou foi esse equilíbrio improvável. Entre o grotesco e o cómico, entre o absurdo e o profundamente sério. Entre uma leitura que flui quase como entretenimento e uma reflexão que fica a moer muito depois de o livro acabar. Um livro que entretém, desconcerta e incomoda na mesma medida e que prova que, às vezes, rir também pode ser uma forma de enfrentar o que há de mais duro.


Achievement Star Selections


[Opinião] O menino negro - Camara Laye

                              


 
        


Título: O menino negro

Série: -

Autor: Camara Laye

Data de Leitura: 01/03/2026 ⮞ 26/03/2026

Classificação: 


Sinopse

Aos vinte e cinco anos, o "menino negro" descreve sua infância, adolescência e o começo da vida adulta na República da Guiné, na África. Os tempos que passava na oficina de seu pai, as brincadeiras, a experiência da circuncisão, as danças com a amada Marie e muitas outras vivências, todas relatadas com uma calma, serenidade e alegria singulares.


Minha review no GoodReads


O Menino Negro é uma autobiografia que narra a infância do autor, Camara Laye, na Guiné Francesa, na África Ocidental. O livro acompanha o seu crescimento numa aldeia, mostrando desde a sua vida familiar com o pai ferreiro e ourives, até as tradições e rituais locais, como a circuncisão, e a comparação entre a vida rural e urbana quando passa temporadas em Conacri e estuda numa escola técnica.

Com uma escrita clara e fluida o livro é muito fácil de ler, mesmo quando descreve costumes e cerimónias detalhadamente. Oferece uma visão rica da cultura africana e da dignidade das pessoas do campo, com episódios de amizade, primeiro amor e perdas marcantes.

A história nem sempre é envolvente, e em alguns momentos parece lenta e repetitiva, mas não deixa de ser um livro importante para conhecer a vida naquela parte de África.


Guiné

-

[Opinião] As Sete Irmãs: A Irmã da Tempestade - Lucinda Riley

                                  


    


Título: A Irmã da Tempestade

Série: The Seven Sisters #2

Autor: Lucinda Riley

Data de Leitura: 01/03/2026 ⮞ 18/03/2026

Classificação: 


Sinopse

Se procura uma série envolvente e viciante, na qual a trama familiar é o ponto de partida para momentos épicos em vários lugares e épocas, tem o livro perfeito nas mãos. Prepare-se para viver amores impossíveis, sonhos sem limites e surpresas impressionantes.

Velejadora imparável, Ally D’Aplièse prepara-se para entrar numa das mais difíceis competições do mundo quando recebe a notícia da morte do pai. De regresso a casa, reunida com as suas cinco irmãs, a descoberta de que Pa Salt, nome carinhoso pelo qual tratavam o pai, deixou às ­filhas adotivas pistas sobre as suas origens faz Ally sentir o choque de forma ainda mais intensa. Apesar de estar a viver uma grande paixão, a perda do pai e a pista que ele lhe deixou fazem-na partir em busca da sua verdadeira história.

E é na gelada e belíssima Noruega que Ally descobre que o seu passado está ligado ao de uma jovem e desconhecida cantora, Anna Landvik, que viveu naquele país há mais de cem anos, onde participou na estreia de uma famosíssima obra do grande compositor Edvard Grieg. Quanto mais sabe sobre a vida de Anna, mais dúvidas Ally tem sobre quem era realmente o seu pai adotivo. E subsiste a maior das dúvidas: que razão há para a sétima das irmãs estar desaparecida?


Minha review no GoodReads


O ponto de partida de As Sete Irmãs está na mitologia grega. As Plêiades, filhas de Atlas, eram sete irmãs que acabaram transformadas em estrelas. Lucinda Riley pega neste mito antigo e usa-o como pano de fundo para uma série onde o passado nunca está verdadeiramente encerrado e onde a procura pela origem se transforma numa forma de autoconhecimento.


Neste segundo volume conhecemos Ally, a segunda irmã, cuja história ecoa a figura de Alcíone. Segundo Ovídio, Alcíone era filha de Éolo, deus dos ventos, e casou com Ceix. Eram inseparáveis até ao momento em que ele parte por mar, contra todos os avisos. A tempestade chega, o navio não resiste e ele morre, deixando-a entregue à dor.


Olha: reconheces-me,

mas, em vez do marido, encontrarás o espectro do marido.

De nada me valeram, Alcíone, as tuas preces aos deuses:

estou morto. Não me prometas a ti, iludindo-te a ti própria.

No mar Egeu, o Austro carregado de nuvens surpreendeu

o navio e, sacudindo-o com colossais rajadas, destroçou-o.

As ondas encheram-me a boca a gritar em vão o teu nome.


É impossível não ver ecos desta tragédia na vida de Ally. A perda, o mar, a ideia de amor interrompido — tudo isso atravessa a narrativa e dá-lhe uma carga emocional mais forte do que no primeiro livro.


Confesso que gostei mais deste volume. Senti a história mais coesa, mais envolvente e até mais original. As personagens parecem-me melhor construídas, com mais densidade e menos sensação de servirem apenas de ponte para o passado.


E depois há toda a parte que me conquistou mesmo: a componente musical e histórica. Dei por mim a ir pesquisar Edvard Grieg, a imaginar Leipzig



a perder-me nas paisagens de Bergen



e a revisitar Peer Gynt, de Henrik Ibsen




Senti muito mais aquele prazer de leitura que se prolonga para fora do livro, quando vamos atrás das referências e queremos saber mais.


A história do passado continua a ter um grande peso, mas aqui não me incomodou tanto. Talvez porque está melhor integrada, talvez porque emocionalmente funciona melhor, ou talvez simplesmente porque me agarrou mais.


Ally também me parece uma protagonista mais forte do que Maia, mais activa, mais intensa, mais presente na sua própria história. E isso faz diferença.


No fim, este é um daqueles livros que se lê com gosto e que deixa vontade de continuar. Não é alta literatura, mas também não precisa de ser.


Amores, perdas, música e viagens pelo mundo e pelo passado, com tempestades suficientes para nos partir um bocadinho o coração… e deixar-nos, ainda assim, a querer mais.