Título: A Uma Hora Tão Tardia
Série: -
Autor: Claire Keegan
Data de Leitura: 03/10/2026 ⮞ 05/10/2026
Classificação: ⭐⭐⭐⭐⭐
Sinopse
Um tríptico de histórias sobre amor, desejo, traição, misoginia e as sempre intrigantes interações entre mulheres e homens.
Celebrada pelos seus contos, Claire Keegan oferece-nos três histórias que constituem uma exploração da dinâmica de género, numa trajetória entre os seus primeiros e últimos trabalhos.
Em «A Uma Hora tão Tardia», Cathal enfrenta um longo fim de semana, recordando a mulher com quem poderia ter passado a vida, se tivesse agido de forma diferente.
Em «A Morte Lenta e Dolorosa», a chegada de uma escritora à casa à beira-mar de Heinrich Böll é perturbada por um académico que impõe a sua presença e as suas opiniões.
E, em «Antártida», uma mulher casada viaja para fora da cidade para descobrir como é dormir com outro homem e acaba nas mãos de um estranho possessivo.
Cada história investiga as dinâmicas que corrompem o que poderia existir entre seres humanos: a falta de generosidade, o peso das expectativas e a iminente ameaça de violência; e todas prometem permanecer na memória do leitor muito depois de fechar o livro.
Minha review no GoodReads
Terminei A Uma Hora tão Tardia e foi daqueles livros que, sendo pequenino, deixa-nos com muitas coisas para pensar. São apenas três contos, mas não são três contos escolhidos ao acaso.
Os três giram, de maneiras muito diferentes, à volta das relações entre homens e mulheres e, sobretudo, da dificuldade que alguns homens têm em aceitar que as mulheres possam ter vontade própria.
Em A Uma Hora tão Tardia, Cathal está sozinho na casa onde deveria viver com Sabine, a mulher com quem ia casar. Enquanto vai recordando a relação, percebemos que aquilo que ele considera perfeitamente normal é, afinal, uma sucessão de pequenas coisas que foram tornando a vida dela insuportável. O interessante é que Cathal não se vê como o mau da fita. E é precisamente isso que torna o conto tão bom, ele vai-se denunciando sozinho.
«Sabes o que é que está no cerne da misoginia, no fundo?»
«Agora sou misógino?»
«É simplesmente nunca dar», disse ela. «Seja acreditando que não nos deviam dar o direito de voto ou não ajudando a lavar a loiça — está tudo acoplado à mesma carruagem.»
«Engatado», corrigiu Cathal.
«O quê?»
«Não é acoplado», disse ele. «É engatado.»
«Estás a ver?», disse ela. «Isto não é mais um exemplo do mesmo? Percebeste perfeitamente o que eu quis dizer, mas nem isso me podias conceder.»
A Morte Lenta e Dolorosa leva a questão para outro contexto. Uma escritora vai para uma residência literária na Irlanda para trabalhar e estar sozinha e aparece um homem que, pouco a pouco, começa a ocupar aquele espaço como se tivesse mais direito a ele do que ela. É outro tipo de homem e outra situação, mas volta a aparecer a mesma incapacidade de aceitar uma mulher que não está disponível para satisfazer as expectativas masculinas.
«Estas pessoas — mesmo alemães em conferências», disse ele. «Não nos compreendemos uns aos outros.»
«Não?»
«É tudo… jargão. Não queremos saber. Fazemos aquilo porque não conseguimos escrever, e no entanto aqui está você, supostamente uma escritora, nesta casa de Heinrich Böll, a fazer bolos.»
Ela respirou fundo. «O quê?»
«Vem aqui para a casa de Heinrich Böll para fazer bolos e ir nadar sem roupa!»
«O que é que está a dizer?»
«Eu venho aqui todos os anos, e é sempre a mesma coisa: gente a andar por aí de pijama durante o dia, e a ir de bicicleta até aos bares!»
Neste momento, ela ouviu-se a si mesma e percebeu que desatara a rir.
«Você não sabe nada sobre Heinrich Böll!», gritou ele. «Sabia que ele ganhou o Prémio Nobel da Literatura?»
E depois temos Antártida, que é o mais sombrio dos três. Uma mulher casada decide que quer experimentar dormir com outro homem. É uma decisão dela, tomada por curiosidade e desejo. Só que aquilo que para ela é uma experiência não é necessariamente entendido da mesma maneira pelo homem que encontra. E a história vai-se tornando cada vez mais inquietante até chegarmos a um ponto em que percebemos que desejo e posse podem ser coisas muito diferentes.
«A freira na escola dizia que ficaríamos lá por toda a eternidade», disse ela, enquanto arrancava a pele da truta. «E, quando perguntámos quanto tempo durava a eternidade, ela respondeu: “Pensem em toda a areia que há no mundo, em todas as praias, em todas as pedreiras de areia, nos fundos dos oceanos, nos desertos. Agora imaginem toda essa areia numa ampulheta gigantesca, pela qual só passasse um grão de areia por ano. A eternidade é o tempo que toda essa areia levaria a passar para a parte de baixo da ampulheta.” Só de pensar! Aquilo aterrorizou-nos. Éramos muito jovens.»
Os três contos acabam por falar da mesma coisa, embora em graus muito diferentes. O que acontece quando uma mulher diz não, quando quer estar sozinha, quando quer decidir por si própria ou simplesmente quando não corresponde ao papel que um homem espera que ela desempenhe.









