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[Opinião] As Leis Fundamentais da Estupidez Humana - Carlo M. Cipolla

                                 


        


Título: As Leis Fundamentais da Estupidez Humana

Série: -

Autor: Carlo M. Cipolla

Data de Leitura: 18/10/2026 ⮞ 19/10/2026

Classificação: ⭐⭐⭐⭐


Sinopse

Desde tempos imemoriais, uma poderosa força negra tem impedido o crescimento do bem-estar e da felicidade humana. É mais poderosa do que a Máfia ou a Milícia. Tem efeitos catastróficos globais e pode ser encontrada em qualquer lugar. Esta é a força imensamente poderosa da estupidez humana.


Carlo M. Cipolla, notável professor de história económica, criou um modelo de vital importância que nos permite detetar, conhecer e neutralizar esta ameaç As Leis Fundamentais da Estupidez Humana. Simultaneamente hilariante e mortalmente sério, este livro irá prepará-lo para realidades políticas desconcertantes, colegas irracionais ou a desgraça desenfreada de jantar com os sogros.


Minha review no GoodReads


«(…) os seres humanos encaixam em quatro categorias fundamentais: os desamparados, os inteligentes, os bandidos e os estúpidos.»


À medida que envelhecemos, vamos apurando o nosso "estupidiómetro", que é como quem diz o radar da estupidez. E tenho a dizer-vos que, minha nossa senhora, há muita gente estúpida! E, ao contrário do que acontecia quando Cipolla escreveu este pequeno manifesto, hoje em dia os estúpidos têm todo o espaço do mundo para fazer ouvir a sua voz. Pior, estão convencidos de que os outros têm todo o interesse em ouvi-los. É uma canseira, Cipolla, é uma canseira!


Este livrinho tem humor, mas também muita sabedoria. Por detrás da ironia, há uma reflexão bastante séria sobre o comportamento humano e sobre os estragos que a estupidez pode causar, sobretudo quando menosprezamos o seu poder destrutivo.


O melhor é mesmo lê-lo. É rapidinho e vale bem a pena!



Primeira Lei Fundamental


«Inevitavelmente, toda a gente subestima sempre o número de indivíduos estúpidos em circulação.»


Segunda Lei Fundamental


«A probabilidade de uma certa pessoa ser estúpida é independente de qualquer outra característica dessa pessoa.»


Terceira Lei Fundamental


«Uma pessoa estúpida é uma pessoa que causa perdas a outra pessoa ou grupo de pessoas enquanto ela própria não retira nenhum ganho da ação e pode até incorrer em perdas.»


Quarta Lei Fundamental


«As pessoas não-estúpidas subestimam sempre o poder destrutivo dos indivíduos estúpidos. Em particular, as pessoas não-estúpidas esquecem-se constantemente de que associarem-se com pessoas estúpidas, ou terem de lidar com elas, resulta infalivelmente num erro custoso, qualquer que seja o momento, o lugar ou sob quaisquer circunstâncias.»


Quinta Lei Fundamental


«Uma pessoa estúpida é o tipo mais perigoso de pessoa que existe.»


O corolário desta lei é que:


«Uma pessoa estúpida é mais perigosa que um bandido.»

[Opinião] Rumo a Casa - Yaa Gyasi

                                  


       

Título: Rumo a Casa

Série: -

Autor: Yaa Gyasi

Data de Leitura: 19/09/2026 ⮞ 18/10/2026

Classificação: ⭐⭐⭐


Sinopse

Effia e Esi, filhas do mesmo pai, nasceram em aldeias diferentes do Gana do século XVIII. Effia casa com um inglês e vive confortavelmente no Castelo da Costa do Cabo. Já Esi, sem que Effia saiba, vê-se aprisionada nas masmorras do mesmo castelo, vendida como escrava e enviada para a América. O Regresso retrata magistralmente o suceder de gerações a partir de Esi e Effia, no Gana e nos Estados Unidos da América.As duas descendências, com os seus episódios íntimos, belos e dramáticos, mostram-nos a história da escravatura e da cultura afro-americana nos continentes africano e americano até à atualidade, lado a lado num fio que se poderá unir. Esta estreia literária de Yaa Gyasi, nascida em 1989, arrebatou a crítica e os leitores, tornando a autora numa das vozes mais promissoras da literatura norte-americana.


Minha review no GoodReads


Gostei muito dos assuntos abordados, mas não tanto da forma como a história está estruturada. A primeira parte é excelente, mas depois a leitura começa a arrastar-se. Os capítulos curtos, dedicados a diferentes personagens e gerações, dificultam a criação de uma ligação com elas e tornam a narrativa confusa, com tantas histórias a sucederem-se sem tempo para nos envolvermos verdadeiramente com cada uma.


Gana


[Opinião] Os Retratos de Golden - Allen Levi

                                 


        


Título: Os Retratos de Golden

Série: -

Autor: Allen Levi

Data de Leitura: 09/10/2026 ⮞ 17/10/2026

Classificação: ⭐⭐⭐


Sinopse

Numa manhã, um estranho chega à pequena cidade de Golden. Ninguém sabe quem é nem de onde veio. O seu nome é Theo, é português e tem 86 anos. E talvez não tenha chegado ali por acaso.


Ao entrar no café da cidade, Theo fica fascinado pelos noventa e dois retratos a lápis pendurados nas paredes, desenhados por um artista local. Um a um, começa a comprá-los para os devolver aos seus «verdadeiros donos». A cada retrato entregue nasce uma nova história, uma amizade inesperada e uma vida transformada. E naquele pequeno lugar, a presença de Theo torna-se impossível de ignorar. Mas quem é realmente Theo? E o que o trouxe até Golden?


Comovente, luminoso e profundamente humano, um romance inesquecível sobre generosidade, relações humanas e a extraordinária capacidade que os pequenos gestos têm de mudar vidas. Porque uma única pessoa pode mudar a vida de muitos


Minha review no GoodReads


Já há alguns meses que via muita gente, americanos sobretudo, a indicar este livro. Não sou muito de seguir recomendações, menos ainda de gente que não conheço. Mas fui ler a sinopse e gostei muito da ideia dos retratos e de Theo os comprar para depois os devolver aos seus «donos». Uma ideia simples, mas com potencial para dar origem a histórias interessantes sobre as pessoas, as suas vidas e a forma como se relacionam com os outros.

E, neste aspecto, o livro não me desiludiu por completo. Gostei de algumas das histórias e da forma como os retratos acabam por funcionar como ponto de partida para conhecermos pessoas que, à primeira vista, pouco teriam para nos dizer. Gostei muito da história de Ellen, e também de Lamisha, Asher e Tony, cuja história mostra que as feridas da Guerra do Vietname continuam por sarar. Quanto a Willa, sempre acreditei que Theo …

Pelo caminho, Allen Levi vai deixando umas quantas farpas à sociedade norte-americana, umas mais discretas do que outras. A personagem de Pearce é um bom exemplo daquela mentalidade em que a primeira coisa que interessa saber sobre alguém é o que faz profissionalmente e quanto ganha por ano. É preciso perceber rapidamente se estamos perante um winner ou um loser, porque, pelos vistos, a profissão e o rendimento são excelentes indicadores do valor de uma pessoa. Ou então não!

A questão da imigração é outra farpa lançada ao longo do romance. O episódio do «homenzinho» da Guatemala, um imigrante sem autorização legal que atropelou uma criança, é particularmente significativo. Num país onde a discussão sobre imigração está tão carregada de preconceitos e hostilidade, percebe-se a intenção de nos levar a olhar para a pessoa para lá do rótulo de «ilegal». Ainda assim, acho que o autor poderia ter sido mais incisivo nesta questão.

E depois temos Theo, o português.

Confesso que a sua nacionalidade me deixou algumas dúvidas. Começando pelo nome, Theophilus Gomes Zilavez, que não é propriamente aquilo que me vem à cabeça quando penso num português da sua geração, e continuando pela escassez de elementos que o ligam ao país, fiquei com a sensação de que Portugal serve sobretudo como cenário para um passado nostálgico. Tirando Pinhão nas margens do Douro, a Quinta das Carvalhas, o fado e o vinho do Porto, pouco ou nada o identifica como português.

Até a conversa sobre o café me pareceu desajustada. Em Lisboa bebe-se bica.

Theo estava habituado ao café intenso da Europa — abatanado e pingado em Lisboa, café con leche em Madrid, espresso em Bolonha, café noisette em Marselha.

A certa altura, comecei a imaginar que Allen Levi teria um amigo que lhe falou durante anos das maravilhas de Portugal, do Douro, das vinhas e das tradições, e que o autor resolveu aproveitar essas conversas para construir a personagem. É apenas uma suposição, obviamente, mas o Portugal que encontramos no livro parece-me mais próximo de um postal ilustrado do que de um lugar verdadeiramente conhecido e vivido.

Não é preciso encher uma personagem de referências nacionais para a tornar portuguesa, mas, neste caso, a sua origem parece ter mais importância para a história do que expressão na própria personagem.

E depois há o hino nacional. Quando decidimos pôr um português a cantar A Portuguesa, nunca me lembraria de colocar esta parte:

Se um português, homem, mulher ou criança, tivesse passado por ali naquele momento, teria percebido que Theo estava a cantar o hino nacional. (…) A Portuguesa sozinho, em voz alta e com orgulho.
Theo não interrompeu o ritmo. Estava quase no fim do hino — «Saudai o sol que desponta / Sobre um ridente porvir» — (…)

Outra questão que me incomodou ao longo de todo o romance foi a religião. Percebo que, tendo em conta o momento que se vive nos Estados Unidos, haja uma tentação de recorrer a mensagens de bondade, compaixão e reconciliação. E compreendo a intenção de contrapor a generosidade de Theo a uma sociedade tantas vezes obcecada com o dinheiro, o estatuto e a exclusão dos outros. O problema é que senti que Allen Levi estava a evangelizar em demasia.

Não é preciso professar uma religião para ser uma boa pessoa, ter empatia pelos outros, ser solidário ou praticar o bem. A fé pode ser uma fonte de conforto e de orientação para quem acredita, mas não é proprietária da bondade nem constitui um requisito para a humanidade. Os valores humanistas não precisam de uma justificação religiosa para fazer sentido. E, quando um romance insiste demasiado nesta associação, corre o risco de transformar uma mensagem universal numa mensagem que nem todos os leitores estarão dispostos a subscrever.

Aliás, parece-me haver aqui uma contradição. O livro procura mostrar-nos que devemos olhar para as pessoas para lá das etiquetas que lhes colocamos, mas a insistência na religião pode acabar por privilegiar uma determinada forma de compreender o mundo. A intenção do autor poderá ser meritória, mas isso não significa que todas as suas opções me convençam.

Também não fiquei particularmente impressionada com a escrita. Ao contrário do que vi em algumas reviews, não achei a prosa assim tão eloquente. Por vezes, pareceu-me demasiado simples. Não precisava de uma escrita rebuscada, mas de uma linguagem capaz de dar maior profundidade aos temas e às personagens.
Fica a sensação de que havia aqui matéria para muito mais. Gostei da ideia dos retratos, de algumas das histórias e das farpas à sociedade norte-americana, mas a representação de Portugal, a insistência religiosa e uma escrita que nem sempre faz justiça aos temas acabaram por pesar na leitura.


Achievement Heart-Warmers


[Opinião] Murmúrios da terra - Anna Mariano

                             


 
          

Título: Murmúrios da Terra

Série: -

Autor: Anna Mariano

Data de Leitura: 05/10/2026 ⮞ 15/10/2026

Classificação: ⭐⭐⭐⭐


Sinopse

Uma saga familiar sobre coragem, pertencimento e os caminhos que moldaram o Brasil

Em uma narrativa que mistura ficção e realidade, histórias de amor, receitas de família e acontecimentos que marcaram o país, Murmúrios da terra acompanha quatro décadas da vida de homens e mulheres de diferentes origens e etnias que desafiaram o destino em busca de novas oportunidades.

No centro dessa jornada estão Cecília e Palmira, duas mulheres fortes e resilientes cujas trajetórias atravessam gerações. Enquanto enfrentam desafios, perdas, preconceitos e recomeços, seus caminhos se cruzam em um Brasil em plena transformação, marcado pelo avanço da fronteira agrícola e pelos movimentos migratórios que levaram milhares de famílias a deixar as colônias do Sul e se lançar às amplitudes então solitárias do Centro-Oeste e do Norte do país.

Com sensibilidade e apuro histórico, a premiada escritora Anna Mariano resgata um capítulo pouco explorado da história brasileira. Uma emocionante saga familiar sobre os murmúrios que atravessam gerações e nos lembram que a verdadeira herança de uma família não está no que ela acumula, mas nas histórias que escolhe preservar.


Minha review no GoodReads

Há muito que a migração dos gaúchos para outros estados brasileiros me despertava a curiosidade. Sempre ouvi dizer que foram eles que levaram as grandes plantações para o Paraná, Mato Grosso (ainda antes da divisão) e que chegaram até ao Pará. Conheço bem o Rio Grande do Sul e o Paraná, pelo que, quando soube que Anna Mariano tinha escrito um romance precisamente sobre este movimento migratório, achei que o devia ler.


Três milhões é o número estimado de gaúchos que abandonaram o Rio Grande para tentar a sorte fora.


O Brasil é gigante. Cada região tem as suas características, as suas gentes vindas de partes específicas do mundo, tradições, costumes e uma natureza tão díspar que quase parece estarmos a falar de países diferentes. Já tinha encontrado, noutras leituras, referências aos movimentos migratórios internos, mas a partir de outras realidades. Rachel de Queiroz e Graciliano Ramos deram-me a conhecer as deslocações de populações - os retirantes - do Sertão e do Nordeste em direcção às grandes cidades do Sul–Sudeste. Jorge Amado levou-me à época de ouro do café na Bahia, enquanto Monteiro Lobato retratou o declínio da cultura cafeeira nas cidades do Vale do Paraíba. Faltava-me conhecer melhor esta outra face da história brasileira, vista a partir do Rio Grande do Sul.


Em Murmúrios da Terra, acompanhamos a saga de famílias gaúchas e a sua deslocação para outras regiões do Brasil, num período de grandes transformações na agricultura. A 4.ª Colónia, as raízes familiares e culturais,


Em toda a Quarta Colônia não havia quem não conhecesse os Bortollo. Eram quinze irmãos, grandes, barulhentos, e todos — com exceção de Celestino, marido de Rosa, e Pedro, o mais moço — dependentes do pai.


a vontade de partir e a procura de melhores condições de vida fazem parte de uma narrativa que tem na expansão da soja um dos seus elementos centrais.


É uma planta orgulhosa, que não se preocupa com pessoas. É uma rainha que traz incrustadas em seu manto fábricas de óleo, de adubo, de máquinas, de rações, produção de suínos e de frangos. Traz também silos, hidrovias, portos, estradas, caminhões, comércio de beira de estrada, lojas, oficinas, borracharias. É uma rainha monstruosa com muitos braços, centenas de olhos ou, se preferires, uma água-viva gigante com milhares de filamentos, que pode te encantar com sua beleza, mas pode também te matar.


Aliás, o senhor percebeu que as pessoas estão começando a chamá-la de “a soja”, palavra feminina? Acho que está certo, igual às mulheres, essa planta tem uma capacidade enorme de adaptação. Já há algum tempo a chamo assim, usando o feminino, não só pela já citada adaptabilidade, mas pela atração que exerce sobre os homens e pelo pecado de ambição que faz nascer. Como toda mulher, pelo menos na visão de nós, homens, a soja é uma bênção e uma praga.


Este romance é, acima de tudo, uma celebração dos gaúchos que queriam evoluir, que não se conformaram com o que tinham e partiram em busca de novas oportunidades. A soja foi a forma que encontraram para concretizar os seus objectivos. É esta vontade de progredir, de arriscar e de construir um futuro diferente que me parece constituir a principal mensagem do livro.


Mas uma saga familiar vive, naturalmente, das suas personagens, e aqui há uma tríade feminina que merece destaque: Rosa, Cecília e Palmira. Três mulheres muito fortes, cada uma à sua maneira.


Rosa é a coragem, a resiliência e o amor maternal. É a mama italiana, aquela figura que acolhe, cuida e ama, que representa as raízes e a força da família. Há nela uma capacidade de resistência que não dispensa a ternura.


Cecília é impulsiva, corajosa, empreendedora e aventureira, uma mulher que não parece ter medo de partir à descoberta. No entanto, há uma contradição na sua maneira de viver o amor que não posso deixar de assinalar. Depois de enviuvar do primeiro marido, e já apaixonada por Francesco, casa com ele e muda-se para Porto Alegre. Para satisfazer o segundo marido, aceita que os filhos do primeiro casamento passem a viver noutra casa. Sabe também das traições de Francesco, mas nunca o confronta. É neste aspecto que a considero amorosamente submissa. Uma mulher com garra na vida, mas que, por amor, aceita abdicar de demasiado.


Palmira é outra força da natureza. Inteligente, observadora e lutadora, é uma personagem que se impõe pela capacidade de compreender o mundo à sua volta e de enfrentar as dificuldades. Sendo uma mulher negra, a sua presença tem um peso próprio na narrativa. A relação com Pedro é também uma parte importante da sua história.


Continuo negra, mulher e brasileira, tenho esses três “defeitos”, mas sinto orgulho do que conquistei.


E Pedro foi uma personagem de que gostei particularmente. Aventureiro, empreendedor e cheio de vontade de progredir, representa bem esse espírito de iniciativa que atravessa o romance. Gostei sobretudo da maneira como fala. Há expressões e uma forma de comunicar que me fizeram lembrar alguns amigos gaúchos, o que tornou a personagem ainda mais próxima de mim.


Vou te dizer pra ti o que me agonia: a quantidade de coisa que se tem ainda pra fazer neste país, uma vida só não vence, não sei no que vai dar tudo isso, mas a gente tenta…


Hoje, plantando grande, precisa ter lucro e, pra ter lucro, tem que aprender a lidar com máquina, semente, fertilizante, defensivo, silagem, pá-pá-pá, e isso e aquilo.


Gostava, porém, de ter tido mais Pierina. A história da filha mais velha de Cecília ficou aquém do que esperava, e teria gostado que a autora lhe tivesse dedicado mais espaço. É uma das minhas reservas numa leitura de que, no conjunto, gostei bastante.


Há um comportamento de eternidade nos caramujos. Eles carregam com paciência o início do mundo.

[DNF] Outono - Ali Smith

                                


 
        


Título: Outono

Série: Seasonal Quartet #1

Autor: Ali Smith

Data de Leitura: 30/09/2026 ⮞ 09/10/2026

Classificação: -


Sinopse

Daniel tem a idade de um século. Elisabeth, nascida em 1984, está de olho no futuro. O Reino Unido e a Europa estão despedaçados, divididos por um verão histórico. Ganha-se amor, perde-se amor. A esperança caminha de mãos dadas com o desespero. As estações sucedem-se, como sempre, assim como as Qual é o nosso valor? Quem somos? De que matéria somos feitos? Eis o lugar em que vivemos. Eis o tempo na sua forma mais contemporânea e naquilo que tem de mais cíclico. Eis uma história sobre o envelhecer e o tempo e o amor e as próprias histórias. Este é o primeiro livro do quarteto. Da imaginação única de Ali Smith nasce uma tetralogia feita a partir da ideia de transição, abrangente na sua escala temporal e marcada por um caminhar leve através das suas narrativas. Eis o Outono. «Um livro violentamente tocante na sua reflexão estranha, divertida e emotiva sobre o que significa estar vivo em tempos sombrios.» The New York Times «Inspirador e satírico, este romance é uma belíssima meditação, mostrando que Ali Smith está no ponto máximo das suas virtudes.» The National «Uma belíssima e pungente sinfonia de memórias, sonhos e realidades efémeras; a "interminável triste fragilidade" das vidas mortais.» The Guardian


Minha review no GoodReads


Não me apetece.

Não estou para aí virada.

Não estou a fim.

Não me dá vontade nenhuma.

Não tenho disposição para isto.

Não me puxa.

Não me diz nada.

Não me assiste.

Não estou com paciência.

Não me está a apetecer nadinha.

Não estou para me chatear.

Não me aquece nem me arrefece.

Não me sai da cabeça que não me apetece.

[Opinião] A Uma Hora Tão Tardia - Claire Keegan

                               


          


Título: A Uma Hora Tão Tardia

Série: -

Autor: Claire Keegan

Data de Leitura: 03/10/2026 ⮞ 05/10/2026

Classificação: ⭐⭐⭐⭐⭐


Sinopse

Um tríptico de histórias sobre amor, desejo, traição, misoginia e as sempre intrigantes interações entre mulheres e homens.

Celebrada pelos seus contos, Claire Keegan oferece-nos três histórias que constituem uma exploração da dinâmica de género, numa trajetória entre os seus primeiros e últimos trabalhos.

Em «A Uma Hora tão Tardia», Cathal enfrenta um longo fim de semana, recordando a mulher com quem poderia ter passado a vida, se tivesse agido de forma diferente.

Em «A Morte Lenta e Dolorosa», a chegada de uma escritora à casa à beira-mar de Heinrich Böll é perturbada por um académico que impõe a sua presença e as suas opiniões.

E, em «Antártida», uma mulher casada viaja para fora da cidade para descobrir como é dormir com outro homem e acaba nas mãos de um estranho possessivo.

Cada história investiga as dinâmicas que corrompem o que poderia existir entre seres humanos: a falta de generosidade, o peso das expectativas e a iminente ameaça de violência; e todas prometem permanecer na memória do leitor muito depois de fechar o livro.



Minha review no GoodReads


Terminei A Uma Hora tão Tardia e foi daqueles livros que, sendo pequenino, deixa-nos com muitas coisas para pensar. São apenas três contos, mas não são três contos escolhidos ao acaso.

Os três giram, de maneiras muito diferentes, à volta das relações entre homens e mulheres e, sobretudo, da dificuldade que alguns homens têm em aceitar que as mulheres possam ter vontade própria.


Em A Uma Hora tão Tardia, Cathal está sozinho na casa onde deveria viver com Sabine, a mulher com quem ia casar. Enquanto vai recordando a relação, percebemos que aquilo que ele considera perfeitamente normal é, afinal, uma sucessão de pequenas coisas que foram tornando a vida dela insuportável. O interessante é que Cathal não se vê como o mau da fita. E é precisamente isso que torna o conto tão bom, ele vai-se denunciando sozinho.


«Sabes o que é que está no cerne da misoginia, no fundo?»

«Agora sou misógino?»

«É simplesmente nunca dar», disse ela. «Seja acreditando que não nos deviam dar o direito de voto ou não ajudando a lavar a loiça — está tudo acoplado à mesma carruagem.»

«Engatado», corrigiu Cathal.

«O quê?»

«Não é acoplado», disse ele. «É engatado.»

«Estás a ver?», disse ela. «Isto não é mais um exemplo do mesmo? Percebeste perfeitamente o que eu quis dizer, mas nem isso me podias conceder.»


A Morte Lenta e Dolorosa leva a questão para outro contexto. Uma escritora vai para uma residência literária na Irlanda para trabalhar e estar sozinha e aparece um homem que, pouco a pouco, começa a ocupar aquele espaço como se tivesse mais direito a ele do que ela. É outro tipo de homem e outra situação, mas volta a aparecer a mesma incapacidade de aceitar uma mulher que não está disponível para satisfazer as expectativas masculinas.


«Estas pessoas — mesmo alemães em conferências», disse ele. «Não nos compreendemos uns aos outros.»

«Não?»

«É tudo… jargão. Não queremos saber. Fazemos aquilo porque não conseguimos escrever, e no entanto aqui está você, supostamente uma escritora, nesta casa de Heinrich Böll, a fazer bolos.»

Ela respirou fundo. «O quê?»

«Vem aqui para a casa de Heinrich Böll para fazer bolos e ir nadar sem roupa!»

«O que é que está a dizer?»

«Eu venho aqui todos os anos, e é sempre a mesma coisa: gente a andar por aí de pijama durante o dia, e a ir de bicicleta até aos bares!»

Neste momento, ela ouviu-se a si mesma e percebeu que desatara a rir.

«Você não sabe nada sobre Heinrich Böll!», gritou ele. «Sabia que ele ganhou o Prémio Nobel da Literatura?»


E depois temos Antártida, que é o mais sombrio dos três. Uma mulher casada decide que quer experimentar dormir com outro homem. É uma decisão dela, tomada por curiosidade e desejo. Só que aquilo que para ela é uma experiência não é necessariamente entendido da mesma maneira pelo homem que encontra. E a história vai-se tornando cada vez mais inquietante até chegarmos a um ponto em que percebemos que desejo e posse podem ser coisas muito diferentes.


«A freira na escola dizia que ficaríamos lá por toda a eternidade», disse ela, enquanto arrancava a pele da truta. «E, quando perguntámos quanto tempo durava a eternidade, ela respondeu: “Pensem em toda a areia que há no mundo, em todas as praias, em todas as pedreiras de areia, nos fundos dos oceanos, nos desertos. Agora imaginem toda essa areia numa ampulheta gigantesca, pela qual só passasse um grão de areia por ano. A eternidade é o tempo que toda essa areia levaria a passar para a parte de baixo da ampulheta.” Só de pensar! Aquilo aterrorizou-nos. Éramos muito jovens.»


Os três contos acabam por falar da mesma coisa, embora em graus muito diferentes. O que acontece quando uma mulher diz não, quando quer estar sozinha, quando quer decidir por si própria ou simplesmente quando não corresponde ao papel que um homem espera que ela desempenhe.

[Opinião] Tudo na Natureza apenas continua - Yiyun Li

                                  


      


Título: Tudo na Natureza apenas continua

Série: -

Autor: Yiyun Li

Data de Leitura: 03/10/2026 ⮞ 04/10/2026

Classificação: ⭐⭐⭐⭐⭐


Sinopse

Face ao suicídio dos seus filhos, Yiyun Li escreve um livro sem sentimentalismo ou redenção, literariamente brilhante.

Vincent morreu com 16 anos. James morreu com 19 anos. Num intervalo de sete anos, os dois filhos de Yiyun Li escolheram o suicídio, a meio caminho entre a escola e a casa de família. Tudo na natureza apenas continua é um testemunho delicado, revolucionário, que tem origem no abismo, o novo habitat de uma escritora que escolhe professar a aceitação radical destas mortes trágicas.

Indefetível na eterna condição de mãe, eternamente ligada aos seus filhos, Yiyun Li faz germinar neste livro uma gramática só sua: austera, íntima, capaz de descrever uma das mais extremas experiências humanas, no ponto exato em que a linguagem costuma falhar.

Num exercício literário inigualável, Yiyun Li fixa para sempre o lugar dos seus filhos no mundo, porque «não há agora e outrora, agora e mais tarde; só agora e agora e agora e agora», mas somente agora e agora e agora e agora», como um tempo que nunca termina, apesar da tragédia.


Minha review no GoodReads

 

A morte é uma realidade, a vida é outra. Estas duas realidades raramente são compatíveis. Às vezes, uma oblitera a outra, ou, pior, desterra a outra para o reino da irrealidade.


Não quero tentar interpretar a dor, procurar explicações ou fazer julgamentos. Não tenho lugar de fala para me pronunciar sobre uma experiência desta dimensão, que não me pertence e que, felizmente, não consigo sequer imaginar.


Mesmo fazendo tudo o que é humanamente possível e sensato por um filho, uma mãe não consegue obrigá-lo a viver — com este facto teria eu própria de viver, refleti, todos os dias, sem exceção, até ao fim da minha vida.


Mas há momentos em que, perante determinadas leituras, sentimos vontade de deixar uma palavra de carinho. E talvez assumir o cliché, porque há momentos em que as palavras mais simples são as únicas que nos ocorrem — e isso não as torna menos sinceras.

Por isso deixo uma palavra de força e esperança. Sei que provavelmente não chega para nada, mas desejo, sinceramente, que Yiyun Li encontre sempre alguma razão para continuar a acreditar que a vida, apesar de tudo, ainda pode trazer coisas boas. Talvez seja isso a esperança, não a certeza de que tudo vai ficar bem, mas a capacidade de continuar a deixar uma pequena fresta aberta para que alguma coisa boa possa, um dia, entrar.