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[Opinião] Nas palavras dela - Alba de Céspedes

                                 


      


Título: Nas Palavras Dela

Série: -

Autor: Alba de Céspedes

Data de Leitura: 19/07/2026 ⮞ 22/08/2026

Classificação: 


Sinopse

Alessandra sempre quis mais do que a vida lhe oferecia: construindo a sua vida interior à imagem da mãe - artista, livre, apaixonada -, confessa-nos o que pode e sonha uma mulher. Alba de Céspedes, autora de o caderno proibido, deslumbra-nos com um clássico da literatura do pós-guerra.

A infância de Alessandra, em Roma, é marcada pela lenda da mãe, Eleonora, mulher prodigiosa que sonhava ser uma pianista célebre, mas foi somente uma professora de piano infeliz por se ter casado com um homem sem interesse. Após a morte da mãe, Alessandra muda-se para uma casa de família longe da capital. Regressa a Roma quando deflagra a guerra. Conhece então Francesco, um antifascista com quem se casa, e descobre o frémito de colaborar na resistência clandestina. Sente-se, contudo, sempre invisível, e confessa: «Quem conhece estas páginas já sabe que ficar a uma janela sozinha e em silêncio é, desde a minha mais remota infância, uma das minhas condições de felicidade.»

Nas Palavras Dela escrutina impiedosamente o casamento, o mal-estar feminino, o jugo da domesticidade conservadora, o negrume da vida em guerra. Lembrando as vozes literárias de Morante, Ginzburg, Woolf ou Duras, encontramos aqui todo o esplendor da escrita refinada e do imaginário subversivo de Alba de Céspedes, uma das mais intrigantes escritoras do século XX.


Minha review no GoodReads


Publicado originalmente em 1949, Nas Palavras Dela, de Alba de Céspedes, é a história de Alessandra Corteggiani, uma mulher que nos conta a sua vida desde a infância, atravessando a relação com a mãe, a família, Roma, a guerra, o amor, o casamento e, sobretudo, aquilo que significa ser mulher numa sociedade em que a sua existência parece estar sempre dependente dos outros.


E talvez seja precisamente por acompanharmos Alessandra desde tão cedo que o livro se torna tão angustiante. Não estamos perante uma mulher que, de repente, se vê presa numa vida que não escolheu. Vamos percebendo, pouco a pouco, como essa vida foi construída.


A mãe, Eleonora, é uma das personagens que mais gostei. Há nela qualquer coisa de quase místico aos olhos de Alessandra, uma mulher que parece pertencer a um mundo diferente, feito de música, paixão e sofrimento. 

É também através dela que Alessandra começa a construir a sua ideia de amor e de felicidade.

Quando lhe pergunta:

 

— Mãe — perguntei-lhe, com desespero —, pode-se ser feliz alguma vez por amor?

— Oh, sim — disse ela —; creio que sim. Mas é preciso esperar. Por vezes — acrescentou, mais baixinho —, espera-se a vida inteira. 


é impossível não pensar na própria vida de Eleonora e naquilo que Alessandra procura desesperadamente encontrar no amor.


A minha mãe não compreendia; e, se a minha mãe não compreendia, nunca ninguém poderia compreender.


Esta frase diz muito sobre Alessandra. A mãe é a primeira pessoa através da qual tenta compreender o mundo e, quando sente que nem ela a consegue compreender, fica quase sem referência.


Depois aparece Francesco.


Conheci Francesco Minelli em Roma, no dia 20 de outubro de 1941.


E Roma é outra das coisas de que gostei particularmente no livro. Não é apenas o cenário onde a história acontece. É uma cidade atravessada pela guerra, pela política, pela cultura e pelas relações entre as personagens. Foi impossível não sentir que, de certa forma, também ia percorrendo Roma com Alessandra.


Quanto a Francesco, confesso que no início achei-o demasiado «perfeitinho». Culto, inteligente, antifascista, aparentemente diferente dos homens que a rodeiam. Mas, à medida que a relação avança, fui ficando cada vez mais incomodada.

Porque, no final, é só mais um homem a fazer coisas de homem.

E talvez seja precisamente isso que mais nos custa a aceitar. Podemos reconhecer num homem ideias progressistas, inteligência, coragem e princípios e, ao mesmo tempo, perceber que ele continua condicionado pelos mesmos papéis e expectativas que fazem parte da sociedade em que vive.

Alessandra também vai percebendo isso, embora nem sempre consiga agir de acordo com aquilo que pensa.

E é aqui que entra aquilo que, para mim, é a questão mais importante de Nas Palavras Dela: a condição da mulher.

Alba de Céspedes não fala apenas de mulheres oprimidas de uma forma abstracta. Mostra mulheres concretas, com desejos, ambições, inteligência e personalidades diferentes, que acabam muitas vezes a esperar pela mesma coisa: o casamento, o emprego, o enxoval, a felicidade, os filhos.

E depois encontram:

a cozinha, a casa, o inchar e desinchar do corpo para pôr filhos no mundo.

É uma frase quase cruel pela simplicidade.


Ao longo do livro, Alessandra observa as mulheres à sua volta e percebe aquilo que existe por trás da imagem que apresentam aos homens


Longe dos olhares masculinos, mostravam-se como realmente eram, sem necessidade de representarem uma incómoda farsa. 


Porque existe uma representação permanente. Uma mulher aprende desde cedo o que deve ser, o que deve querer, como deve comportar-se e até aquilo que deve considerar felicidade.


E há uma passagem que, escrita em 1949, me pareceu extraordinariamente actual


Não, dizia eu, abanando a cabeça, não era preciso fazer coisa alguma por nós; também nós, como os homens, pelo simples facto de termos nascido, devíamos ter direito ao respeito da nossa existência.


É exactamente isto!

Não se trata de pedir que façam alguma coisa pelas mulheres. Não se trata de protecção, condescendência ou privilégios. Trata-se do direito de existir. De ter uma vida própria. De poder escolher.

E talvez seja por isso que a mensagem feminista do livro tenha sido, para mim, mais importante do que a própria história de amor.


Até o casamento é desmontado com uma ironia que continua actual.


A mais enganadora virtude do casamento é a facilidade com que, de manhã, se esquece tudo o que aconteceu na noite anterior.


É uma frase que quase nos faz sorrir, mas que depressa se torna amarga. Porque uma das coisas mais perturbadoras do livro é precisamente a normalização. A capacidade de continuar. A discussão termina, chega a manhã, começa outro dia e aquilo que não devia ser aceitável passa a fazer parte da rotina.


Alessandra irritou-me algumas vezes. Noutras senti uma enorme empatia por ela. Compreendi algumas das suas escolhas, mesmo quando não concordava com elas. Mas também tive presente que estamos perante uma mulher de outra época, moldada por uma educação, uma sociedade e umas expectativas que hoje conseguimos questionar com muito mais facilidade.


É difícil saber até que ponto somos livres quando nunca nos ensinaram que podíamos escolher.


E talvez seja por isso que a leitura me foi prendendo cada vez mais.

No início queria ler depressa. Queria avançar, queria saber o que aconteceria. Mas, a partir da ida de Alessandra para os Abruzos, comecei a ler mais lentamente.

Não porque tivesse perdido o interesse.

Pelo contrário.

Queria ficar mais tempo naquela história. Degustá-la.


Já tinha lido O Caderno Proibido e gostado muito da escrita de Alba de Céspedes, mas aqui encontrei uma dimensão diferente. A mesma capacidade de entrar na intimidade de uma mulher, de mostrar aquilo que ela pensa e aquilo que não consegue dizer, mas numa história muito mais ampla e angustiante.


Se em Valeria, d´O Caderno Proibido, assistimos à descoberta de uma mulher que percebe que se foi apagando dentro da família, em Alessandra acompanhamos um percurso muito mais longo. Vemos como se aprende a ser mulher, como se aprende a amar, como se aprende a esperar e como, pouco a pouco, uma pessoa pode ficar presa à vida que os outros imaginaram para ela.


E é talvez aqui que os dois livros mais se aproximam.


A escrita de Alba de Céspedes continua afiada, penetrante e introspectiva. Mas em Nas Palavras Dela senti-a também mais ambiciosa. Há mais personagens, mais lugares, mais história, mais tempo. E, ainda assim, a autora nunca perde aquilo que para mim é o mais forte na sua escrita, a capacidade de nos colocar dentro da cabeça de uma mulher.


No fim, Alessandra escreve:


Não sei se aqueles que me vão julgar terão tempo de ler estas memórias. São longas, de facto, porque também infinitamente longa é, dia após dia, hora após hora, a breve vida de uma mulher; e raramente é uma única causa que a força a uma repentina rebelião.


E não quero dizer muito mais sobre o final.

Ainda não consigo dizer exactamente o que penso sobre ele. Não consigo reduzi-lo a justo ou injusto, compreensível ou incompreensível. Ainda estou a tentar perceber o que senti.


Sei apenas que, quando fechei o livro, fiquei a pensar nas vidas.

Na de Alessandra.

Na de Eleonora.

Naquelas mulheres, do pátio, que esperaram.

Nas escolhas que não fizeram.

Naquilo que poderiam ter sido.

E fiquei com uma frase na cabeça: Como se desperdiçam vidas!


Talvez seja essa a verdadeira história de Nas Palavras Dela. Não apenas a história de um amor ou de um crime, mas a história de uma mulher que passou a vida a tentar perceber como poderia ser feliz sem deixar de ser ela própria.

Publicado há mais de setenta anos, continua a ser um livro que inquieta, perturba e, sobretudo, faz perguntas que ainda não conseguimos deixar completamente para trás.

E isso, para mim, é o que faz um clássico.

[Opinião] O Gato e o Rato - M.J. Arlidge

                            


 
          

Título: O Gato e o Rato

Série: Helen Grace #11

Autor: M.J. Arlidge

Data de Leitura: 09/08/2026 ⮞ 15/08/2026

Classificação: 


Sinopse

Quando se sente seguro, quando acha que está sozinho, quando acha que está sozinho, é quando ele ataca... é quando ele ataca...

Há um assassino silencioso à solta na cidade de Southampton. Os seus alvos? Todos os que estejam sozinhos em casa à noite: as presas ideais para o seu jogo mortal.

À medida que o pânico se instala entre os habitantes, a inspetora Helen Grace entra em cena e começa a liderar a investigação, mas a sua vida está virada do avesso: ela própria é uma mulher perseguida, tendo atrás de si um psicopata implacável, obcecado pela vingança.

Seguindo o rasto do assassino, Helen começa a suspeitar que poderá existir algo em concreto que liga estes crimes brutais. Mas o que irá encontrar é mais perverso do que alguma vez poderia conceber...


Minha review no GoodReads


Em 2026 este é o meu primeiro #CrimeNaAreia. 

Helen está de volta. Tenso, intenso e frenético, O Gato e o Rato é mais um thriller cinematográfico que não dá descanso.

Mesma Helen, novos bandidos. E que continuem as perseguições! 

🐱🐭



[Opinião] Os Náufragos do Wager: Uma história de motim e assassínio - David Grann

                                 


      


Título: Os Náufragos do Wager: Uma história de motim e assassínio

Série: -

Autor: David Grann

Data de Leitura: 17/07/2026 ⮞ 14/08/2026

Classificação: 


Sinopse

Em 1742, uma embarcação rudimentar - com trinta homens à beira da morte - deu à costa no litoral do Brasil. Eram sobreviventes do Wager, um navio britânico que deixara a Inglaterra em 1740, parte de uma esquadra de navios de guerra com 2000 homens e uma missão secreta: perseguir e capturar um galeão espanhol cheio de tesouros.

Porém, o Wager acaba por naufragar numa ilha na costa da Patagónia. Seis meses depois, outra embarcação ainda mais decrépita deu à costa chilena com três náufragos que contavam uma história muito diferente: os trinta marinheiros que haviam desembarcado no Brasil não eram heróis - eram amotinados.

Entre acusações de traição, rebeldia, assassínio, tirania, quebra de autoridade, o Almirantado queria saber quem dizia a verdade - e enforcar os culpados. A narrativa de David Grann não explora apenas os perigos e a crueldade da vida no mar, desafiando o escorbuto, a violência e a morte: mostra como a cobiça e a ganância se desenvolveram no gene da humanidade e relata o custo físico e psicológico dessas campanhas imperiais.


Minha review no GoodReads

3,5 ⭐️


Não é uma leitura muito habitual para mim, mas Os Náufragos do Wager: Uma história de motim e assassínio pareceu-me, desde o início, uma história demasiado absurda para ser ignorada. E, de facto, a história é extraordinária. O problema é que, no final, gostei mais daquilo que aconteceu do que da forma como David Grann decidiu contá-lo.



Charles Brooking's 1744 - HMS Wager in extremis


O Wager fazia parte de uma expedição britânica que, em 1740, partiu para o Pacífico com o objectivo de passar o Cabo Horn e de atacar os espanhóis e capturar os seus navios carregados de riquezas.


Como os mares do extremo sul são as únicas águas que fluem ininterruptamente à volta do globo, ganham uma potência enorme, com ondas que chegam a formar-se ao longo de vinte e um mil quilómetros, acumulando força enquanto rolam por um oceano a seguir ao outro. Quando, finalmente, chegam ao Cabo Horn, são comprimidas num corredor estreito entre os promontórios americanos mais a sul e a parte mais a norte da Península Antártica. Este funil, conhecido como a Passagem de Drake, torna a torrente ainda mais pulverizadora. As correntes são não só as mais longas da terra como também as mais fortes, transportando mais de quatro mil milhões de pés cúbicos de água por segundo, mais de seiscentas vezes a descarga do rio Amazonas. E depois ainda há os ventos. Zurzindo consistentemente em direção a leste a partir do Pacífico, onde não há terras que os obstruam, aceleram frequentemente até atingir a força de um furacão e conseguem ultrapassar os trezentos e vinte quilómetros por hora. Os marinheiros referem-se às latitudes em que sopram com nomes que capturam essa intensidade crescente: os Quarenta Rugidores, os Cinquenta Furiosos e os Sessenta Uivantes.


Dito assim até parece uma aventura gloriosa. Na realidade, era uma espécie de sentença de morte voluntária. Anos no mar, tempestades, fome, doenças, frio, disciplina brutal e uma probabilidade bastante razoável de nunca mais voltar a ver terra. Sinceramente, é preciso ter muito pouco amor pela própria vida para embarcar numa coisa destas.


A parte de que mais gostei foi, sem dúvida, o naufrágio e tudo o que se segue. A tripulação do Wager fica entregue a si própria, sem comida suficiente, sem condições, sem saber exactamente onde está e com a autoridade a desmoronar-se aos poucos. É aqui que a história se torna verdadeiramente fascinante. Perceber até onde pode ir um grupo de pessoas quando a sobrevivência passa a ser a única prioridade.


Depois há os relatos contraditórios sobre o que aconteceu. Grann fez um trabalho interessante ao cruzar diários, cartas, testemunhos e outros documentos da época para reconstruir os acontecimentos e tentar perceber quem estava a dizer a verdade. Essa utilização das fontes históricas foi, para mim, um dos pontos fortes do livro. Há qualquer coisa de muito interessante em conseguir reconstruir uma aventura do século XVIII através das palavras daqueles que realmente a viveram.


Embora não tenha sentido particular empatia por nenhuma das personagens, houve uma que teve uma cunha literária: John Byron, o avô de Lord Byron.


Mas foi precisamente aqui que comecei a sentir que faltava qualquer coisa. Quando a história dos náufragos termina, há material extraordinário que parece ser despachado demasiado depressa. Gostava de ter sabido muito mais sobre a viagem de regresso dos homens que partiram com Bulkeley e, sobretudo, sobre Cheap e os homens que ficaram para trás. O que se passou durante os anos em que permaneceram naquela situação? Como sobreviveram? Como se reorganizaram? Como lidaram psicologicamente com tudo aquilo?


Queria mais sumo.

E acho que este foi o meu maior problema com o livro. A história tinha potencial para ser muito mais completa do que aquilo que Grann escolheu contar.


O estilo também não me conquistou totalmente. A narrativa avança quase como se estivéssemos a assistir a um filme. Isso torna a leitura bastante fluida, mas, para mim, também lhe retira alguma profundidade. Fiquei muitas vezes com a sensação de que estava a ver os acontecimentos de fora, quando teria gostado de entrar mais naquele mundo e perceber melhor a mentalidade daqueles homens.


E houve ainda alguns pormenores que me fizeram torcer o nariz. Por exemplo, no epílogo Grann fala de uma "edição americana" do relato de Bulkeley publicada em 1757.


John Bulkeley escapou para uma terra onde os emigrantes se podiam livrar do fardo do passado e reinventar-se: a América. Instalou-se na colónia da Pensilvânia, esse futuro foco de rebelião, e, em 1757, publicou uma edição americana do seu livro.


Só que em 1757 os Estados Unidos ainda nem sequer existiam. Tratava-se de uma edição publicada em Filadélfia, na colónia britânica da Pensilvânia. Pode parecer um pormenor, mas numa obra que pretende reconstruir acontecimentos históricos com base documental, este tipo de simplificação incomoda-me.


Gostei do naufrágio, da sobrevivência e da capacidade daqueles homens de continuarem vivos em condições que hoje nos parecem inimagináveis. Gostei da utilização dos documentos históricos e da tentativa de reconstruir diferentes versões dos acontecimentos. Mas faltou-lhe mais tempo passado com aqueles homens nas diferentes viagens de regresso.


Faltou-lhe um pouco mais de "sumo".



Wager remains treated timber found at the Wager wreck site in 2006

https://www.damninteresting.com/dead-reckoning/


Achievement Staff Shelves

Achievement Fact or Fiction


[Opinião] Harry Potter e o Cálice de Fogo - J.K. Rowling

     





Título: Harry Potter e o Cálice de Fogo

Série: Harry Potter #4

Autor: J.K. Rowling

Data de Leitura: 2000-2010

Classificação: ⭐⭐

Data de Re-Leitura: 06/06/2026 ⮞ 10/08/2026

Re-Classificação:


Sinopse

Harry Potter nem quer acreditar na sua sorte! Afinal não vai ter de aturar os Dursleys até ao início do seu quarto ano em Hogwarts. Graças à taça Mundial de Quidditch vai passar os últimos quinze dias de férias na companhia dos Weasleys e do seu amigo Ron. Mas a verdade é que nem tudo vai correr pelo melhor para o nosso herói. Quando Harry começa a sentir a sua cicatriz a doer terrivelmente, sabe que Lord Voldemort está de novo a rondá-lo e a ganhar poder. A marca da morte, que apareceu no céu, não pode significar outra coisa...Entretanto, este é um ano muito especial para Hogwarts, pois é lá que se irá realizar o célebre Torneio dos Três Feiticeiros, no qual Harry vai desempenhar um papel decisivo e que quase lhe irá custar a vida!! Pela segunda vez, Potter vê-se frente a frente com Voldemort, e ele sabe que o maior desejo do poderoso senhor das trevas é vê-lo morto...


Minha review no GoodReads

Terminei de ouvir o quarto Harry Potter e isto é muito, muito bom de ouvir. E há ainda um efeito secundário inesperado: os meus roupeiros nunca estiveram tão limpos, organizados e arrumados. Venha o próximo, que há outras coisas para organizar cá em casa. 😁




[Opinião] Pessoa. Uma Biografia - Richard Zenith

                            


 
          


Título: Pessoa. Uma Biografia

Série: -

Autor: Richard Zenith

Data de Leitura: 17/11/2024 ⮞ 09/08/2026

Classificação: 


Sinopse

Fernando Pessoa é, a par de Luís de Camões, o maior poeta português. E é uma das figuras proeminentes do modernismo europeu, juntamente com escritores como Kafka, Joyce e Proust. O seu vastíssimo legado - da poesia, drama e ficção ao artigo de opinião e escrita mediúnica, cruzando e aprofundando inúmeros domínios do conhecimento (da literatura à religião, passando pela história, a filosofia, a astrologia e tantos outros) - tem vindo a ser progressivamente conhecido pelos leitores portugueses e de todo o mundo.


Porém, o homem por detrás da extraordinária multiplicidade de vozes (os heterónimos e dezenas de outros autores ficcionais), e de uma das obras literárias mais complexas e ricas de todos os tempos, é quase um desconhecido. João Gaspar Simões, com a publicação da sua biografia em 1950, teve o grande mérito de reconhecer a importância de Fernando Pessoa numa altura em que o poeta ainda não era justamente apreciado. Mas a obra não se baseou numa pesquisa mais aprofundada e desde há muitos anos que se sentia a falta de uma obra biográfica de referência.


PESSOA: A BIOGRAPHY, do autor norte-americano naturalizado português Richard Zenith, publicado nos EUA e na Grã-Bretanha em 2021 e que agora se publica em Portugal, vem suprir definitivamente essa lacuna.


Minha review no GoodReads


Foi na altura do 9.º ano que fui apresentada a Fernando Pessoa. A professora de Português, quando nos deu a estudar o episódio do Adamastor n'Os Lusíadas, decidiu também mostrar-nos «O Mostrengo», da Mensagem. Ainda hoje me lembro da forma como declamou o poema e do impacto que aquelas palavras tiveram em mim. Foi o meu primeiro contacto com Pessoa e bastou para despertar uma curiosidade que viria a acompanhar-me durante anos.


V. O MOSTRENGO


O mostrengo que está no fim do mar

Na noite de breu ergueu-se a voar;

À roda da nau voou três vezes,

Voou três vezes a chiar,

E disse: «Quem é que ousou entrar

Nas minhas cavernas que não desvendo,

Meus tectos negros do fim do mundo?»

E o homem do leme disse, tremendo:

«El-Rei D. João Segundo!»


«De quem são as velas onde me roço?

De quem as quilhas que vejo e ouço?»

Disse o mostrengo, e rodou três vezes,

Três vezes rodou imundo e grosso,


«Quem vem poder o que só eu posso,

Que moro onde nunca ninguém me visse

E escorro os medos do mar sem fundo?»

E o homem do leme tremeu, e disse:

«El-Rei D. João Segundo!»


Três vezes do leme as mãos ergueu,

Três vezes ao leme as reprendeu,

E disse no fim de tremer três vezes:

«Aqui ao leme sou mais do que eu:

Sou um Povo que quer o mar que é teu;

E mais que o mostrengo, que me a alma teme

E roda nas trevas do fim do mundo,

Manda a vontade, que me ata ao leme,

De El-Rei D. João Segundo!»


Ilustração a tinta-da-china de José de Almada Negreiros, datada de 1934.

Representação artística para o poema "O Mostrengo", parte da obra Mensagem de Fernando Pessoa.

Colecção do Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian


Mais tarde, no 12.º ano, voltei a encontrar-me com a sua obra. Li tudo o que estava ao meu alcance na época e tornei-me uma admiradora assumida. A complexidade dos heterónimos, a riqueza do pensamento e a singularidade da sua escrita conquistaram-me por completo.


Por isso, quando surgiu a oportunidade de ler Pessoa. Uma Biografia, de Richard Zenith, finalista do Prémio Pulitzer de 2022 na categoria de Biografia, não hesitei. Comecei a leitura a 17 de Novembro de 2024, sem qualquer pressa. Com cerca de 1.200 páginas, este não é um livro para devorar; é um livro para acompanhar, absorver e digerir aos poucos. Em doses homeopáticas.


Ao longo destas páginas, Zenith reconstrói minuciosamente a vida de Fernando Pessoa, desde a infância até à morte, recorrendo a uma investigação impressionante e a um vasto conhecimento da obra e do contexto histórico. Mas o grande mérito desta biografia não está apenas em contar a história do poeta. Está também na forma como nos transporta para a Lisboa da época, para as transformações políticas do país, para as correntes intelectuais da Europa e para um mundo em rápida mudança.


Se a minha admiração pelo escritor se manteve intacta, o mesmo não posso dizer da minha opinião sobre o homem. Já sabia que Pessoa era uma figura excêntrica, contraditória e socialmente desajustada. Esta biografia, porém, revelou-me alguém ainda mais difícil de admirar enquanto pessoa. Arrogante, muitas vezes preconceituoso, frequentemente alheado da realidade prática e, não raras vezes, profundamente irritante.


É precisamente por isso que raramente procuro saber demasiado sobre os autores que leio. Há sempre o risco de encontrar traços de personalidade, opiniões ou comportamentos que entram em choque com os meus valores. Fernando Pessoa não foi excepção. Continuo a considerá-lo um génio literário, mas terminei esta leitura com uma simpatia muito menor pelo homem do que aquela com que a comecei.


Ainda assim, esse desconforto não diminuiu em nada a qualidade da experiência de leitura. Pelo contrário. Zenith evita tanto a veneração cega como a condenação simplista, apresentando um retrato complexo, contraditório e sem concessões de uma das figuras mais importantes da literatura portuguesa.


No final, fiquei com uma admiração renovada pela obra de Pessoa e uma visão muito mais crítica do seu autor. E talvez seja precisamente essa a maior força desta biografia: mostrar-nos que o génio e as fragilidades humanas podem coexistir na mesma pessoa.


Uma obra extraordinária, exigente e indispensável para quem deseja conhecer Fernando Pessoa para lá do mito.



Ilustração é do livro "Fernando Pessoa, o Menino que era Muitos Poetas", escrito por José Jorge Letria e ilustrado por João Fazenda.

[Opinião] Summer - Edith Wharton

                            


 
          

Título: Summer

Série: -

Autor: Edith Wharton

Data de Leitura: 02/08/2026 ⮞ 09/08/2026

Classificação: 


Sinopse

Edith Wharton’s controversial novel Summer is the story of Charity Royall, an ambitious young woman trapped in a stifling small town by both her gender and her social class. When a visiting stranger arrives in town, Charity is awakened to a wider world of possibilities and to the realities that constrain her.

Published in 1917, the novel was both attacked and ignored for openly acknowledging female sexuality and its many inequities. Later generations of critics have come to regard the book as an important turning point in Wharton’s work and a spiritual companion to her classic novel, Ethan Frome.


Minha review no GoodReads


Acabei Summer com sentimentos bastante contraditórios. Gostei da história, gostei da escrita e fiquei particularmente interessada na forma como Edith Wharton retrata a vida de uma jovem mulher numa sociedade em que as escolhas disponíveis para ela são, afinal, muito mais limitadas do que parecem.


How I hate everything!” she murmured.


Mas também passei uma boa parte do livro com vontade de abanar a Charity e dizer-lhe: “Ai Charity, pensa um bocadinho antes de fazeres isso!”


Charity Royall vive em North Dormer, uma pequena localidade da Nova Inglaterra onde parece não haver grande coisa para uma jovem inquieta fazer. 

She stared. “Old houses? Everything’s old in North Dormer, isn’t it? The folks are, anyhow.”


Trabalha na biblioteca local, um emprego que não leva propriamente a sério, e sonha em conseguir dinheiro suficiente para um dia deixar a cidade. Foi adoptada ainda bebé pelo advogado Royall, uma das figuras mais importantes da comunidade, mas a relação entre os dois é tudo menos afectuosa.


E depois aparece Lucius Harney, um jovem arquitecto que está de passagem para estudar os edifícios da região. Para Charity, ele representa muito mais do que um homem por quem se apaixona. Representa um mundo diferente daquele em que vive. Mais culto, mais sofisticado, mais livre. E Charity agarra-se a essa possibilidade com unhas e dentes.


Só que Charity é uma personagem difícil. É fascinante, mas também é uma criatura bastante chata. É amuada, impulsiva, ressentida e, muitas vezes, parece não saber muito bem o que quer, só não quer aquela vida. Consigo ter empatia por ela e, ao mesmo tempo, ficar “p. da vida” com as decisões que toma. Talvez seja essa contradição que a torna tão interessante.


Lucius também não me conquistou. É o típico homem que se apaixona enquanto a paixão não lhe custa nada. Encantador, culto e sedutor, mas egoísta e incapaz de assumir as consequências das suas escolhas. Para Charity, ele representa liberdade; para ele, Charity acaba por ser uma aventura que não põe em causa o seu futuro.


E depois temos o Mr. Royall. Mr. Royall também me encanitou. É autoritário, possessivo e tem aquela irritante convicção de que sabe o que é melhor para Charity. A relação entre os dois é estranha e desconfortável, principalmente depois da atitude que tem para com ela. É verdade que Wharton não o apresenta simplesmente como um monstro, há nele solidão e alguma fragilidade, mas isso não chega para desculpar o seu comportamento nem para fazer dele uma personagem de quem gostemos particularmente.

Ou seja, ninguém está completamente certo e ninguém é completamente livre.

Hoje, em pleno século XXI, há comportamentos que nos parecem inaceitáveis e alguns continuam mesmo a ser difíceis de engolir. Mas também é impossível ignorar o contexto em que Charity vive. Ela toma decisões erradas, mas as alternativas que tem à sua disposição são bastante reduzidas.


O verão é, para Charity, uma espécie de parêntesis na vida. É durante aquele verão que descobre o desejo, o amor, a possibilidade de uma vida diferente e uma liberdade que nunca tinha experimentado. Mas o verão acaba. E com ele acaba também, de certa maneira, a ilusão de que basta querer outra vida para conseguir tê-la.


She had given him all she had—but what was it compared to the other gifts life held for him? She understood now the case of girls like herself to whom this kind of thing happened. They gave all they had, but their all was not enough: it could not buy more than a few moments…


E talvez seja esta a parte mais triste da história. Charity dá tudo o que tem, mas aquilo que para ela é tudo nunca poderá ter o mesmo valor para Lucius. 

Wharton consegue contar uma história aparentemente simples e, por baixo dela, falar de liberdade, desejo, desigualdade e das escolhas que uma mulher pode ou não pode fazer.



Achievement Literally Summer


[Opinião] As Sereias - Emilia Hart

                                   


    


Título: As Sereias

Série: -

Autor: Emilia Hart

Data de Leitura: 26/07/2026 ⮞ 02/08/2026

Classificação: 


Sinopse

2019: Lucy acorda no quarto do ex-namorado, a asfixiá-lo. Horrorizada, foge para casa da irmã, Jess, numa cidade costeira em Nova Gales do Sul, em busca de conforto e de uma explicação para os sonhos vívidos que precederam o ataque. No entanto, Jess está desaparecida. Enquanto aguarda o seu regresso, Lucy vai descobrindo estranhos rumores sobre a cidade: desaparecimentos de homens ao longo de várias décadas, um bebé abandonado numa gruta à beira-mar, sussurros de mulheres vindos do oceano. Os sonhos de Lucy parecem mais reais do que nunca…

1800: Mary e Eliza são condenadas ao exílio e deixam o seu lar na Irlanda, embarcando num navio de prisioneiros com destino à Austrália. À medida que o barco as afasta de tudo o que lhes é familiar, começam a reparar em mudanças bizarras nos próprios corpos.


Minha review no GoodReads


A mitologia irlandesa sempre despertou a minha curiosidade. Há qualquer coisa nas lendas das ilhas britânicas que me fascina. O mar, as brumas, os nevoeiros e a constante sensação de que existe um mundo antigo escondido para lá daquilo que conseguimos ver. Foi precisamente isso que encontrei em As Sereias.


A história acompanha Lucy, que chega a Comber Bay à procura da irmã. O que encontra é uma pequena vila costeira marcada por um antigo naufrágio, por histórias de homens que desaparecem no mar e por um misterioso canto que alguns juram ouvir vindo das águas. Em paralelo, viajamos até ao século XIX para acompanhar Mary e Eliza, duas irmãs irlandesas condenadas ao degredo na Austrália a bordo do Naiad. À medida que as diferentes linhas temporais avançam, os acontecimentos começam a revelar as ligações entre passado e presente.


Emilia Hart faz com que a realidade e o fantástico convivam de forma natural, sem que a mitologia pareça forçada ou em excesso. Gostei especialmente de encontrar referências como Tír fo Thuinn, Land under the Wave a "terra sob as ondas" da tradição irlandesa, que acrescentam profundidade à história e mostram o cuidado na pesquisa que está por trás do livro. As sereias não são apenas criaturas mitológicas, fazem parte de um universo onde o mar guarda memórias, segredos e uma força difícil de explicar.


Este é também um romance feminino. É um livro escrito por uma mulher, sobre mulheres e pensado, acima de tudo, para dar voz às suas experiências. Não significa que os homens não o devam ler, pelo contrário. As relações entre mães, filhas, irmãs e outras mulheres são o verdadeiro coração da história, mostrando como a força pode nascer da união, mesmo nas circunstâncias mais difíceis.


Gostei da sororidade entre as mulheres a bordo do Naiad. Apesar das condições brutais em que viajavam, conseguem criar uma rede de apoio e protecção que acaba por ser um dos aspectos mais marcantes do romance.


As Sereias combina ficção histórica, mitologia irlandesa e um toque de realismo mágico numa história envolvente, onde o mistério anda sempre de mãos dadas com o mar.


Achievement Worlds Away