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[Opinião] Reef | Mar profundo - Romesh Gunesekera

                                


 
        

Título: Reef | Mar profundo

Série: -

Autor: Romesh Gunesekera

Data de Leitura: 18/10/2026 ⮞ 29/10/2026

Classificação: ⭐⭐⭐


Sinopse

A história de Mar profundo começa em Londres, quando o personagem-narrador Triton, já adulto, está com seu Volkswagen vermelho em um posto de gasolina. Na tentativa de pagar pelo combustível, ele se depara com uma porta fechada. Atrás do vidro, alguém o fita e Triton pensa: “quase que um reflexo de mim mesmo”. Depois de confirmar, descobre que o outro também é do Sri Lanka. Em vão, tenta se comunicar em sinhala, uma das línguas faladas na ilha, ao que o outro responde: “tâmil, tâmil”, a língua falada pela minoria hindu. Esta introdução é seguida de um breve diálogo, que faz Triton lembrar que está na Inglaterra há mais de vinte anos. Este é o ponto de partida para ele recordar suas origens, em um passado tão distante quanto sua longínqua pátria.


Minha review no GoodReads


O Sri Lanka, antigo Ceilão, é uma ilha no oceano Índico que passou pelas mãos de portugueses, holandeses e ingleses, tendo conquistado a independência em 1948. Mas a saída dos britânicos não resolveu os problemas do país. As tensões entre a maioria cingalesa e a minoria tâmil foram-se agravando, até que, em 1983, começou uma guerra civil que durou até 2009.

É neste ambiente de crescente instabilidade que se desenrola Reef / Mar profundo.

 

A história começa em Londres, onde Triton, agora proprietário de um restaurante, recorda a vida que deixou para trás. Aos onze anos, foi trabalhar como criado para a casa de Mister Salgado, um homem abastado e apaixonado pela biologia marinha. Triton é um elfo do lar, limpa, arruma, serve à mesa e aprende a antecipar as necessidades do patrão. Mas é na cozinha que descobre o seu talento. Entre tachos, receitas e jantares cada vez mais elaborados, transforma uma tarefa doméstica numa verdadeira vocação. É graças ao que aprende nessa casa que acaba por construir a sua vida profissional em Londres.

 

Enquanto Triton cresce, o mundo à sua volta começa a desmoronar-se. A violência política e étnica invade a tranquilidade da casa, e a partida para Inglaterra torna-se inevitável.

Mas há outra preocupação que atravessa o romance, a destruição dos recifes de coral. Mister Salgado sonha transformar uma baía num santuário marinho, conciliando a preservação da natureza, a investigação científica e, claro, a gastronomia. Um projecto que nunca chega a concretizar.

 

Há uma passagem particularmente bonita em que Triton descreve a exuberância do recife, cheio de criaturas e cores, mas também marcado pela luta constante pela sobrevivência.

 

The one time I did swim out to Mister Salgado’s real reef, back home, I was frightened by its exuberance. The shallow water seethed with creatures. Flickering eyes, whirling tails, fish of a hundred colours darting and digging, sea snakes, sea-slugs, tentacles sprouting and grasping everywhere. It was a jungle of writhing shapes, magnified and distorted, growing at every move, looming out of the unknown, startling in its hidden brilliance. Suspended in the most primal of sensations, I slowly began to see that everything was perpetually devouring its surroundings. I swam into a sea of sound; my hoarse breathing suddenly punctuated by clicking and clattering, the crunching of fish feeding on the white tips of golden staghorn. My own fingertips seemed to whiten before me as trigger-fish, angel-fish, tiger-fish, tetrons, electrons and sandstone puffer-fish swirled around me, ever hungry.

 

O lamento de Salgado perante aquilo que poderia ter feito, mas não fez, acaba por ter um significado que vai muito além do ambiente.

 

Mister Salgado shook his head. ‘I should have done something of my own with that bay. I used to think that in a month or two, the next year, I would have a chance to turn the whole bay into a sanctuary. A marine park. I used to plan it in my head: how I’d build a jetty, a safe marina for little blue glass-bottomed boats, some outriggers with red sails, and then a sort of floating restaurant at one end. You could have produced your finest chilli crab there, you know, and the best stuffed sea-cucumbers. Just think of it: a row of silver tureens with red crab-claws in black bean sauce, yellow rice and squid in red wine, a roasted red snapper as big as your arm, shark fin and fried seaweed. It would have been a temple to your gastronomic god, no? I thought of it like a ring, a circular platform with the sea in the middle. We could have farmed for the table and nurtured rare breeds for the wild. A centre to study our prehistory. We could have shown the world something then, something really fabulous. What a waste.

 

Gostei, mas não me deslumbrou! É um romance bonito, com uma preocupação ambiental pertinente e uma história de crescimento pessoal interessante, mas que, para mim, ficou aquém do que poderia ter sido.

 


Sri Lanka

இலங்கை – Tâmil

ශ්‍රී ලංකාව - Cingalês

[Opinião] Drácula - Bram Stoker

                             


 
          

Título: Drácula

Série: -

Autor: Bram Stoker

Data de Leitura: 10/10/2026 ⮞ 28/10/2026

Classificação: ⭐⭐⭐


Sinopse

Uma verdadeira obra-prima, Drácula transcendeu gerações, linguagem e cultura para tornar-se um dos romances mais populares alguma vez escritos. É por excelência uma história de suspense e horror, que ostenta um dos personagens mais terríveis que já nasceram na literatura: o conde Drácula, um espectro trágico e noturno que se alimenta do sangue dos vivos, e cujas paixões diabólicas depredam os inocentes, os desamparados, e os belos. Mas Drácula também se destaca como uma saga alegórica de um ser eternamente amaldiçoado cujas atrocidades noturnas refletem o lado sombrio da era extremamente moralista em que foi originalmente escrito - e os desejos corruptos que continuam a atormentar a condição humana moderna.


Minha review no GoodReads


Coisas sobrenaturais não são muito a minha praia e, por isso, nunca tive grande vontade de ler Drácula, de Bram Stoker. Mas, como estamos no mês do terror, resolvi aventurar-me por um clássico. Também contribuiu o facto de, há uns meses, ter lido Frankenstein que, contrariamente ao que o cinema nos habituou a pensar, é uma obra fantástica.

Posto isto, e sendo Drácula um livro com mais de 60 mil reviews, não vou perder tempo a falar da história. Prefiro falar das sensações que me foi transmitindo ao longo da leitura.

E tenho de reconhecer que o início é fantástico. Logo durante a viagem até ao castelo do conde, há uma série de presságios que nos deixam de pé atrás. Aquelas primeiras páginas, até à chegada de Jonathan Harker ao castelo, criam uma atmosfera de terror, tensão e arrepios. Há qualquer coisa de inquietante naquela viagem, na paisagem, nas pessoas que Harker encontra e na sensação de que alguma coisa está muito, muito errada. Foi aqui que pensei que tinha feito uma excelente escolha para o mês do terror.

Depois, foi sempre a descer, em termos de entusiasmo.

A resolução do problema da Lucy ainda vai mantendo algum interesse, mas, a partir daí, começamos a levar com cartas, entrada de fonógrafo, telegramas, entradas de diário, relatórios médicos e mais uma quantidade de documentos que, a certa altura, já parecem chouriços para encher. Pel'amor de Deus, aquela gente só estava bem a escrever cartas, cartinhas e bilhetinhos, a registar tudo o que lhes acontecia e a beber vinho e brande. Não havia um acontecimento que não merecesse ser documentado por meia dúzia de pessoas, de preferência em formatos diferentes. Uma pessoa até fica a pensar se não seria mais fácil resolver o problema do conde se, em vez de tanta escrita, se decidissem a fazer alguma coisa.

Felizmente, a Mina entra em acção e a coisa melhora um bocadinho. Para mim, é ela a cola que mantém aquele grupo unido. Enquanto os homens parecem um bando de baratas tontas atrás do conde, a Mina revela uma capacidade de organização, raciocínio e iniciativa que faz falta ao resto da equipa. Ainda bem que lá está, porque, sem ela, suspeito que continuariam todos a trocar correspondência até ao fim dos tempos.

Também acredito que, quando foi publicado, Drácula tenha sido uma verdadeira pedrada no charco da sociedade vitoriana. Imagino muitas senhoras a precisarem de sais para recuperar dos desmaios provocados pelo horror e pelo medo. Afinal, estamos a falar de uma época com outros códigos morais, outras sensibilidades e uma relação muito diferente com o que era considerado assustador ou perturbador. O que na altura poderia ter sido chocante, ousado e aterrador, hoje já não tem necessariamente o mesmo efeito. Em pleno século XXI, depois de tudo o que já vimos e lemos, confesso que me soube a pouco.

[Opinião] Jenin ao Amanhecer - Susan Abulhawa

                                


 
        


Título: Jenin ao Amanhecer

Série: -

Autor: Susan Abulhawa

Data de Leitura: 18/10/2026 ⮞ 24/10/2026

Classificação: ⭐⭐⭐⭐⭐


Sinopse

Esta é uma história de luta e sobrevivência que acompanha uma família ao longo de sessenta anos, dando-nos a conhecer as cicatrizes profundas provocados pelo conflito israelo-árabe. Um relato de fé, da grandeza do perdão e da força do amor.

Jenin ao Amanhecer é a odisseia da família Abulheja, forçada a deixar a aldeia palestiniana de Ein Hod e a exilar-se no campo de refugiados de Jenin, na Cisjordânia, após a ocupação israelita de 1948. Entre eles, encontra-se Dalia, o marido e os dois filhos pequenos. A caminho de Jenin, entre a multidão em fuga, Ismael, o filho mais novo do casal, desaparece. A voz do romance é a de Amal, neta do patriarca da aldeia e filha de Dalia.

Entre memórias de dor e a esperança de regressar um dia a sua casa, Amal cresce com o amor do pai, que lhe lê todos os dias ao amanhecer, nos fugazes momentos de paz, e com a força silenciosa da mãe, que fechou o coração à dor. Juntos, sonham com um futuro melhor, apesar da extrema violência e da injustiça sem fim que os rodeia.


Minha review no GoodReads


Há livros que nos deixam de rastos. Jenin ao Amanhecer, de Susan Abulhawa, foi um deles. E não é só pela história que conta, mas também por tudo aquilo que nos faz sentir e pensar quando chegamos ao fim. Fechei o livro com uma tristeza profunda, daquelas que não desaparecem só porque viramos a última página e voltamos à nossa vidinha.

 

A história da família Abulheja começa em 1948. A partir daí, acompanhamos várias gerações de uma família marcada pela perda, pela separação e por acontecimentos que irão mudar para sempre o rumo das suas vidas. No centro está Amal, cuja história nos leva por caminhos de sofrimento, amor, esperança e resistência.

 

— Chamámos-te Amal com uma vogal longa porque a vogal curta significa apenas uma esperança, um desejo — explicou uma vez o meu pai. — Tu és muito mais do que isso. Depositámos todas as nossas esperanças em ti. Amal, com vogal longa, significa esperanças, sonhos, muitos sonhos.

 

Uma das coisas que mais me marcou foi a relação de Amal com o pai. Há passagens maravilhosas em que ela recorda os momentos que passaram juntos, sobretudo aqueles amanheceres em Jenin, quando o baba lhe lia enquanto o mundo à volta ainda dormia.


(…) Amal continuava a ler ao amanhecer, como ela e o pai haviam feito (…)


O cachimbo de madeira de oliveira, o cheiro do tabaco de maçã e mel, o abraço do pai… São pormenores tão simples e, ao mesmo tempo, tão poderosos.


Não conheci lugar tão seguro como o seu abraço, a minha cabeça aninhada no arco do seu pescoço e nos seus ombros robustos. Não conheci momento mais terno do que o amanhecer, com o cheiro do tabaco de maçã e mel (…)

 

O nascer do Sol pertencia-me a mim e ao baba, quando ele lia para mim, enquanto o mundo à nossa volta dormia., recorda Amal. E que frase tão bonita! Há qualquer coisa de comovente nesta ideia de dois seres humanos terem um pequeno mundo só deles, feito de poesia, leitura e amanheceres.

Amal não tinha grandes luxos, mas teve uma infância encantada pelo amor do pai.


Nunca conheci um parque infantil nem nadei no mar, mas a minha infância foi mágica, encantada pela poesia e pelo amanhecer.


E estes momentos parecem conter mais felicidade do que muitas das experiências que habitualmente associamos a uma vida feliz.

Talvez porque a felicidade não dependa apenas daquilo que temos, mas também daquilo que sentimos. Amal conheceu a segurança de um abraço, a ternura de um pai que lhe lia e a beleza de partilhar o nascer do dia com alguém que a amava. São recordações que ficam. E, quando a vida nos tira tanto, aquilo que recebemos de quem nos amou pode tornar-se uma força para continuar em frente.

É isso que vejo na relação entre Amal e o pai. Yehya não consegue protegê-la de tudo o que a espera, mas deixa-lhe uma herança que não é material. O amor pelos livros, pela poesia, pelo conhecimento e, sobretudo, a memória de ter sido amada. As recordações não lhe devolvem o passado, mas permitem-lhe guardar uma parte dele dentro de si. E talvez seja essa uma das coisas mais bonitas que alguém pode deixar a outra pessoa.

 

Mas este não é um livro sobre a importância dos afectos. É também uma história que nos mostra uma capacidade de resistência humana verdadeiramente estarrecedora. Acompanhar a família de Amal ao longo de várias décadas é perceber como as pessoas conseguem continuar a viver, a amar e a procurar alguma felicidade mesmo quando as circunstâncias parecem fazer tudo para as destruir.

E não falo de uma força sobre-humana, nem daquela ideia de que tudo o que não nos mata nos torna mais fortes. A resistência não significa não sofrer, não ter medo ou sair ileso. Sobreviver não é o mesmo que ficar bem. Há feridas que não desaparecem e perdas que não podem ser revertidas. Mas, apesar de tudo, a vida continua a acontecer nas relações que construímos, nas memórias que guardamos e na vontade de continuar a procurar alguma coisa boa no meio de tanta desgraça.

O que me deixa devastada é pensar que esta história não pertence apenas ao passado. A realidade que encontramos nestas páginas continua a acontecer no mundo de hoje, e é impossível não pensar nas pessoas que vivem actualmente rodeadas de guerra, violência, medo e perda. Depois do Holocausto, achei que a humanidade tinha aprendido a ser um pouco mais humana e misericordiosa. Que a memória de tamanha crueldade nos teria ensinado, pelo menos, a reconhecer a humanidade dos outros e a não permitir que o sofrimento se tornasse banal.


A história de uma família numa aldeia obscura, visitada um dia por uma narrativa que não era a sua e para sempre presa pela saudade às raízes e ao solo. Era uma história de guerra, do seu fogo arrepiante, ardente e de novo arrepiante. De um amor furioso e de um bombista suicida. De uma rapariga que escapara ao seu destino para se tornar uma palavra, esvaziada do seu significado. De crianças crescidas a remexerem na loucura para encontrarem a sua relevância. De uma verdade que abriu caminho através de mentiras, emergindo de uma fenda, de uma cicatriz, no rosto de um homem.

 

Infelizmente, a História parece insistir em mostrar-nos que ainda temos muito para aprender. E custa aceitar que, tantas décadas depois de 1948, continuem a existir pessoas obrigadas a lutar pelo direito de ter uma pátria, viver em segurança, de permanecer na sua casa e de criar os filhos sem medo do que poderá acontecer no dia seguinte.

A humanidade tem memória, mas nem sempre tem sabedoria!

É um romance duro, comovente e humano. Uma história sobre família, memória, identidade, amor e a capacidade de continuar perante a adversidade. Uma história que nos faz sofrer pelas personagens, mas também valorizar aquilo que tantas vezes damos como garantido, como a tranquilidade de uma manhã, o abraço de quem amamos, a possibilidade de viver sem medo.

 

Em breve, chegará ao fim. O mundo não pode deixar que continue. A devastação aqui está além da compreensão. Israel não pode encobrir isto. Não vai acontecer. O mundo saberá finalmente. As coisas irão mudar.

 

Um livraço. Daqueles que nos deixam a pensar muito depois de fecharmos o livro.


[Opinião] As Leis Fundamentais da Estupidez Humana - Carlo M. Cipolla

                                 


        


Título: As Leis Fundamentais da Estupidez Humana

Série: -

Autor: Carlo M. Cipolla

Data de Leitura: 18/10/2026 ⮞ 19/10/2026

Classificação: ⭐⭐⭐⭐


Sinopse

Desde tempos imemoriais, uma poderosa força negra tem impedido o crescimento do bem-estar e da felicidade humana. É mais poderosa do que a Máfia ou a Milícia. Tem efeitos catastróficos globais e pode ser encontrada em qualquer lugar. Esta é a força imensamente poderosa da estupidez humana.


Carlo M. Cipolla, notável professor de história económica, criou um modelo de vital importância que nos permite detetar, conhecer e neutralizar esta ameaç As Leis Fundamentais da Estupidez Humana. Simultaneamente hilariante e mortalmente sério, este livro irá prepará-lo para realidades políticas desconcertantes, colegas irracionais ou a desgraça desenfreada de jantar com os sogros.


Minha review no GoodReads


«(…) os seres humanos encaixam em quatro categorias fundamentais: os desamparados, os inteligentes, os bandidos e os estúpidos.»


À medida que envelhecemos, vamos apurando o nosso "estupidiómetro", que é como quem diz o radar da estupidez. E tenho a dizer-vos que, minha nossa senhora, há muita gente estúpida! E, ao contrário do que acontecia quando Cipolla escreveu este pequeno manifesto, hoje em dia os estúpidos têm todo o espaço do mundo para fazer ouvir a sua voz. Pior, estão convencidos de que os outros têm todo o interesse em ouvi-los. É uma canseira, Cipolla, é uma canseira!


Este livrinho tem humor, mas também muita sabedoria. Por detrás da ironia, há uma reflexão bastante séria sobre o comportamento humano e sobre os estragos que a estupidez pode causar, sobretudo quando menosprezamos o seu poder destrutivo.


O melhor é mesmo lê-lo. É rapidinho e vale bem a pena!



Primeira Lei Fundamental


«Inevitavelmente, toda a gente subestima sempre o número de indivíduos estúpidos em circulação.»


Segunda Lei Fundamental


«A probabilidade de uma certa pessoa ser estúpida é independente de qualquer outra característica dessa pessoa.»


Terceira Lei Fundamental


«Uma pessoa estúpida é uma pessoa que causa perdas a outra pessoa ou grupo de pessoas enquanto ela própria não retira nenhum ganho da ação e pode até incorrer em perdas.»


Quarta Lei Fundamental


«As pessoas não-estúpidas subestimam sempre o poder destrutivo dos indivíduos estúpidos. Em particular, as pessoas não-estúpidas esquecem-se constantemente de que associarem-se com pessoas estúpidas, ou terem de lidar com elas, resulta infalivelmente num erro custoso, qualquer que seja o momento, o lugar ou sob quaisquer circunstâncias.»


Quinta Lei Fundamental


«Uma pessoa estúpida é o tipo mais perigoso de pessoa que existe.»


O corolário desta lei é que:


«Uma pessoa estúpida é mais perigosa que um bandido.»

[Opinião] Rumo a Casa - Yaa Gyasi

                                  


       

Título: Rumo a Casa

Série: -

Autor: Yaa Gyasi

Data de Leitura: 19/09/2026 ⮞ 18/10/2026

Classificação: ⭐⭐⭐


Sinopse

Effia e Esi, filhas do mesmo pai, nasceram em aldeias diferentes do Gana do século XVIII. Effia casa com um inglês e vive confortavelmente no Castelo da Costa do Cabo. Já Esi, sem que Effia saiba, vê-se aprisionada nas masmorras do mesmo castelo, vendida como escrava e enviada para a América. O Regresso retrata magistralmente o suceder de gerações a partir de Esi e Effia, no Gana e nos Estados Unidos da América.As duas descendências, com os seus episódios íntimos, belos e dramáticos, mostram-nos a história da escravatura e da cultura afro-americana nos continentes africano e americano até à atualidade, lado a lado num fio que se poderá unir. Esta estreia literária de Yaa Gyasi, nascida em 1989, arrebatou a crítica e os leitores, tornando a autora numa das vozes mais promissoras da literatura norte-americana.


Minha review no GoodReads


Gostei muito dos assuntos abordados, mas não tanto da forma como a história está estruturada. A primeira parte é excelente, mas depois a leitura começa a arrastar-se. Os capítulos curtos, dedicados a diferentes personagens e gerações, dificultam a criação de uma ligação com elas e tornam a narrativa confusa, com tantas histórias a sucederem-se sem tempo para nos envolvermos verdadeiramente com cada uma.


Gana


[Opinião] Os Retratos de Golden - Allen Levi

                                 


        


Título: Os Retratos de Golden

Série: -

Autor: Allen Levi

Data de Leitura: 09/10/2026 ⮞ 17/10/2026

Classificação: ⭐⭐⭐


Sinopse

Numa manhã, um estranho chega à pequena cidade de Golden. Ninguém sabe quem é nem de onde veio. O seu nome é Theo, é português e tem 86 anos. E talvez não tenha chegado ali por acaso.


Ao entrar no café da cidade, Theo fica fascinado pelos noventa e dois retratos a lápis pendurados nas paredes, desenhados por um artista local. Um a um, começa a comprá-los para os devolver aos seus «verdadeiros donos». A cada retrato entregue nasce uma nova história, uma amizade inesperada e uma vida transformada. E naquele pequeno lugar, a presença de Theo torna-se impossível de ignorar. Mas quem é realmente Theo? E o que o trouxe até Golden?


Comovente, luminoso e profundamente humano, um romance inesquecível sobre generosidade, relações humanas e a extraordinária capacidade que os pequenos gestos têm de mudar vidas. Porque uma única pessoa pode mudar a vida de muitos


Minha review no GoodReads


Já há alguns meses que via muita gente, americanos sobretudo, a indicar este livro. Não sou muito de seguir recomendações, menos ainda de gente que não conheço. Mas fui ler a sinopse e gostei muito da ideia dos retratos e de Theo os comprar para depois os devolver aos seus «donos». Uma ideia simples, mas com potencial para dar origem a histórias interessantes sobre as pessoas, as suas vidas e a forma como se relacionam com os outros.

E, neste aspecto, o livro não me desiludiu por completo. Gostei de algumas das histórias e da forma como os retratos acabam por funcionar como ponto de partida para conhecermos pessoas que, à primeira vista, pouco teriam para nos dizer. Gostei muito da história de Ellen, e também de Lamisha, Asher e Tony, cuja história mostra que as feridas da Guerra do Vietname continuam por sarar. Quanto a Willa, sempre acreditei que Theo …

Pelo caminho, Allen Levi vai deixando umas quantas farpas à sociedade norte-americana, umas mais discretas do que outras. A personagem de Pearce é um bom exemplo daquela mentalidade em que a primeira coisa que interessa saber sobre alguém é o que faz profissionalmente e quanto ganha por ano. É preciso perceber rapidamente se estamos perante um winner ou um loser, porque, pelos vistos, a profissão e o rendimento são excelentes indicadores do valor de uma pessoa. Ou então não!

A questão da imigração é outra farpa lançada ao longo do romance. O episódio do «homenzinho» da Guatemala, um imigrante sem autorização legal que atropelou uma criança, é particularmente significativo. Num país onde a discussão sobre imigração está tão carregada de preconceitos e hostilidade, percebe-se a intenção de nos levar a olhar para a pessoa para lá do rótulo de «ilegal». Ainda assim, acho que o autor poderia ter sido mais incisivo nesta questão.

E depois temos Theo, o português.

Confesso que a sua nacionalidade me deixou algumas dúvidas. Começando pelo nome, Theophilus Gomes Zilavez, que não é propriamente aquilo que me vem à cabeça quando penso num português da sua geração, e continuando pela escassez de elementos que o ligam ao país, fiquei com a sensação de que Portugal serve sobretudo como cenário para um passado nostálgico. Tirando Pinhão nas margens do Douro, a Quinta das Carvalhas, o fado e o vinho do Porto, pouco ou nada o identifica como português.

Até a conversa sobre o café me pareceu desajustada. Em Lisboa bebe-se bica.

Theo estava habituado ao café intenso da Europa — abatanado e pingado em Lisboa, café con leche em Madrid, espresso em Bolonha, café noisette em Marselha.

A certa altura, comecei a imaginar que Allen Levi teria um amigo que lhe falou durante anos das maravilhas de Portugal, do Douro, das vinhas e das tradições, e que o autor resolveu aproveitar essas conversas para construir a personagem. É apenas uma suposição, obviamente, mas o Portugal que encontramos no livro parece-me mais próximo de um postal ilustrado do que de um lugar verdadeiramente conhecido e vivido.

Não é preciso encher uma personagem de referências nacionais para a tornar portuguesa, mas, neste caso, a sua origem parece ter mais importância para a história do que expressão na própria personagem.

E depois há o hino nacional. Quando decidimos pôr um português a cantar A Portuguesa, nunca me lembraria de colocar esta parte:

Se um português, homem, mulher ou criança, tivesse passado por ali naquele momento, teria percebido que Theo estava a cantar o hino nacional. (…) A Portuguesa sozinho, em voz alta e com orgulho.
Theo não interrompeu o ritmo. Estava quase no fim do hino — «Saudai o sol que desponta / Sobre um ridente porvir» — (…)

Outra questão que me incomodou ao longo de todo o romance foi a religião. Percebo que, tendo em conta o momento que se vive nos Estados Unidos, haja uma tentação de recorrer a mensagens de bondade, compaixão e reconciliação. E compreendo a intenção de contrapor a generosidade de Theo a uma sociedade tantas vezes obcecada com o dinheiro, o estatuto e a exclusão dos outros. O problema é que senti que Allen Levi estava a evangelizar em demasia.

Não é preciso professar uma religião para ser uma boa pessoa, ter empatia pelos outros, ser solidário ou praticar o bem. A fé pode ser uma fonte de conforto e de orientação para quem acredita, mas não é proprietária da bondade nem constitui um requisito para a humanidade. Os valores humanistas não precisam de uma justificação religiosa para fazer sentido. E, quando um romance insiste demasiado nesta associação, corre o risco de transformar uma mensagem universal numa mensagem que nem todos os leitores estarão dispostos a subscrever.

Aliás, parece-me haver aqui uma contradição. O livro procura mostrar-nos que devemos olhar para as pessoas para lá das etiquetas que lhes colocamos, mas a insistência na religião pode acabar por privilegiar uma determinada forma de compreender o mundo. A intenção do autor poderá ser meritória, mas isso não significa que todas as suas opções me convençam.

Também não fiquei particularmente impressionada com a escrita. Ao contrário do que vi em algumas reviews, não achei a prosa assim tão eloquente. Por vezes, pareceu-me demasiado simples. Não precisava de uma escrita rebuscada, mas de uma linguagem capaz de dar maior profundidade aos temas e às personagens.
Fica a sensação de que havia aqui matéria para muito mais. Gostei da ideia dos retratos, de algumas das histórias e das farpas à sociedade norte-americana, mas a representação de Portugal, a insistência religiosa e uma escrita que nem sempre faz justiça aos temas acabaram por pesar na leitura.


Achievement Heart-Warmers


[Opinião] Murmúrios da terra - Anna Mariano

                             


 
          

Título: Murmúrios da Terra

Série: -

Autor: Anna Mariano

Data de Leitura: 05/10/2026 ⮞ 15/10/2026

Classificação: ⭐⭐⭐⭐


Sinopse

Uma saga familiar sobre coragem, pertencimento e os caminhos que moldaram o Brasil

Em uma narrativa que mistura ficção e realidade, histórias de amor, receitas de família e acontecimentos que marcaram o país, Murmúrios da terra acompanha quatro décadas da vida de homens e mulheres de diferentes origens e etnias que desafiaram o destino em busca de novas oportunidades.

No centro dessa jornada estão Cecília e Palmira, duas mulheres fortes e resilientes cujas trajetórias atravessam gerações. Enquanto enfrentam desafios, perdas, preconceitos e recomeços, seus caminhos se cruzam em um Brasil em plena transformação, marcado pelo avanço da fronteira agrícola e pelos movimentos migratórios que levaram milhares de famílias a deixar as colônias do Sul e se lançar às amplitudes então solitárias do Centro-Oeste e do Norte do país.

Com sensibilidade e apuro histórico, a premiada escritora Anna Mariano resgata um capítulo pouco explorado da história brasileira. Uma emocionante saga familiar sobre os murmúrios que atravessam gerações e nos lembram que a verdadeira herança de uma família não está no que ela acumula, mas nas histórias que escolhe preservar.


Minha review no GoodReads

Há muito que a migração dos gaúchos para outros estados brasileiros me despertava a curiosidade. Sempre ouvi dizer que foram eles que levaram as grandes plantações para o Paraná, Mato Grosso (ainda antes da divisão) e que chegaram até ao Pará. Conheço bem o Rio Grande do Sul e o Paraná, pelo que, quando soube que Anna Mariano tinha escrito um romance precisamente sobre este movimento migratório, achei que o devia ler.


Três milhões é o número estimado de gaúchos que abandonaram o Rio Grande para tentar a sorte fora.


O Brasil é gigante. Cada região tem as suas características, as suas gentes vindas de partes específicas do mundo, tradições, costumes e uma natureza tão díspar que quase parece estarmos a falar de países diferentes. Já tinha encontrado, noutras leituras, referências aos movimentos migratórios internos, mas a partir de outras realidades. Rachel de Queiroz e Graciliano Ramos deram-me a conhecer as deslocações de populações - os retirantes - do Sertão e do Nordeste em direcção às grandes cidades do Sul–Sudeste. Jorge Amado levou-me à época de ouro do café na Bahia, enquanto Monteiro Lobato retratou o declínio da cultura cafeeira nas cidades do Vale do Paraíba. Faltava-me conhecer melhor esta outra face da história brasileira, vista a partir do Rio Grande do Sul.


Em Murmúrios da Terra, acompanhamos a saga de famílias gaúchas e a sua deslocação para outras regiões do Brasil, num período de grandes transformações na agricultura. A 4.ª Colónia, as raízes familiares e culturais,


Em toda a Quarta Colônia não havia quem não conhecesse os Bortollo. Eram quinze irmãos, grandes, barulhentos, e todos — com exceção de Celestino, marido de Rosa, e Pedro, o mais moço — dependentes do pai.


a vontade de partir e a procura de melhores condições de vida fazem parte de uma narrativa que tem na expansão da soja um dos seus elementos centrais.


É uma planta orgulhosa, que não se preocupa com pessoas. É uma rainha que traz incrustadas em seu manto fábricas de óleo, de adubo, de máquinas, de rações, produção de suínos e de frangos. Traz também silos, hidrovias, portos, estradas, caminhões, comércio de beira de estrada, lojas, oficinas, borracharias. É uma rainha monstruosa com muitos braços, centenas de olhos ou, se preferires, uma água-viva gigante com milhares de filamentos, que pode te encantar com sua beleza, mas pode também te matar.


Aliás, o senhor percebeu que as pessoas estão começando a chamá-la de “a soja”, palavra feminina? Acho que está certo, igual às mulheres, essa planta tem uma capacidade enorme de adaptação. Já há algum tempo a chamo assim, usando o feminino, não só pela já citada adaptabilidade, mas pela atração que exerce sobre os homens e pelo pecado de ambição que faz nascer. Como toda mulher, pelo menos na visão de nós, homens, a soja é uma bênção e uma praga.


Este romance é, acima de tudo, uma celebração dos gaúchos que queriam evoluir, que não se conformaram com o que tinham e partiram em busca de novas oportunidades. A soja foi a forma que encontraram para concretizar os seus objectivos. É esta vontade de progredir, de arriscar e de construir um futuro diferente que me parece constituir a principal mensagem do livro.


Mas uma saga familiar vive, naturalmente, das suas personagens, e aqui há uma tríade feminina que merece destaque: Rosa, Cecília e Palmira. Três mulheres muito fortes, cada uma à sua maneira.


Rosa é a coragem, a resiliência e o amor maternal. É a mama italiana, aquela figura que acolhe, cuida e ama, que representa as raízes e a força da família. Há nela uma capacidade de resistência que não dispensa a ternura.


Cecília é impulsiva, corajosa, empreendedora e aventureira, uma mulher que não parece ter medo de partir à descoberta. No entanto, há uma contradição na sua maneira de viver o amor que não posso deixar de assinalar. Depois de enviuvar do primeiro marido, e já apaixonada por Francesco, casa com ele e muda-se para Porto Alegre. Para satisfazer o segundo marido, aceita que os filhos do primeiro casamento passem a viver noutra casa. Sabe também das traições de Francesco, mas nunca o confronta. É neste aspecto que a considero amorosamente submissa. Uma mulher com garra na vida, mas que, por amor, aceita abdicar de demasiado.


Palmira é outra força da natureza. Inteligente, observadora e lutadora, é uma personagem que se impõe pela capacidade de compreender o mundo à sua volta e de enfrentar as dificuldades. Sendo uma mulher negra, a sua presença tem um peso próprio na narrativa. A relação com Pedro é também uma parte importante da sua história.


Continuo negra, mulher e brasileira, tenho esses três “defeitos”, mas sinto orgulho do que conquistei.


E Pedro foi uma personagem de que gostei particularmente. Aventureiro, empreendedor e cheio de vontade de progredir, representa bem esse espírito de iniciativa que atravessa o romance. Gostei sobretudo da maneira como fala. Há expressões e uma forma de comunicar que me fizeram lembrar alguns amigos gaúchos, o que tornou a personagem ainda mais próxima de mim.


Vou te dizer pra ti o que me agonia: a quantidade de coisa que se tem ainda pra fazer neste país, uma vida só não vence, não sei no que vai dar tudo isso, mas a gente tenta…


Hoje, plantando grande, precisa ter lucro e, pra ter lucro, tem que aprender a lidar com máquina, semente, fertilizante, defensivo, silagem, pá-pá-pá, e isso e aquilo.


Gostava, porém, de ter tido mais Pierina. A história da filha mais velha de Cecília ficou aquém do que esperava, e teria gostado que a autora lhe tivesse dedicado mais espaço. É uma das minhas reservas numa leitura de que, no conjunto, gostei bastante.


Há um comportamento de eternidade nos caramujos. Eles carregam com paciência o início do mundo.