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[Opinião] O Acontecimento - Annie Ernaux

                                    


  

Título: O Acontecimento

Série: -

Autor: Annie Ernaux

Data de Leitura: 02/03/2026 ⮞ 10/03/2026

Classificação: 


Sinopse

Uma jovem de 23 anos, estudante universitária brilhante, descobre que está grávida. Tomada pela vergonha, consciente de que aquela gravidez representará um falhanço social para si e para a sua família, sabe que não poderá ter aquela criança. Mas, na França de 1963, o aborto é ilegal e não existe ninguém a quem possa acorrer. Quarenta anos mais tarde, as memórias daquele acontecimento continuam presentes, num trauma impossível de ultrapassar e cujas sombras se estendem para além da história individual. Escrito com uma clareza acutilante, sem artifícios, este é um romance poderoso sobre sofrimento, justiça e a condição feminina. Escrito por Annie Ernaux em 1999, foi adaptado ao cinema em 2021 por Audrey Diwan, num filme vencedor do Leão de Ouro em Veneza.



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Annie Ernaux– Prémio Nobel da Literatura, 2022

"pela coragem e acuidade clínica com que descortina as raízes, os estranhamentos e os constrangimentos coletivos da memória pessoal "


Annie Ernaux, nasceu em Lillebonne, na Normandia, em 1940, e é uma das vozes mais importantes da literatura francesa.


No início da década de 1960, quando decorre O Acontecimento, de Annie Ernaux, o aborto era ilegal em França e severamente punido pela lei. Simultaneamente, o acesso à contracepção era extremamente limitado. A pílula contraceptiva só seria legalizada no país em 1967 através da Lei Neuwirth, e mesmo depois disso demoraria anos a tornar-se verdadeiramente acessível. Para muitas mulheres, uma gravidez não planeada significava enfrentar um dilema sem alternativas seguras e legais.

É nesse contexto que Annie Ernaux relata a experiência de um aborto clandestino vivido em 1963, quando ainda era estudante. A escrita é directa, quase crua, recusando qualquer romantização. O livro expõe o medo, a solidão e o risco que tantas mulheres enfrentaram numa época em que a lei e a moral social as empurravam para a clandestinidade.


Não é uma leitura confortável. O Acontecimento é duro, por vezes mesmo perturbador, mas é precisamente essa frontalidade que o torna necessário. Ao ler estas páginas, percebemos até que ponto direitos que hoje parecem adquiridos nasceram de histórias como esta.


Terminei este livro em Marraquexe, em Marrocos, e não consegui deixar de pensar no contraste de ler um testemunho sobre a clandestinidade do aborto num lugar onde, ainda hoje, os direitos das mulheres continuam profundamente limitados.




Talvez por isso esta leitura me tenha marcado ainda mais. Não é uma leitura agradável, mas é uma leitura necessária, sobretudo num tempo em que há países que parecem dispostos a fazer retroceder direitos que nos custaram, a nós Mulheres, tanto a alcançar.

[Lido] Jesus na Fogueira - Catherine Clément

                                    


  

Título: Jesus na Fogueira

Série: -

Autor: Catherine Clément

Data de Leitura: 2000-2010

Classificação: 


Sinopse

Um dia, numa cidade indiana, a narradora encontra um homem misterioso que decide contar-lhe a “verdadeira vida de Jesus”.

E se Cristo não tivesse morrido na cruz? Como conta a história mais conhecida de todos os tempos, sem que, logo à partida, desvendemos o seu fim?

Catherine Clément consegue-o de uma maneira magistral, construindo, através da ficção, uma verdade romanesca que utiliza finamente os Evangelhos para melhor os contornar. Pormenor sem ferir sensibilidades nem crenças – afirmando apenas que a literatura é um terreno de imaginação e liberdade.


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[Lido] O Último Encontro - Catherine Clément

                                     





Título: O Último Encontro

Série: -

Autor: Catherine Clément

Data de Leitura: 1990-1999

Classificação: 


Sinopse

Alemanha, 1975: duas mulheres já idosas encontram-se à cabeceira de um velho homem doente, depois de, durante cinquenta anos, terem lutado por um lugar no seu coração. Ele, o velho homem, é Martin Heidegger, o filósofo genial que, em determinado momento, não resistiu ao canto de sereia do nazismo.

As mulheres são Elfride — a esposa legítima, a mãe de família, a burguesa alemã — e Hannah Arendt, a "amante", a intelectual judia, a apátrida com coração de vento.

Como foi possível, no meio de uma tragédia que pôs a Europa a ferro e fogo e face às opções políticas do velho mestre, a história de amor — uma das mais belas histórias de amor deste século — entre Martin e Hannah?

Com este livro admirável, Catherine Clément regressa às duas fontes principais do seu talento romanesco: os amores interditos (como em A Senhora, Por Amor da Índia ou Valsa Inacabada) e a gesta filosófica transfigurada pela ficção (como em A Rameira do Diabo e A Viagem de Théo).


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[Lido] Por amor da Índia - Catherine Clément

                                   


  

Título: Por amor da Índia

Série: -

Autor: Catherine Clément

Data de Leitura: 1990-1999

Classificação: 


Sinopse

1947: o último vive-rei das Índias britâncias, Lord Mountbatten, sobe ao trono em Nova Deli; sua mulher, Lady Edwina, é uma das grandes damas da aristocracia inglesa; o pandita Nehru acaba de ser libertado da prisão — tornar-se-á em breve o primeiro-ministro da Índia independente.

Tudo parece opor Edwina e Nehru e, no entanto, entre o rebelde indiano e a lady inglesa desponta uma paixão impossível, que Lord Mountebatten, o marido, aceitará com nobreza. Decorrem os sangrentos acontecimentos que se seguiram à divisão das Índias em dois países, o Paquistão e a Índia: em poucas semanas, massacres religiosos e epidemias fazem mais de quinhentos mil mortos nas aldeias e nas estradas.

Só um velho homem de setenta e quatro anos compreende a iminência do desastre: o Mahatma Gandhi, que morrerá assassinado depois de ter apaziguado as guerras religiosas no seu país, mas sem ter podido impedir a divisão das Índias. Alguns meses mais tarde, os Mountbatten regressam a Inglaterra. Porém, o amor entre Edwina e Nehru continua: durante doze anos escrever-se-ão todas as noites e viverão juntos um mês por ano. Até à morte de Edwina.

Esta incrível história, lendária na Índia de hoje, faz entrar Nehru e Edwina — casal mítico no coração de uma epopeia contemporânea — no limbo magnífico dos amantes separados.


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[Lido] A Senhora - Catherine Clément

                                 


  

Título: A Senhora

Série: -

Autor: Catherine Clément

Data de Leitura: 1990-1999

Classificação: 


Sinopse

"O nosso verdadeiro nome comum era Nasi, o que significa príncipe. Infelizmente, desde aquela época, já não éramos príncipes, mas sim proscritos."


Perseguida pela Inquisição, Beatriz de Luna, ou Gracia Nasi, nascida em Lisboa em 1510, é a mulher judia, jovem viúva de um banqueiro português (Francisco Mendes), que, herdeira de uma poderosa fortuna, vai pôr em marcha um dos mais impressionantes episódios da Europa seiscentista.

Enfrentando o ódio dos Habsburgos e dos Papas, que a perseguem até à Palestina, ela é a força que irá proteger os cristãos-novos espoliados da Península Ibérica, à cabeça de um império comercial que, tal como o dos Fugger ou o dos Médicis, vergava a cabeça a reis, embaixadores e aristocratas.

Expulsa sucessivamente de Lisboa, Antuérpia, Veneza e Ferrara (onde manda imprimir a primeira Bíblia traduzida para ladino — a célebre Bíblia de Ferrara), A Senhora personifica o êxodo singular dos Marranos, no contexto dos conflitos políticos, comerciais e religiosos da era humanista, num teatro onde se encontram as três grandes religiões do Livro, bem como o Oriente e o Ocidente.

Uma das obras mais vendidas em França durante 1992, A Senhora é um notável romance histórico onde, tal como escreveu o Magazine Littéraire, "o mundo mediterrânico ressuscita com a luz, os seus perfumes, o esplendor e a desgraça dos marranos".


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[Lido] A Mãe - Maxim Gorky

                                   


  


Título: A Mãe

Série: -

Autor: Maxim Gorky

Data de Leitura: 1980-1989

Classificação: 


Sinopse

Traçando a vida de uma mulher da classe trabalhadora na Rússia rural, nas vésperas da Revolução de 1905, A Mãe evoca, de forma poderosa, a crueldade, o absurdo e a amargura de uma vida sob o regime opressivo da Rússia czarista.

Numa cidade fabril anónima, uma mãe de meia-idade pensa que, depois da morte do marido abusivo, terá de encarar uma vida marcada por um trabalho árduo e enfadonho. No entanto, começa gradualmente a ter consciência da presença do filho, um jovem reservado, que passa as noites a ler livros sobre filosofia e economia.

À medida que os dois se aproximam, ele deixa a mãe entrar no seu mundo secreto, no qual os textos, aparentemente inofensivos, representam novas ideias radicais, cuja difusão faz com que Pável esteja em perigo constante. A mãe adere a um grupo socialista revolucionário e, embora fosse radicalizada pelas conversas de Pável e dos seus amigos, dá-lhes, ao mesmo tempo, uma perspetiva humana que valoriza a bondade, a piedade e o amor.

Nesta obra, os objetivos políticos entrelaçam-se com passagens de beleza lírica e personagens vivas e memoráveis. Um romance comovente que se tornou um clássico da literatura mundial.


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[Opinião] Bolo Negro - Charmaine Wilkerson

                                   



Título: Bolo Negro

Série: -

Autor: Charmaine Wilkerson

Data de Leitura: 19/02/2026 ⮞ 01/03/2026

Classificação: 


Sinopse

Os irmãos Byron e Benedetta não se veem há oito anos, mas a súbita morte da mãe obriga-os sentarem-se finalmente à mesma mesa. Eleanor deixou-lhes um bolo no congelador com a críptica instrução de que o deverão partilhar «na altura certa».

Para além do bolo, uma homenagem às origens caribenhas da família, há ainda uma longa gravação áudio que abre com uma revelação impensável: Byron e Benedetta têm uma irmã.

Este, porém, é apenas o primeiro dos muitos segredos que a mãe quer agora, depois de morta, revelar, na esperança de emendar alguns erros do passado.


Nesta estreia surpreendentemente madura, Charmaine Wilkerson explora com fina sensibilidade as questões difíceis da identidade pessoal e social, numa saga familiar intensa, que cruza o tempo e a geografia, fazendo-nos acreditar que é sempre possível regressar a casa.



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3,5 


Há livros que nos conquistam pela arquitectura perfeita, outros conquistam-nos pelo coração. Bolo Negro pertence claramente ao segundo grupo.

O que mais me tocou nesta leitura foi a força silenciosa da Covey, a sua capacidade de resistir, reinventar-se e continuar a amar, mesmo quando a vida lhe exige decisões duras e pouco convencionais. Ao longo da história, percebemos que cada escolha nasce do amor, o amor juvenil e arrebatado por Gibbs, o amor protector pelos dois filhos, B. e B., e o amor persistente pela filha perdida. É esse fio afectivo que une as diferentes fases da sua vida e que dá verdadeira densidade à história.

Gostei particularmente da forma como a amizade com Etta Pringle é construída. Não é ruidosa, não precisa de grandes declarações, é uma presença constante, firme, quase como a água que surge como elemento simbólico ao longo do livro. A água é origem, fuga, memória e ligação. Funciona como um ponto comum entre passado e presente, entre identidade e reinvenção.

É uma história sobre o que fazemos por quem amamos, mesmo quando isso implica silêncio, distância ou incompreensão.

Achei que o excesso de coincidências retira alguma veracidade à narrativa.