Série: -
Autor: Alba de Céspedes
Data de Leitura: 19/07/2026 ⮞ 22/08/2026
Classificação: ⭐⭐⭐⭐⭐
Sinopse
Alessandra sempre quis mais do que a vida lhe oferecia: construindo a sua vida interior à imagem da mãe - artista, livre, apaixonada -, confessa-nos o que pode e sonha uma mulher. Alba de Céspedes, autora de o caderno proibido, deslumbra-nos com um clássico da literatura do pós-guerra.
A infância de Alessandra, em Roma, é marcada pela lenda da mãe, Eleonora, mulher prodigiosa que sonhava ser uma pianista célebre, mas foi somente uma professora de piano infeliz por se ter casado com um homem sem interesse. Após a morte da mãe, Alessandra muda-se para uma casa de família longe da capital. Regressa a Roma quando deflagra a guerra. Conhece então Francesco, um antifascista com quem se casa, e descobre o frémito de colaborar na resistência clandestina. Sente-se, contudo, sempre invisível, e confessa: «Quem conhece estas páginas já sabe que ficar a uma janela sozinha e em silêncio é, desde a minha mais remota infância, uma das minhas condições de felicidade.»
Nas Palavras Dela escrutina impiedosamente o casamento, o mal-estar feminino, o jugo da domesticidade conservadora, o negrume da vida em guerra. Lembrando as vozes literárias de Morante, Ginzburg, Woolf ou Duras, encontramos aqui todo o esplendor da escrita refinada e do imaginário subversivo de Alba de Céspedes, uma das mais intrigantes escritoras do século XX.
Minha review no GoodReads
Publicado originalmente em 1949, Nas Palavras Dela, de Alba de Céspedes, é a história de Alessandra Corteggiani, uma mulher que nos conta a sua vida desde a infância, atravessando a relação com a mãe, a família, Roma, a guerra, o amor, o casamento e, sobretudo, aquilo que significa ser mulher numa sociedade em que a sua existência parece estar sempre dependente dos outros.
E talvez seja precisamente por acompanharmos Alessandra desde tão cedo que o livro se torna tão angustiante. Não estamos perante uma mulher que, de repente, se vê presa numa vida que não escolheu. Vamos percebendo, pouco a pouco, como essa vida foi construída.
A mãe, Eleonora, é uma das personagens que mais gostei. Há nela qualquer coisa de quase místico aos olhos de Alessandra, uma mulher que parece pertencer a um mundo diferente, feito de música, paixão e sofrimento.
É também através dela que Alessandra começa a construir a sua ideia de amor e de felicidade.
Quando lhe pergunta:
— Mãe — perguntei-lhe, com desespero —, pode-se ser feliz alguma vez por amor?
— Oh, sim — disse ela —; creio que sim. Mas é preciso esperar. Por vezes — acrescentou, mais baixinho —, espera-se a vida inteira.
é impossível não pensar na própria vida de Eleonora e naquilo que Alessandra procura desesperadamente encontrar no amor.
A minha mãe não compreendia; e, se a minha mãe não compreendia, nunca ninguém poderia compreender.
Esta frase diz muito sobre Alessandra. A mãe é a primeira pessoa através da qual tenta compreender o mundo e, quando sente que nem ela a consegue compreender, fica quase sem referência.
Depois aparece Francesco.
Conheci Francesco Minelli em Roma, no dia 20 de outubro de 1941.
E Roma é outra das coisas de que gostei particularmente no livro. Não é apenas o cenário onde a história acontece. É uma cidade atravessada pela guerra, pela política, pela cultura e pelas relações entre as personagens. Foi impossível não sentir que, de certa forma, também ia percorrendo Roma com Alessandra.
Quanto a Francesco, confesso que no início achei-o demasiado «perfeitinho». Culto, inteligente, antifascista, aparentemente diferente dos homens que a rodeiam. Mas, à medida que a relação avança, fui ficando cada vez mais incomodada.
Porque, no final, é só mais um homem a fazer coisas de homem.
E talvez seja precisamente isso que mais nos custa a aceitar. Podemos reconhecer num homem ideias progressistas, inteligência, coragem e princípios e, ao mesmo tempo, perceber que ele continua condicionado pelos mesmos papéis e expectativas que fazem parte da sociedade em que vive.
Alessandra também vai percebendo isso, embora nem sempre consiga agir de acordo com aquilo que pensa.
E é aqui que entra aquilo que, para mim, é a questão mais importante de Nas Palavras Dela: a condição da mulher.
Alba de Céspedes não fala apenas de mulheres oprimidas de uma forma abstracta. Mostra mulheres concretas, com desejos, ambições, inteligência e personalidades diferentes, que acabam muitas vezes a esperar pela mesma coisa: o casamento, o emprego, o enxoval, a felicidade, os filhos.
E depois encontram:
a cozinha, a casa, o inchar e desinchar do corpo para pôr filhos no mundo.
É uma frase quase cruel pela simplicidade.
Ao longo do livro, Alessandra observa as mulheres à sua volta e percebe aquilo que existe por trás da imagem que apresentam aos homens
Longe dos olhares masculinos, mostravam-se como realmente eram, sem necessidade de representarem uma incómoda farsa.
Porque existe uma representação permanente. Uma mulher aprende desde cedo o que deve ser, o que deve querer, como deve comportar-se e até aquilo que deve considerar felicidade.
E há uma passagem que, escrita em 1949, me pareceu extraordinariamente actual
Não, dizia eu, abanando a cabeça, não era preciso fazer coisa alguma por nós; também nós, como os homens, pelo simples facto de termos nascido, devíamos ter direito ao respeito da nossa existência.
É exactamente isto!
Não se trata de pedir que façam alguma coisa pelas mulheres. Não se trata de protecção, condescendência ou privilégios. Trata-se do direito de existir. De ter uma vida própria. De poder escolher.
E talvez seja por isso que a mensagem feminista do livro tenha sido, para mim, mais importante do que a própria história de amor.
Até o casamento é desmontado com uma ironia que continua actual.
A mais enganadora virtude do casamento é a facilidade com que, de manhã, se esquece tudo o que aconteceu na noite anterior.
É uma frase que quase nos faz sorrir, mas que depressa se torna amarga. Porque uma das coisas mais perturbadoras do livro é precisamente a normalização. A capacidade de continuar. A discussão termina, chega a manhã, começa outro dia e aquilo que não devia ser aceitável passa a fazer parte da rotina.
Alessandra irritou-me algumas vezes. Noutras senti uma enorme empatia por ela. Compreendi algumas das suas escolhas, mesmo quando não concordava com elas. Mas também tive presente que estamos perante uma mulher de outra época, moldada por uma educação, uma sociedade e umas expectativas que hoje conseguimos questionar com muito mais facilidade.
É difícil saber até que ponto somos livres quando nunca nos ensinaram que podíamos escolher.
E talvez seja por isso que a leitura me foi prendendo cada vez mais.
No início queria ler depressa. Queria avançar, queria saber o que aconteceria. Mas, a partir da ida de Alessandra para os Abruzos, comecei a ler mais lentamente.
Não porque tivesse perdido o interesse.
Pelo contrário.
Queria ficar mais tempo naquela história. Degustá-la.
Já tinha lido O Caderno Proibido e gostado muito da escrita de Alba de Céspedes, mas aqui encontrei uma dimensão diferente. A mesma capacidade de entrar na intimidade de uma mulher, de mostrar aquilo que ela pensa e aquilo que não consegue dizer, mas numa história muito mais ampla e angustiante.
Se em Valeria, d´O Caderno Proibido, assistimos à descoberta de uma mulher que percebe que se foi apagando dentro da família, em Alessandra acompanhamos um percurso muito mais longo. Vemos como se aprende a ser mulher, como se aprende a amar, como se aprende a esperar e como, pouco a pouco, uma pessoa pode ficar presa à vida que os outros imaginaram para ela.
E é talvez aqui que os dois livros mais se aproximam.
A escrita de Alba de Céspedes continua afiada, penetrante e introspectiva. Mas em Nas Palavras Dela senti-a também mais ambiciosa. Há mais personagens, mais lugares, mais história, mais tempo. E, ainda assim, a autora nunca perde aquilo que para mim é o mais forte na sua escrita, a capacidade de nos colocar dentro da cabeça de uma mulher.
No fim, Alessandra escreve:
Não sei se aqueles que me vão julgar terão tempo de ler estas memórias. São longas, de facto, porque também infinitamente longa é, dia após dia, hora após hora, a breve vida de uma mulher; e raramente é uma única causa que a força a uma repentina rebelião.
E não quero dizer muito mais sobre o final.
Ainda não consigo dizer exactamente o que penso sobre ele. Não consigo reduzi-lo a justo ou injusto, compreensível ou incompreensível. Ainda estou a tentar perceber o que senti.
Sei apenas que, quando fechei o livro, fiquei a pensar nas vidas.
Na de Alessandra.
Na de Eleonora.
Naquelas mulheres, do pátio, que esperaram.
Nas escolhas que não fizeram.
Naquilo que poderiam ter sido.
E fiquei com uma frase na cabeça: Como se desperdiçam vidas!
Talvez seja essa a verdadeira história de Nas Palavras Dela. Não apenas a história de um amor ou de um crime, mas a história de uma mulher que passou a vida a tentar perceber como poderia ser feliz sem deixar de ser ela própria.
Publicado há mais de setenta anos, continua a ser um livro que inquieta, perturba e, sobretudo, faz perguntas que ainda não conseguimos deixar completamente para trás.
E isso, para mim, é o que faz um clássico.

















