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[Opinião] Pessoa. Uma Biografia - Richard Zenith

                            


 
          


Título: Pessoa. Uma Biografia

Série: -

Autor: Richard Zenith

Data de Leitura: 17/11/2024 ⮞ 09/08/2026

Classificação: 


Sinopse

Fernando Pessoa é, a par de Luís de Camões, o maior poeta português. E é uma das figuras proeminentes do modernismo europeu, juntamente com escritores como Kafka, Joyce e Proust. O seu vastíssimo legado - da poesia, drama e ficção ao artigo de opinião e escrita mediúnica, cruzando e aprofundando inúmeros domínios do conhecimento (da literatura à religião, passando pela história, a filosofia, a astrologia e tantos outros) - tem vindo a ser progressivamente conhecido pelos leitores portugueses e de todo o mundo.


Porém, o homem por detrás da extraordinária multiplicidade de vozes (os heterónimos e dezenas de outros autores ficcionais), e de uma das obras literárias mais complexas e ricas de todos os tempos, é quase um desconhecido. João Gaspar Simões, com a publicação da sua biografia em 1950, teve o grande mérito de reconhecer a importância de Fernando Pessoa numa altura em que o poeta ainda não era justamente apreciado. Mas a obra não se baseou numa pesquisa mais aprofundada e desde há muitos anos que se sentia a falta de uma obra biográfica de referência.


PESSOA: A BIOGRAPHY, do autor norte-americano naturalizado português Richard Zenith, publicado nos EUA e na Grã-Bretanha em 2021 e que agora se publica em Portugal, vem suprir definitivamente essa lacuna.


Minha review no GoodReads


Foi na altura do 9.º ano que fui apresentada a Fernando Pessoa. A professora de Português, quando nos deu a estudar o episódio do Adamastor n'Os Lusíadas, decidiu também mostrar-nos «O Mostrengo», da Mensagem. Ainda hoje me lembro da forma como declamou o poema e do impacto que aquelas palavras tiveram em mim. Foi o meu primeiro contacto com Pessoa e bastou para despertar uma curiosidade que viria a acompanhar-me durante anos.


V. O MOSTRENGO


O mostrengo que está no fim do mar

Na noite de breu ergueu-se a voar;

À roda da nau voou três vezes,

Voou três vezes a chiar,

E disse: «Quem é que ousou entrar

Nas minhas cavernas que não desvendo,

Meus tectos negros do fim do mundo?»

E o homem do leme disse, tremendo:

«El-Rei D. João Segundo!»


«De quem são as velas onde me roço?

De quem as quilhas que vejo e ouço?»

Disse o mostrengo, e rodou três vezes,

Três vezes rodou imundo e grosso,


«Quem vem poder o que só eu posso,

Que moro onde nunca ninguém me visse

E escorro os medos do mar sem fundo?»

E o homem do leme tremeu, e disse:

«El-Rei D. João Segundo!»


Três vezes do leme as mãos ergueu,

Três vezes ao leme as reprendeu,

E disse no fim de tremer três vezes:

«Aqui ao leme sou mais do que eu:

Sou um Povo que quer o mar que é teu;

E mais que o mostrengo, que me a alma teme

E roda nas trevas do fim do mundo,

Manda a vontade, que me ata ao leme,

De El-Rei D. João Segundo!»


Ilustração a tinta-da-china de José de Almada Negreiros, datada de 1934.

Representação artística para o poema "O Mostrengo", parte da obra Mensagem de Fernando Pessoa.

Colecção do Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian


Mais tarde, no 12.º ano, voltei a encontrar-me com a sua obra. Li tudo o que estava ao meu alcance na época e tornei-me uma admiradora assumida. A complexidade dos heterónimos, a riqueza do pensamento e a singularidade da sua escrita conquistaram-me por completo.


Por isso, quando surgiu a oportunidade de ler Pessoa. Uma Biografia, de Richard Zenith, finalista do Prémio Pulitzer de 2022 na categoria de Biografia, não hesitei. Comecei a leitura a 17 de Novembro de 2024, sem qualquer pressa. Com cerca de 1.200 páginas, este não é um livro para devorar; é um livro para acompanhar, absorver e digerir aos poucos. Em doses homeopáticas.


Ao longo destas páginas, Zenith reconstrói minuciosamente a vida de Fernando Pessoa, desde a infância até à morte, recorrendo a uma investigação impressionante e a um vasto conhecimento da obra e do contexto histórico. Mas o grande mérito desta biografia não está apenas em contar a história do poeta. Está também na forma como nos transporta para a Lisboa da época, para as transformações políticas do país, para as correntes intelectuais da Europa e para um mundo em rápida mudança.


Se a minha admiração pelo escritor se manteve intacta, o mesmo não posso dizer da minha opinião sobre o homem. Já sabia que Pessoa era uma figura excêntrica, contraditória e socialmente desajustada. Esta biografia, porém, revelou-me alguém ainda mais difícil de admirar enquanto pessoa. Arrogante, muitas vezes preconceituoso, frequentemente alheado da realidade prática e, não raras vezes, profundamente irritante.


É precisamente por isso que raramente procuro saber demasiado sobre os autores que leio. Há sempre o risco de encontrar traços de personalidade, opiniões ou comportamentos que entram em choque com os meus valores. Fernando Pessoa não foi excepção. Continuo a considerá-lo um génio literário, mas terminei esta leitura com uma simpatia muito menor pelo homem do que aquela com que a comecei.


Ainda assim, esse desconforto não diminuiu em nada a qualidade da experiência de leitura. Pelo contrário. Zenith evita tanto a veneração cega como a condenação simplista, apresentando um retrato complexo, contraditório e sem concessões de uma das figuras mais importantes da literatura portuguesa.


No final, fiquei com uma admiração renovada pela obra de Pessoa e uma visão muito mais crítica do seu autor. E talvez seja precisamente essa a maior força desta biografia: mostrar-nos que o génio e as fragilidades humanas podem coexistir na mesma pessoa.


Uma obra extraordinária, exigente e indispensável para quem deseja conhecer Fernando Pessoa para lá do mito.



Ilustração é do livro "Fernando Pessoa, o Menino que era Muitos Poetas", escrito por José Jorge Letria e ilustrado por João Fazenda.

[Opinião] Summer - Edith Wharton

                            


 
          

Título: Summer

Série: -

Autor: Edith Wharton

Data de Leitura: 02/08/2026 ⮞ 09/08/2026

Classificação: 


Sinopse

Edith Wharton’s controversial novel Summer is the story of Charity Royall, an ambitious young woman trapped in a stifling small town by both her gender and her social class. When a visiting stranger arrives in town, Charity is awakened to a wider world of possibilities and to the realities that constrain her.

Published in 1917, the novel was both attacked and ignored for openly acknowledging female sexuality and its many inequities. Later generations of critics have come to regard the book as an important turning point in Wharton’s work and a spiritual companion to her classic novel, Ethan Frome.


Minha review no GoodReads


Acabei Summer com sentimentos bastante contraditórios. Gostei da história, gostei da escrita e fiquei particularmente interessada na forma como Edith Wharton retrata a vida de uma jovem mulher numa sociedade em que as escolhas disponíveis para ela são, afinal, muito mais limitadas do que parecem.


How I hate everything!” she murmured.


Mas também passei uma boa parte do livro com vontade de abanar a Charity e dizer-lhe: “Ai Charity, pensa um bocadinho antes de fazeres isso!”


Charity Royall vive em North Dormer, uma pequena localidade da Nova Inglaterra onde parece não haver grande coisa para uma jovem inquieta fazer. 

She stared. “Old houses? Everything’s old in North Dormer, isn’t it? The folks are, anyhow.”


Trabalha na biblioteca local, um emprego que não leva propriamente a sério, e sonha em conseguir dinheiro suficiente para um dia deixar a cidade. Foi adoptada ainda bebé pelo advogado Royall, uma das figuras mais importantes da comunidade, mas a relação entre os dois é tudo menos afectuosa.


E depois aparece Lucius Harney, um jovem arquitecto que está de passagem para estudar os edifícios da região. Para Charity, ele representa muito mais do que um homem por quem se apaixona. Representa um mundo diferente daquele em que vive. Mais culto, mais sofisticado, mais livre. E Charity agarra-se a essa possibilidade com unhas e dentes.


Só que Charity é uma personagem difícil. É fascinante, mas também é uma criatura bastante chata. É amuada, impulsiva, ressentida e, muitas vezes, parece não saber muito bem o que quer, só não quer aquela vida. Consigo ter empatia por ela e, ao mesmo tempo, ficar “p. da vida” com as decisões que toma. Talvez seja essa contradição que a torna tão interessante.


Lucius também não me conquistou. É o típico homem que se apaixona enquanto a paixão não lhe custa nada. Encantador, culto e sedutor, mas egoísta e incapaz de assumir as consequências das suas escolhas. Para Charity, ele representa liberdade; para ele, Charity acaba por ser uma aventura que não põe em causa o seu futuro.


E depois temos o Mr. Royall. Mr. Royall também me encanitou. É autoritário, possessivo e tem aquela irritante convicção de que sabe o que é melhor para Charity. A relação entre os dois é estranha e desconfortável, principalmente depois da atitude que tem para com ela. É verdade que Wharton não o apresenta simplesmente como um monstro, há nele solidão e alguma fragilidade, mas isso não chega para desculpar o seu comportamento nem para fazer dele uma personagem de quem gostemos particularmente.

Ou seja, ninguém está completamente certo e ninguém é completamente livre.

Hoje, em pleno século XXI, há comportamentos que nos parecem inaceitáveis e alguns continuam mesmo a ser difíceis de engolir. Mas também é impossível ignorar o contexto em que Charity vive. Ela toma decisões erradas, mas as alternativas que tem à sua disposição são bastante reduzidas.


O verão é, para Charity, uma espécie de parêntesis na vida. É durante aquele verão que descobre o desejo, o amor, a possibilidade de uma vida diferente e uma liberdade que nunca tinha experimentado. Mas o verão acaba. E com ele acaba também, de certa maneira, a ilusão de que basta querer outra vida para conseguir tê-la.


She had given him all she had—but what was it compared to the other gifts life held for him? She understood now the case of girls like herself to whom this kind of thing happened. They gave all they had, but their all was not enough: it could not buy more than a few moments…


E talvez seja esta a parte mais triste da história. Charity dá tudo o que tem, mas aquilo que para ela é tudo nunca poderá ter o mesmo valor para Lucius. 

Wharton consegue contar uma história aparentemente simples e, por baixo dela, falar de liberdade, desejo, desigualdade e das escolhas que uma mulher pode ou não pode fazer.



Achievement Literally Summer


[Opinião] As Sereias - Emilia Hart

                                   


    


Título: As Sereias

Série: -

Autor: Emilia Hart

Data de Leitura: 26/07/2026 ⮞ 02/08/2026

Classificação: 


Sinopse

2019: Lucy acorda no quarto do ex-namorado, a asfixiá-lo. Horrorizada, foge para casa da irmã, Jess, numa cidade costeira em Nova Gales do Sul, em busca de conforto e de uma explicação para os sonhos vívidos que precederam o ataque. No entanto, Jess está desaparecida. Enquanto aguarda o seu regresso, Lucy vai descobrindo estranhos rumores sobre a cidade: desaparecimentos de homens ao longo de várias décadas, um bebé abandonado numa gruta à beira-mar, sussurros de mulheres vindos do oceano. Os sonhos de Lucy parecem mais reais do que nunca…

1800: Mary e Eliza são condenadas ao exílio e deixam o seu lar na Irlanda, embarcando num navio de prisioneiros com destino à Austrália. À medida que o barco as afasta de tudo o que lhes é familiar, começam a reparar em mudanças bizarras nos próprios corpos.


Minha review no GoodReads


A mitologia irlandesa sempre despertou a minha curiosidade. Há qualquer coisa nas lendas das ilhas britânicas que me fascina. O mar, as brumas, os nevoeiros e a constante sensação de que existe um mundo antigo escondido para lá daquilo que conseguimos ver. Foi precisamente isso que encontrei em As Sereias.


A história acompanha Lucy, que chega a Comber Bay à procura da irmã. O que encontra é uma pequena vila costeira marcada por um antigo naufrágio, por histórias de homens que desaparecem no mar e por um misterioso canto que alguns juram ouvir vindo das águas. Em paralelo, viajamos até ao século XIX para acompanhar Mary e Eliza, duas irmãs irlandesas condenadas ao degredo na Austrália a bordo do Naiad. À medida que as diferentes linhas temporais avançam, os acontecimentos começam a revelar as ligações entre passado e presente.


Emilia Hart faz com que a realidade e o fantástico convivam de forma natural, sem que a mitologia pareça forçada ou em excesso. Gostei especialmente de encontrar referências como Tír fo Thuinn, Land under the Wave a "terra sob as ondas" da tradição irlandesa, que acrescentam profundidade à história e mostram o cuidado na pesquisa que está por trás do livro. As sereias não são apenas criaturas mitológicas, fazem parte de um universo onde o mar guarda memórias, segredos e uma força difícil de explicar.


Este é também um romance feminino. É um livro escrito por uma mulher, sobre mulheres e pensado, acima de tudo, para dar voz às suas experiências. Não significa que os homens não o devam ler, pelo contrário. As relações entre mães, filhas, irmãs e outras mulheres são o verdadeiro coração da história, mostrando como a força pode nascer da união, mesmo nas circunstâncias mais difíceis.


Gostei da sororidade entre as mulheres a bordo do Naiad. Apesar das condições brutais em que viajavam, conseguem criar uma rede de apoio e protecção que acaba por ser um dos aspectos mais marcantes do romance.


As Sereias combina ficção histórica, mitologia irlandesa e um toque de realismo mágico numa história envolvente, onde o mistério anda sempre de mãos dadas com o mar.


Achievement Worlds Away

[Opinião] Amor & C.ª - Julian Barnes

                               



Título: Amor & C.ª

Série: Trois #1

Autor: Julian Barnes

Data de Leitura: 19/07/2026 ⮞ 30/07/2026

Classificação: 


Sinopse

Oliver, Stuart e Gillian. Oliver é o melhor amigo de Stuart e Stuart é o melhor amigo de Oliver. Gillian é namorada de Stuart, com quem virá a casar. Oliver e Stuart não podiam ser mais diferentes: o primeiro, extravagante, está convencido de que é uma luminária; o segundo é sóbrio, tímido e ligado ao «lado prático da vida». Gillian é bonita, inteligente, e ama Stuart; defende que falar de alguém ou de um assunto de forma exaustiva (como propõe o título original em inglês, Talking It Over) só é bom quando não somos o objeto em análise. Depois do casamento, uma explosão: Oliver descobre que está apaixonado por Gillian. Para contar esta história atribulada, cómica e errática, os três revezam-se na narração - com os seus pontos de vista, tiques e tópicos preferidos. Porém, o que começa como uma comédia de equívocos depressa desliza para uma exploração sombria e profunda dos pântanos da alma. Uma história interminável.


Minha review no GoodReads


É curioso como um livro onde acontece tão pouco consegue dar tanto que pensar. Quando comecei Amor & C.ª, pensei que ia ler mais um romance sobre um casamento, um adultério e uma amizade desfeita. No final, percebi que essa história era apenas o pretexto para Julian Barnes explorar a forma como cada pessoa interpreta e reconta a sua própria vida.


O essencial do romance resume-se em poucas linhas. O que faz deste livro uma leitura tão particular é precisamente aquilo que acontece depois. Ou melhor, aquilo que as personagens nos contam sobre o que aconteceu.


Não existe um narrador tradicional. Stu, Oliver, Gillian e, ocasionalmente, outras personagens dirigem-se directamente ao leitor. Falam connosco como se estivéssemos sentados à sua frente, confidenciando-nos a sua versão dos acontecimentos. O curioso é que todos falam, mas quase nunca parecem ouvir-se uns aos outros. Cada um constrói a sua própria narrativa, interpreta os mesmos episódios de forma diferente e tenta convencer-nos de que é quem melhor compreende a verdade.


Todos eles estão a tentar manipular o leitor. Barnes nunca nos deixa confortavelmente instalados ao lado de uma única personagem.


Embora a tradução portuguesa me tenha parecido muito competente, decidi continuar a leitura em audiobook, narrado em inglês britânico.

Julian Barnes escreve um humor muito próprio, feito de ironia, sarcasmo e pequenas subtilezas da linguagem que ganham outra vida quando são ouvidas na língua em que foram escritas. Não é uma crítica à tradução, mas há nuances que inevitavelmente se esbatem quando passam para outra língua. Foi sobretudo na voz de Oliver que isso se tornou evidente. O seu humor mordaz, a sua eloquência exagerada e aquele ar de intelectual convencido fizeram-me lembrar, por várias vezes, o humor britânico dos Monty Python.


Stu representa a estabilidade, a previsibilidade e a segurança. Oliver é brilhante, espirituoso e profundamente egocêntrico, uma personagem capaz de nos irritar e divertir na mesma página. Gillian permanece sempre envolta numa certa ambiguidade, tornando impossível classificá-la apenas como vítima ou culpada.


Mas, curiosamente, a personagem de quem mais gostei foi Mme. Rives. Talvez porque, ao contrário dos restantes, não sente necessidade de justificar constantemente quem é nem de conquistar a simpatia do leitor. Limita-se a observar, e essa serenidade foi uma verdadeira acalmia no meio de tanto ego.


Pouco a pouco, percebemos que o triângulo amoroso é apenas o ponto de partida para uma reflexão sobre as relações humanas. Sobre a forma como amamos, como recordamos e, sobretudo, como reescrevemos as nossas memórias para conseguirmos viver com elas.


Amor, etc. A proposição é simples. O mundo divide-se em duas categorias: os que acreditam que a finalidade, a função, o pedal dos graves e a melodia principal da vida é o amor, e que tudo o mais — tudo o mais — é um mero etc.; e os muitos, muitos infelizes que acreditam primeiro nos etc. da vida, e para quem o amor, por agradável que seja, não passa de agitação fugaz da juventude, prelúdio mecânico à tarefa de mudar a fraldinha do bebé, mas não algo de tão sólido, constante e seguro como, digamos, a decoração de interiores. É esta a única diferença que conta, entre as pessoas.


Barnes mostra-nos que não existe uma verdade absoluta quando falamos de relações humanas. Existem apenas diferentes perspectivas, diferentes memórias e diferentes formas de justificar as mesmas decisões.

No fim, percebemos que, na realidade, acontece muito pouco. São apenas três pessoas a falar sobre aquilo que lhes aconteceu. E, no entanto, é dessa conversa interminável que Barnes constrói um romance inteligente sobre o amor, a amizade, a memória e a forma como todos tentamos convencer os outros (e a nós próprios) de que a nossa versão da história é a verdadeira.

[Opinião] Anatomia de um Álibi - Ashley Elston

                            


 
          


Título: Anatomia de um Álibi

Série: -

Autor: Ashley Elston

Data de Leitura: 19/07/2026 ⮞ 25/07/2026

Classificação: 


Sinopse

Duas mulheres. Um marido assassinado. Um único álibi.


À primeira vista, Camille tem a vida perfeita: é casada com o carismático advogado Ben Bayliss e pertence a uma família rica do Louisiana. Contudo, nada é o que parece. Há vários anos que Camille acredita que o marido esconde segredos obscuros, mas ele controla todos os seus passos e não lhe deixa margem para investigar nada. Aubrey Price vive assombrada por uma noite terrível que mudou a sua vida há dez anos e está convencida de que Ben Bayliss sabe mais do que aparenta. Familizarizada com o crime desde criança, Aubrey sabe que há mais do que uma forma de chegar à verdade, e talvez tenha encontrado a melhor. As duas amigas traçam um plano simples: durante doze horas, Aubrey assumirá o lugar de Camille. Enquanto isso, Camille poderá vigiar o marido e descobrir o que ele realmente esconde. Mas, na manhã seguinte, Ben aparece morto. Agora, ambas precisam de um álibi irrefutável e apenas uma o tem. Basta um passo em falso para que tudo desmorone.


Minha review no GoodReads


Anatomia de um Álibi não começou da melhor forma comigo. Entre as mudanças constantes de perspectiva, saltos entre passado e presente e capítulos que acabam sempre precisamente quando a coisa começa a ficar interessante, passei boa parte do início a pensar: "Está bem... mas querem explicar-me o que se passa ou não?"


Felizmente, lá para meio do livro a história ganha finalmente rumo. As peças começam a encaixar, o ritmo acelera e dei por mim a gostar da leitura. A partir daí foi difícil pousá-lo.


Já o final... esse foi um enorme anticlímax. Não porque o mistério fique mal resolvido, mas em vez de uma vitória sobre o passado, nada muda verdadeiramente e o desfecho é apenas uma repetição desse mesmo passado.


Achievement Chart Toppers


[Opinião] A Corte dos Traidores - Robin Hobb

                                 


  


Título: A Corte dos Traidores

Série: The Farseer Trilogy #2 Part 2

Autor: Robin Hobb

Data de Leitura: 10/07/2026 ⮞ 21/07/2026

Classificação:


Sinopse

Os Seis Ducados estão mais vulneráveis do que nunca. Enquanto o príncipe herdeiro combate os Navios Vermelhos com a sua frota e a força do seu Talento, o rei Sagaz enfraquece a cada dia com uma misteriosa doença e bandos de Forjados dirigem-se para Torre do Cervo matando todos pelo caminho.

Mais uma vez, Fitz é chamado para servir como assassino real. Mas o jovem esconde outro segredo: ninguém pode saber que formou um vínculo com um jovem lobo através da magia proibida da Manha e, se for descoberto, arrisca-se a uma sentença de morte.

Quando o príncipe herdeiro embarca numa perigosa missão para pôr fim à ameaça dos Navios Vermelhos, a corte é entregue nas mãos do príncipe Majestoso que tem os seus próprios planos maquiavélicos para o reino. Cabe ao jovem bastardo proteger o verdadeiro rei numa corte prestes a revelar a face dos traidores num clímax memorável.



Minha review no GoodReads


Three down, twelve to go!


A Corte de Traidores – Parte 2 foi, até agora, o livro de que mais gostei.


Depois de feitas as apresentações das personagens, do Reino dos Seis Ducados, dos Forjadores, do Talento e da Manha, finalmente começamos a entrar nos bastidores da corte. E é aqui que a história começa verdadeiramente a ganhar outra dimensão.


Se os dois primeiros volumes foram sobretudo de construção e preparação, neste senti finalmente que todas essas peças começaram a mexer-se. A corte está cheia de jogos de poder, manipulações e interesses escondidos, e gostei muito da forma como Robin Hobb vai construindo toda essa tensão sem precisar de estar constantemente a recorrer à acção.


Fitz continua a ser o centro de tudo, cada vez mais preso entre o dever, a lealdade e aquilo que realmente quer para a sua vida. A sua posição continua a ser incrivelmente complicada. É necessário para o reino, mas nunca pertence verdadeiramente à corte. E quanto mais responsabilidades lhe são atribuídas, mais difícil parece ser encontrar um lugar que seja realmente seu.


Mas é nos bastidores da corte que este livro brilha. Há sempre qualquer coisa a acontecer, mesmo quando aparentemente nada está a acontecer. Conversas, alianças, desconfianças e pequenas decisões que parecem insignificantes, mas que nos deixam constantemente com a sensação de que há muito mais a acontecer por baixo da superfície.


O interesse foi constante e, tivesse eu mais horas de sono para passar acordada e terminar a leitura mais depressa, tê-lo-ia feito. Mesmo não querendo que acabasse.


Até agora, este foi sem dúvida o meu favorito da trilogia. E, pela primeira vez desde que comecei esta longa viagem de quinze volumes, fiquei com aquela sensação perigosa de que talvez vá mesmo querer continuar imediatamente para o próximo.

[DNF] Jantar Secreto - Raphael Montes

                                

Versão brasileira
Versão portuguesa



 
        

Título: Jantar Secreto

Série: -

Autor: Raphael Montes

Data de Leitura: 17/07/2026 ⮞ 19/07/2026

Classificação:


Sinopse

Um grupo de jovens deixa uma pequena cidade no Paraná para viver no Rio de Janeiro. Eles alugam um apartamento em Copacabana e fazem o possível para pagar a faculdade e manter vivos seus sonhos de sucesso na capital fluminense. Mas o dinheiro está curto e o aluguel está vencido. Para sair do buraco e manter o apartamento, os amigos adotam uma estratégia heterodoxa: arrecadar fundos por meio de jantares secretos, divulgados pela internet para uma clientela exclusiva da elite carioca. No cardápio: carne humana. A partir daí, eles se envolvem numa espiral de crimes, descobrem uma rede de contrabando de corpos, matadouros clandestinos, grã-finos excêntricos e levam ao limite uma índole perversa que jamais imaginaram existir em cada um deles.


Minha review no GoodReads


DNF 24%


Desisti de Jantar Secreto, de Raphael Montes! E não, não foi por causa do tema da história. Temas desconfortáveis ou chocantes não são, por si só, motivo para eu abandonar uma leitura. O problema foi mesmo tudo o resto.


Achei a escrita muito fraca, as situações demasiado forçadas e inverosímeis e as personagens muito rasinhas. Os quatro protagonistas são apresentados como “amigos”, mas, sinceramente, nunca consegui acreditar muito nessa amizade. (Amigos entre aspas, porque amigos a sério não são assim.)


E a verdade é que, aos 24%, eu já não queria saber. Não queria saber o que faziam, o que lhes acontecia ou até onde a história iria. A premissa pode ser provocadora e chocante, mas, para mim, não basta uma sucessão de situações cada vez mais extremas para sustentar uma história. Preciso de acreditar nas personagens e de me interessar por elas. Aqui, não aconteceu nem uma coisa nem outra.


Curiosamente, esta não é a minha primeira experiência com o autor. Em 2022 li O Vilarejo e, apesar de ter gostado da forma como os contos estavam interligados e do toque final, achei tudo muito superficial e as personagens... péssimas. Quatro anos depois, a minha opinião sobre a escrita de Raphael Montes não parece ter mudado muito.


Por isso, fica por aqui a minha leitura. E acho que, para já, também fica por aqui a minha “ralação” com o autor.