Translate

Pesquisar neste blogue

[Opinião] O Mal Sobre a Terra: História do Grande Terramoto de Lisboa - Mary del Priore

                                 


      

Título: O Mal Sobre a Terra: História do Grande Terramoto de Lisboa 

Série: -

Autor: Mary del Priore

Data de Leitura: 02/08/2026 ⮞ 04/09/2026

Classificação: 


Sinopse

O grande terramoto de 1755, em Lisboa, não alterou apenas a aparência da, à época, capital do império português. Este fenómeno brutal da natureza alterou, também, a natureza e a dimensão da relação do homem com o Céu e a Terra. Mais, expôs impiedosamente as tensões que, à vez, alimentavam e minavam a sociedade portuguesa da altura.

O fatídico 1.º de Novembro de 1755, dia de Todos os Santos, constitui um dos mais terríficos e fascinantes acontecimentos de todo o século XVIII. A devastação da cidade de Lisboa, a perda de incontáveis vidas, a surpresa e o horror da destruição pelo abalo, primeiro, pela água, depois, e, por fim, pelo fogo, impuseram a subversão da ordem vigente e abriram a porta a fantasmas que povoavam os imaginários mais apocalípticos da época, a começar pela mudança. Com efeito, depois do terramoto, muito, se não tudo, mudaria.

Se Voltaire e Kant dedicaram parte do seu pensamento e escritos a este acontecimento, tal não é menos verdade para inúmeros outros, mais ou menos anónimos, que, tendo vivido o horror e o trauma in loco e sobrevivido para contar, deixaram o seu testemunho sob a forma de cartas, poemas e memórias. Foram estes os documentos que Mary del Priore, reputada historiadora brasileira, leu e releu, analisou e esmiuçou, na bem-sucedida empresa de reconstituir a sociedade, a economia e a geografia lisboeta antes, durante e depois do terramoto.


Minha review no GoodReads


❤️ Lisboa

E talvez ame ainda mais esta cidade por não ter nascido aqui. Vim de outro continente, de terras mais a sul, de paisagens tropicais e de uma realidade muito diferente. Mas Lisboa adoptou-me. Fez-me sua, entranhou-se em mim e, com o tempo, tornou-me filha das suas ruas, da sua história e das suas gentes.

Por isso, há acontecimentos que fazem parte da história de Lisboa que, de alguma forma, também sinto como meus. O Terramoto de 1755 é um deles. Um acontecimento que marcou profundamente a cidade e o país e que, ainda hoje, é impossível dissociar da própria identidade de Lisboa.

Sou daquelas pessoas que gosta de ler sobre o Terramoto de Lisboa e, depois desta leitura, só posso dizer que Mary del Priore fez um trabalho notável.

Em O Mal Sobre a Terra, através de cartas, relatos, documentos e outros registos da época, a autora consegue reconstruir não apenas o terramoto, mas também a Lisboa que existia antes da tragédia e o que aconteceu depois. É uma narrativa histórica muito bem construída, rica em detalhes e que nos revela aspectos que acredito serem desconhecidos para a maioria dos portugueses.

Mais do que contar a destruição provocada pelo terramoto, pelo maremoto e pelos incêndios, a autora dá-nos uma perspectiva muito humana da catástrofe. O medo, a confusão, a morte, a procura de sobreviventes e a necessidade de encontrar explicações para algo que, naquela época, parecia impossível de compreender.

O impacto do Terramoto ultrapassou as fronteiras de Portugal. O acontecimento provocou uma profunda reflexão na Europa sobre a religião, a natureza e a própria existência do mal, chegando a influenciar pensadores como Voltaire e Kant.

E talvez seja precisamente isso que mais gostei neste livro,apesar de conhecermos o acontecimento, há sempre qualquer coisa nova para descobrir. Mary del Priore pega num episódio tantas vezes contado e consegue fazê-lo parecer novamente próximo, quase como se estivéssemos a percorrer as ruas daquela Lisboa de 1755.

[Opinião] A Rapariga que desapareceu - Leslie Wolfe

                                   


    

Título: A Rapariga que Desapareceu

Série: Special Agent Tess Winnett #6

Autor: Leslie Wolfe

Data de Leitura: 03/09/2026 ⮞ 03/09/2026

Classificação: 


Sinopse

A sua filha... onde se encontrava a sua filha...? Pânico. Silêncio terrível.


O único som que ouvia era o do próprio coração, a bater freneticamente contra o peito. Saiu a correr da sala e deteve-se bruscamente no cimo da escada enquanto olhava em volta, para todos os lados. Ficou atordoada, o sangue gelou-se-lhe. Estava desesperada. A sua filha?... alguém a tinha levado.

Depois do desaparecimento de uma menina de apenas oito anos, a agente especial do FBI Tess Winnett foi chamada ao local para investigar um dos raptos mais sinistros que alguma vez lhe passara pelas mãos.

Como fora possível desaparecer uma criança à vista de tanta gente?

Ao iniciar a investigação, as pistas surgem a conta-gotas. Entretanto, os pais da menina são confrontados com um pedido de resgate de soma avultada. As primeiras vinte e quatro horas são críticas. A cada momento, o enredo entrelaça-se mais.

Desesperada por respostas e dolorosamente ciente de cada minuto que passa, Tess tem de fazer uma escolha: confiar no instinto e seguir as pistas que parecem indicar uma ligação com o crime organizado… ou ceder às exigências dos raptores e ao desespero dos pais e viabilizar o pagamento do resgate.

As hipóteses de encontrar Paige com vida diminuem a cada segundo. Fazer a escolha errada selará o seu destino.


Minha review no GoodReads


De regresso a Leslie Wolfe. Estava um calor dos infernos e a única solução foi passar o dia de molho nas águas frescas da piscina. E, para aproveitar o dia, nada como "papar" 264 páginas de uma assentada para o #CrimeNaAreia.


A história é interessante, tem ritmo e um final com um pormenor que surpreende. Ideal para estes dias de calor.




[Opinião] Presa em Casa - Charlie Gallagher

                                     


  


Título: Presa em Casa

Série: Maddie Ives #2

Autor: Charlie Gallagher

Data de Leitura: 28/08/2026 ⮞ 01/09/2026

Classificação: 


Sinopse

O tempo de Grace está a esgotar-se. Estendida no chão da casa de banho, luta por recuperar o fôlego depois de ser pontapeada pelo companheiro. Encolhe-se, com dores nas costas e no tronco, nas zonas onde ele lhe atirou com a porta. Não pode ignorar mais os sinais: se não conseguir escapar dali vai acabar por morrer.


Entretanto, Maddie Ives, detetive numa equipa especializada em proteger mulheres vítimas de maus-tratos, visita Grace depois de uma denúncia anónima. Quando a conhece, recomenda-lhe que mantenha um diário e detalhe tudo o que possa servir como prova em caso de agressão.


Grace procura dizer-lhe o que está a acontecer para que Maddie a ajude. No entanto, não consegue ser totalmente honesta. O companheiro vigia-a constantemente e obriga-a a fingir estar bem quando alguém os visita. Por isso, ninguém entende realmente o seu drama, o terror da situação. Enquanto mantém as aparências, a sua vida está em contagem decrescente.


Ao mesmo tempo, Maddie Ives tem outros assuntos urgentes para resolver: um rapaz morto numa casa de banho, um bombista dentro de um carro à procura de justiça e até o regresso de um antigo colega com cicatrizes profundas do passado. Será ela capaz de lidar com tudo e ainda ajudar Grace a salvar-se?


Minha review no GoodReads

Tal como no volume anterior, não há nada que se destaque neste policial. Em tempo de férias, junto ao mar ou na piscina, é bom para passar o tempo sem exigir que o cérebro trabalhe muito. Mais uma leitura para #CrimeNaAreia.


[Opinião] Stalker - Lars Kepler

                                 


      


Título: Stalker

Série: Joona Linna #5

Autor: Lars Kepler

Data de Leitura: 15/08/2026 ⮞ 28/08/2026

Classificação: 


Sinopse

Um assassino em série aterroriza Estocolmo. Qual voyeurista, ele filma as suas presas, sempre mulheres, na intimidade das suas casas e depois coloca os vídeos no YouTube, enviando em simultâneo um link para o Departamento da Polícia Criminal.

Quando a primeira mulher aparece morta, vítima de um brutal homicídio, a Polícia começa as suas investigações, mas os vídeos que se sucedem não permitem identificar os alvos. Desconfiando de que o marido da segunda vítima, Björn Kern, traumatizado após ter encontrado o corpo da mulher, detém informações cruciais que podem ajudar o caso, a Polícia decide pedir ajuda ao hipnotista Erik Maria Bark. No entanto, aquilo que Björn lhe conta leva Erik a mentir à Polícia.

Se as luzes estiverem acesas, um stalker consegue ver a sua presa do lado de fora, mas, se estiverem apagadas, é impossível ver um stalker que já se encontre dentro de casa. Tranque as portas e corra as cortinas – os Lars Kepler regressaram com um novo thriller de cortar a respiração.


Minha review no GoodReads


Estes nórdicos têm mão para o macabro!


Continuamos a acompanhar Jonna Linna, só que desta vez ele já não pertence às forças policiais. Mas isso não o impede de se meter na investigação e, juntamente com o hipnotista, tentar ajudar a resolver a série de crimes que está a acontecer em Estocolmo.

Esta série está cada vez mais visual, mais cinematográfica e com cenas mais “americanizadas”, mas continua a ser um excelente entretém e, pelos vistos, eu continuo sem conseguir largar Jonna Linna.


Mais um #CrimeNaAreia



[Opinião] Nas palavras dela - Alba de Céspedes

                                 


      


Título: Nas Palavras Dela

Série: -

Autor: Alba de Céspedes

Data de Leitura: 19/07/2026 ⮞ 22/08/2026

Classificação: 


Sinopse

Alessandra sempre quis mais do que a vida lhe oferecia: construindo a sua vida interior à imagem da mãe - artista, livre, apaixonada -, confessa-nos o que pode e sonha uma mulher. Alba de Céspedes, autora de o caderno proibido, deslumbra-nos com um clássico da literatura do pós-guerra.

A infância de Alessandra, em Roma, é marcada pela lenda da mãe, Eleonora, mulher prodigiosa que sonhava ser uma pianista célebre, mas foi somente uma professora de piano infeliz por se ter casado com um homem sem interesse. Após a morte da mãe, Alessandra muda-se para uma casa de família longe da capital. Regressa a Roma quando deflagra a guerra. Conhece então Francesco, um antifascista com quem se casa, e descobre o frémito de colaborar na resistência clandestina. Sente-se, contudo, sempre invisível, e confessa: «Quem conhece estas páginas já sabe que ficar a uma janela sozinha e em silêncio é, desde a minha mais remota infância, uma das minhas condições de felicidade.»

Nas Palavras Dela escrutina impiedosamente o casamento, o mal-estar feminino, o jugo da domesticidade conservadora, o negrume da vida em guerra. Lembrando as vozes literárias de Morante, Ginzburg, Woolf ou Duras, encontramos aqui todo o esplendor da escrita refinada e do imaginário subversivo de Alba de Céspedes, uma das mais intrigantes escritoras do século XX.


Minha review no GoodReads


Publicado originalmente em 1949, Nas Palavras Dela, de Alba de Céspedes, é a história de Alessandra Corteggiani, uma mulher que nos conta a sua vida desde a infância, atravessando a relação com a mãe, a família, Roma, a guerra, o amor, o casamento e, sobretudo, aquilo que significa ser mulher numa sociedade em que a sua existência parece estar sempre dependente dos outros.


E talvez seja precisamente por acompanharmos Alessandra desde tão cedo que o livro se torna tão angustiante. Não estamos perante uma mulher que, de repente, se vê presa numa vida que não escolheu. Vamos percebendo, pouco a pouco, como essa vida foi construída.


A mãe, Eleonora, é uma das personagens que mais gostei. Há nela qualquer coisa de quase místico aos olhos de Alessandra, uma mulher que parece pertencer a um mundo diferente, feito de música, paixão e sofrimento. 

É também através dela que Alessandra começa a construir a sua ideia de amor e de felicidade.

Quando lhe pergunta:

 

— Mãe — perguntei-lhe, com desespero —, pode-se ser feliz alguma vez por amor?

— Oh, sim — disse ela —; creio que sim. Mas é preciso esperar. Por vezes — acrescentou, mais baixinho —, espera-se a vida inteira. 


é impossível não pensar na própria vida de Eleonora e naquilo que Alessandra procura desesperadamente encontrar no amor.


A minha mãe não compreendia; e, se a minha mãe não compreendia, nunca ninguém poderia compreender.


Esta frase diz muito sobre Alessandra. A mãe é a primeira pessoa através da qual tenta compreender o mundo e, quando sente que nem ela a consegue compreender, fica quase sem referência.


Depois aparece Francesco.


Conheci Francesco Minelli em Roma, no dia 20 de outubro de 1941.


E Roma é outra das coisas de que gostei particularmente no livro. Não é apenas o cenário onde a história acontece. É uma cidade atravessada pela guerra, pela política, pela cultura e pelas relações entre as personagens. Foi impossível não sentir que, de certa forma, também ia percorrendo Roma com Alessandra.


Quanto a Francesco, confesso que no início achei-o demasiado «perfeitinho». Culto, inteligente, antifascista, aparentemente diferente dos homens que a rodeiam. Mas, à medida que a relação avança, fui ficando cada vez mais incomodada.

Porque, no final, é só mais um homem a fazer coisas de homem.

E talvez seja precisamente isso que mais nos custa a aceitar. Podemos reconhecer num homem ideias progressistas, inteligência, coragem e princípios e, ao mesmo tempo, perceber que ele continua condicionado pelos mesmos papéis e expectativas que fazem parte da sociedade em que vive.

Alessandra também vai percebendo isso, embora nem sempre consiga agir de acordo com aquilo que pensa.

E é aqui que entra aquilo que, para mim, é a questão mais importante de Nas Palavras Dela: a condição da mulher.

Alba de Céspedes não fala apenas de mulheres oprimidas de uma forma abstracta. Mostra mulheres concretas, com desejos, ambições, inteligência e personalidades diferentes, que acabam muitas vezes a esperar pela mesma coisa: o casamento, o emprego, o enxoval, a felicidade, os filhos.

E depois encontram:

a cozinha, a casa, o inchar e desinchar do corpo para pôr filhos no mundo.

É uma frase quase cruel pela simplicidade.


Ao longo do livro, Alessandra observa as mulheres à sua volta e percebe aquilo que existe por trás da imagem que apresentam aos homens


Longe dos olhares masculinos, mostravam-se como realmente eram, sem necessidade de representarem uma incómoda farsa. 


Porque existe uma representação permanente. Uma mulher aprende desde cedo o que deve ser, o que deve querer, como deve comportar-se e até aquilo que deve considerar felicidade.


E há uma passagem que, escrita em 1949, me pareceu extraordinariamente actual


Não, dizia eu, abanando a cabeça, não era preciso fazer coisa alguma por nós; também nós, como os homens, pelo simples facto de termos nascido, devíamos ter direito ao respeito da nossa existência.


É exactamente isto!

Não se trata de pedir que façam alguma coisa pelas mulheres. Não se trata de protecção, condescendência ou privilégios. Trata-se do direito de existir. De ter uma vida própria. De poder escolher.

E talvez seja por isso que a mensagem feminista do livro tenha sido, para mim, mais importante do que a própria história de amor.


Até o casamento é desmontado com uma ironia que continua actual.


A mais enganadora virtude do casamento é a facilidade com que, de manhã, se esquece tudo o que aconteceu na noite anterior.


É uma frase que quase nos faz sorrir, mas que depressa se torna amarga. Porque uma das coisas mais perturbadoras do livro é precisamente a normalização. A capacidade de continuar. A discussão termina, chega a manhã, começa outro dia e aquilo que não devia ser aceitável passa a fazer parte da rotina.


Alessandra irritou-me algumas vezes. Noutras senti uma enorme empatia por ela. Compreendi algumas das suas escolhas, mesmo quando não concordava com elas. Mas também tive presente que estamos perante uma mulher de outra época, moldada por uma educação, uma sociedade e umas expectativas que hoje conseguimos questionar com muito mais facilidade.


É difícil saber até que ponto somos livres quando nunca nos ensinaram que podíamos escolher.


E talvez seja por isso que a leitura me foi prendendo cada vez mais.

No início queria ler depressa. Queria avançar, queria saber o que aconteceria. Mas, a partir da ida de Alessandra para os Abruzos, comecei a ler mais lentamente.

Não porque tivesse perdido o interesse.

Pelo contrário.

Queria ficar mais tempo naquela história. Degustá-la.


Já tinha lido O Caderno Proibido e gostado muito da escrita de Alba de Céspedes, mas aqui encontrei uma dimensão diferente. A mesma capacidade de entrar na intimidade de uma mulher, de mostrar aquilo que ela pensa e aquilo que não consegue dizer, mas numa história muito mais ampla e angustiante.


Se em Valeria, d´O Caderno Proibido, assistimos à descoberta de uma mulher que percebe que se foi apagando dentro da família, em Alessandra acompanhamos um percurso muito mais longo. Vemos como se aprende a ser mulher, como se aprende a amar, como se aprende a esperar e como, pouco a pouco, uma pessoa pode ficar presa à vida que os outros imaginaram para ela.


E é talvez aqui que os dois livros mais se aproximam.


A escrita de Alba de Céspedes continua afiada, penetrante e introspectiva. Mas em Nas Palavras Dela senti-a também mais ambiciosa. Há mais personagens, mais lugares, mais história, mais tempo. E, ainda assim, a autora nunca perde aquilo que para mim é o mais forte na sua escrita, a capacidade de nos colocar dentro da cabeça de uma mulher.


No fim, Alessandra escreve:


Não sei se aqueles que me vão julgar terão tempo de ler estas memórias. São longas, de facto, porque também infinitamente longa é, dia após dia, hora após hora, a breve vida de uma mulher; e raramente é uma única causa que a força a uma repentina rebelião.


E não quero dizer muito mais sobre o final.

Ainda não consigo dizer exactamente o que penso sobre ele. Não consigo reduzi-lo a justo ou injusto, compreensível ou incompreensível. Ainda estou a tentar perceber o que senti.


Sei apenas que, quando fechei o livro, fiquei a pensar nas vidas.

Na de Alessandra.

Na de Eleonora.

Naquelas mulheres, do pátio, que esperaram.

Nas escolhas que não fizeram.

Naquilo que poderiam ter sido.

E fiquei com uma frase na cabeça: Como se desperdiçam vidas!


Talvez seja essa a verdadeira história de Nas Palavras Dela. Não apenas a história de um amor ou de um crime, mas a história de uma mulher que passou a vida a tentar perceber como poderia ser feliz sem deixar de ser ela própria.

Publicado há mais de setenta anos, continua a ser um livro que inquieta, perturba e, sobretudo, faz perguntas que ainda não conseguimos deixar completamente para trás.

E isso, para mim, é o que faz um clássico.

[Opinião] O Gato e o Rato - M.J. Arlidge

                            


 
          

Título: O Gato e o Rato

Série: Helen Grace #11

Autor: M.J. Arlidge

Data de Leitura: 09/08/2026 ⮞ 15/08/2026

Classificação: 


Sinopse

Quando se sente seguro, quando acha que está sozinho, quando acha que está sozinho, é quando ele ataca... é quando ele ataca...

Há um assassino silencioso à solta na cidade de Southampton. Os seus alvos? Todos os que estejam sozinhos em casa à noite: as presas ideais para o seu jogo mortal.

À medida que o pânico se instala entre os habitantes, a inspetora Helen Grace entra em cena e começa a liderar a investigação, mas a sua vida está virada do avesso: ela própria é uma mulher perseguida, tendo atrás de si um psicopata implacável, obcecado pela vingança.

Seguindo o rasto do assassino, Helen começa a suspeitar que poderá existir algo em concreto que liga estes crimes brutais. Mas o que irá encontrar é mais perverso do que alguma vez poderia conceber...


Minha review no GoodReads


Em 2026 este é o meu primeiro #CrimeNaAreia. 

Helen está de volta. Tenso, intenso e frenético, O Gato e o Rato é mais um thriller cinematográfico que não dá descanso.

Mesma Helen, novos bandidos. E que continuem as perseguições! 

🐱🐭



[Opinião] Os Náufragos do Wager: Uma história de motim e assassínio - David Grann

                                 


      


Título: Os Náufragos do Wager: Uma história de motim e assassínio

Série: -

Autor: David Grann

Data de Leitura: 17/07/2026 ⮞ 14/08/2026

Classificação: 


Sinopse

Em 1742, uma embarcação rudimentar - com trinta homens à beira da morte - deu à costa no litoral do Brasil. Eram sobreviventes do Wager, um navio britânico que deixara a Inglaterra em 1740, parte de uma esquadra de navios de guerra com 2000 homens e uma missão secreta: perseguir e capturar um galeão espanhol cheio de tesouros.

Porém, o Wager acaba por naufragar numa ilha na costa da Patagónia. Seis meses depois, outra embarcação ainda mais decrépita deu à costa chilena com três náufragos que contavam uma história muito diferente: os trinta marinheiros que haviam desembarcado no Brasil não eram heróis - eram amotinados.

Entre acusações de traição, rebeldia, assassínio, tirania, quebra de autoridade, o Almirantado queria saber quem dizia a verdade - e enforcar os culpados. A narrativa de David Grann não explora apenas os perigos e a crueldade da vida no mar, desafiando o escorbuto, a violência e a morte: mostra como a cobiça e a ganância se desenvolveram no gene da humanidade e relata o custo físico e psicológico dessas campanhas imperiais.


Minha review no GoodReads

3,5 ⭐️


Não é uma leitura muito habitual para mim, mas Os Náufragos do Wager: Uma história de motim e assassínio pareceu-me, desde o início, uma história demasiado absurda para ser ignorada. E, de facto, a história é extraordinária. O problema é que, no final, gostei mais daquilo que aconteceu do que da forma como David Grann decidiu contá-lo.



Charles Brooking's 1744 - HMS Wager in extremis


O Wager fazia parte de uma expedição britânica que, em 1740, partiu para o Pacífico com o objectivo de passar o Cabo Horn e de atacar os espanhóis e capturar os seus navios carregados de riquezas.


Como os mares do extremo sul são as únicas águas que fluem ininterruptamente à volta do globo, ganham uma potência enorme, com ondas que chegam a formar-se ao longo de vinte e um mil quilómetros, acumulando força enquanto rolam por um oceano a seguir ao outro. Quando, finalmente, chegam ao Cabo Horn, são comprimidas num corredor estreito entre os promontórios americanos mais a sul e a parte mais a norte da Península Antártica. Este funil, conhecido como a Passagem de Drake, torna a torrente ainda mais pulverizadora. As correntes são não só as mais longas da terra como também as mais fortes, transportando mais de quatro mil milhões de pés cúbicos de água por segundo, mais de seiscentas vezes a descarga do rio Amazonas. E depois ainda há os ventos. Zurzindo consistentemente em direção a leste a partir do Pacífico, onde não há terras que os obstruam, aceleram frequentemente até atingir a força de um furacão e conseguem ultrapassar os trezentos e vinte quilómetros por hora. Os marinheiros referem-se às latitudes em que sopram com nomes que capturam essa intensidade crescente: os Quarenta Rugidores, os Cinquenta Furiosos e os Sessenta Uivantes.


Dito assim até parece uma aventura gloriosa. Na realidade, era uma espécie de sentença de morte voluntária. Anos no mar, tempestades, fome, doenças, frio, disciplina brutal e uma probabilidade bastante razoável de nunca mais voltar a ver terra. Sinceramente, é preciso ter muito pouco amor pela própria vida para embarcar numa coisa destas.


A parte de que mais gostei foi, sem dúvida, o naufrágio e tudo o que se segue. A tripulação do Wager fica entregue a si própria, sem comida suficiente, sem condições, sem saber exactamente onde está e com a autoridade a desmoronar-se aos poucos. É aqui que a história se torna verdadeiramente fascinante. Perceber até onde pode ir um grupo de pessoas quando a sobrevivência passa a ser a única prioridade.


Depois há os relatos contraditórios sobre o que aconteceu. Grann fez um trabalho interessante ao cruzar diários, cartas, testemunhos e outros documentos da época para reconstruir os acontecimentos e tentar perceber quem estava a dizer a verdade. Essa utilização das fontes históricas foi, para mim, um dos pontos fortes do livro. Há qualquer coisa de muito interessante em conseguir reconstruir uma aventura do século XVIII através das palavras daqueles que realmente a viveram.


Embora não tenha sentido particular empatia por nenhuma das personagens, houve uma que teve uma cunha literária: John Byron, o avô de Lord Byron.


Mas foi precisamente aqui que comecei a sentir que faltava qualquer coisa. Quando a história dos náufragos termina, há material extraordinário que parece ser despachado demasiado depressa. Gostava de ter sabido muito mais sobre a viagem de regresso dos homens que partiram com Bulkeley e, sobretudo, sobre Cheap e os homens que ficaram para trás. O que se passou durante os anos em que permaneceram naquela situação? Como sobreviveram? Como se reorganizaram? Como lidaram psicologicamente com tudo aquilo?


Queria mais sumo.

E acho que este foi o meu maior problema com o livro. A história tinha potencial para ser muito mais completa do que aquilo que Grann escolheu contar.


O estilo também não me conquistou totalmente. A narrativa avança quase como se estivéssemos a assistir a um filme. Isso torna a leitura bastante fluida, mas, para mim, também lhe retira alguma profundidade. Fiquei muitas vezes com a sensação de que estava a ver os acontecimentos de fora, quando teria gostado de entrar mais naquele mundo e perceber melhor a mentalidade daqueles homens.


E houve ainda alguns pormenores que me fizeram torcer o nariz. Por exemplo, no epílogo Grann fala de uma "edição americana" do relato de Bulkeley publicada em 1757.


John Bulkeley escapou para uma terra onde os emigrantes se podiam livrar do fardo do passado e reinventar-se: a América. Instalou-se na colónia da Pensilvânia, esse futuro foco de rebelião, e, em 1757, publicou uma edição americana do seu livro.


Só que em 1757 os Estados Unidos ainda nem sequer existiam. Tratava-se de uma edição publicada em Filadélfia, na colónia britânica da Pensilvânia. Pode parecer um pormenor, mas numa obra que pretende reconstruir acontecimentos históricos com base documental, este tipo de simplificação incomoda-me.


Gostei do naufrágio, da sobrevivência e da capacidade daqueles homens de continuarem vivos em condições que hoje nos parecem inimagináveis. Gostei da utilização dos documentos históricos e da tentativa de reconstruir diferentes versões dos acontecimentos. Mas faltou-lhe mais tempo passado com aqueles homens nas diferentes viagens de regresso.


Faltou-lhe um pouco mais de "sumo".



Wager remains treated timber found at the Wager wreck site in 2006

https://www.damninteresting.com/dead-reckoning/


Achievement Staff Shelves

Achievement Fact or Fiction