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[Opinião] Harry Potter e a Câmara dos Segredos - J.K. Rowling

                  


2026


Título: Harry Potter e a Câmara dos Segredos

Série: Harry Potter #2

Autor: J.K. Rowling

Data de Leitura: 2000-2010

Classificação: ⭐⭐

Data de Re-Leitura: 02/04/2026 ⮞ 30/04/2026

Re-Classificação: 


Sinopse

Harry Potter é antes de mais o fenómeno editorial de 1999. É-o porque demove crianças de jogos de computador e de infindáveis horas frente ao televisor. É-o porque está traduzido em cerca de 30 idiomas. É-o porque tem angariado os mais importantes prémios de literatura infanto-juvenil. É-o, por fim e entre outras inúmeras razões, porque ocupa há meses consecutivos os primeiros lugares das mais importantes listas de vendas mundiais. Mas Harry Potter, o personagem dos livros de J. K. Rowling, não é um herói habitual. É apenas um miúdo magricela, míope e desajeitado com uma estranha cicatriz na testa. Estranha, de facto, porque afinal encerra misteriosos poderes que o distinguem do cinzento mundo dos muggles (os complicados humanos) e que irá fazer dele uma criança especialmente dotada para o universo da magia. Admitido na escola Howgarts onde se formam os mais famosos feiticeiros do mundo, Harry Potter irá viver todas as aventuras que a sua imaginação lhe irá propocionar. Um grande sucesso editorial que os mais jovens adoram e que apetece também aos adultos.


Minha review no GoodReads

Voltei a Harry Potter e a Câmara dos Segredos e reencontrei o encanto de Hogwarts. O formato full-cast dá uma energia renovada à história, tornando o mistério mais envolvente e as personagens ainda mais vivas.



[DNF] O Que Podemos Saber - Ian McEwan

                               


        


Título: O Que Podemos Saber

Série: -

Autor: Ian McEwan

Data de Leitura: 21/04/2026 ⮞ 26/04/2026

Classificação: 


Sinopse

2014: Num jantar para amigos e colegas próximos, o conceituado poeta Francis Blundy presta homenagem à sua mulher, no aniversário dela, lendo em voz alta um novo poema que lhe dedica: Uma Coroa para Vivien. Mal sabem os convidados que depois daquele jantar serão várias as gerações a especular sobre a mensagem daquele poema, cujo registo original nunca foi encontrado, permanecendo um mistério.

2119: Pouco mais de cem anos depois, grande parte do mundo ocidental está submersa pela subida do nível do mar após um acidente nuclear catastrófico. Aqueles que sobrevivem são assombrados pela riqueza de um mundo que se perdeu. No sul inundado do que costumava ser a Inglaterra, Thomas Metcalfe, um solitário investigador, idealiza o início do século XXI enquanto persegue o fantasma de um poema. Thomas sente fascínio por aquelas vidas selvagens e cheias de riscos, enquanto se debruça sobre os arquivos dessa era distante, cativado pelas possibilidades da vida humana. Quando tropeça numa pista que pode levar à descoberta do poema dedicado a Vivien, encontra também uma história de amores entrelaçados e de um crime brutal, que destrói as suas suposições sobre pessoas que julgava conhecer intimamente.

O que Podemos Saber é uma obra-prima, um tour de force filosófico, uma história de amor sobre pessoas e as palavras que elas deixam para trás, um enredo detectivesco que resgata a nossa actual sensação de catástrofe iminente e imagina um mundo onde nem tudo está completamente perdido.


Minha review no GoodReads


DNF 13%


Nem o pai morre, nem a gente almoça.

Li cerca de 13% de O Que Podemos Saber, de Ian McEwan, e foi o suficiente para perceber que não é para mim. Achei a leitura chata, com personagens entediantes e um ritmo que não me agarrou em momento nenhum.


Acredito que o problema possa ser meu, mas simplesmente não é a minha onda.



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[Opinião] A primavera há de chegar, Bandini - John Fante

                                  


    


Título: A primavera há de chegar, Bandini

Série: The Saga of Arturo Bandini #1

Autor: John Fante

Data de Leitura: 13/04/2026 ⮞ 23/04/2026

Classificação: 


Sinopse

Enquanto a América agoniza no meio da grande crise dos anos 30, Arturo Bandini, filho de emigrantes italianos, faz a passagem da infância para a adolescência, numa pequena cidade do Colorado, desoladora no Inverno, com o seu manto de neve. O pai, pedreiro, desespera com a falta de trabalho e procura consolo no vinho e nas mulheres. A mãe, católica fervorosa, é tão submissa quanto autoritária. À espera da primavera, Arturo debate-se com o primeiro amor e sonha libertar-se do ambiente familiar sufocante.

Com Arturo — alter ego de John Fante —, vislumbramos a vida de toda uma comunidade imigrante italiana, pobre, marginalizada e castrada pela religiosidade, imaginamos o que é não ter oportunidades num país que as promete, reconhecemos que a vulnerabilidade dos mais frágeis é inescapável num país que apregoa o sucesso. Afirmando-se simultaneamente como uma radiografia das dores da adolescência, dos laços de família que se desfazem e dos grilhões que deitam por terra os sonhos dos menos favorecidos, esta é uma trama intensa e comovente.

A primavera há-de chegar, Bandini é o primeiro livro dos quatro que compõem a saga de Arturo Bandini, a grande obra de um nome clássico da literatura americana, mentor de vultos como Charles Bukowski.


Minha review no GoodReads


Começa de forma discreta, sem antecipar totalmente a sua força, e vai-se infiltrando aos poucos até se tornar impossível de largar.


A história acompanha a família Bandini durante um inverno rigoroso no Colorado, marcada pela pobreza, pela fé e por um quotidiano feito de tensões, silêncios e frustrações acumuladas.


John Fante constrói um retrato humano sem julgamentos fáceis, onde as personagens são moldadas pelo contexto em que vivem. Svevo, muitas vezes ausente, e Maria, profundamente religiosa, dão forma a um ambiente familiar opressivo, acentuado pelo frio e pela sensação de clausura constante.


No centro está Arturo, um jovem simultaneamente selvagem e terno, impulsivo e sonhador, cuja energia e olhar sobre o mundo trazem uma dimensão especial ao romance. É impossível não sentir um certo carinho por esta personagem, que se destaca pela sua complexidade e vitalidade.


Sem recorrer a grandes acontecimentos, o livro cresce pela acumulação emocional — e foi exactamente isso que senti ao longo da leitura. Sem um momento claro de viragem, dei por mim completamente agarrada à história. O ambiente, as personagens e a intensidade contida foram-se impondo de forma gradual, tornando esta uma leitura verdadeiramente memorável.

[Opinião] Iracema - José de Alencar

                               


        

Título: Iracema

Série: -

Autor: José de Alencar

Data de Leitura: 13/04/2026 ⮞ 19/04/2026

Classificação: 


Sinopse

Uma das histórias de amor mais aclamadas da literatura brasileira, Iracema, de José de Alencar, apresenta o romance do herói branco com a linda virgem dos lábios de mel. A bela índia Iracema detém o segredo da Jurema, que lhe cobra virgindade. O valente guerreiro português Martim tem a missão de fiscalizar a costa cearense contra invasões estrangeiras. Desse amor proibido nasce o primeiro mestiço, símbolo do povo brasileiro. Obra mais conhecida da literatura romântica nacionalista de José de Alencar, Iracema é uma aventura épica recheada de lirismo poético. Esta edição traz o prefácio de Diana Navas, pesquisadora e autora com diversos livros e artigos publicados em revistas especializadas.


Minha review no GoodReads


Iracema, entre o mito e a linguagem!


Além, muito além daquela serra, que ainda azula no horizonte, nasceu Iracema.

Iracema, a virgem dos lábios de mel, que tinha os cabelos mais negros que a asa da graúna[1], e mais longos que seu talhe de palmeira.

O favo da jati[2] não era doce como seu sorriso; nem a baunilha recendia no bosque como seu hálito perfumado.


É com esta linguagem que Iracema nos transporta para um universo onde a forma tem tanto peso como a própria história.


Não sendo particularmente apreciadora do romantismo, fui surpreendida por um texto que está longe de ser uma simples história de amor. O encontro entre Iracema e Martim funciona antes como símbolo de um choque cultural, onde duas realidades distintas se cruzam e se transformam.


Iracema, Martim e Japi
Praia do Mucuripe
Fortaleza, CE, Brasil


Dessa união nasce Moacir[3], o primeiro cearense, figura que encarna uma origem marcada pela dor e pela perda, mas também pela criação de algo novo. É nesse equilíbrio que o romance constrói um verdadeiro mito fundador do Ceará.

No entanto, é a escrita de José de Alencar que eleva a obra. Não podemos dizer que o autor não foi destemido ao introduzir termos indígenas, sobretudo do tupi, de forma a abrasileirar a língua e criar uma escrita enraizada na paisagem, na natureza e na cultura local, em vez de reproduzir apenas um modelo europeu.

Quando terminei e percebi que tinha gostado tanto, fui ver algumas resenhas… e parece-me que Iracema é a A Sibila dos brasileiros.


Em tupi, Ceará significa “canto da jandaia”[4], uma imagem que parece condensar todo o universo do romance.

Jandaia


****

[1] Graúna - É o pássaro conhecido de cor negra luzidia. Seu nome vem por corrupção de guira – pássaro, e una, abreviação de pixuna – preto.

[2] Jati - equena abelha que fabrica delicioso mel.

[3] Moacir - Filho do sofrimento: de moaci – dor, e ira – desinência que significa saído de.

[4] Jandaia - Este nome que anda escrito por diversas maneiras, nhendaia, nhandaia, e em todas alterado, é apenas um adjetivo qualificativo do substantivo ará. Deriva-se ele das palavras nheng – falar, antan – duro, forte, áspero, e ara – desinência verbal que exprime o agente: nh’ ant’ ara; substituído o t por d e o r por i, tornou-se nhandaia, donde jandaia, que se traduzirá por periquito grasnador. Do canto desta ave, como se viu, é que vem o nome de Ceará, segundo a etimologia que lhe dá a tradição.



Progresso de leitura e citações:


April 14, 2026 – 

6.0% "Ergue a virgem os olhos, que o sol não deslumbra; sua vista perturba-se.

Diante dela e todo a contemplá-la está um guerreiro estranho, se é guerreiro e não algum mau espírito da floresta. Tem nas faces o branco das areias que bordam o mar; nos olhos o azul triste das águas profundas. Ignotas armas e tecidos ignotos cobrem-lhe o corpo."


April 15, 2026 – 

17.0% "– O mel dos lábios de Iracema é como o favo que a abelha fabrica no tronco da guabiroba[2]: tem na doçura o veneno. A virgem dos olhos azuis e dos cabelos do sol[3] guarda para seu guerreiro na taba dos brancos o mel da açucena.


[2] Árvore que dá um azeite amargo.

[3] Em tupi, guaraciaba. Assim chamavam os indígenas aos europeus que tinham os cabelos louros.


Está a ser um desafio!!"


April 15, 2026 – 

18.0% "O sono da manhã pousava nos olhos do Pajé como névoas de bonança pairam ao romper do dia sobre as profundas cavernas da montanha."

April 16, 2026 – 

 25.0% "Se a virgem de Tupã [Iracema] abandonar ao estrangeiro [Martim] a flor de seu corpo, ele morrerá!"


April 18, 2026 – 

34.0% "Abriram-se os braços do guerreiro e seus lábios; o nome da virgem ressoou docemente. (...) Assim a virgem do sertão aninhou-se nos braços do guerreiro. (...) Tupã já não tinha sua virgem na terra dos tabajaras."


April 18, 2026 – 

51.0% "— Teu sangue já vive no seio de Iracema. Ela será mãe de teu filho!

— Filho, dizes tu! — exclamou o cristão em júbilo.

Ajoelhou ali e, cingindo-a com os braços, beijou o ventre fecundo da esposa."


April 19, 2026 – 

58.0% "Às vezes lhe vem à mente a ideia de tornar à sua terra e aos seus; mas ele sabe que Iracema o acompanhará; e essa lembrança lhe remorde o coração. (...)

Iracema também foge dos olhos do esposo, porque já percebeu que esses olhos tão amados se turbam com a vista dela, e, em vez de se encherem de sua beleza como outrora, a despedem de si."


April 19, 2026 – 

62.0% "Nessa hora em que o canto guerreiro dos pitiguaras celebrava a derrota dos guaraciabas, o primeiro filho que o sangue da raça branca gerou nessa terra da liberdade via a luz nos campos da Porangaba."


April 19, 2026 – 

67.0% "— Recebe o filho de teu sangue. Chegaste a tempo; meus seios ingratos já não tinham alimento para dar-lhe!

Pousando a criança nos braços paternos, a desventurada mãe desfaleceu como a justiça se lhe arrancam o bulbo."

[Opinião] Ainda Não Estou Morta - Holly Jackson

                                 


      


Título: Ainda Não Estou Morta

Série: -

Autor: Holly Jackson

Data de Leitura: 09/04/2026 ⮞ 18/04/2026

Classificação: 


Sinopse

Dentro de sete dias, Jet Mason estará morta.

Jet é filha de uma das famílias mais ricas de Woodstock, no Vermont, e com 27 anos, ainda está à espera que a sua vida comece. Até à noite de Halloween, quando é violentamente atacada por um intruso invisível e sofre um ferimento profundo na cabeça. Os médicos têm a certeza de que, dentro de uma semana, a lesão provocará um aneurisma fatal. Para desespero dos pais, Jet rejeita uma operação extremamente arriscada que lhe garante, pelo menos, mais alguns dias de vida.

Jet nunca pensou que tivesse inimigos, mas agora, na única semana que lhe resta de vida, olha para todos com novos olhos: a sua família, a sua ex-melhor amiga, o seu ex-namorado.

À medida que a sua condição se deteriora, retoma contacto com o seu amigo de infância Billy, o único disposto a ajudá-la. Com Billy ao seu lado, está absolutamente determinada a finalmente fazer algo por si: Jet vai desvendar o seu próprio homicídio.


Minha review no GoodReads


Com uma premissa original, este thriller parte da ideia irresistível de que a vítima de um homicídio tem apenas sete dias para descobrir quem a matou. A partir daqui, constrói-se uma história intensa, marcada por uma constante sensação de urgência.

Jet assume o papel de investigadora do próprio crime, conduzindo-nos por uma corrida contra o tempo cheia de tensão e reviravoltas. O ritmo é um dos grandes trunfos do livro, tornando a leitura difícil de largar.

A relação entre Jet e Billy acrescenta uma dimensão emocional genuína à história e equilibra o tom mais sombrio da investigação.

Ainda assim, o livro deixa a sensação de que poderia ter ido mais longe, com alguns aspectos a ficarem por explorar.


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[Opinião] À Espera que Venha o Diabo - Mary MacLane

                                 

      

Título: À Espera que Venha o Diabo

Série: -

Autor: Mary MacLane

Data de Leitura: 17/03/2026 ⮞ 12/04/2026

Classificação: 


Sinopse

À Espera que Venha o Diabo, de Mary MacLane, foi um escândalo e um sucesso de vendas internacional em 1902.

Este livro é o diário escandaloso de Mary MacLane, uma jovem de 19 anos que vive em Butte, Montana, que se auto-intitula «ladra», «vagabunda», «mentirosa» e «filósofa da minha própria escola peripatética».

Com uma escrita provocadora e confessional, a protagonista anseia por experiências mundanas e transborda de desejo bissexual e de revolta contra as injustiças da juventude e de ser mulher, ao mesmo tempo que expressa um orgulho desmesurado pelo seu belo corpo jovem feminino e pela sua mente, rejeitando abertamente a ideia de que era como todas as outras pessoas, da sua época ou de qualquer outra.

Num estilo naturalmente coloquial, a diarista adolescente ousada e angustiada de 1902 soa, mais de um século depois, moderna, e À Espera que Venha o Diabo continua a ser um texto fundamental que tem de ser descoberto.



Minha review no GoodReads


Aqui têm o meu retrato. É o registo de três meses de nada. Estes três meses foram iguais aos três meses que os antecederam e, por certo, serão iguais aos três meses que os seguirão, iguais a todos os meses que passaram desde que me entendo por gente. Nunca há nada de diferente. Nunca acontece nada.


Há livros que parecem escritos com os nervos todos à flor da pele, como se qualquer coisa, qualquer coisa mesmo pudesse ser a faísca final. Um diário que não se comporta como diário, um retrato que não tem vontade nenhuma de ser respeitável. A Mary MacLane de 19 anos escreve como se estivesse sempre à beira de um excesso emocional,

Sou uma filósofa… e uma covarde. Seria infinitamente melhor morrer agora, com as pulsações aceleradas da juventude, do que arrastar-me, ano após ano, ano após ano, e no fim tornar-me numa idosa entorpecida, sem ânimo, sem esperança, com um corpo decrépito, com uma mente decrépita – e nada mais para recordar a não ser as ideações do que poderia ter sido – e fatigada.


verbal, 

Encontro-me, portanto, nesta fase da vida feminina, com dezanove anos, um génio, uma ladra, uma mentirosa, uma vagabunda moral em geral, mais ou menos tola e filósofa da escola peripatética.


existencial 

O que eu não daria por um dia, uma hora, dessa coisa encantada que se chama felicidade! Do que não abdicaria eu.

(…)

Por uma única hora de felicidade, abriria de imediato mão de todas estas coisas: fama, dinheiro, poder, virtude, honra, justiça, verdade, lógica, filosofia e genialidade.


e, ao mesmo tempo, como se estivesse condenada a não sair do mesmo sítio.

Oh, estou condenada, condenadíssima!

Não há uma alma no mundo que se doa de mim ou que se doa comigo, uma única que seja dentre todos os milhões. Ninguém me consegue perceber… ninguém!


E depois há o Diabo. Sempre o Diabo. Não como figura coerente, mas como obsessão, símbolo, fuga, provocação, hipótese de ruptura.

Estou pronta e à espera de dar tudo o que tenho ao Diabo em troca da felicidade.

(…)

Um dia, o Diabo chegará e dirá:

– Vem comigo.

E responderei:

– Sim.

(…) Durante dias! Eu e o Diabo vamos amar-nos de maneira intensa, perfeita, durante dias!


É impossível ler estas partes sem imaginar o terramoto que deve ter provocado nas mentes mais puritanas da época. As senhoras respeitáveis a ajustarem o espartilho com ligeiro desmaio moral, e a decidir que aquilo não era propriamente literatura, mas antes um desvio de carácter com direito a impressão.


Se Mary MacLane tivesse nascido um século depois, o seu diário não seria apenas papel, seria um disco de heavy metal, daquele que se ouve aos gritos para abafar o silêncio de uma cidade pequena.

🔈🔉🔊

He's the razor to the knife, oh, lonely is our lives

My heads spinnin' 'round and 'round...

Shout, shout, shout!

Shout at the devil!


Um dos aspectos mais marcantes de À Espera que Venha o Diabo é a repetição quase obsessiva. As mesmas ideias e frases regressam com pequenas variações, criando um efeito de mantra que é parte essencial do livro. Repetir é uma forma de intensificar emoções e fixar obsessões. A solidão, o tédio, o desejo de reconhecimento, o “eu” e o Diabo voltam sempre, como pensamentos de que ela não consegue escapar. O efeito é hipnótico e inquietante, e acaba por mostrar o turbilhão de pensamentos e sentimentos que vai naquela cabeça.

Mulher, com dezanove anos, filósofa de uma escola peripatética, ladra, génio, mentirosa, idiota… e infeliz, repleta de angústia e desesperança desesperada. O que é a minha vida? Oh, o que há nela para mim?

Houve sempre nada. Haverá sempre nada.

(…)

Não sou boa. Não sou virtuosa. Não sou empática. Não sou generosa. Sou, meramente e acima de tudo, uma criatura de sentimentos intensos e apaixonados. Sinto, sinto tudo. É aí que reside o meu génio. Queima-me como fogo.


À Espera que Venha o Diabo não se lê tanto como uma história, mas como uma presença. A de uma mente inquieta, presa entre o desejo de intensidade e a sensação de que nada muda.

[Opinião] As Sete Irmãs: A Irmã da Sombra: A História de Estrela - Lucinda Riley

                                


      

Título: A Irmã da Sombra

Série: The Seven Sisters #3

Autor: Lucinda Riley

Data de Leitura: 05/04/2026 ⮞ 12/04/2026

Classificação: 


Sinopse

Se procura uma série envolvente e viciante, na qual a trama familiar é o ponto de partida para momentos épicos em vários lugares e épocas, tem o livro perfeito nas mãos.

Prepare-se para viver amores impossíveis, sonhos sem limites e surpresas impressionantes.

Depois da morte do pai, Estrela D’Aplièse está numa encruzilhada. À semelhança do que aconteceu com as suas irmãs, descobre que Pa Salt, como carinhosamente o chamavam, deixou pistas sobre as suas origens - e agora cabe-lhe a ela procurar saber mais. Tímida e enigmática, Estrela sempre se apoiou em CeCe. Agora, ambas as irmãs vivem em Londres. É nessa cidade, onde Estrela continua a não se sentir em casa, que inicia a busca pela sua verdadeira história.

À porta de uma livraria de livros raros, Estrela começa o caminho que a irá levar até Flora MacNichol, uma jovem inglesa que, cem anos antes, vivera no idílico cenário do campo inglês e tivera como grande inspiração Beatrix Potter. Como poderão duas mulheres, com um século a separá-las, ligar-se através da escrita de diários e sentir-se unidas por sentimentos de amor, perdão e superação?


Minha review no GoodReads



O ponto de partida de As Sete Irmãs está na mitologia grega. As Plêiades, filhas de Atlas, eram sete irmãs que acabaram transformadas em estrelas. Lucinda Riley pega neste mito antigo e usa-o como pano de fundo para uma série onde o passado nunca está verdadeiramente encerrado e onde a procura pela origem se transforma numa forma de autoconhecimento.


Neste terceiro volume seguimos Astérope / Estrela, a irmã mais reservada de todas, aquela que até aqui viveu quase como sombra da irmã Celeno / CeCe. E, tal como nos livros anteriores, a viagem ao passado volta a ser o coração da história.


(…) às vezes na vida é preciso tomar decisões difíceis e frequentemente dolorosas que, na época, podes achar que magoarão entes queridos. E pode ser que magoem mesmo, pelo menos por um tempo. Muitas vezes, porém, as mudanças provocadas acabarão por ser a melhor coisa para as outras pessoas também. E vão ajudá-las a seguir em frente.


Confesso que o presente foi a parte que menos me agarrou. Estrela é interessante, mas demasiado contida, e senti que a sua história nunca chega a ter o fôlego que prometia. Mouse, Orlando, Marguerite e Rory tinham espaço para muito mais. São personagens do presente com bastante potencial, sobretudo pela forma como entram na vida de Estrela e pelo peso emocional que acabam por ter no seu percurso. No entanto, acabam por não ter o desenvolvimento que prometiam. Percebe-se que são importantes para o caminho que ela está a construir.


Mas no presente, o que mais me desiludiu foi a forma como a mãe de Estrela entra e sai da narrativa. Sendo a busca das origens o fio condutor da série, esperava que este encontro tivesse mais peso emocional e mais tempo para respirar. A revelação acontece depressa e resolve-se ainda mais depressa, deixando a sensação de um caminho que ficou por percorrer.


Em contrapartida, o passado brilha. A história de Flora MacNichol é o que torna este volume tão envolvente. A ambientação rural inglesa, no Lake District, Cumbria, noroeste de Inglaterra, é outro dos pontos fortes: a paisagem, as casas, o ritmo mais lento, o peso das convenções sociais… tudo isso cria um pano de fundo rico e muito vívido. É ali, no passado, que o livro respira melhor, ganha profundidade e nos prende verdadeiramente.


Gostei especialmente da forma como surgem figuras reais como Beatrix Potter e Edward VII, Rei do Reino Unido e Imperador da Índia, mais conhecido entre nós também pela ligação ao Parque Eduardo VII, em Lisboa, onde se realiza a Feira do Livro. No entanto, senti que ambos ficaram aquém do potencial que tinham. A presença de Beatrix Potter, em particular, tinha tudo para ser ainda mais marcante.


No fim, este foi um livro que me agarrou sobretudo pela história do passado. O presente fica um pouco a meio caminho, mas é ali, entre a Cumbria e as vidas que já não existem, que a história realmente respira, e nos faz querer continuar a seguir esta constelação de irmãs.