Translate

Pesquisar neste blogue

[Opinião] À Espera que Venha o Diabo - Mary MacLane

                                 

      

Título: À Espera que Venha o Diabo

Série: -

Autor: Mary MacLane

Data de Leitura: 17/03/2026 ⮞ 12/04/2026

Classificação: 


Sinopse

À Espera que Venha o Diabo, de Mary MacLane, foi um escândalo e um sucesso de vendas internacional em 1902.

Este livro é o diário escandaloso de Mary MacLane, uma jovem de 19 anos que vive em Butte, Montana, que se auto-intitula «ladra», «vagabunda», «mentirosa» e «filósofa da minha própria escola peripatética».

Com uma escrita provocadora e confessional, a protagonista anseia por experiências mundanas e transborda de desejo bissexual e de revolta contra as injustiças da juventude e de ser mulher, ao mesmo tempo que expressa um orgulho desmesurado pelo seu belo corpo jovem feminino e pela sua mente, rejeitando abertamente a ideia de que era como todas as outras pessoas, da sua época ou de qualquer outra.

Num estilo naturalmente coloquial, a diarista adolescente ousada e angustiada de 1902 soa, mais de um século depois, moderna, e À Espera que Venha o Diabo continua a ser um texto fundamental que tem de ser descoberto.



Minha review no GoodReads


Aqui têm o meu retrato. É o registo de três meses de nada. Estes três meses foram iguais aos três meses que os antecederam e, por certo, serão iguais aos três meses que os seguirão, iguais a todos os meses que passaram desde que me entendo por gente. Nunca há nada de diferente. Nunca acontece nada.


Há livros que parecem escritos com os nervos todos à flor da pele, como se qualquer coisa, qualquer coisa mesmo pudesse ser a faísca final. Um diário que não se comporta como diário, um retrato que não tem vontade nenhuma de ser respeitável. A Mary MacLane de 19 anos escreve como se estivesse sempre à beira de um excesso emocional,

Sou uma filósofa… e uma covarde. Seria infinitamente melhor morrer agora, com as pulsações aceleradas da juventude, do que arrastar-me, ano após ano, ano após ano, e no fim tornar-me numa idosa entorpecida, sem ânimo, sem esperança, com um corpo decrépito, com uma mente decrépita – e nada mais para recordar a não ser as ideações do que poderia ter sido – e fatigada.


verbal, 

Encontro-me, portanto, nesta fase da vida feminina, com dezanove anos, um génio, uma ladra, uma mentirosa, uma vagabunda moral em geral, mais ou menos tola e filósofa da escola peripatética.


existencial 

O que eu não daria por um dia, uma hora, dessa coisa encantada que se chama felicidade! Do que não abdicaria eu.

(…)

Por uma única hora de felicidade, abriria de imediato mão de todas estas coisas: fama, dinheiro, poder, virtude, honra, justiça, verdade, lógica, filosofia e genialidade.


e, ao mesmo tempo, como se estivesse condenada a não sair do mesmo sítio.

Oh, estou condenada, condenadíssima!

Não há uma alma no mundo que se doa de mim ou que se doa comigo, uma única que seja dentre todos os milhões. Ninguém me consegue perceber… ninguém!


E depois há o Diabo. Sempre o Diabo. Não como figura coerente, mas como obsessão, símbolo, fuga, provocação, hipótese de ruptura.

Estou pronta e à espera de dar tudo o que tenho ao Diabo em troca da felicidade.

(…)

Um dia, o Diabo chegará e dirá:

– Vem comigo.

E responderei:

– Sim.

(…) Durante dias! Eu e o Diabo vamos amar-nos de maneira intensa, perfeita, durante dias!


É impossível ler estas partes sem imaginar o terramoto que deve ter provocado nas mentes mais puritanas da época. As senhoras respeitáveis a ajustarem o espartilho com ligeiro desmaio moral, e a decidir que aquilo não era propriamente literatura, mas antes um desvio de carácter com direito a impressão.


Se Mary MacLane tivesse nascido um século depois, o seu diário não seria apenas papel, seria um disco de heavy metal, daquele que se ouve aos gritos para abafar o silêncio de uma cidade pequena.

🔈🔉🔊

He's the razor to the knife, oh, lonely is our lives

My heads spinnin' 'round and 'round...

Shout, shout, shout!

Shout at the devil!


Um dos aspectos mais marcantes de À Espera que Venha o Diabo é a repetição quase obsessiva. As mesmas ideias e frases regressam com pequenas variações, criando um efeito de mantra que é parte essencial do livro. Repetir é uma forma de intensificar emoções e fixar obsessões. A solidão, o tédio, o desejo de reconhecimento, o “eu” e o Diabo voltam sempre, como pensamentos de que ela não consegue escapar. O efeito é hipnótico e inquietante, e acaba por mostrar o turbilhão de pensamentos e sentimentos que vai naquela cabeça.

Mulher, com dezanove anos, filósofa de uma escola peripatética, ladra, génio, mentirosa, idiota… e infeliz, repleta de angústia e desesperança desesperada. O que é a minha vida? Oh, o que há nela para mim?

Houve sempre nada. Haverá sempre nada.

(…)

Não sou boa. Não sou virtuosa. Não sou empática. Não sou generosa. Sou, meramente e acima de tudo, uma criatura de sentimentos intensos e apaixonados. Sinto, sinto tudo. É aí que reside o meu génio. Queima-me como fogo.


À Espera que Venha o Diabo não se lê tanto como uma história, mas como uma presença. A de uma mente inquieta, presa entre o desejo de intensidade e a sensação de que nada muda.

[Opinião] As Sete Irmãs: A Irmã da Sombra: A História de Estrela - Lucinda Riley

                                


      

Título: A Irmã da Sombra

Série: The Seven Sisters #3

Autor: Lucinda Riley

Data de Leitura: 05/04/2026 ⮞ 12/04/2026

Classificação: 


Sinopse

Se procura uma série envolvente e viciante, na qual a trama familiar é o ponto de partida para momentos épicos em vários lugares e épocas, tem o livro perfeito nas mãos.

Prepare-se para viver amores impossíveis, sonhos sem limites e surpresas impressionantes.

Depois da morte do pai, Estrela D’Aplièse está numa encruzilhada. À semelhança do que aconteceu com as suas irmãs, descobre que Pa Salt, como carinhosamente o chamavam, deixou pistas sobre as suas origens - e agora cabe-lhe a ela procurar saber mais. Tímida e enigmática, Estrela sempre se apoiou em CeCe. Agora, ambas as irmãs vivem em Londres. É nessa cidade, onde Estrela continua a não se sentir em casa, que inicia a busca pela sua verdadeira história.

À porta de uma livraria de livros raros, Estrela começa o caminho que a irá levar até Flora MacNichol, uma jovem inglesa que, cem anos antes, vivera no idílico cenário do campo inglês e tivera como grande inspiração Beatrix Potter. Como poderão duas mulheres, com um século a separá-las, ligar-se através da escrita de diários e sentir-se unidas por sentimentos de amor, perdão e superação?


Minha review no GoodReads



O ponto de partida de As Sete Irmãs está na mitologia grega. As Plêiades, filhas de Atlas, eram sete irmãs que acabaram transformadas em estrelas. Lucinda Riley pega neste mito antigo e usa-o como pano de fundo para uma série onde o passado nunca está verdadeiramente encerrado e onde a procura pela origem se transforma numa forma de autoconhecimento.


Neste terceiro volume seguimos Astérope / Estrela, a irmã mais reservada de todas, aquela que até aqui viveu quase como sombra da irmã Celeno / CeCe. E, tal como nos livros anteriores, a viagem ao passado volta a ser o coração da história.


(…) às vezes na vida é preciso tomar decisões difíceis e frequentemente dolorosas que, na época, podes achar que magoarão entes queridos. E pode ser que magoem mesmo, pelo menos por um tempo. Muitas vezes, porém, as mudanças provocadas acabarão por ser a melhor coisa para as outras pessoas também. E vão ajudá-las a seguir em frente.


Confesso que o presente foi a parte que menos me agarrou. Estrela é interessante, mas demasiado contida, e senti que a sua história nunca chega a ter o fôlego que prometia. Mouse, Orlando, Marguerite e Rory tinham espaço para muito mais. São personagens do presente com bastante potencial, sobretudo pela forma como entram na vida de Estrela e pelo peso emocional que acabam por ter no seu percurso. No entanto, acabam por não ter o desenvolvimento que prometiam. Percebe-se que são importantes para o caminho que ela está a construir.


Mas no presente, o que mais me desiludiu foi a forma como a mãe de Estrela entra e sai da narrativa. Sendo a busca das origens o fio condutor da série, esperava que este encontro tivesse mais peso emocional e mais tempo para respirar. A revelação acontece depressa e resolve-se ainda mais depressa, deixando a sensação de um caminho que ficou por percorrer.


Em contrapartida, o passado brilha. A história de Flora MacNichol é o que torna este volume tão envolvente. A ambientação rural inglesa, no Lake District, Cumbria, noroeste de Inglaterra, é outro dos pontos fortes: a paisagem, as casas, o ritmo mais lento, o peso das convenções sociais… tudo isso cria um pano de fundo rico e muito vívido. É ali, no passado, que o livro respira melhor, ganha profundidade e nos prende verdadeiramente.


Gostei especialmente da forma como surgem figuras reais como Beatrix Potter e Edward VII, Rei do Reino Unido e Imperador da Índia, mais conhecido entre nós também pela ligação ao Parque Eduardo VII, em Lisboa, onde se realiza a Feira do Livro. No entanto, senti que ambos ficaram aquém do potencial que tinham. A presença de Beatrix Potter, em particular, tinha tudo para ser ainda mais marcante.


No fim, este foi um livro que me agarrou sobretudo pela história do passado. O presente fica um pouco a meio caminho, mas é ali, entre a Cumbria e as vidas que já não existem, que a história realmente respira, e nos faz querer continuar a seguir esta constelação de irmãs.

[Opinião] O Funil do Diabo - Júlia Lopes de Almeida

   




Título: O Funil do Diabo

Série: -

Autor: Júlia Lopes de Almeida

Data de Leitura: 29/03/2023 ⮞ 09/04/2023

Classificação: ⭐


Sinopse

No romance O Funil do Diabo  Julia Lopes de Almeida mergulha o leitor em uma intrincada história de mistério no coração de uma família burguesa, em plena era da industrialização brasileira. Intrigantes roubos assombram a casa da abastada família… Quem seria o responsável? Qual a motivação? Quais os meios usados? Desconfiança, intrigas e obsessão são os temperos desta obra.

Como em outros trabalhos, a escritora dá destaque à situação da mulher na sociedade patriarcal, a postura de autoanulação diante da autoridade dos maridos, a histeria feminina, tão em voga na época, são temas que não ficam intocado na trama.

Baseada na publicação póstuma, feita pelo "Jornal do Commercio", em 1934, que, em uma homenagem à autora recém-falecida, compartilhou com o público o texto até então inédito. Como as outras publicações da Janela Amarela, esta reedição teve ortografia atualizada e conta com notas explicativas, para termos e palavras fora de uso.

Esta edição

Texto integral do romance O Funil do Diabo escrito por Julia Lopes de Almeida, publicado postumamente no Jornal do Commercio (RJ).Trecho do discurso de Afonso Lopes de Almeida, por ocasião de sua posse na Academia Carioca de Letras, que traça um perfil da escritora.Biografia de Julia escrita pela filha, Margarida Lopes de Almeida.Primeiro trabalho jornalístico de Julia Lopes de a crítica à atriz Gemma Cinubertti, publicada na Gazeta de Campinas em 1881.



Minha review no GoodReads


Júlia Lopes de Almeida nasceu em 1862, no Rio de Janeiro, filha dos emigrantes portugueses Adelina Pereira Lopes, musicista, e Valentim José da Silveira (Visconde de São Valentim), médico. A família pertencia à classe alta, o que proporcionou uma excelente educação à promissora escritora.

O pai de Júlia descobriu a vocação da filha, e incentivou-a a que escrevesse um artigo para a Gazeta de Campinas. E foi assim que tudo teve início. Júlia foi uma escritora com uma vasta produção literária conseguindo, à época, viver dos rendimentos da sua profissão.

Era uma mulher muito à frente do seu tempo, era republicana, defendia a educação feminina, o divórcio e a abolição da escravatura.



... Os povos mais fortes, mais práticos, mais ativos, e mais felizes são aqueles onde a mulher não figura como mero objeto de ornamento; em que são guiadas para as vicissitudes da vida com uma profissão que as ampare num dia de luta, e uma boa dose de noções e conhecimentos sólidos que lhe aperfeiçoem as qualidades morais. Uma mãe instruída, disciplinada, bem conhecedora dos seus deveres, marcará, funda, indestrutivelmente, no espírito do seu filho, o sentimento da ordem, do estudo e do trabalho, de que tanto carecemos.

- Júlia Lopes de Almeida, em A Mensageira


Júlia Lopes de Almeida teve uma vida intelectual bastante activa, fez parte do grupo de intelectuais que criaram a Academia Brasileira de Letras, mas o seu nome não foi incluído. Era mulher - a ABL era um clube do Bolinha – e em vez dela foi considerado o nome do marido, Filinto de Almeida – Cadeira 3, sem produção literária de destaque.
Após a sua morte, em 1934, Júlia Lopes de Almeida foi caindo no esquecimento, mas o seu regresso aos escaparates das livrarias deveu-se à leitura obrigatória para o vestibular da Unicamp.

Aos mais desatentos (onde me incluo) há em Lisboa um busto da escritora, ali no Jardim Gomes de Amorim.




O Funil do Diabo, de Júlia Lopes de Almeida, é, à primeira vista, um romance de mistério centrado no desaparecimento de dinheiro e na tentativa de descobrir o culpado. Mas rapidamente percebemos que o verdadeiro interesse não está tanto na resolução do enigma, mas antes na forma como este serve de pretexto para explorar tensões familiares, jogos de aparência e a fragilidade da verdade num determinado meio social.


A história acompanha Juliana, que, perante o desaparecimento de rolos de libras do cofre do marido, se vê envolvida numa investigação que a leva não só a desconfiar dos que a rodeiam, mas também de si própria.


(…) mas isto faz com que me martirize a ideia de eu ter recomeçado com os meus pesadelos de criança e, em atos de sonambulismo, de movimento espontâneo ou não, ter por minhas próprias mãos retirado esse dinheiro do cofre... para o esconder... não sei onde!


É interessante como a lucidez feminina pode ser facilmente posta em causa, pela própria, como forma de justificar certos acontecimentos para os quais ainda não há explicação.


Ao longo do romance, há um ambiente de suspeita constante, onde as relações familiares se revelam instáveis e permeáveis a intrigas. Uma família burguesa que vive profundamente das aparências e prefere ignorar as evidências a enfrentar aquilo que pode comprometer a sua imagem.


A figura do padrasto, ligada à hipnose, acrescenta uma nova dimensão à história e reforça a dúvida entre razão e loucura.


Apesar de ser um romance que retrata bastante bem a sociedade da época, faltou-lhe alguma força e a intriga poderia ser mais impactante.


Júlia Lopes de Almeida não teve a oportunidade de ver esta obra publicada. Morreu em 1934, vítima de malária, oito dias após o retorno de uma viagem a Moçambique. O Funil do Diabo foi publicado postumamente pelo Jornal do Commercio, como “uma novela inédita”, no final do mesmo ano — uma homenagem à autora.


A edição que li inclui ainda dois anexos particularmente tocantes: uma homenagem dos filhos, com textos de Afonso Lopes de Almeida (trecho do discurso de posse na Academia Carioca de Letras) e Margarida Lopes de Almeida (biografia de D. Júlia).


Estes textos, para além do seu valor afectivo, ajudam-nos a perceber quem era esta mulher, oferecendo um olhar mais íntimo.


Uma leitura interessante, sobretudo pelo que revela nas entrelinhas, ainda que com alguns aspectos que poderiam ser mais desenvolvidos.

[Opinião] Um Detalhe Menor - Adania Shibli

                                  


    

Título: Um Detalhe Menor

Série: -

Autor: Adania Shibli

Data de Leitura: 01/04/2026 ⮞ 04/04/2026

Classificação: ⭐⭐⭐⭐⭐


Sinopse

No verão de 1949 - um ano depois da Nakba, a catástrofe que expulsou mais de 700 mil palestinianos das suas terras, e que os israelitas celebram como a Guerra da Independência -, uma unidade de soldados israelitas, ataca um grupo de beduínos no deserto do Negueve, dizimando-o. Entre as vítimas encontra-se uma adolescente que sobrevive ao massacre. É capturada e violada, e depois assassinada e enterrada na areia. É a manhã de 13 de agosto de 1949.

Muitos anos mais tarde, quase na atualidade, uma jovem mulher em Ramallah descobre acidentalmente uma breve menção a esse crime brutal. Obcecada com o assunto, não só devido à natureza macabra do caso, mas também devido ao detalhe menor de ter acontecido precisamente vinte e cinco anos antes de ela nascer, irá embarcar numa viagem para tentar desvendar alguns - dos detalhes que envolvem o crime.

Adania Shibli sobrepõe magistralmente estas duas narrativas translúcidas para evocar um presente para sempre assombrado pelo passado. Com uma prosa inquietante e precisa, Um Detalhe Menor evoca a experiência palestiniana do apagamento, da expropriação e da vida sob a ocupação, ao mesmo tempo que revela a complexidade permanente de se juntar as peças de uma narrativa ocultada por fragmentos de linguagem.


Minha review no GoodReads



Terminei Um Detalhe Menor, de Adania Shibli, e fiquei em silêncio. Não aquele silêncio confortável de quem fecha um livro satisfeito, mas um silêncio pesado, quase imóvel como se fosse preciso tempo para voltar ao mundo.

Dividido em duas partes, o livro constrói-se a partir de um acontecimento real e de uma ficção que o prolonga no tempo.


«Neste sítio, agora despovoado e isolado, nós estamos, de facto, a participar na batalha para que o nosso povo exista e permaneça na região sul. Por conseguinte, não estamos a levar a cabo apenas uma operação militar, mas também uma de cariz nacional. Não podemos deixar que o Negueve seja um deserto desolado, uma presa da aridez para os árabes e os seus animais molestarem.

“Não é o canhão que vencerá, é o homem.”»


Na primeira parte, somos transportados para um episódio ocorrido na Palestina, entre 9 e 13 de Agosto de 1949, em que uma rapariga beduína depois de capturada, violada acaba assassinada por soldados israelitas. Toda a descrição do que se passa nestes cinco dias é distanciada, toda a rotina é diluída em gestos repetitivos, descrições minuciosas, em detalhes insignificantes.


Na segunda parte, a voz muda. Passamos a acompanhar uma jornalista palestiniana que se torna obcecada por esse mesmo acontecimento, apenas por ter ocorrido exactamente 25 anos antes do seu nascimento.


Aconteceu numa manhã que coincidirá, exatamente um quarto de século depois, com a manhã do meu nascimento. Naturalmente, isto poderá parecer puro narcisismo, já que o que me interessou naquele incidente, o que me impressionou mesmo, foi um detalhe secundário quando comparado com os detalhes principais, que só podem ser descritos como trágicos.


A sua investigação leva-a a atravessar espaços físicos e simbólicos, enfrentando postos de controlo, 

Frequentemente ouvi dizer que a travessia do posto de Qalandia ao sábado, que é o dia de hoje, é a pior e a mais difícil altura para o fazer, porque para além de todos os habitantes de Jerusalém virem a Ramallah para comprar legumes frescos no mercado ou para tratar dos seus assuntos, os soldados estão de ânimo vingativo, ressentidos com toda a gente que atravessa o posto e os obriga a trabalhar durante o que era suposto ser o seu dia de descanso semanal, o sábado, dia em que o Senhor, Ele mesmo, descansou.

obstáculos, vigilância e uma constante sensação de ameaça. Aqui, o passado infiltra-se no presente, mostrando que a distância temporal não apaga nada, apenas transforma as formas de violência.

Achei interessante a ausência de nomes nas personagens. Não saber quem são torna tudo mais universal. Como se aquelas figuras pudessem ser substituídas por outras, noutro tempo, noutro lugar, sem que a violência deixasse de existir. 

Em contraste, os lugares são nomeados, antes e depois, como se a geografia carregasse uma memória que as pessoas são impedidas de fixar.

Reconheço o nome de algumas, de onde alguns colegas meus e conhecidos são provenientes, como, por exemplo, Lifta, al-Qastal, Ein Kárim, al-Maliha, al-Jura, Abu Shushah, Saris, Innaba, Jimzu e Deir Tarif. Mas a maioria são nomes que me parecem desconhecidos, a ponto de me causarem um estranho sentimento de melancolia. Khirbat al-‘Amur, Bir Ma‘in, al-Burj, Khirbat al-Buwayra, Beit Shanna, Salbit, al-Qubab, al-Kunayyisa, Kharruba, Khirbat Zakariyya, al-Barriyya, Deir Abu Salama, Al-Na‘ani, Jindas, al-Haditha, Abu al-Fadl, Kasla, e muitas outras.

(…)

com todas as mudanças que ocorreram nesse período e que persistem em confirmar a supressão de toda e qualquer presença palestiniana; nos nomes de cidades e aldeias escritos nas placas de indicação, nos edifícios recentes, nos cartazes publicitários escritos em hebraico, e até nos vastos campos que delimitam o horizonte à minha direita e à esquerda.


Ao longo do livro, certos elementos repetem-se: o cheiro a gasolina, os rituais de limpeza do corpo, a atenção obsessiva ao detalhe e o cão, criando ligações subtis entre as duas partes.

É um livro que não oferece conforto, mas também não é um panfleto. Não tenta explicar o conflito nem fornecer respostas fáceis. Não se trata de relativizar o que é certo ou errado, mas de mostrar como, em contextos de violência prolongada, a desumanização se instala de forma quase banal.



Flying Balloon Girl is perhaps one of Banksy’s most well known artworks. It was painted on a wall on the West Bank in Israel in 2005 and carries a poignant political message. Many believe that the piece signifies the children trapped by the conflict between Israelis and Palestine’s who are longing to fly away to freedom.”

Fonte: https://banksy.newtfire.org/img/graffiti/flying_balloon_girl.jpg


Territórios Palestinos Ocupados

[Opinião] Harry Potter e a Pedra Filosofal - J.K. Rowling

                 

2000-2010


2026


Título: Harry Potter e a Pedra Filosofal

Série: Harry Potter #1

Autor: John Steinbeck

Data de Leitura: 2000-2010

Classificação: ⭐⭐

Data de Re-Leitura: 09/01/2026 ⮞ 02/04/2026

Re-Classificação: 


Sinopse

Harry Potter é antes de mais o fenómeno editorial de 1999. É-o porque demove crianças de jogos de computador e de infindáveis horas frente ao televisor. É-o porque está traduzido em cerca de 30 idiomas. É-o porque tem angariado os mais importantes prémios de literatura infanto-juvenil. É-o, por fim e entre outras inúmeras razões, porque ocupa há meses consecutivos os primeiros lugares das mais importantes listas de vendas mundiais. Mas Harry Potter, o personagem dos livros de J. K. Rowling, não é um herói habitual. É apenas um miúdo magricela, míope e desajeitado com uma estranha cicatriz na testa. Estranha, de facto, porque afinal encerra misteriosos poderes que o distinguem do cinzento mundo dos muggles (os complicados humanos) e que irá fazer dele uma criança especialmente dotada para o universo da magia. Admitido na escola Howgarts onde se formam os mais famosos feiticeiros do mundo, Harry Potter irá viver todas as aventuras que a sua imaginação lhe irá propocionar. Um grande sucesso editorial que os mais jovens adoram e que apetece também aos adultos.


Minha review no GoodReads

Revisitei o mundo encantado de Hogwarts através do audiobook Harry Potter e a Pedra Filosofal (full cast edition) e foi uma experiência surpreendentemente envolvente. As várias vozes dão uma nova vida à história e tornam esta versão especialmente imersiva, mesmo para quem já conhece tão bem este universo criado por J. K. Rowling.

Ainda assim, Severus Snape será sempre, para mim, Alan Rickman.



[Opinião] Hamnet - Maggie O'Farrell

                               


        


Título: Hamnet

Série: -

Autor: Maggie O'Farrell

Data de Leitura: 15/03/2026 ⮞ 31/03/2026

Classificação: 


Sinopse

Hamnet é um romance sobre o filho de Shakespeare. Mas esse é apenas o ponto de partida para Maggie O’Farrell construir uma obra actual, que interroga a origem da dor e envereda por caminhos menos conhecidos do amor e da maternidade.

Numa narrativa que mistura realidade e ficção, a autora irlandesa cria uma das mais importantes obras literárias deste início do século XXI.


Minha review no GoodReads


4,5

Hamnet, de Maggie O'Farrell, é um romance que se impõe mais pela forma como nos faz sentir do que pelo que conta. Partindo de um episódio periférico da vida de William Shakespeare, a morte do seu filho, a autora constrói uma história íntima, onde o centro não está no dramaturgo, mas na figura de Agnes, uma mulher de contornos quase indomáveis, intuitiva, enraizada na natureza e naquilo que escapa à razão.


A escrita é, sem dúvida, o grande trunfo do romance. Há nela uma delicadeza envolvente, uma cadência que nos conduz por entre gestos mínimos, sensações subtis e emoções densas. Maggie O’Farrell cria uma atmosfera onde tudo respira, desde os silêncios da casa até aos ritmos do corpo e da terra.


O episódio da propagação da peste é conduzido através de um percurso inesperado e quase autónomo dentro da narrativa. Esse “conto” introduz uma mudança de ritmo decisiva, expandindo o espaço do romance e ligando a esfera íntima da família a uma tragédia de dimensão global. É também aí que se instala uma tensão e uma sensação de inevitabilidade que nos acompanham até ao desfecho.


Dois momentos destacam-se pela força emocional:

✨ A cena em que Hamnet, diante da doença da irmã, tenta ocupar o seu lugar. Do ponto de vista realista, pode parecer pouco verosímil, mas funciona como um poderoso gesto simbólico. Mais do que um acontecimento credível, trata-se de uma expressão extrema de amor e desespero, que intensifica o peso da perda e confere ao romance uma dimensão quase mítica.

e

✨ A cena em que Agnes amortalha o filho. Este momento não é apenas narrativo; é uma experiência intensa, carregada de dor e silêncio, onde cada gesto, cada dobra do pano, cada respiração transmite a profundidade do luto. Sentimos o peso do corpo de Hamnet. É um instante de grande intensidade, de vulnerabilidade e de emoção, que se impõe como um ponto alto da maternidade e da perda.

O seu filho era feito, é no que está a pensar, dele e dela. Fizeram-no juntos; sepultaram-no juntos. Nunca mais voltará. Uma parte dela gostaria de enovelar o tempo, guardá-lo num novelo, como um fio de lã. Gostaria de fazer a roda de fiar andar para trás, de desfazer o novelo da morte de Hamnet, da sua meninice, da sua infância, do seu nascimento, sempre para trás, até ao momento em que ela e o marido se uniram naquela cama para gerar os gémeos. Gostaria de desbobinar tudo isso até ser de novo lã crua, de encontrar o caminho de volta até àquele momento, e levantar-se-ia, voltaria o rosto para as estrelas, para o céu, para a Lua, e pedir-lhes-ia que alterassem aquilo que estava reservado para ele, rogar-lhes-ia que planeassem um desfecho diferente para ele, por favor, por favor. Tudo faria por isso, daria tudo, sujeitar-se-ia àquilo que os céus quisessem.


O ritmo, sobretudo na primeira metade, pode revelar-se por vezes lento, com longos momentos de contemplação que nem sempre nos agarram a atenção. No entanto, quando o romance encontra o seu equilíbrio, o impacto é inegável. Hamnet é, acima de tudo, uma meditação sobre o amor, a maternidade e o luto, conduzida com uma sensibilidade que evita o excesso e privilegia o silêncio, o gesto e a memória.


Achievement Tale Spinners

[Opinião] As Filhas do Falecido Coronel - Katherine Mansfield

                                    


  

Série: 

Autor: Katherine Mansfield

Data de Leitura: 29/03/2026 ⮞ 29/03/2026

Classificação: 


Sinopse

«Vamos ser fracas, está bem, Jug? Ser fraco é muito mais agradável do que ser forte.»

Que portas se fecham — e que janelas se abrem — nas vidas de duas irmãs em luto pela morte do velho pai, o coronel?


Minha review no GoodReads


O conto As Filhas do Falecido Coronel não assenta num enredo tradicional. Acompanhamos duas irmãs, Constantia e Josephine, após a morte do pai, um homem autoritário que dominou as suas vidas.

Após a morte do pai, seria de esperar que as irmãs conquistassem alguma liberdade, mas, em vez disso, revelam um bloqueio emocional e mostram-se incapazes de tomar decisões. O peso da figura paterna mantém-se mesmo após a sua morte, como se a sua autoridade tivesse sido completamente interiorizada.

O conto termina de forma ambígua, mas profundamente simbólica, revelando a incapacidade das irmãs de romper com a vida que sempre conheceram. Essa incapacidade torna-se evidente no diálogo final:


— Não achas que talvez… — começou.

Mas Josephine interrompeu.

— Estava a pensar se agora… — murmurou.

Pararam; esperaram uma pela outra.

— Continua, Con — disse Josephine.

— Não, não, Jug; tu primeiro — disse Constantia.

— Não, diz o que ias dizer. Tu é que começaste — insistiu Josephine.

— Eu… prefiro ouvir primeiro o que ias dizer — retorquiu Constantia.

— Não sejas tola, Con.

— A sério, Jug.

— Connie!

— Oh, Jug!

Uma pausa. Depois Constantia disse debilmente:

— Não posso dizer o que ia dizer, Jug, porque me esqueci do que era… do que ia dizer.

Josephine ficou em silêncio durante um momento. Contemplou uma grande nuvem, onde antes tinha estado o Sol. Depois respondeu laconicamente:

— Eu também me esqueci.