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[Opinião] O Funil do Diabo - Júlia Lopes de Almeida

   




Título: O Funil do Diabo

Série: -

Autor: Júlia Lopes de Almeida

Data de Leitura: 29/03/2023 ⮞ 09/04/2023

Classificação: ⭐


Sinopse

No romance O Funil do Diabo  Julia Lopes de Almeida mergulha o leitor em uma intrincada história de mistério no coração de uma família burguesa, em plena era da industrialização brasileira. Intrigantes roubos assombram a casa da abastada família… Quem seria o responsável? Qual a motivação? Quais os meios usados? Desconfiança, intrigas e obsessão são os temperos desta obra.

Como em outros trabalhos, a escritora dá destaque à situação da mulher na sociedade patriarcal, a postura de autoanulação diante da autoridade dos maridos, a histeria feminina, tão em voga na época, são temas que não ficam intocado na trama.

Baseada na publicação póstuma, feita pelo "Jornal do Commercio", em 1934, que, em uma homenagem à autora recém-falecida, compartilhou com o público o texto até então inédito. Como as outras publicações da Janela Amarela, esta reedição teve ortografia atualizada e conta com notas explicativas, para termos e palavras fora de uso.

Esta edição

Texto integral do romance O Funil do Diabo escrito por Julia Lopes de Almeida, publicado postumamente no Jornal do Commercio (RJ).Trecho do discurso de Afonso Lopes de Almeida, por ocasião de sua posse na Academia Carioca de Letras, que traça um perfil da escritora.Biografia de Julia escrita pela filha, Margarida Lopes de Almeida.Primeiro trabalho jornalístico de Julia Lopes de a crítica à atriz Gemma Cinubertti, publicada na Gazeta de Campinas em 1881.



Minha review no GoodReads


Júlia Lopes de Almeida nasceu em 1862, no Rio de Janeiro, filha dos emigrantes portugueses Adelina Pereira Lopes, musicista, e Valentim José da Silveira (Visconde de São Valentim), médico. A família pertencia à classe alta, o que proporcionou uma excelente educação à promissora escritora.

O pai de Júlia descobriu a vocação da filha, e incentivou-a a que escrevesse um artigo para a Gazeta de Campinas. E foi assim que tudo teve início. Júlia foi uma escritora com uma vasta produção literária conseguindo, à época, viver dos rendimentos da sua profissão.

Era uma mulher muito à frente do seu tempo, era republicana, defendia a educação feminina, o divórcio e a abolição da escravatura.



... Os povos mais fortes, mais práticos, mais ativos, e mais felizes são aqueles onde a mulher não figura como mero objeto de ornamento; em que são guiadas para as vicissitudes da vida com uma profissão que as ampare num dia de luta, e uma boa dose de noções e conhecimentos sólidos que lhe aperfeiçoem as qualidades morais. Uma mãe instruída, disciplinada, bem conhecedora dos seus deveres, marcará, funda, indestrutivelmente, no espírito do seu filho, o sentimento da ordem, do estudo e do trabalho, de que tanto carecemos.

- Júlia Lopes de Almeida, em A Mensageira


Júlia Lopes de Almeida teve uma vida intelectual bastante activa, fez parte do grupo de intelectuais que criaram a Academia Brasileira de Letras, mas o seu nome não foi incluído. Era mulher - a ABL era um clube do Bolinha – e em vez dela foi considerado o nome do marido, Filinto de Almeida – Cadeira 3, sem produção literária de destaque.
Após a sua morte, em 1934, Júlia Lopes de Almeida foi caindo no esquecimento, mas o seu regresso aos escaparates das livrarias deveu-se à leitura obrigatória para o vestibular da Unicamp.

Aos mais desatentos (onde me incluo) há em Lisboa um busto da escritora, ali no Jardim Gomes de Amorim.




O Funil do Diabo, de Júlia Lopes de Almeida, é, à primeira vista, um romance de mistério centrado no desaparecimento de dinheiro e na tentativa de descobrir o culpado. Mas rapidamente percebemos que o verdadeiro interesse não está tanto na resolução do enigma, mas antes na forma como este serve de pretexto para explorar tensões familiares, jogos de aparência e a fragilidade da verdade num determinado meio social.


A história acompanha Juliana, que, perante o desaparecimento de rolos de libras do cofre do marido, se vê envolvida numa investigação que a leva não só a desconfiar dos que a rodeiam, mas também de si própria.


(…) mas isto faz com que me martirize a ideia de eu ter recomeçado com os meus pesadelos de criança e, em atos de sonambulismo, de movimento espontâneo ou não, ter por minhas próprias mãos retirado esse dinheiro do cofre... para o esconder... não sei onde!


É interessante como a lucidez feminina pode ser facilmente posta em causa, pela própria, como forma de justificar certos acontecimentos para os quais ainda não há explicação.


Ao longo do romance, há um ambiente de suspeita constante, onde as relações familiares se revelam instáveis e permeáveis a intrigas. Uma família burguesa que vive profundamente das aparências e prefere ignorar as evidências a enfrentar aquilo que pode comprometer a sua imagem.


A figura do padrasto, ligada à hipnose, acrescenta uma nova dimensão à história e reforça a dúvida entre razão e loucura.


Apesar de ser um romance que retrata bastante bem a sociedade da época, faltou-lhe alguma força e a intriga poderia ser mais impactante.


Júlia Lopes de Almeida não teve a oportunidade de ver esta obra publicada. Morreu em 1934, vítima de malária, oito dias após o retorno de uma viagem a Moçambique. O Funil do Diabo foi publicado postumamente pelo Jornal do Commercio, como “uma novela inédita”, no final do mesmo ano — uma homenagem à autora.


A edição que li inclui ainda dois anexos particularmente tocantes: uma homenagem dos filhos, com textos de Afonso Lopes de Almeida (trecho do discurso de posse na Academia Carioca de Letras) e Margarida Lopes de Almeida (biografia de D. Júlia).


Estes textos, para além do seu valor afectivo, ajudam-nos a perceber quem era esta mulher, oferecendo um olhar mais íntimo.


Uma leitura interessante, sobretudo pelo que revela nas entrelinhas, ainda que com alguns aspectos que poderiam ser mais desenvolvidos.

[Opinião] Um Detalhe Menor - Adania Shibli

                                  


    

Título: Um Detalhe Menor

Série: -

Autor: Adania Shibli

Data de Leitura: 01/04/2026 ⮞ 04/04/2026

Classificação: ⭐⭐⭐⭐⭐


Sinopse

No verão de 1949 - um ano depois da Nakba, a catástrofe que expulsou mais de 700 mil palestinianos das suas terras, e que os israelitas celebram como a Guerra da Independência -, uma unidade de soldados israelitas, ataca um grupo de beduínos no deserto do Negueve, dizimando-o. Entre as vítimas encontra-se uma adolescente que sobrevive ao massacre. É capturada e violada, e depois assassinada e enterrada na areia. É a manhã de 13 de agosto de 1949.

Muitos anos mais tarde, quase na atualidade, uma jovem mulher em Ramallah descobre acidentalmente uma breve menção a esse crime brutal. Obcecada com o assunto, não só devido à natureza macabra do caso, mas também devido ao detalhe menor de ter acontecido precisamente vinte e cinco anos antes de ela nascer, irá embarcar numa viagem para tentar desvendar alguns - dos detalhes que envolvem o crime.

Adania Shibli sobrepõe magistralmente estas duas narrativas translúcidas para evocar um presente para sempre assombrado pelo passado. Com uma prosa inquietante e precisa, Um Detalhe Menor evoca a experiência palestiniana do apagamento, da expropriação e da vida sob a ocupação, ao mesmo tempo que revela a complexidade permanente de se juntar as peças de uma narrativa ocultada por fragmentos de linguagem.


Minha review no GoodReads



Terminei Um Detalhe Menor, de Adania Shibli, e fiquei em silêncio. Não aquele silêncio confortável de quem fecha um livro satisfeito, mas um silêncio pesado, quase imóvel como se fosse preciso tempo para voltar ao mundo.

Dividido em duas partes, o livro constrói-se a partir de um acontecimento real e de uma ficção que o prolonga no tempo.


«Neste sítio, agora despovoado e isolado, nós estamos, de facto, a participar na batalha para que o nosso povo exista e permaneça na região sul. Por conseguinte, não estamos a levar a cabo apenas uma operação militar, mas também uma de cariz nacional. Não podemos deixar que o Negueve seja um deserto desolado, uma presa da aridez para os árabes e os seus animais molestarem.

“Não é o canhão que vencerá, é o homem.”»


Na primeira parte, somos transportados para um episódio ocorrido na Palestina, entre 9 e 13 de Agosto de 1949, em que uma rapariga beduína depois de capturada, violada acaba assassinada por soldados israelitas. Toda a descrição do que se passa nestes cinco dias é distanciada, toda a rotina é diluída em gestos repetitivos, descrições minuciosas, em detalhes insignificantes.


Na segunda parte, a voz muda. Passamos a acompanhar uma jornalista palestiniana que se torna obcecada por esse mesmo acontecimento, apenas por ter ocorrido exactamente 25 anos antes do seu nascimento.


Aconteceu numa manhã que coincidirá, exatamente um quarto de século depois, com a manhã do meu nascimento. Naturalmente, isto poderá parecer puro narcisismo, já que o que me interessou naquele incidente, o que me impressionou mesmo, foi um detalhe secundário quando comparado com os detalhes principais, que só podem ser descritos como trágicos.


A sua investigação leva-a a atravessar espaços físicos e simbólicos, enfrentando postos de controlo, 

Frequentemente ouvi dizer que a travessia do posto de Qalandia ao sábado, que é o dia de hoje, é a pior e a mais difícil altura para o fazer, porque para além de todos os habitantes de Jerusalém virem a Ramallah para comprar legumes frescos no mercado ou para tratar dos seus assuntos, os soldados estão de ânimo vingativo, ressentidos com toda a gente que atravessa o posto e os obriga a trabalhar durante o que era suposto ser o seu dia de descanso semanal, o sábado, dia em que o Senhor, Ele mesmo, descansou.

obstáculos, vigilância e uma constante sensação de ameaça. Aqui, o passado infiltra-se no presente, mostrando que a distância temporal não apaga nada, apenas transforma as formas de violência.

Achei interessante a ausência de nomes nas personagens. Não saber quem são torna tudo mais universal. Como se aquelas figuras pudessem ser substituídas por outras, noutro tempo, noutro lugar, sem que a violência deixasse de existir. 

Em contraste, os lugares são nomeados, antes e depois, como se a geografia carregasse uma memória que as pessoas são impedidas de fixar.

Reconheço o nome de algumas, de onde alguns colegas meus e conhecidos são provenientes, como, por exemplo, Lifta, al-Qastal, Ein Kárim, al-Maliha, al-Jura, Abu Shushah, Saris, Innaba, Jimzu e Deir Tarif. Mas a maioria são nomes que me parecem desconhecidos, a ponto de me causarem um estranho sentimento de melancolia. Khirbat al-‘Amur, Bir Ma‘in, al-Burj, Khirbat al-Buwayra, Beit Shanna, Salbit, al-Qubab, al-Kunayyisa, Kharruba, Khirbat Zakariyya, al-Barriyya, Deir Abu Salama, Al-Na‘ani, Jindas, al-Haditha, Abu al-Fadl, Kasla, e muitas outras.

(…)

com todas as mudanças que ocorreram nesse período e que persistem em confirmar a supressão de toda e qualquer presença palestiniana; nos nomes de cidades e aldeias escritos nas placas de indicação, nos edifícios recentes, nos cartazes publicitários escritos em hebraico, e até nos vastos campos que delimitam o horizonte à minha direita e à esquerda.


Ao longo do livro, certos elementos repetem-se: o cheiro a gasolina, os rituais de limpeza do corpo, a atenção obsessiva ao detalhe e o cão, criando ligações subtis entre as duas partes.

É um livro que não oferece conforto, mas também não é um panfleto. Não tenta explicar o conflito nem fornecer respostas fáceis. Não se trata de relativizar o que é certo ou errado, mas de mostrar como, em contextos de violência prolongada, a desumanização se instala de forma quase banal.



Flying Balloon Girl is perhaps one of Banksy’s most well known artworks. It was painted on a wall on the West Bank in Israel in 2005 and carries a poignant political message. Many believe that the piece signifies the children trapped by the conflict between Israelis and Palestine’s who are longing to fly away to freedom.”

Fonte: https://banksy.newtfire.org/img/graffiti/flying_balloon_girl.jpg


Territórios Palestinos Ocupados

[Opinião] Harry Potter e a Pedra Filosofal - J.K. Rowling

                 

2000-2010


2026


Título: Harry Potter e a Pedra Filosofal

Série: Harry Potter #1

Autor: John Steinbeck

Data de Leitura: 2000-2010

Classificação: ⭐⭐

Data de Re-Leitura: 09/01/2026 ⮞ 02/04/2026

Re-Classificação: 


Sinopse

Harry Potter é antes de mais o fenómeno editorial de 1999. É-o porque demove crianças de jogos de computador e de infindáveis horas frente ao televisor. É-o porque está traduzido em cerca de 30 idiomas. É-o porque tem angariado os mais importantes prémios de literatura infanto-juvenil. É-o, por fim e entre outras inúmeras razões, porque ocupa há meses consecutivos os primeiros lugares das mais importantes listas de vendas mundiais. Mas Harry Potter, o personagem dos livros de J. K. Rowling, não é um herói habitual. É apenas um miúdo magricela, míope e desajeitado com uma estranha cicatriz na testa. Estranha, de facto, porque afinal encerra misteriosos poderes que o distinguem do cinzento mundo dos muggles (os complicados humanos) e que irá fazer dele uma criança especialmente dotada para o universo da magia. Admitido na escola Howgarts onde se formam os mais famosos feiticeiros do mundo, Harry Potter irá viver todas as aventuras que a sua imaginação lhe irá propocionar. Um grande sucesso editorial que os mais jovens adoram e que apetece também aos adultos.


Minha review no GoodReads

Revisitei o mundo encantado de Hogwarts através do audiobook Harry Potter e a Pedra Filosofal (full cast edition) e foi uma experiência surpreendentemente envolvente. As várias vozes dão uma nova vida à história e tornam esta versão especialmente imersiva, mesmo para quem já conhece tão bem este universo criado por J. K. Rowling.

Ainda assim, Severus Snape será sempre, para mim, Alan Rickman.



[Opinião] Hamnet - Maggie O'Farrell

                               


        


Título: Hamnet

Série: -

Autor: Maggie O'Farrell

Data de Leitura: 15/03/2026 ⮞ 31/03/2026

Classificação: 


Sinopse

Hamnet é um romance sobre o filho de Shakespeare. Mas esse é apenas o ponto de partida para Maggie O’Farrell construir uma obra actual, que interroga a origem da dor e envereda por caminhos menos conhecidos do amor e da maternidade.

Numa narrativa que mistura realidade e ficção, a autora irlandesa cria uma das mais importantes obras literárias deste início do século XXI.


Minha review no GoodReads


4,5

Hamnet, de Maggie O'Farrell, é um romance que se impõe mais pela forma como nos faz sentir do que pelo que conta. Partindo de um episódio periférico da vida de William Shakespeare, a morte do seu filho, a autora constrói uma história íntima, onde o centro não está no dramaturgo, mas na figura de Agnes, uma mulher de contornos quase indomáveis, intuitiva, enraizada na natureza e naquilo que escapa à razão.


A escrita é, sem dúvida, o grande trunfo do romance. Há nela uma delicadeza envolvente, uma cadência que nos conduz por entre gestos mínimos, sensações subtis e emoções densas. Maggie O’Farrell cria uma atmosfera onde tudo respira, desde os silêncios da casa até aos ritmos do corpo e da terra.


O episódio da propagação da peste é conduzido através de um percurso inesperado e quase autónomo dentro da narrativa. Esse “conto” introduz uma mudança de ritmo decisiva, expandindo o espaço do romance e ligando a esfera íntima da família a uma tragédia de dimensão global. É também aí que se instala uma tensão e uma sensação de inevitabilidade que nos acompanham até ao desfecho.


Dois momentos destacam-se pela força emocional:

✨ A cena em que Hamnet, diante da doença da irmã, tenta ocupar o seu lugar. Do ponto de vista realista, pode parecer pouco verosímil, mas funciona como um poderoso gesto simbólico. Mais do que um acontecimento credível, trata-se de uma expressão extrema de amor e desespero, que intensifica o peso da perda e confere ao romance uma dimensão quase mítica.

e

✨ A cena em que Agnes amortalha o filho. Este momento não é apenas narrativo; é uma experiência intensa, carregada de dor e silêncio, onde cada gesto, cada dobra do pano, cada respiração transmite a profundidade do luto. Sentimos o peso do corpo de Hamnet. É um instante de grande intensidade, de vulnerabilidade e de emoção, que se impõe como um ponto alto da maternidade e da perda.

O seu filho era feito, é no que está a pensar, dele e dela. Fizeram-no juntos; sepultaram-no juntos. Nunca mais voltará. Uma parte dela gostaria de enovelar o tempo, guardá-lo num novelo, como um fio de lã. Gostaria de fazer a roda de fiar andar para trás, de desfazer o novelo da morte de Hamnet, da sua meninice, da sua infância, do seu nascimento, sempre para trás, até ao momento em que ela e o marido se uniram naquela cama para gerar os gémeos. Gostaria de desbobinar tudo isso até ser de novo lã crua, de encontrar o caminho de volta até àquele momento, e levantar-se-ia, voltaria o rosto para as estrelas, para o céu, para a Lua, e pedir-lhes-ia que alterassem aquilo que estava reservado para ele, rogar-lhes-ia que planeassem um desfecho diferente para ele, por favor, por favor. Tudo faria por isso, daria tudo, sujeitar-se-ia àquilo que os céus quisessem.


O ritmo, sobretudo na primeira metade, pode revelar-se por vezes lento, com longos momentos de contemplação que nem sempre nos agarram a atenção. No entanto, quando o romance encontra o seu equilíbrio, o impacto é inegável. Hamnet é, acima de tudo, uma meditação sobre o amor, a maternidade e o luto, conduzida com uma sensibilidade que evita o excesso e privilegia o silêncio, o gesto e a memória.


Achievement Tale Spinners

[Opinião] As Filhas do Falecido Coronel - Katherine Mansfield

                                    


  

Série: 

Autor: Katherine Mansfield

Data de Leitura: 29/03/2026 ⮞ 29/03/2026

Classificação: 


Sinopse

«Vamos ser fracas, está bem, Jug? Ser fraco é muito mais agradável do que ser forte.»

Que portas se fecham — e que janelas se abrem — nas vidas de duas irmãs em luto pela morte do velho pai, o coronel?


Minha review no GoodReads


O conto As Filhas do Falecido Coronel não assenta num enredo tradicional. Acompanhamos duas irmãs, Constantia e Josephine, após a morte do pai, um homem autoritário que dominou as suas vidas.

Após a morte do pai, seria de esperar que as irmãs conquistassem alguma liberdade, mas, em vez disso, revelam um bloqueio emocional e mostram-se incapazes de tomar decisões. O peso da figura paterna mantém-se mesmo após a sua morte, como se a sua autoridade tivesse sido completamente interiorizada.

O conto termina de forma ambígua, mas profundamente simbólica, revelando a incapacidade das irmãs de romper com a vida que sempre conheceram. Essa incapacidade torna-se evidente no diálogo final:


— Não achas que talvez… — começou.

Mas Josephine interrompeu.

— Estava a pensar se agora… — murmurou.

Pararam; esperaram uma pela outra.

— Continua, Con — disse Josephine.

— Não, não, Jug; tu primeiro — disse Constantia.

— Não, diz o que ias dizer. Tu é que começaste — insistiu Josephine.

— Eu… prefiro ouvir primeiro o que ias dizer — retorquiu Constantia.

— Não sejas tola, Con.

— A sério, Jug.

— Connie!

— Oh, Jug!

Uma pausa. Depois Constantia disse debilmente:

— Não posso dizer o que ia dizer, Jug, porque me esqueci do que era… do que ia dizer.

Josephine ficou em silêncio durante um momento. Contemplou uma grande nuvem, onde antes tinha estado o Sol. Depois respondeu laconicamente:

— Eu também me esqueci.

[Opinião] Um Corpo na Biblioteca - Agatha Christie

                                




Título: Um Corpo na Biblioteca

Série: Miss Marple #2

Autor: Agatha Christie

Data de Leitura: 26/03/2026 ⮞ 28/03/2026

Classificação: 


Sinopse

O coronel Bantry e a esposa, Dolly, vivem tranquilamente retirados em St. Mary Mead. Uma manhã, a criada, ofegante e histérica, interrompe o sossego quotidiano: «Oh, minha senhora, oh, minha senhora, está um corpo na biblioteca.» Mrs. Bantry pede à sua amiga Miss Jane Marple que investigue o caso e limpe o nome do seu marido.


Minha review no GoodReads


 



Se eu já tinha lido o livro? Já, algures na adolescência.

Se eu tenho o DVD desta adaptação? Tenho.

Se eu já tinha visto o episódio da série? Já, várias vezes.

Se eu me lembrava da história? Não, tirando o corpo da loira na biblioteca!

Se eu descobri o assassino? Não!


Dame Agatha Christie no seu melhor.


[Opinião] As Árvores - Percival Everett

                                  


   


Título: As Árvores

Série: -

Autor: Percival Everett

Data de Leitura: 15/03/2026 ⮞ 26/03/2026

Classificação: 


Sinopse

Uma série de homicídios macabros toma de assalto a cidade de Money, Mississípi. O xerife, os seus ajudantes, o médico-legista e demais habitantes daquela localidade orgulhosamente branca reagem com desconfiança quando uma dupla de detetives estaduais, negros, chega para ajudar na investigação. Em cada uma das cenas do crime, um mesmo elemento deixa-os a todos cada vez mais perplexos: um segundo corpo, de um homem incrivelmente semelhante a Emmett Till, rapaz negro linchado naquela cidade 65 anos antes. Quando os detetives se convencem de que se trata de uma vingança, são surpreendidos pelo facto de haver registo de mortes em moldes idênticos um pouco por todo o país. À medida que os corpos se amontoam, a investigação é conduzida até à casa de uma senhora centenária com um assombroso arquivo histórico. As Árvores é um romance audacioso, de sátira mordaz, que avança a ritmo veloz, sem desviar o olhar dos fantasmas que encontra pelo caminho. Livro do ano para publicações como The New York Times, NPR, The Chicago Tribune e TIME, recebeu, entre várias distinções, o Prémio Bollinger Everyman Wodehouse para escrita de comédia e foi finalista do Prémio Booker 2022.


Minha review no GoodReads


Percival Everett nasceu em 1956, na Geórgia, Estados Unidos, e é um dos nomes mais originais da literatura contemporânea americana. 

Com mais de trinta livros publicados, Everett escreve entre géneros — romance, sátira, western, ficção filosófica — e aborda frequentemente questões de identidade, linguagem, racismo e história americana. As Árvores foi finalista do Booker Prize, e exemplifica bem a sua capacidade de provocar, desconcertar e obriga-nos a pensar para lá do óbvio.


Antes de mais, um aviso: 

Este não é um livro para leitores sensíveis. Há violência explícita, linguagem dura, racismo, descrições gráficas de crimes, bem como humor negro e um sarcasmo que podem não agradar a todos.


O ponto de partida leva-nos até Money, Mississippi, que parece exatamente o que o nome sugere, num retrato inicial que mistura ironia e crítica: uma marca de constrangida ignorância que poderia muito bem ser assumida pois […] não vai desaparecer. E talvez esteja tudo aí, esse passado que insiste em ficar.


É neste cenário que começam a surgir homicídios estranhos. Homens brancos assassinados, sempre acompanhados pelo corpo de um homem negro que ninguém consegue identificar… e que insiste em reaparecer. Quando os casos começam a ligar-se, entram em cena dois detectives enviados para investigar.


Há aqui ecos claros da história real de Emmett Till a pairar sobre toda a narrativa. E é impossível ignorar o peso disto. Não é apenas um mistério, é um confronto directo com um passado de violência racial que nunca desapareceu verdadeiramente.


Mas o mais interessante é a forma como o autor constrói tudo isto. As Árvores começa como um policial, mas rapidamente se recusa a ficar por aí, mistura crime, sátira, horror e absurdo de uma forma que nunca nos deixa assentar. Quando achamos que estamos a ler um thriller, surge o humor; quando começamos a rir, volta a violência.


E esse humor é muitas vezes desconcertante. Surge em diálogos inesperados, quase absurdos 


— O relatório diz que você trouxe consigo o cadáver do negro para Hattiesburg.

— Parece que as pessoas em Money não conseguiam acompanhar o passo dele — disse Ed.

— Então, acha que alguém levou o corpo?

— Os mortos não andam — disse Jim.

— Exceto Jesus — disse Safer.


ou em piadas que escondem verdades incómodas, 


Contava-se como uma velha piada em Money, Mississípi, que quem quisesse descobrir quem pertencia ao Klan só precisava de ficar à espera na Lavandaria do Russell.


E, por vezes, o humor é tão seco que quase passa por choque directo:


— Eu fiz mal àquele pretinho. Como diz o bom livro: cá se fazem, cá se pagam.

— Que bom livro é esse? — perguntou Charlene. — O Armas e Munições?

— Não, a Bíblia, sua ateia.


Ao mesmo tempo, há frases que nos obrigam a parar 

 

A História é muito cabrona


directa, seca, impossível de ignorar. Ou ainda aquela ideia inquietante de que (…) A morte nunca é um desconhecido. É por isso que temos medo dela.

E depois há o que está por baixo de tudo isto, a memória. A necessidade de registar, de nomear, de não deixar desaparecer. Uma das passagens mais fortes do livro resume isso de forma quase dolorosa:

 

— Quando escrevo os nomes, eles tornam-se reais, não meras estatísticas. Quando escrevo os nomes, eles voltam a ser reais. É quase como se ganhassem mais uns segundos aqui. Percebe o que eu quero dizer? Eu nunca seria capaz de inventar estes nomes todos. Os nomes têm de ser reais. Têm de ser reais. Não têm? 

Mama Z encostou a mão à face de Damon.

— Porquê a lápis?

— Quando acabar, vou apagar todos estes nomes, libertá-los.

— Continua, meu filho — disse a velha senhora.


É talvez aqui que o livro se revela por completo.

O próprio título não é inocente: As Árvores remetem, por um lado, para o cenário dos linchamentos (testemunhas silenciosas de uma violência brutal) e, por outro, para as árvores genealógicas, onde essa mesma violência parece prolongar-se de geração em geração. Entre memória e herança, tudo está ligado.

À medida que a história avança, essa ideia torna-se ainda mais clara, e o que Everett faz é precisamente recusar esse esquecimento.


— Toda a gente fala de genocídios por esse mundo fora, mas quando o morticínio é lento e se estende ao longo de centenas de anos, ninguém dá por ela. Onde não há valas comuns, ninguém repara.


O que mais me impressionou foi esse equilíbrio improvável. Entre o grotesco e o cómico, entre o absurdo e o profundamente sério. Entre uma leitura que flui quase como entretenimento e uma reflexão que fica a moer muito depois de o livro acabar. Um livro que entretém, desconcerta e incomoda na mesma medida e que prova que, às vezes, rir também pode ser uma forma de enfrentar o que há de mais duro.


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