Título: Jenin ao Amanhecer
Série: -
Autor: Susan Abulhawa
Data de Leitura: 18/10/2026 ⮞ 24/10/2026
Classificação: ⭐⭐⭐⭐⭐
Sinopse
Esta é uma história de luta e sobrevivência que acompanha uma família ao longo de sessenta anos, dando-nos a conhecer as cicatrizes profundas provocados pelo conflito israelo-árabe. Um relato de fé, da grandeza do perdão e da força do amor.
Jenin ao Amanhecer é a odisseia da família Abulheja, forçada a deixar a aldeia palestiniana de Ein Hod e a exilar-se no campo de refugiados de Jenin, na Cisjordânia, após a ocupação israelita de 1948. Entre eles, encontra-se Dalia, o marido e os dois filhos pequenos. A caminho de Jenin, entre a multidão em fuga, Ismael, o filho mais novo do casal, desaparece. A voz do romance é a de Amal, neta do patriarca da aldeia e filha de Dalia.
Entre memórias de dor e a esperança de regressar um dia a sua casa, Amal cresce com o amor do pai, que lhe lê todos os dias ao amanhecer, nos fugazes momentos de paz, e com a força silenciosa da mãe, que fechou o coração à dor. Juntos, sonham com um futuro melhor, apesar da extrema violência e da injustiça sem fim que os rodeia.
Minha review no GoodReads
Há livros que nos deixam de
rastos. Jenin ao Amanhecer,
de Susan Abulhawa, foi um deles. E não é só pela história que conta, mas também
por tudo aquilo que nos faz sentir e pensar quando chegamos ao fim. Fechei o
livro com uma tristeza profunda, daquelas que não desaparecem só porque viramos
a última página e voltamos à nossa vidinha.
A história da família Abulheja
começa em 1948. A partir daí, acompanhamos várias gerações de uma família
marcada pela perda, pela separação e por acontecimentos que irão mudar para
sempre o rumo das suas vidas. No centro está Amal, cuja história nos leva por
caminhos de sofrimento, amor, esperança e resistência.
— Chamámos-te Amal com uma vogal longa porque a vogal curta
significa apenas uma esperança, um desejo — explicou uma vez o meu pai. — Tu és
muito mais do que isso. Depositámos todas as nossas esperanças em ti. Amal, com
vogal longa, significa esperanças, sonhos, muitos sonhos.
Uma das coisas que mais me marcou
foi a relação de Amal com o pai. Há passagens maravilhosas em que ela recorda
os momentos que passaram juntos, sobretudo aqueles amanheceres em Jenin, quando
o baba lhe lia
enquanto o mundo à volta ainda dormia.
(…) Amal continuava a ler ao amanhecer, como ela e o pai
haviam feito (…)
O cachimbo de madeira de
oliveira, o cheiro do tabaco de maçã e mel, o abraço do pai… São pormenores tão
simples e, ao mesmo tempo, tão poderosos.
Não conheci lugar tão seguro como o seu abraço, a minha cabeça
aninhada no arco do seu pescoço e nos seus ombros robustos. Não conheci momento
mais terno do que o amanhecer, com o cheiro do tabaco de maçã e mel (…)
O nascer do Sol pertencia-me a mim e ao baba, quando ele lia para
mim, enquanto o mundo à nossa volta dormia., recorda Amal. E que
frase tão bonita! Há qualquer coisa de comovente nesta ideia de dois seres
humanos terem um pequeno mundo só deles, feito de poesia, leitura e
amanheceres.
Amal não tinha grandes luxos, mas
teve uma infância encantada pelo amor do pai.
Nunca conheci um parque
infantil nem nadei no mar, mas a minha infância foi mágica, encantada pela
poesia e pelo amanhecer.
E estes momentos parecem conter
mais felicidade do que muitas das experiências que habitualmente associamos a
uma vida feliz.
Talvez porque a felicidade não
dependa apenas daquilo que temos, mas também daquilo que sentimos. Amal conheceu
a segurança de um abraço, a ternura de um pai que lhe lia e a beleza de
partilhar o nascer do dia com alguém que a amava. São recordações que ficam. E,
quando a vida nos tira tanto, aquilo que recebemos de quem nos amou pode
tornar-se uma força para continuar em frente.
É isso que vejo na relação entre
Amal e o pai. Yehya não consegue protegê-la de tudo o que a espera, mas
deixa-lhe uma herança que não é material. O amor pelos livros, pela poesia,
pelo conhecimento e, sobretudo, a memória de ter sido amada. As recordações não
lhe devolvem o passado, mas permitem-lhe guardar uma parte dele dentro de si. E
talvez seja essa uma das coisas mais bonitas que alguém pode deixar a outra
pessoa.
Mas este não é um livro sobre a
importância dos afectos. É também uma história que nos mostra uma capacidade de
resistência humana verdadeiramente estarrecedora. Acompanhar a família de Amal
ao longo de várias décadas é perceber como as pessoas conseguem continuar a
viver, a amar e a procurar alguma felicidade mesmo quando as circunstâncias
parecem fazer tudo para as destruir.
E não falo de uma força
sobre-humana, nem daquela ideia de que tudo o que não nos mata nos torna mais
fortes. A resistência não significa não sofrer, não ter medo ou sair ileso.
Sobreviver não é o mesmo que ficar bem. Há feridas que não desaparecem e perdas
que não podem ser revertidas. Mas, apesar de tudo, a vida continua a acontecer nas
relações que construímos, nas memórias que guardamos e na vontade de continuar
a procurar alguma coisa boa no meio de tanta desgraça.
O que me deixa devastada é pensar
que esta história não pertence apenas ao passado. A realidade que encontramos
nestas páginas continua a acontecer no mundo de hoje, e é impossível não pensar
nas pessoas que vivem actualmente rodeadas de guerra, violência, medo e perda.
Depois do Holocausto, achei que a humanidade tinha aprendido a ser um pouco
mais humana e misericordiosa. Que a memória de tamanha crueldade nos teria
ensinado, pelo menos, a reconhecer a humanidade dos outros e a não permitir que
o sofrimento se tornasse banal.
A história de uma
família numa aldeia obscura, visitada um dia por uma narrativa que não era a
sua e para sempre presa pela saudade às raízes e ao solo. Era uma história de
guerra, do seu fogo arrepiante, ardente e de novo arrepiante. De um amor
furioso e de um bombista suicida. De uma rapariga que escapara ao seu destino
para se tornar uma palavra, esvaziada do seu significado. De crianças crescidas
a remexerem na loucura para encontrarem a sua relevância. De uma verdade que
abriu caminho através de mentiras, emergindo de uma fenda, de uma cicatriz, no
rosto de um homem.
Infelizmente, a História parece
insistir em mostrar-nos que ainda temos muito para aprender. E custa aceitar
que, tantas décadas depois de 1948, continuem a existir pessoas obrigadas a
lutar pelo direito de ter uma pátria, viver em segurança, de permanecer na sua
casa e de criar os filhos sem medo do que poderá acontecer no dia seguinte.
A humanidade tem memória, mas nem
sempre tem sabedoria!
É um romance duro, comovente e humano.
Uma história sobre família, memória, identidade, amor e a capacidade de
continuar perante a adversidade. Uma história que nos faz sofrer pelas
personagens, mas também valorizar aquilo que tantas vezes damos como garantido,
como a tranquilidade de uma manhã, o abraço de quem amamos, a possibilidade de
viver sem medo.
Em breve, chegará ao
fim. O mundo não pode deixar que continue. A devastação aqui está além da
compreensão. Israel não pode encobrir isto. Não vai acontecer. O mundo saberá
finalmente. As coisas irão mudar.
Um livraço. Daqueles que nos
deixam a pensar muito depois de fecharmos o livro.