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[Opinião] A Estrutura da Bolha de Sabão - Lygia Fagundes Telles

                            


 
          

Título: A Estrutura da Bolha de Sabão

Série: -

Autor: Lygia Fagundes Telles

Data de Leitura: 06/06/2026 ⮞ 20/06/2026

Classificação: 


Sinopse

Esta reunião de oito contos escritos por Lygia Fagundes Telles em épocas e circunstâncias diversas atesta não apenas a excelência da prosa da autora mas também a sua condição de notável "pesquisadora de almas", conforme a definiu o crítico Nogueira Moutinho.

Os protagonistas destas histórias encontram-se, em geral, numa relação crítica com as pessoas e ambientes que os cercam - e também consigo próprios. Secretos podres familiares, desenganos amorosos, vocações frustradas, o desejo extraviado, nada é confortável nessas narrativas descontínuas, que alternam descrição objetiva, discurso indireto livre e fluxo de consciência, num autêntico tour de force literário. A vida, parece nos dizer a autora, é frágil, fugaz e misteriosa como uma bolha de sabão.


Minha review no GoodReads


N'A Estrutura da Bolha de Sabão, os contos que mais me marcaram foram:

A Testemunha,

O Espartilho,

A Fuga

Gosto da forma como a Lygia escreve, da maneira como constrói as personagens e cria certas atmosferas mais tensas e psicológicas. 

Sendo uma colectânea de contos, é normal que nem todos tenham o mesmo impacto, mas no conjunto a leitura foi positiva e valeu claramente a pena.

[Opinião] Compromisso de Long Island - Taffy Brodesser-Akner

             


                          


Título: Compromisso de Long Island

Série: -

Autor: Taffy Brodesser-Akner

Data de Leitura: 06/06/2026 ⮞ 20/06/2026

Classificação: 


Sinopse

Em 1983, o milionário Carl Fletcher é raptado à porta de sua casa em Long Island. A família recebe o pedido de resgate e, menos de uma semana depois, ele está de regresso sem grandes mazelas. Todos voltam ao conforto das suas vidas, como se nada tivesse acontecido.


Agora, passados quarenta anos, os Fletcher estão reunidos no funeral da matriarca quando os seus conflitos interiores vêm subitamente à tona. Afinal, parece que ninguém conseguiu superar coisa nenhuma. Durante quatro décadas, Carl tentou esquecer o rapto, bem como o mistério nunca desvendado da sua autoria; ao passo que Ruth se dedicou exclusivamente a proteger o marido. No que toca aos filhos, a situação não é muito melhor: o medo crónico de Nathan impede-o de viver normalmente; Beamer, argumentista em Hollywood, controla o pânico descontrolando-se em tudo o resto (comida, drogas, mulheres…); e Jenny, a mente mais brilhante dos três, passou a vida tão empenhada em provar que não é um produto da patologia da sua família que acabou por se definir precisamente por isso. Embora o dinheiro os tenha colocado em perigo, foi também o dinheiro a garantir a sua segurança… pelo menos até agora.


Compromisso de Long Island estende-se ao longo de gerações, percorrendo décadas de história até ao vertiginoso presente, detendo-se, pelo caminho, em temas intemporais como riqueza, sofrimento e a própria essência da alma judaico-americana.


Minha review no GoodReads


Há famílias complicadas. Há famílias disfuncionais. E depois há os Fletcher.


Quando Carl Fletcher, um judeu-americano, é raptado à porta de casa, em plena Long Island dos anos 80, a família nunca mais volta a ser a mesma. O curioso é que, apesar de o sequestro ser o acontecimento que desencadeia toda a narrativa, Compromisso de Long Island não é propriamente um livro sobre um rapto. É um livro sobre as consequências. Sobre as marcas que ficam. Sobre a forma como um acontecimento pode transformar-se na história oficial de uma família durante décadas.


Ao longo de várias gerações acompanhamos os Fletcher, uma família rica, privilegiada e profundamente incapaz de lidar com os seus próprios problemas. Não há aqui personagens exemplares. Todos mentem, escondem, distorcem, evitam conversas difíceis e tomam decisões questionáveis. 


Em certos momentos parece até haver um exagero deliberado na quantidade de traumas, neuroses e comportamentos autodestrutivos que a autora coloca em cena.


E, no entanto, funciona.


Uma das escolhas mais interessantes do romance é a forma como a narrativa se constrói a partir de diferentes perspectivas. Não existe uma versão única da história dos Fletcher, existe um conjunto de versões. Cada personagem filtra os acontecimentos através da sua própria memória, das suas justificações e das suas fragilidades. O passado não é fixo, é continuamente reinterpretado, muitas vezes para proteger a imagem que cada um construiu de si próprio.


Desta forma a família parece ainda mais disfuncional, porque não partilha apenas experiências, mas também versões incompatíveis dessas experiências. E isso acaba por reforçar a sensação de que ninguém ali é totalmente fiável, não por maldade, mas por auto-protecção.


É um drama familiar viciante, daqueles em que não conseguimos desviar o olhar mesmo quando as personagens nos irritam profundamente. 

Gostei de Jenny e achei Beamer a personagem mais bem construída do romance, cheia de contradições e vulnerabilidades que o tornam simultaneamente frustrante e fascinante. Já Nathan teve o efeito oposto, que fulano irritante.


Outra ideia que atravessa o livro é a herança emocional dentro das famílias. Não apenas os traumas, mas também os silêncios, as expectativas e as histórias que passam de geração em geração. O dinheiro está sempre presente, mas nunca surge como solução para nada. Pelo contrário, parece apenas oferecer novas formas de evitar enfrentar os problemas.


Nem tudo me convenceu. Houve momentos em que senti que o livro se prolongava mais do que precisava e outros em que a acumulação constante de disfunções familiares dificultava a criação de empatia pelas personagens. Ainda assim, nunca perdi o interesse pela história.


Compromisso de Long Island é um retrato mordaz, por vezes cruel, de uma família que nunca conseguiu libertar-se do seu passado. Não é um livro de personagens simpáticas, mas é um livro de personagens bastante interessantes. E, para quem aprecia bons dramas familiares, isso vale muito.

[Opinião] Verdade ou Consequência - M.J. Arlidge

                                


        


Título: Verdade ou Consequência 

Série: Helen Grace #10

Autor: M.J. Arlidge

Data de Leitura: 06/06/2026 ⮞ 16/06/2026

Classificação: 


Sinopse

A cidade de Southampton vê-se a braços com uma onda de crimes violentos sem precedentes. Fogo posto num ferro-velho. Um assalto a um carro que termina em tragédia. Um homicídio num dos parques da cidade. A polícia tenta alcançar respostas a todo o custo, mas, sem pistas, parece ser impossível descobrir o que liga todos estes casos.

Para a inspetora Helen Grace, no entanto, os problemas estão apenas a começar: dentro da própria esquadra, os obstáculos acumulam-se, deitando por terra qualquer avanço nas investigações, ao mesmo tempo que a pressão sobre si não para de aumentar — e quando as peças do puzzle se começam a encaixar, revelando uma hábil e perversa teia de crimes, a inspetora Grace vê-se obrigada a enfrentar algo que talvez seja impossível de travar...


Minha review no GoodReads


Este é, de longe, o livro com o maior número de assassinatos e não tem um crime central em redor do qual a história se desenrole. Isto fez com que houvesse demasiadas linhas de investigação, tornando as coisas um pouco confusas. Se Helen Grace já tinha um inimigo, Joseph Hudson, agora tem dois — e que psicopatas! Ficaram algumas pontas soltas que acredito que fiquem resolvidas no próximo volume, principalmente a questão com a jornalista sem escrúpulos Emilia Garanita.

[Opinião] Três Dias em Junho - Anne Tyler

                                 


      


Título: Três Dias em Junho

Série: -

Autor: Anne Tyler

Data de Leitura: 06/06/2026 ⮞ 13/06/2026

Classificação: 


Sinopse

Gail Baines está a ter um dia péssimo. Para começar, perdeu o emprego — ou pediu a demissão, dependendo da pessoa a quem se pergunta. No dia seguinte, a sua filha, Debbie, casa-se, e ela nem sequer foi convidada para o dia de spa da noiva. Para piorar, o ex-marido, Max, aparece sem avisar à sua porta, sem sítio onde ficar, nem fato para o casamento. Em vez disso, traz um gato com ele (não importa que o noivo seja mortalmente alérgico). Mas a verdadeira crise surge quando Debbie partilha com os pais um segredo que acabou de descobrir sobre o seu futuro marido, o que não só colocará o casamento em causa, como fará ressurgir o passado de Gail e Max.


Minha review no GoodReads


Este é o terceiro romance de Anne Tyler que leio, e definitivamente não é uma autora que me encha as medidas. Acho que não volto a ler nada dela.

No início dos anos 90 li Turista por Acidente, na altura foi uma leitura que gostei, mas não me deslumbrou. Não me lembro de nada da história. Após um hiato de quase 30 anos, em 2020 regressei a Anne Tyler com O Carrinho de Linha Azul, um livro totalmente esquecível e que a minha memória de elefante não guardou nada da história. 

Agora, em 2026, li Três Dias em Junho e é mais uma daquelas histórias que de tão banal, sem personagens que nos conquistem facilmente cairá também no buraco negro do esquecimento. É preciso ter muito talento para de uma história banal conseguir fazer algo inesquecível. Não é o caso.

[Opinião] O Pacto da Água - Abraham Verghese

                                


        


Título: O Pacto da Água

Série: -

Autor: Abraham Verghese

Data de Leitura: 08/05/2026 ⮞ 12/06/2026

Classificação: 


Sinopse

Travancor, Costa do Malabar, 1900. Uma rapariga de doze anos tenta dormir nos braços da mãe. Amanhã deixará a casa onde cresceu para casar com o homem a quem foi prometida. O homem que será o seu marido, o novo senhor da sua vida, é trinta anos mais velho, viúvo, com um filho ainda criança. A jovem noiva vai ao encontro do seu futuro tal como foi decidido por outros, tal como a sua mãe e a mãe da sua mãe o fizeram antes dela.

«O pior dia da vida de uma rapariga é o dia do casamento. Depois, se Deus quiser, as coisas melhoram», dizem-lhe. O viúvo é um bom partido, pois, tal como ela, faz parte da antiquíssima comunidade de cristãos, mas é difícil entender a razão pela qual aceitou uma esposa sem dote, apesar dos rumores que correm de que a sua família é afetada por uma estranha aflição: em cada geração, pelo menos uma pessoa morre afogada. E no que hoje se chama Kerala, a água está em todo o lado, moldando a terra numa teia de lagos e lagoas, acompanhando as existências com o seu canto suave, alimentando-se das monções, ligando tudo no tempo e no espaço. A noiva é acolhida com afeto e, no decurso da sua longa e extraordinária vida, conhece a alegria de um grande amor, sofre a dor de infinitas perdas, assiste a mudanças importantes. A sua família alargar-se-á e retrair-se-á com nascimentos e mortes. Até à chegada de uma neta que receberá o seu nome, estudará medicina e fará uma descoberta chocante.

Evocação luminosa de uma Índia em vias de transformação política e cultural, O Pacto da Água, de Abraham Verghese, «expõe o leitor a uma beleza a que de outra forma não poderia aceder» (The New York Times); um livro-mundo de extraordinário poder que encerra todos os acontecimentos preciosos da experiência humana.


Minha review no GoodReads


Com mais de 700 páginas e eleito um dos livros do ano 2023 pela revista Time, O Pacto da Água marca o regresso do médico e escritor Abraham Verghese.


Esta saga familiar transporta-nos para Kerala, na Costa de Malabar, no sul da Índia, e acompanha três gerações de uma mesma família ao longo do século XX, entre os anos de 1900 e 1977.


Tudo começa com uma rapariga de apenas doze anos, enviada para um casamento arranjado com um homem muito mais velho.


Tem doze anos, e vai-se casar pela manhã. (...)

O dia mais triste da vida de uma rapariga é o dia do seu casamento», diz a mãe.

Depois disso, se Deus quiser, as coisas melhoram.


A partir desse momento, a sua vida transforma-se lentamente até se tornar na matriarca conhecida como Grande Ammachi. Como pano de fundo, há um destino que parece perseguir esta família. Em cada geração, pelo menos uma pessoa morre afogada, como se a água omnipresente naquela região fosse também uma presença inevitável e silenciosa.


Todas as famílias têm segredos, mas nem todos os segredos têm a intenção de enganar.


Há livros que, quando terminamos, não nos deixam apenas satisfeitos com a história, deixam-nos com a impressão de termos vivido ao lado daquelas personagens durante algum tempo. E O Pacto da Água é um desses romances.


Há leituras que não se fazem apenas com os olhos, mas com o corpo todo, como se cada vida ali narrada nos fosse confiada em segredo. É um livro lento, amplo, profundamente humano. E, ainda assim, há nele uma espécie de urgência emocional constante, como se o destino das personagens estivesse sempre prestes a virar-se para um lado irreversível.


A história atravessa gerações, atravessa perdas, atravessa silêncios que pesam mais do que qualquer palavra dita em voz alta. E o mais impressionante é a forma como tudo isto nunca parece apenas “enredo”, sente-se como memória. 


É o pacto da água: estão todos inextricavelmente ligados pelos seus atos de comissão e omissão, e ninguém está sozinho.


Há uma delicadeza na forma como o autor constrói o sofrimento, não o transforma em espectáculo, não o acelera para o tornar mais dramático. Pelo contrário, obriga-nos a ficar nele o tempo necessário para o compreender. E isso torna tudo mais verdadeiro.


Quando se chega ao fim, fica a sensação de que aquelas personagens continuam a existir algures fora do alcance da página, como se o livro tivesse sido apenas a tentativa de lhes dar forma antes que desapareçam de vez. É esse o elo invisível que une quem lê a quem foi escrito.


– As rosas não passariam de irritantes ervas daninhas se as flores não murchassem e morressem. A beleza está em saber que não duram para sempre.


 

Achievement Marathon Reader

[Opinião] Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban - J.K. Rowling

    


               

2026



Título: Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban

Série: Harry Potter #3

Autor: J.K. Rowling

Data de Leitura: 2000-2010

Classificação: ⭐⭐

Data de Re-Leitura: 30/04/2026 ⮞ 06/06/2026

Re-Classificação:


Sinopse

Daquela vez Harry Potter não conseguira conter-se. Quebrara uma das regras principais de Hogwarts - não exercer técnicas de feitiçaria fora dos muros da escola. Mas aquela detestável Tia Marge merecia permanecer umas boas horas suspensa no tecto da sala dos Dursleys, inchada como um balão. Além disso já faltavam poucos dias para recomeçar as aulas. Mas o seu terceiro ano não irá ser fácil. Da prisão de Azkaban fugira o feroz Sirus Black, um dos mais fieis seguidores do assustador Lord Voldemort para o que Harry Potter continuava a ser o alvo favorito. O pior é que o herói de J. K. Rowling começa a suspeitar da existência de um traidor entre os seus próprios amigos... O regresso da personagem fantástica que está a conquistar leitores em todo o mundo numa aventura que te enfeitiçará até à última página.


Minha review no GoodReads

Continua o meu favorito.



[Opinião] Vila Sapo - José Falero

                                


        


Título: Vila Sapo

Série: -

Autor: José Falero

Data de Leitura: 02/06/2026 ⮞ 06/06/2026

Classificação: 


Sinopse

Eis aqui sete histórias escritas com força ímpar e altíssima voltagem literária. Publicado originalmente em 2019, Vila Sapo imediatamente chamou a atenção para José Falero, até então um jovem e desconhecido autor vindo das quebradas de Porto Alegre. Desde aquele momento, o livro apresentou a críticos e leitores um escritor já dotado de uma variada gama de recursos, modulando em cada história a voz das ruas com um refinado registro literário.


Minha review no GoodReads


Vila Sapo é o livro de estreia de José Falero. Segundo o próprio autor, a experiência de Geovani Martins serviu-lhe de incentivo para deixar de ser servente de pedreiro e tentar a carreira literária. Ambos são filhos da favela: Geovani da Rocinha e Falero da Lomba do Pinheiro, um bairro periférico da Zona Leste de Porto Alegre.

O livro reúne sete contos sobre a vida nas vilas (nome dado às favelas no sul do Brasil) e retrata a realidade da periferia da capital gaúcha: pobreza, miséria, violência e falta de oportunidades.


Atotô 5

Encontro de negócios 3

Dignidade-relâmpago 4

Rosa-bebê 5

Aconteceu amor 4 

Episódio do badoque (fisga) 3

Um otário com sorte 3


A linguagem utilizada é a da favela, marcada por gírias e expressões populares. Em alguns momentos, essa oralidade é interrompida por uma linguagem mais formal, criando um contraste interessante. Para quem não está familiarizado com este universo linguístico, a leitura pode tornar-se exigente. E não me refiro apenas às particularidades do falar gaúcho.

Também achei cansativa a presença constante da violência. As histórias apresentam um retrato duro da realidade, mas raramente deixam espaço para a esperança ou para perspectivas de mudança.


Algumas expressões que encontrei:


Nessa época, porco na boca era mentira. Só quando alguém matava alguém, daí beleza; mas não toda hora, que nem é hoje em dia.

Porco na boca, significa polícia militar à entrada do bairro.


Fui na baia e voltei galã. Diretamente do fundão do beco, um dom-juan da vila Sapo, camisa branca no ombro, óculos escuro na cara, boné virado no melão, bermuda caindo, uma vírgula estalando no pé.

Baia é casa

Vírgula estalando no pé, são os ténis da marca Nike


Não ia ter nem blá-blá-blá no radinho. Concha de tonel e cana.

Concha de tonel, são muitas estaladas no ouvido com a mão em concha


Apesar das minhas reservas em relação à violência constante, José Falero demonstra um enorme talento para construir personagens e recriar o ambiente das vilas. A sua escrita tem autenticidade, ritmo e uma forte capacidade de observação, conseguindo transportar-nos para uma realidade que conhece por dentro.