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[Opinião] Bolo Negro - Charmaine Wilkerson

                                   



Título: Bolo Negro

Série: -

Autor: Charmaine Wilkerson

Data de Leitura: 19/02/2026 ⮞ 01/03/2026

Classificação: 


Sinopse

Os irmãos Byron e Benedetta não se veem há oito anos, mas a súbita morte da mãe obriga-os sentarem-se finalmente à mesma mesa. Eleanor deixou-lhes um bolo no congelador com a críptica instrução de que o deverão partilhar «na altura certa».

Para além do bolo, uma homenagem às origens caribenhas da família, há ainda uma longa gravação áudio que abre com uma revelação impensável: Byron e Benedetta têm uma irmã.

Este, porém, é apenas o primeiro dos muitos segredos que a mãe quer agora, depois de morta, revelar, na esperança de emendar alguns erros do passado.


Nesta estreia surpreendentemente madura, Charmaine Wilkerson explora com fina sensibilidade as questões difíceis da identidade pessoal e social, numa saga familiar intensa, que cruza o tempo e a geografia, fazendo-nos acreditar que é sempre possível regressar a casa.



Minha review no GoodReads


3,5 


Há livros que nos conquistam pela arquitectura perfeita, outros conquistam-nos pelo coração. Bolo Negro pertence claramente ao segundo grupo.

O que mais me tocou nesta leitura foi a força silenciosa da Covey, a sua capacidade de resistir, reinventar-se e continuar a amar, mesmo quando a vida lhe exige decisões duras e pouco convencionais. Ao longo da história, percebemos que cada escolha nasce do amor, o amor juvenil e arrebatado por Gibbs, o amor protector pelos dois filhos, B. e B., e o amor persistente pela filha perdida. É esse fio afectivo que une as diferentes fases da sua vida e que dá verdadeira densidade à história.

Gostei particularmente da forma como a amizade com Etta Pringle é construída. Não é ruidosa, não precisa de grandes declarações, é uma presença constante, firme, quase como a água que surge como elemento simbólico ao longo do livro. A água é origem, fuga, memória e ligação. Funciona como um ponto comum entre passado e presente, entre identidade e reinvenção.

É uma história sobre o que fazemos por quem amamos, mesmo quando isso implica silêncio, distância ou incompreensão.

Achei que o excesso de coincidências retira alguma veracidade à narrativa.

[Opinião] A Vela Sagrada - Abdulaziz Al-Mahmoud

                                   


  


Título: A Vela Sagrada

Série: -

Autor: Abdulaziz Al-Mahmoud

Data de Leitura: 01/02/2026 ⮞ 28/02/2026

Classificação: 


Sinopse

Pode o amor mudar o curso da História? Bin Rahhal, o braço-direito do vizir do Bahrein, era um homem particularmente atraente – e o seu olhar, misterioso e intenso, parecia mergulhar na própria alma. Halima era uma jovem mulher de uma beleza excecional. Alta e esbelta, de olhos brilhantes e longos cabelos negros, uma princesa de Ormuz. Quando os olhos de ambos se cruzaram, Bin Rahhal ficou enfeitiçado. O rosto da princesa gravou-se na sua mente, e desde então ela nunca mais lhe saiu do pensamento. Mas Halima, ponderada, tentou resistir àquele estranho, de outras terras. Na Arábia vivem-se tempos de incerteza. Cada vez mais, ouvem-se os rumores de avistamentos de navios com as velas brancas com a Cruz de Cristo. A chegada dos portugueses ao Oriente, que põe em evidência as diferenças culturais, ameaça pôr fim ao modo de vida árabe e mudará de forma drástica a história de amor entre Bin Rahhal e Halima.


Minha review no GoodReads


Enquanto fechava as últimas páginas de A Vela Sagrada, sobre a presença portuguesa no Golfo no século XVI, os noticiários davam conta de um novo episódio de tensão no Médio Oriente, com ataques envolvendo os Estados Unidos e Israel contra o Irão, e retaliações que atingiram pontos estratégicos do Golfo, como o Catar, o Dubai, a Arábia Saudita, o Kuwait e os Emirados Árabes Unidos.


Sem qualquer intenção de fazer paralelismos políticos, não deixa de ser um curioso acaso terminar um romance sobre disputas de rotas comerciais, hegemonias e equilíbrios frágeis naquela região precisamente num momento em que o Golfo voltava ao centro das notícias mundiais. A História muda de protagonistas e de tecnologias, mas raramente abandona por completo os mesmos palcos.


Em A Vela Sagrada, de Abdulaziz Al-Mahmoud, encontramos uma proposta que, à partida, é particularmente interessante para um leitor português: revisitar a expansão portuguesa no Golfo Pérsico a partir do “outro lado da vela”. Não a epopeia marítima, não o heroísmo camoniano, mas o olhar daqueles que viram chegar as velas brancas como sinal de invasão, ruptura e ameaça.




O romance situa-se no momento da conquista portuguesa de Ormuz e das tensões políticas entre reinos locais, líderes militares e potências emergentes. Há guerra, diplomacia, traição, amores cruzados e jogos de poder. Há História — e muita.


O romance apresenta acontecimentos, contextualiza-os, encadeia-os com clareza. Nota-se investigação, cuidado documental, vontade de reconstituir um período complexo. Mas é nas personagens que reside alguma fragilidade. Sejam árabes ou portuguesas, parecem muitas vezes cumprir apenas uma função histórica. A narrativa privilegia os reinantes, os estrategas, os jogos diplomáticos; ficamos na esfera do poder. Falta o povo, falta o impacto íntimo da invasão, falta a transformação profunda da sociedade no contacto com outras culturas.


Para um leitor português, há ainda um elemento curioso, a expectativa de um confronto épico, ainda que invertido. Se não há epopeia glorificadora, poderia haver grandeza trágica, ambiguidade moral intensa, choque civilizacional dramatizado. Porém, o tom mantém-se contido, quase cronístico. Faltou tempestade à vela. A vela está lá. O vento, nem sempre.


Catar

[Opinião] Frankenstein - Mary Wollstonecraft Shelley

                                     


 

Título: Frankenstein

Série: -

Autor: Mary Wollstonecraft Shelley

Data de Leitura: 10/02/2026 ⮞ 23/02/2026

Classificação: 


Sinopse


Mary Shelley começou a escrever Frankenstein quando tinha apenas dezoito anos. Simultaneamente um thriller gótico, um romance apaixonado e um conto de advertência sobre os perigos da ciência, Frankenstein conta a história do estudante de ciências Victor Frankenstein. Obcecado em descobrir a origem da vida e conseguindo animar matéria inerte, Frankenstein monta um ser humano a partir de partes do corpo roubadas; porém, ao trazê-lo à vida, recua horrorizado ante a fealdade da criatura. Atormentada pelo isolamento e pela solidão, a criatura outrora inocente vira-se para o mal e desencadeia uma campanha de vingança assassina contra o seu criador, Frankenstein.

Frankenstein, um best-seller instantâneo e um antepassado importante do terror e da ficção científica, não só conta uma história aterrorizante, como também suscita perguntas profundas e perturbadoras sobre a própria natureza da vida e o lugar da humanidade no cosmos: o que significa ser humano? Quais são as responsabilidades que temos uns com os outros? Até onde podemos ir na manipulação da Natureza? Na nossa época, cheia de notícias sobre a engenharia genética, doação de órgãos e bioterrorismo, estas questões são mais relevantes do que nunca.


Minha review no GoodReads


Quando era criança, num tempo em que havia apenas dois canais de televisão, vi a versão de 1931 — o célebre “It’s alive! It’s alive! It’s aliiiive!”” — de Frankenstein de James Whale, e não gostei.



A imagem daquela criatura afastou-me durante décadas da obra que lhe deu origem, mas a maturidade algum dia chega, e resolvi despir-me de todos os preconceitos e “abraçar a obra”.


Frankenstein, de Mary Wollstonecraft Shelley, publicado anonimamente em 1818, nasceu num verão improvável, o de 1816, o “ano sem verão”, passado na Suíça com Lord Byron e John Polidori. O desafio de contar histórias de terror gerou uma obra intemporal da literatura. Shelley tinha apenas 18 anos. E, ainda assim, escreveu um romance que continua a dialogar connosco dois séculos depois.

Naquele tempo era assim, quando não havia nada para fazer escreviam-se obras-primas!


O subtítulo é revelador The Modern Prometheus. Tal como Prometeu roubou o fogo aos deuses para o oferecer aos homens, Victor Frankenstein ousa roubar o segredo da vida.


Mas o romance não é sobre ciência “maligna”. É sobre ambição sem ética. Sobre criar sem assumir responsabilidade. Sobre querer o feito grandioso e fugir das consequências.


Victor não é apenas um “cientista louco”. É profundamente humano, orgulhoso, deslumbrado com a própria capacidade, incapaz de lidar com o erro. Cria vida e abandona-a. E é esse abandono que desencadeia a tragédia.


A criatura não nasce má. Aprende pela observação. Descobre a linguagem. Comove-se com a família De Lacey. Lê Paraíso Perdido de John Milton e identifica-se primeiro com Adão, depois com Satanás — criado, mas rejeitado.


A maldade não surge da natureza, mas da exclusão. Da solidão extrema. Da ausência de amor.


Shelley parece perguntar-nos: quem é verdadeiramente monstruoso? O ser que suplica por companhia ou o criador que lhe vira as costas?


A criatura é violenta, mas também profundamente sensível. Victor é culpado, mas também trágico. Não há caricaturas. Há humanidade em conflito.


E puxando este clássico para os nossos dias é impossível lê-lo hoje sem pensar em inteligência artificial, manipulação genética, clonagem.


Criamos tecnologia cada vez mais autónoma, editamos genes, sonhamos com a superação dos limites biológicos. Tal como Victor, somos fascinados pela possibilidade de ultrapassar a morte, de melhorar a condição humana, de dominar a natureza.

Onde acaba o tratamento e começa a ambição desmedida?

Se criarmos algo que sofre, temos o direito de o criar?

E se o criador abandona a sua criação, deixa de ser responsável por ela?


Shelley, há mais de duzentos anos, já estava a dialogar com estas inquietações, e é isso que torna este romance intemporal não é apenas a temática científica. É a sua compreensão da condição humana, a necessidade de ser reconhecido, o impacto devastador da rejeição, o peso do orgulho, a solidão que atravessa criador e criatura.


No final, não estamos perante um romance de terror. Estamos perante uma tragédia moral. Um livro que nos obriga a conversar sobre ciência, ética, responsabilidade, amor, abandono, identidade.


Cinco estrelas porque Frankenstein não é apenas um clássico, é um livro que nos lê a nós.

[Opinião] Cantagalo - Fernanda Teixeira Ribeiro

                                   


  

Título: Cantagalo

Série: -

Autor: Fernanda Teixeira Ribeiro

Data de Leitura: 12/01/2026 ⮞ 19/02/2026

Classificação: 


Sinopse

Ambientado no começo do século XX, Cantagalo narra a trajetória de uma família marcada por um casamento arranjado incomum entre a herdeira de uma fazenda de café e o filho de uma escravizada com um homem branco. A partir dessa união se desdobra a história de suas descendentes, empregadas e moradoras dos arredores. Vencedor do Prémio Revelação Literária UCCLA, o livro costura a vida das mulheres que vivem no cafezal à realidade de um lugar e um momento histórico bem delimitados — a Minas Gerais do pós-abolição.


Minha review no GoodReads

Cantagalo, de Fernanda Teixeira Ribeiro, venceu o Prémio Revelação Literária UCCLA–CM Lisboa, distinção que despertou a minha curiosidade.


A autora, nascida em 1984, em Uberaba, Minas Gerais - Brasil, é bacharel em Comunicação Social, doutorada em Ciências do Desenvolvimento Humano, investigadora na área da neurobiologia das emoções, jornalista e editora de ciência. Integra ainda o colectivo artístico In-Fâmia e é co-autora da antologia Somos Todos Perigosos.


A sinopse prometia um romance histórico ambientado na região de Minas Gerais do pós-abolição, centrado num casamento arranjado improvável entre a herdeira de uma fazenda de café e o filho de uma mulher escravizada com um homem branco. A partir dessa união, desenrola-se a história das mulheres da família e das que vivem à sombra do cafezal.


A premissa é forte e o enquadramento histórico pertinente. No entanto, a execução não me convenceu. A escrita, fragmentada e excessivamente descritiva, cria uma atmosfera densa que, em vez de aprofundar a complexidade das personagens, acaba por se tornar arrastada.


O que mais me afastou da leitura foi a forma como surge a pedofilia incestuosa. Não se trata apenas de um tema difícil, até porque a literatura não tem de evitar assuntos incómodos, mas da sensação de gratuitidade com que é trabalhado. As descrições não acrescentam densidade moral nem reflexão estrutural suficiente; antes contribuem para uma impressão de sujidade e normalização perturbadora que me levou a pôr a leitura de lado demasiadas vezes.

Digamos que foram vários períodos de nojo num livro de apenas 288 páginas!


Não gostei do estilo de escrita da autora, mas reconheço que há passagens bem construídas e percebe-se uma intenção simbólica consistente.


As gavetas de uma cômoda são como os vãos da memória, atira-se de um tudo dentro, na impossibilidade de se jogar fora. Em uma gaveta, encontrou o camafeu de ouro da mãe, hoje no seu pescoço; em outra, escondeu a pulseira de marfim. As duas joias, o mesmo homem, mas para isso as gavetas: uma para as colchas de se mostrar às visitas, outra para os paninhos higiênicos, toalhas e outros tecidos carregados dos humores e aflições do corpo. O camafeu fica na gaveta do pai, guarda-se com o cafezal e o livro de contas, aquela harmonia dos armários organizados, bonita de ver; a pulseira, na gaveta do barão Honório, emperrada; há ali um lobo-guará, fedor de estábulo, não abra.


Ainda assim, para mim, o romance ficou muito aquém do impacto prometido. Mais pesado do que profundo, mais desconfortável do que revelador.

[Opinião] O Deus da Floresta - Liz Moore

                                      




Série: -

Autor: Liz Moore

Data de Leitura: 10/02/2026 ⮞ 19/02/2026

Classificação: 


Sinopse

Há quem diga que foi trágico o que aconteceu à família Van Laar.

Há quem diga que foi merecido.

Que nem sequer agradeceram às pessoas que passaram cinco noites na floresta gelada a tentar encontrar o filho deles.

Há quem diga que houve uma razão para a família ter demorado tanto tempo a pedir ajuda. Que os Van Laar, na verdade, sabiam de antemão o que tinha acontecido ao rapaz.

Agora, quinze anos depois, a filha que nasceu durante o luto acaba de desaparecer na mesma floresta que o irmão.

Há quem diga que os dois desaparecimentos não estão relacionados.

Há quem diga que estão.


Minha review no GoodReads


544 páginas depois…de mistério tem pouco, thriller menos ainda!


O início da história, durante os primeiros 10–15%, é interessante. 

Alguns anos após o desaparecimento do seu irmão, Bear, Barbara Van Laar desaparece no mesmo acampamento de férias onde ele se evaporou sem deixar rasto. A premissa é forte, inquietante e promete um thriller envolvente.


A cama está vazia.

(…)

Oito raparigas. Nove camas. Conta uma vez e volta a contar.

Por fim, quando não consegue adiar mais, deixa que um nome lhe aflore à mente: Barbara.

A cama vazia pertence a Barbara.


No entanto, a partir daí, tudo se dispersa.


As múltiplas linhas temporais, os diversos narradores e o excesso de informação, muitas vezes irrelevante, acabam por diluir a tensão narrativa. Sempre que a história começa a ganhar fôlego, a perspectiva muda, quando regressamos ao fio condutor, o impacto já se perdeu e, por vezes, até a memória do que ficou em suspenso desapareceu.


As personagens pouco ou nada despertam simpatia e/ou empatia. Falta-lhes densidade emocional e, no caso das mulheres, a caracterização tende a incliná-las para a fragilidade, o que se torna particularmente frustrante, já as crianças de 11/12 anos são praticamente todas retratadas como mini-adultos. Além disso, há linhas de investigação que são iniciadas mas não desenvolvidas até ao fim, criando uma sensação de vazio e desarticulação.


E o final… meu Deus. Um tiro de pólvora seca. Depois de mais de quinhentas páginas, esperava-se algo impactante, perturbador ou, pelo menos, satisfatório. Em vez disso, a conclusão revela-se decepcionante e incapaz de justificar a longa construção que a antecede.


Quando comecei estas linhas tinha a intenção de atribuir três estrelas, mas, ao escrever e reflectir sobre a leitura, percebi que não consigo dar mais do que duas.


Achievement Choice Archive 



[DNF] A chuva que lança a areia do Saara - Ana Margarida de Carvalho

                                      



Título: A chuva que lança a areia do Saara

Série: -

Autor: Ana Margarida de Carvalho

Data de Leitura: 27/01/2026 ⮞ 10/02/2026

Classificação: 


Sinopse

Uma carroça afasta-se, lesta, da costa. Na parte de trás, jaz Firmino, feito prisioneiro e condenado, sem saber, a trabalhos forçados numa pedreira escondida no côncavo de um Portugal remoto. Os homens que aí trabalham a pedra, dela querendo extrair um anjo, fazem-no em nome de uma fé sujeita aos caprichos de um pároco ávido de milagres, um artista cego e um burlão de meia-idade, abastado e caprichoso.

Há também nesta história uma mulher sem nariz, uma viúva com arroubos de paixão, um cobarde violador, um lobo que nunca existiu, um cão que abandonou o dono, uma queda-d'água desviada, um apicultor por quem todos se enamoram e duas gémeas siamesas unidas pela ilharga. E, tudo cobrindo de um tom ocre, as poeiras migrantes do Saara, que viajam milhares de quilómetros para turvarem as vistas sempre que algo inesperado está para acontecer.


Minha review no GoodReads


A Chuva que Lança Areia no Saara traz como subtítulo (variações sobre a exaustão), e exausta foi exactamente como me senti durante a leitura.

O primeiro grande obstáculo surgiu logo no primeiro capítulo. Quando o terminei, a minha reacção foi algo do género: “Mas que raio foi isto? Não percebi nada. Que confusão.” Para conseguir avançar, optei por ir ouvir o Café com Letras, numa entrevista de cerca de uma hora com a autora, onde este livro é abordado.

Ganhei alguma coragem e voltei ao desafio de continuar a leitura. E, a duras penas, fui avançando até que, num momento de reflexão, cheguei à conclusão que com quase 30% do livro lido, a única coisa que tinha realmente retido era a existência de uma personagem chamada Firmino, uma mulher sem nariz, uma pedreira, uma escultura em construção e muita violência e um desinteresse absoluto em relação ao que poderia acontecer a seguir.


Nestas situações, mais vale desistir.



#incunábulos @mastodon

[Opinião] O Colapso - Édouard Louis

                                   


  

Título: O Colapso

Série: -

Autor: Édouard Louis

Data de Leitura: 07/02/2026 ⮞ 10/02/2026

Classificação: 


Sinopse

No romance que encerra o fresco familiar iniciado com Para Acabar de Vez com Eddy Bellegueule, Édouard Louis narra, com emoção e revolta, a história trágica do seu irmão mais velho.

Prémio Inrockuptibles

«O meu irmão passou uma grande parte da sua vida a sonhar. No seu mundo pobre e operário, onde a violência social se manifestava muitas vezes na forma como limitava os seus desejos, ele imaginava que se tornaria um artesão mundialmente famoso, que viajaria, que faria fortuna, que repararia catedrais, que o seu pai, que tinha desaparecido, regressaria e o amaria. Os seus sonhos chocavam com o seu mundo e ele não conseguia realizar nenhum deles. Queria sobretudo fugir da sua vida, mas ninguém o tinha ensinado a fugir, e tudo nele, a sua brutalidade, o seu comportamento com as mulheres e com as outras pessoas, o condenava; as únicas coisas que lhe restavam para esquecer eram o jogo e o álcool. Aos trinta e oito anos, após anos de fracasso e depressão, foi encontrado morto no chão do seu pequeno estúdio. Este livro é a história do seu colapso.» É. L.

Sombrio, dilacerante, político e íntimo, O Colapso , vencedor do prémio Les Inrockuptibles, é o mais recente e aclamado livro de Édouard Louis


Minha review no GoodReads


O Colapso foi o terceiro livro de Edouard Louis que li, depois de Para Acabar de Vez com Eddy Belleguelle e Quem Matou o Meu Pai. Talvez por isso, a leitura me tenha sabido a algo já conhecido, a sensação de déjà-vu é constante.


A insistência constante na expressão “o meu irmão” acabou por me cansar.


De qualquer forma, é impossível negar a força do texto. Uma escrita crua, directa e emocional que nos retrata o colapso pessoal, familiar e social.



O poeta Catulo escreveu, na morte do seu irmão:


Transportado através de tantas regiões e oceanos,


venho entregar-te, meu irmão, estas miseráveis oferendas


para te conceder um último rito funerário,


e falarei em vão às tuas cinzas mudas,


pois que o destino te arrancou de mim.


Ai, meu pobre irmão, de mim injustamente subtraído,


agora, estas coisas, segundo os nossos ancestrais costumes,


não passam das oferendas fúnebres de um triste ofício.


Aceita-as, molhadas por todas as lágrimas do teu irmão,


e para a eternidade, meu irmão, adeus e até sempre.


Será que escrevo porque não sinto a tristeza de Catulo e gostaria de a sentir? Será que escrevo na esperança de fazer acontecer a dor? Será que só escrevo porque essa dor me faria sentir normal, um irmão como todos os outros, que chora a morte do outro?