Série: -
Autor: Mary MacLane
Data de Leitura: 17/03/2026 ⮞ 12/04/2026
Classificação: ⭐⭐⭐⭐
Sinopse
À Espera que Venha o Diabo, de Mary MacLane, foi um escândalo e um sucesso de vendas internacional em 1902.
Este livro é o diário escandaloso de Mary MacLane, uma jovem de 19 anos que vive em Butte, Montana, que se auto-intitula «ladra», «vagabunda», «mentirosa» e «filósofa da minha própria escola peripatética».
Com uma escrita provocadora e confessional, a protagonista anseia por experiências mundanas e transborda de desejo bissexual e de revolta contra as injustiças da juventude e de ser mulher, ao mesmo tempo que expressa um orgulho desmesurado pelo seu belo corpo jovem feminino e pela sua mente, rejeitando abertamente a ideia de que era como todas as outras pessoas, da sua época ou de qualquer outra.
Num estilo naturalmente coloquial, a diarista adolescente ousada e angustiada de 1902 soa, mais de um século depois, moderna, e À Espera que Venha o Diabo continua a ser um texto fundamental que tem de ser descoberto.
Minha review no GoodReads
Aqui têm o meu retrato. É o registo de três meses de nada. Estes três meses foram iguais aos três meses que os antecederam e, por certo, serão iguais aos três meses que os seguirão, iguais a todos os meses que passaram desde que me entendo por gente. Nunca há nada de diferente. Nunca acontece nada.
Há livros que parecem escritos com os nervos todos à flor da pele, como se qualquer coisa, qualquer coisa mesmo pudesse ser a faísca final. Um diário que não se comporta como diário, um retrato que não tem vontade nenhuma de ser respeitável. A Mary MacLane de 19 anos escreve como se estivesse sempre à beira de um excesso emocional,
Sou uma filósofa… e uma covarde. Seria infinitamente melhor morrer agora, com as pulsações aceleradas da juventude, do que arrastar-me, ano após ano, ano após ano, e no fim tornar-me numa idosa entorpecida, sem ânimo, sem esperança, com um corpo decrépito, com uma mente decrépita – e nada mais para recordar a não ser as ideações do que poderia ter sido – e fatigada.
verbal,
Encontro-me, portanto, nesta fase da vida feminina, com dezanove anos, um génio, uma ladra, uma mentirosa, uma vagabunda moral em geral, mais ou menos tola e filósofa da escola peripatética.
existencial
O que eu não daria por um dia, uma hora, dessa coisa encantada que se chama felicidade! Do que não abdicaria eu.
(…)
Por uma única hora de felicidade, abriria de imediato mão de todas estas coisas: fama, dinheiro, poder, virtude, honra, justiça, verdade, lógica, filosofia e genialidade.
e, ao mesmo tempo, como se estivesse condenada a não sair do mesmo sítio.
Oh, estou condenada, condenadíssima!
Não há uma alma no mundo que se doa de mim ou que se doa comigo, uma única que seja dentre todos os milhões. Ninguém me consegue perceber… ninguém!
E depois há o Diabo. Sempre o Diabo. Não como figura coerente, mas como obsessão, símbolo, fuga, provocação, hipótese de ruptura.
Estou pronta e à espera de dar tudo o que tenho ao Diabo em troca da felicidade.
(…)
Um dia, o Diabo chegará e dirá:
– Vem comigo.
E responderei:
– Sim.
(…) Durante dias! Eu e o Diabo vamos amar-nos de maneira intensa, perfeita, durante dias!
É impossível ler estas partes sem imaginar o terramoto que deve ter provocado nas mentes mais puritanas da época. As senhoras respeitáveis a ajustarem o espartilho com ligeiro desmaio moral, e a decidir que aquilo não era propriamente literatura, mas antes um desvio de carácter com direito a impressão.
Se Mary MacLane tivesse nascido um século depois, o seu diário não seria apenas papel, seria um disco de heavy metal, daquele que se ouve aos gritos para abafar o silêncio de uma cidade pequena.
🔈🔉🔊
He's the razor to the knife, oh, lonely is our lives
My heads spinnin' 'round and 'round...
Shout, shout, shout!
Shout at the devil!
Um dos aspectos mais marcantes de À Espera que Venha o Diabo é a repetição quase obsessiva. As mesmas ideias e frases regressam com pequenas variações, criando um efeito de mantra que é parte essencial do livro. Repetir é uma forma de intensificar emoções e fixar obsessões. A solidão, o tédio, o desejo de reconhecimento, o “eu” e o Diabo voltam sempre, como pensamentos de que ela não consegue escapar. O efeito é hipnótico e inquietante, e acaba por mostrar o turbilhão de pensamentos e sentimentos que vai naquela cabeça.
Mulher, com dezanove anos, filósofa de uma escola peripatética, ladra, génio, mentirosa, idiota… e infeliz, repleta de angústia e desesperança desesperada. O que é a minha vida? Oh, o que há nela para mim?
Houve sempre nada. Haverá sempre nada.
(…)
Não sou boa. Não sou virtuosa. Não sou empática. Não sou generosa. Sou, meramente e acima de tudo, uma criatura de sentimentos intensos e apaixonados. Sinto, sinto tudo. É aí que reside o meu génio. Queima-me como fogo.
À Espera que Venha o Diabo não se lê tanto como uma história, mas como uma presença. A de uma mente inquieta, presa entre o desejo de intensidade e a sensação de que nada muda.














