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[Opinião] Reef | Mar profundo - Romesh Gunesekera

                                


 
        

Título: Reef | Mar profundo

Série: -

Autor: Romesh Gunesekera

Data de Leitura: 18/10/2026 ⮞ 29/10/2026

Classificação: ⭐⭐⭐


Sinopse

A história de Mar profundo começa em Londres, quando o personagem-narrador Triton, já adulto, está com seu Volkswagen vermelho em um posto de gasolina. Na tentativa de pagar pelo combustível, ele se depara com uma porta fechada. Atrás do vidro, alguém o fita e Triton pensa: “quase que um reflexo de mim mesmo”. Depois de confirmar, descobre que o outro também é do Sri Lanka. Em vão, tenta se comunicar em sinhala, uma das línguas faladas na ilha, ao que o outro responde: “tâmil, tâmil”, a língua falada pela minoria hindu. Esta introdução é seguida de um breve diálogo, que faz Triton lembrar que está na Inglaterra há mais de vinte anos. Este é o ponto de partida para ele recordar suas origens, em um passado tão distante quanto sua longínqua pátria.


Minha review no GoodReads


O Sri Lanka, antigo Ceilão, é uma ilha no oceano Índico que passou pelas mãos de portugueses, holandeses e ingleses, tendo conquistado a independência em 1948. Mas a saída dos britânicos não resolveu os problemas do país. As tensões entre a maioria cingalesa e a minoria tâmil foram-se agravando, até que, em 1983, começou uma guerra civil que durou até 2009.

É neste ambiente de crescente instabilidade que se desenrola Reef / Mar profundo.

 

A história começa em Londres, onde Triton, agora proprietário de um restaurante, recorda a vida que deixou para trás. Aos onze anos, foi trabalhar como criado para a casa de Mister Salgado, um homem abastado e apaixonado pela biologia marinha. Triton é um elfo do lar, limpa, arruma, serve à mesa e aprende a antecipar as necessidades do patrão. Mas é na cozinha que descobre o seu talento. Entre tachos, receitas e jantares cada vez mais elaborados, transforma uma tarefa doméstica numa verdadeira vocação. É graças ao que aprende nessa casa que acaba por construir a sua vida profissional em Londres.

 

Enquanto Triton cresce, o mundo à sua volta começa a desmoronar-se. A violência política e étnica invade a tranquilidade da casa, e a partida para Inglaterra torna-se inevitável.

Mas há outra preocupação que atravessa o romance, a destruição dos recifes de coral. Mister Salgado sonha transformar uma baía num santuário marinho, conciliando a preservação da natureza, a investigação científica e, claro, a gastronomia. Um projecto que nunca chega a concretizar.

 

Há uma passagem particularmente bonita em que Triton descreve a exuberância do recife, cheio de criaturas e cores, mas também marcado pela luta constante pela sobrevivência.

 

The one time I did swim out to Mister Salgado’s real reef, back home, I was frightened by its exuberance. The shallow water seethed with creatures. Flickering eyes, whirling tails, fish of a hundred colours darting and digging, sea snakes, sea-slugs, tentacles sprouting and grasping everywhere. It was a jungle of writhing shapes, magnified and distorted, growing at every move, looming out of the unknown, startling in its hidden brilliance. Suspended in the most primal of sensations, I slowly began to see that everything was perpetually devouring its surroundings. I swam into a sea of sound; my hoarse breathing suddenly punctuated by clicking and clattering, the crunching of fish feeding on the white tips of golden staghorn. My own fingertips seemed to whiten before me as trigger-fish, angel-fish, tiger-fish, tetrons, electrons and sandstone puffer-fish swirled around me, ever hungry.

 

O lamento de Salgado perante aquilo que poderia ter feito, mas não fez, acaba por ter um significado que vai muito além do ambiente.

 

Mister Salgado shook his head. ‘I should have done something of my own with that bay. I used to think that in a month or two, the next year, I would have a chance to turn the whole bay into a sanctuary. A marine park. I used to plan it in my head: how I’d build a jetty, a safe marina for little blue glass-bottomed boats, some outriggers with red sails, and then a sort of floating restaurant at one end. You could have produced your finest chilli crab there, you know, and the best stuffed sea-cucumbers. Just think of it: a row of silver tureens with red crab-claws in black bean sauce, yellow rice and squid in red wine, a roasted red snapper as big as your arm, shark fin and fried seaweed. It would have been a temple to your gastronomic god, no? I thought of it like a ring, a circular platform with the sea in the middle. We could have farmed for the table and nurtured rare breeds for the wild. A centre to study our prehistory. We could have shown the world something then, something really fabulous. What a waste.

 

Gostei, mas não me deslumbrou! É um romance bonito, com uma preocupação ambiental pertinente e uma história de crescimento pessoal interessante, mas que, para mim, ficou aquém do que poderia ter sido.

 


Sri Lanka

இலங்கை – Tâmil

ශ්‍රී ලංකාව - Cingalês

[Opinião] Rumo a Casa - Yaa Gyasi

                                  


       

Título: Rumo a Casa

Série: -

Autor: Yaa Gyasi

Data de Leitura: 19/09/2026 ⮞ 18/10/2026

Classificação: ⭐⭐⭐


Sinopse

Effia e Esi, filhas do mesmo pai, nasceram em aldeias diferentes do Gana do século XVIII. Effia casa com um inglês e vive confortavelmente no Castelo da Costa do Cabo. Já Esi, sem que Effia saiba, vê-se aprisionada nas masmorras do mesmo castelo, vendida como escrava e enviada para a América. O Regresso retrata magistralmente o suceder de gerações a partir de Esi e Effia, no Gana e nos Estados Unidos da América.As duas descendências, com os seus episódios íntimos, belos e dramáticos, mostram-nos a história da escravatura e da cultura afro-americana nos continentes africano e americano até à atualidade, lado a lado num fio que se poderá unir. Esta estreia literária de Yaa Gyasi, nascida em 1989, arrebatou a crítica e os leitores, tornando a autora numa das vozes mais promissoras da literatura norte-americana.


Minha review no GoodReads


Gostei muito dos assuntos abordados, mas não tanto da forma como a história está estruturada. A primeira parte é excelente, mas depois a leitura começa a arrastar-se. Os capítulos curtos, dedicados a diferentes personagens e gerações, dificultam a criação de uma ligação com elas e tornam a narrativa confusa, com tantas histórias a sucederem-se sem tempo para nos envolvermos verdadeiramente com cada uma.


Gana


[Opinião] A Vida Brinca Comigo - David Grossman

                                


 
        


Título: A Vida Brinca Comigo

Série: -

Autor: David Grossman

Data de Leitura: 09/08/2026 ⮞ 22/09/2026

Classificação: ⭐⭐⭐


Sinopse

Por ocasião da festa dos noventa anos de Vera, Nina regressa a Israel: apanhou três aviões, que a trouxeram do Ártico até ao kibutz para se reencontrar com a euforia da mãe, a raiva da filha, Guili, e a veneração intacta de Rafi, o homem que, apesar de tudo, ainda perde todas as suas defesas quando a vê.

Desta vez, Nina não pretende fugir: ela quer que a mãe acabe por contar o que aconteceu na Jugoslávia durante a primeira parte da sua vida, quando, jovem judia croata, se apaixonou por Milosz, filho de camponeses sérvios sem terra. Nina quer saber mais sobre o seu pai, Milosz, preso sob a acusação de ser um espião estalinista. E porque é que Vera foi deportada para o campo de reeducação na ilha de Goli Otok, abandonando-a quando tinha apenas seis anos.

Para desvendar os mistérios do passado, Nina sugere um regresso ao lugar de horror que sugou Vera, marcando o destino de todas elas. A viagem de Vera, Nina, Guili e Rafi a Goli Otok acaba por se transformar num confronto dramático que quebra o silêncio, despertando sentimentos e emoções com a violência da tempestade que atinge as falésias da ilha. Uma viagem catártica, confiada à filmagem de uma câmara de vídeo, onde a memória e o esquecimento se fundem num único testemunho imperfeito.


Minha review no GoodReads

Há livros que reconhecemos como bons, bem escritos e até importantes, mas que simplesmente não nos dizem grande coisa. Foi o que me aconteceu com A Vida Brinca Comigo.

David Grossman parte de uma história com uma matéria-prima fortíssima. Três gerações de mulheres marcadas pelas consequências de acontecimentos ocorridos décadas antes, na Jugoslávia. No centro está Vera e a sua passagem por Goli Otok, mas o que aconteceu no passado continua a pesar sobre Nina e Guili.

A história tinha, portanto, tudo para me interessar. Só que, desde determinada altura, tive sempre a sensação de que andávamos às voltas. Muitas conversas, memórias, viagens e recordações, enquanto eu ficava à espera de que a história avançasse. Mesmo quando chegamos a Goli Otok, não senti a mudança que esperava.

E o maior problema foi que não consegui criar qualquer empatia, simpatia ou sequer grande interesse pelas personagens. Percebia o que lhes tinha acontecido e reconhecia a importância daquilo que estavam a viver, mas emocionalmente fiquei sempre de fora.

Apesar de tudo, não tenho dificuldade em reconhecer que é muito bem escrito, literariamente ambicioso e construído sobre uma história poderosa. Simplesmente, comigo não funcionou.

E talvez também não tenha sido a melhor altura para ler um livro destes. Há livros que encontramos no momento certo e outros que, por muito bons que sejam, não nos encontram a nós.

Este, infelizmente, foi um desses.


105/198 - Israel


[Opinião] Folktales from the Arabian Peninsula: Tales of Bahrain, Kuwait, Oman, Qatar, Saudi Arabia, The United Arab Emirates, and Yemen - Nadia Jameel Taibah

                                 


      

Título: Folktales from the Arabian Peninsula: Tales of Bahrain, Kuwait, Oman, Qatar, Saudi Arabia, The United Arab Emirates, and Yemen

Série: -

Autor: Nadia Jameel Taibah

Data de Leitura: 07/05/2026 ⮞ 17/07/2026

Classificação: ⭐⭐⭐


Sinopse

A unique compilation of stories, "Folktales from the Arabian Peninsula" includes tales from seven countries: Bahrain, Kuwait, Oman, Qatar, Saudi Arabia, the United Arab Emirates, and Yemen.

Coauthored by a renowned folklorist and a professor of education who recalls some of these poignant tales from her own childhood, the book opens with a discussion of the Arabian Peninsula that introduces each country and discusses its terrain, peoples, and current situation to provide important background information. The engaging stories that follow will serve elementary, junior high, and high school librarians as well as public librarians, professional storytellers, and folklorists. The tales themselves--many of which have never been published in English language children's collections--are appropriate for readers grades five and up.


Minha review no GoodReads

Resolvi fazer um combo nesta volta ao mundo e, em vez de andar de país em país, aproveitei para juntar vários países da Península Arábica numa única leitura.


Arábia Saudita – leitura nº 102

Omã – leitura nº 103

Emirados Árabes Unidos – leitura nº 104

Iémen – leitura nº 105


A Península Arábica é composta por sete países, além de incluir partes da Jordânia e do Iraque, que não vou considerar para este desafio. Alguns destes países já tiveram o seu momento neste projecto de leitura, por isso deixo aqui as leituras já efectuadas:


Catar – leituras 44 e 99


Bahrein – leitura 62


Kuwait – leitura 96


Embora os contos não tenham sido particularmente marcantes, foi interessante conhecer um pouco do património oral da Península Arábica. É sempre enriquecedor descobrir histórias tradicionais de outras culturas e perceber as semelhanças e diferenças em relação aos contos que já conhecemos.


Entre os vários contos, encontrei duas versões da Cinderela, adaptadas à tradição oral da Península Arábica.


*****************


FOLKTALES FROM QATAR


THE HELPFUL FISH


This is a Cinderella tale from Qatar.


One day, Fsaijrah’s stepmother told her, “Take these fish to the seashore and clean them there. Bring them back, and we will cook them for our dinner.”


Fsaijrah cut up all of the fish except one small one, but when she lifted her knife to cut that one, it spoke to her.


“Please don’t cut me up. Let me go, and I will make you rich.”


“Oh, I can’t let you go. My stepmother would be angry with me.” But she did let the fish slip out of her hands, and it dove into the sea.


When she went back home, her stepmother wanted to see the fish she had cleaned.


“Show me the fish.”


“One got away while I was cleaning the others.”


So the stepmother made her do without lunch and supper as a punishment.


When the family had finished eating, her stepmother sent her to the sea to throw away the bones. At the seashore, the little fish was waiting for her. He had prepared a beautiful food tray for her, with fish and Qatari clarified butter—the most delicious butter in the world.


A few days later, there was a drums party. The stepmother dressed her own daughter in beautiful clothes and took her to the party. But to Fsaijrah, she said, “There is plenty of work for you here. You stay home.”


But as soon as they had gone, the little fish appeared. He brought her a beautiful dress and diamond slippers, and sent her off to the party.


No one recognized the beautifully gowned girl as Fsaijrah, and she hurried home before the others could return. So they had no idea she had been at the drum party.


But she was in such a hurry to reach home that one of her slippers fell off and dropped into a well. She had to return without it.


The next day, the shaikh and his friends passed by the well, and he noticed the glittering shoe. He declared, “Whoever this shoe fits, I will marry.”


When the shoe was brought to Fsaijrah’s home, the stepmother’s daughter tried it on. But the shoe did not fit. But when Fsaijrah put the shoe on, of course it fit perfectly.


So Fsaijrah was engaged to be married to the shaikh.


Her stepmother said, “For her dowry, we want radish, pickled fish, and dates.” When they were delivered, the stepmother and her daughter said to Fsaijrah, “Now eat them.”


The little fish arrived and dressed her in the most beautiful dress of all, gave her jewelry, and put pearls and red coral on her stomach, which she brought out in the bridal chamber.


As for the daughter of her stepmother, luck was not her ally.



FOLKTALES FROM THE UNITED ARAB EMIRATES



THE FISHERMAN’S DAUGHTER


There once was a fisherman’s daughter who was being looked after by a cruel stepmother who had two daughters of her own. Of course, those daughters got all the good food and nicest clothes and did no work at all. The fisherman’s daughter had to do all the work for the household and was dressed only in the oldest of rags.

One day, the stepmother sent the girl to clean five fish. She took them down to the seashore and was cutting the fish up, when the last fish, which was still alive, started trembling and begged the girl, “Please don’t cut me up. Put me back in the water so that I may live. If you do that, I will come to help you when you need me. Just look for me here beside this rock.”

So the girl felt pity on the fish and tossed it back into the sea.

But when she reached home, her stepmother was furious. “I sent you to clean FIVE fish. You return with only FOUR. No supper for YOU tonight.”

The girl went back down to the sea, weeping, and sat beside the rock where she had tossed back the fish. Soon the fish itself came up. When he heard of her troubles, he brought up to her the most delicious foods imaginable, and she ate until she was full.

A few weeks later there was to be a wedding at the shaikh’s palace. Everyone was invited to attend the celebration. Of course, the fisherman’s daughter had to stay home and clean and cook and was not allowed to go to the wedding. But when she told her friend the fish about this, he came up with all sorts of beautiful clothes and jewels, and even a pair of golden slippers. And the fish gave her a piece of advice.

“When you enter the palace, be sure to pass by the barza where the shaikh’s son is resting. I would like for him to lay eyes on you.”

This is exactly what she did, and when the shaikh’s son saw her, he fell in love immediately. The shaikh’s son hurried out and followed the girl. But seeing herself pursued, she ran off home. However, her golden slippers dropped off just as she passed the water trough where the shaikh’s horses watered. When the shaikh’s son came back, after giving up on chasing her, he found those golden slippers.

The next day, the shaikh sent his servants to visit all the homes in the area where daughters could be found. They tried the slippers on every girl, but none of them were a fit. When they came to the fisherman’s house, the stepmother hid the girl in a tannur and had her own daughters brought out to try on the slippers. Of course, they did not fit.

“Is there no other girl in this house?” asked the shaikh’s men.

“None at all,” lied the stepmother.

But just then the cock started crowing, “My ugly aunts are on the bed, and my beautiful aunt is in the oven!” The cock just kept on crowing this and would not stop.

So the shaikh’s men searched the entire house, and there in the oven, they found the beautiful fisherman’s daughter. The slippers fit her perfectly.

So the fisherman’s daughter was taken to the shaikh’s son, and he was so happy that he married her immediately. And they lived in much happiness.


[Opinião] Um Detalhe Menor - Adania Shibli

                                  


    

Título: Um Detalhe Menor

Série: -

Autor: Adania Shibli

Data de Leitura: 01/04/2026 ⮞ 04/04/2026

Classificação: ⭐⭐⭐⭐⭐


Sinopse

No verão de 1949 - um ano depois da Nakba, a catástrofe que expulsou mais de 700 mil palestinianos das suas terras, e que os israelitas celebram como a Guerra da Independência -, uma unidade de soldados israelitas, ataca um grupo de beduínos no deserto do Negueve, dizimando-o. Entre as vítimas encontra-se uma adolescente que sobrevive ao massacre. É capturada e violada, e depois assassinada e enterrada na areia. É a manhã de 13 de agosto de 1949.

Muitos anos mais tarde, quase na atualidade, uma jovem mulher em Ramallah descobre acidentalmente uma breve menção a esse crime brutal. Obcecada com o assunto, não só devido à natureza macabra do caso, mas também devido ao detalhe menor de ter acontecido precisamente vinte e cinco anos antes de ela nascer, irá embarcar numa viagem para tentar desvendar alguns - dos detalhes que envolvem o crime.

Adania Shibli sobrepõe magistralmente estas duas narrativas translúcidas para evocar um presente para sempre assombrado pelo passado. Com uma prosa inquietante e precisa, Um Detalhe Menor evoca a experiência palestiniana do apagamento, da expropriação e da vida sob a ocupação, ao mesmo tempo que revela a complexidade permanente de se juntar as peças de uma narrativa ocultada por fragmentos de linguagem.


Minha review no GoodReads



Terminei Um Detalhe Menor, de Adania Shibli, e fiquei em silêncio. Não aquele silêncio confortável de quem fecha um livro satisfeito, mas um silêncio pesado, quase imóvel como se fosse preciso tempo para voltar ao mundo.

Dividido em duas partes, o livro constrói-se a partir de um acontecimento real e de uma ficção que o prolonga no tempo.


«Neste sítio, agora despovoado e isolado, nós estamos, de facto, a participar na batalha para que o nosso povo exista e permaneça na região sul. Por conseguinte, não estamos a levar a cabo apenas uma operação militar, mas também uma de cariz nacional. Não podemos deixar que o Negueve seja um deserto desolado, uma presa da aridez para os árabes e os seus animais molestarem.

“Não é o canhão que vencerá, é o homem.”»


Na primeira parte, somos transportados para um episódio ocorrido na Palestina, entre 9 e 13 de Agosto de 1949, em que uma rapariga beduína depois de capturada, violada acaba assassinada por soldados israelitas. Toda a descrição do que se passa nestes cinco dias é distanciada, toda a rotina é diluída em gestos repetitivos, descrições minuciosas, em detalhes insignificantes.


Na segunda parte, a voz muda. Passamos a acompanhar uma jornalista palestiniana que se torna obcecada por esse mesmo acontecimento, apenas por ter ocorrido exactamente 25 anos antes do seu nascimento.


Aconteceu numa manhã que coincidirá, exatamente um quarto de século depois, com a manhã do meu nascimento. Naturalmente, isto poderá parecer puro narcisismo, já que o que me interessou naquele incidente, o que me impressionou mesmo, foi um detalhe secundário quando comparado com os detalhes principais, que só podem ser descritos como trágicos.


A sua investigação leva-a a atravessar espaços físicos e simbólicos, enfrentando postos de controlo, 

Frequentemente ouvi dizer que a travessia do posto de Qalandia ao sábado, que é o dia de hoje, é a pior e a mais difícil altura para o fazer, porque para além de todos os habitantes de Jerusalém virem a Ramallah para comprar legumes frescos no mercado ou para tratar dos seus assuntos, os soldados estão de ânimo vingativo, ressentidos com toda a gente que atravessa o posto e os obriga a trabalhar durante o que era suposto ser o seu dia de descanso semanal, o sábado, dia em que o Senhor, Ele mesmo, descansou.

obstáculos, vigilância e uma constante sensação de ameaça. Aqui, o passado infiltra-se no presente, mostrando que a distância temporal não apaga nada, apenas transforma as formas de violência.

Achei interessante a ausência de nomes nas personagens. Não saber quem são torna tudo mais universal. Como se aquelas figuras pudessem ser substituídas por outras, noutro tempo, noutro lugar, sem que a violência deixasse de existir. 

Em contraste, os lugares são nomeados, antes e depois, como se a geografia carregasse uma memória que as pessoas são impedidas de fixar.

Reconheço o nome de algumas, de onde alguns colegas meus e conhecidos são provenientes, como, por exemplo, Lifta, al-Qastal, Ein Kárim, al-Maliha, al-Jura, Abu Shushah, Saris, Innaba, Jimzu e Deir Tarif. Mas a maioria são nomes que me parecem desconhecidos, a ponto de me causarem um estranho sentimento de melancolia. Khirbat al-‘Amur, Bir Ma‘in, al-Burj, Khirbat al-Buwayra, Beit Shanna, Salbit, al-Qubab, al-Kunayyisa, Kharruba, Khirbat Zakariyya, al-Barriyya, Deir Abu Salama, Al-Na‘ani, Jindas, al-Haditha, Abu al-Fadl, Kasla, e muitas outras.

(…)

com todas as mudanças que ocorreram nesse período e que persistem em confirmar a supressão de toda e qualquer presença palestiniana; nos nomes de cidades e aldeias escritos nas placas de indicação, nos edifícios recentes, nos cartazes publicitários escritos em hebraico, e até nos vastos campos que delimitam o horizonte à minha direita e à esquerda.


Ao longo do livro, certos elementos repetem-se: o cheiro a gasolina, os rituais de limpeza do corpo, a atenção obsessiva ao detalhe e o cão, criando ligações subtis entre as duas partes.

É um livro que não oferece conforto, mas também não é um panfleto. Não tenta explicar o conflito nem fornecer respostas fáceis. Não se trata de relativizar o que é certo ou errado, mas de mostrar como, em contextos de violência prolongada, a desumanização se instala de forma quase banal.



“Flying Balloon Girl is perhaps one of Banksy’s most well known artworks. It was painted on a wall on the West Bank in Israel in 2005 and carries a poignant political message. Many believe that the piece signifies the children trapped by the conflict between Israelis and Palestine’s who are longing to fly away to freedom.”

Fonte: https://banksy.newtfire.org/img/graffiti/flying_balloon_girl.jpg


Territórios Palestinos Ocupados

[Opinião] O menino negro - Camara Laye

                              


 
        


Título: O menino negro

Série: -

Autor: Camara Laye

Data de Leitura: 01/03/2026 ⮞ 26/03/2026

Classificação: ⭐⭐⭐


Sinopse

Aos vinte e cinco anos, o "menino negro" descreve sua infância, adolescência e o começo da vida adulta na República da Guiné, na África. Os tempos que passava na oficina de seu pai, as brincadeiras, a experiência da circuncisão, as danças com a amada Marie e muitas outras vivências, todas relatadas com uma calma, serenidade e alegria singulares.


Minha review no GoodReads


O Menino Negro é uma autobiografia que narra a infância do autor, Camara Laye, na Guiné Francesa, na África Ocidental. O livro acompanha o seu crescimento numa aldeia, mostrando desde a sua vida familiar com o pai ferreiro e ourives, até as tradições e rituais locais, como a circuncisão, e a comparação entre a vida rural e urbana quando passa temporadas em Conacri e estuda numa escola técnica.

Com uma escrita clara e fluida o livro é muito fácil de ler, mesmo quando descreve costumes e cerimónias detalhadamente. Oferece uma visão rica da cultura africana e da dignidade das pessoas do campo, com episódios de amizade, primeiro amor e perdas marcantes.

A história nem sempre é envolvente, e em alguns momentos parece lenta e repetitiva, mas não deixa de ser um livro importante para conhecer a vida naquela parte de África.


Guiné

-

[Opinião] A Vela Sagrada - Abdulaziz Al-Mahmoud

                                   


  


Título: A Vela Sagrada

Série: -

Autor: Abdulaziz Al-Mahmoud

Data de Leitura: 01/02/2026 ⮞ 28/02/2026

Classificação: ⭐⭐⭐


Sinopse

Pode o amor mudar o curso da História? Bin Rahhal, o braço-direito do vizir do Bahrein, era um homem particularmente atraente – e o seu olhar, misterioso e intenso, parecia mergulhar na própria alma. Halima era uma jovem mulher de uma beleza excecional. Alta e esbelta, de olhos brilhantes e longos cabelos negros, uma princesa de Ormuz. Quando os olhos de ambos se cruzaram, Bin Rahhal ficou enfeitiçado. O rosto da princesa gravou-se na sua mente, e desde então ela nunca mais lhe saiu do pensamento. Mas Halima, ponderada, tentou resistir àquele estranho, de outras terras. Na Arábia vivem-se tempos de incerteza. Cada vez mais, ouvem-se os rumores de avistamentos de navios com as velas brancas com a Cruz de Cristo. A chegada dos portugueses ao Oriente, que põe em evidência as diferenças culturais, ameaça pôr fim ao modo de vida árabe e mudará de forma drástica a história de amor entre Bin Rahhal e Halima.


Minha review no GoodReads


Enquanto fechava as últimas páginas de A Vela Sagrada, sobre a presença portuguesa no Golfo no século XVI, os noticiários davam conta de um novo episódio de tensão no Médio Oriente, com ataques envolvendo os Estados Unidos e Israel contra o Irão, e retaliações que atingiram pontos estratégicos do Golfo, como o Catar, o Dubai, a Arábia Saudita, o Kuwait e os Emirados Árabes Unidos.


Sem qualquer intenção de fazer paralelismos políticos, não deixa de ser um curioso acaso terminar um romance sobre disputas de rotas comerciais, hegemonias e equilíbrios frágeis naquela região precisamente num momento em que o Golfo voltava ao centro das notícias mundiais. A História muda de protagonistas e de tecnologias, mas raramente abandona por completo os mesmos palcos.


Em A Vela Sagrada, de Abdulaziz Al-Mahmoud, encontramos uma proposta que, à partida, é particularmente interessante para um leitor português: revisitar a expansão portuguesa no Golfo Pérsico a partir do “outro lado da vela”. Não a epopeia marítima, não o heroísmo camoniano, mas o olhar daqueles que viram chegar as velas brancas como sinal de invasão, ruptura e ameaça.




O romance situa-se no momento da conquista portuguesa de Ormuz e das tensões políticas entre reinos locais, líderes militares e potências emergentes. Há guerra, diplomacia, traição, amores cruzados e jogos de poder. Há História — e muita.


O romance apresenta acontecimentos, contextualiza-os, encadeia-os com clareza. Nota-se investigação, cuidado documental, vontade de reconstituir um período complexo. Mas é nas personagens que reside alguma fragilidade. Sejam árabes ou portuguesas, parecem muitas vezes cumprir apenas uma função histórica. A narrativa privilegia os reinantes, os estrategas, os jogos diplomáticos; ficamos na esfera do poder. Falta o povo, falta o impacto íntimo da invasão, falta a transformação profunda da sociedade no contacto com outras culturas.


Para um leitor português, há ainda um elemento curioso, a expectativa de um confronto épico, ainda que invertido. Se não há epopeia glorificadora, poderia haver grandeza trágica, ambiguidade moral intensa, choque civilizacional dramatizado. Porém, o tom mantém-se contido, quase cronístico. Faltou tempestade à vela. A vela está lá. O vento, nem sempre.


Catar

[Opinião] Duas Solidões. O Romance na América Latina - Mario Vargas Llosa - Gabriel García Márquez

                                     


 

Título: Duas Solidões. O Romance na América Latina

Série: -

Autor: Mario Vargas Llosa,Gabriel García Márquez

Data de Leitura: 06/01/2026 ⮞ 14/01/2026

Classificação: ⭐⭐⭐⭐


Sinopse

Em setembro de 1967, os jovens Gabriel García Márquez e Mario Vargas Llosa encontraram-se em Lima para discutir a literatura latino-americana. O primeiro já tinha vendido milhares de exemplares de Cem Anos de Solidão. O segundo acabava de ganhar o Prémio Rómulo Gallegos com A Casa Verde. Hoje são ambos considerados universalmente dois dos maiores expoentes da literatura, mas naquela época eram apenas dois jovens que estavam a começar a carreira de romancistas.

Em Duas Solidões, estão frente a frente dois escritores, dois génios literários, duas maneiras diferentes de entender a literatura, dois temperamentos um tanto contraditórios, duas maneiras diferentes de narrar. Estes são os tempos em que o boom da literatura latino-americana se está a formar e ainda não tinha sido inventado um nome para o que hoje conhecemos como «realismo mágico». Páginas emocionantes de uma conversa sem igual.

Esta edição inclui textos de Juan Gabriel Vásquez, Luis Rodríguez Pastor, José Miguel Oviedo, Abelardo Oquendo, Abelardo Sánchez León e Ricardo González Vigil, que recordam, na maioria como testemunhas, esse diálogo; e, além disso, duas entrevistas com o escritor colombiano, uma seleção fotográfica e a avaliação de Vargas Llosa sobre a vida e obra de García Márquez na atualidade. E conta ainda com um prefácio de Pedro Mexia para esta edição.



Minha review no GoodReads


Este livro reúne um conjunto de textos que funcionam como amuse-gueule para aquilo que verdadeiramente nos interessa que é  a conversa entre dois homens que viriam a tornar-se duas das maiores vozes da literatura latino-americana.


Antes do diálogo propriamente dito, encontramos quatro textos introdutórios:

Irmãos inimigos, de Pedro Mexia; 

Palavras recuperadas, de Juan Gabriel Vásquez; 

Uma vez e nunca mais, de Luis Rodríguez Pastor; 

e a nota preliminar de José Miguel Oviedo 

que ajudam a contextualizar e a preparar-nos para o encontro que se segue.


No centro do volume está o diálogo travado entre Mario Vargas Llosa e Gabriel García Márquez em Lima, nos dias 5 e 7 de Setembro de 1967.

Cem Anos de Solidão tinha acabado de ser publicado e García Márquez ainda não era o escritor planetário que viria a ser e Vargas Llosa, por sua vez, estava em plena afirmação crítica e intelectual. São dois escritores jovens, ambiciosos, lúcidos e ainda amigos.

Trata-se de uma conversa longa, densa e surpreendentemente generosa, em que dois escritores ainda em plena afirmação reflectem sobre a literatura. Falam sobretudo do romance latino-americano, do acto de escrever, do realismo mágico, das influências literárias, do papel do escritor na sociedade.

No final, o livro oferece um verdadeiro digestivo, uma série de testemunhos que prolongam este momento histórico, com textos de:

Abelardo Sánchez León - Foi há anos e não o esqueço;

Abelardo Oquendo - Vida e literatura;

Ricardo González Vigil - Encontro entre Mario Vargas Llosa e Gabriel García Márquez;

e ainda García Márquez por Vargas Llosa.


Há ainda um pequeno miminho com algumas entrevistas, textos adicionais como Forjámos o Grande Romance da América e Gabriel García Márquez. A sua chave: a sinceridade, e um conjunto de fotografias que eternizaram o momento.


Lido hoje, este livro ganha uma força adicional, não apenas como reflexão literária de alto nível, mas como o registo de um encontro irrepetível, anterior às rupturas pessoais e ideológicas que viriam a separar definitivamente estes dois escritores.


Peru



[Opinião] Uma História Simples - Leonardo Sciascia

                                      


Título: Uma História Simples

Série: -

Autor: Leonardo Sciascia

Data de Leitura: 01/12/2025 ⮞ 02/12/2025

Classificação: ⭐⭐⭐⭐


Sinopse

Sicília, década de 1980. O telefone toca na esquadra: ao que parece, um velho diplomata quer falar com a polícia porque encontrou uma coisa estranha em sua casa. A partir daqui, tudo sucede numa espécie de ato contínuo, sem tempo para deduções ou explicações. Embora tempo pareça ser tudo o que a polícia tem a mais e não use convenientemente naquele lugar.

Ao que parece, afinal, houve um suicídio. Seria simples, a história, não fosse o jovem polícia deparar, na sua investigação, com uma enorme parede intransponível, composta pelas intrincadas argamassas que dão pelo nome de máfia, polícia, corrupção e, afinal, toda a Sicília.

Retrato de um sítio onde a verdade não conhece definição e a justiça teima em não chegar, o último livro de Sciascia é um magnífico exercício de economia de escrita, uma pequeníssima janela que abrimos e da qual, tremendamente espantados, vemos tudo.


Minha review no GoodReads


Leonardo Sciascia. Escritor, ensaísta, político italiano. Nasceu em Racalmuto, na Sicília, onde foi homenageado com uma estátua. Foi deputado pelo Partido Comunista Italiano e posteriormente pelo Partido Radical, mas dizem que manteve sempre uma postura crítica e independente.

Tornou-se bastante conhecido por abordar frontalmente a influência da máfia numa altura em que o tema ainda era tabu.


Inspirado num acontecimento real, o roubo de uma pintura de Caravaggio, A Natividade com São Francisco e São Lourenço*, Uma História Simples acompanha a investigação de um caso de aparente suicídio, que desde o início começa por levantar algumas dúvidas. Há muitas pessoas com pressa de dar o caso como encerrado, mas há pequenos detalhes que contradizem o veredicto do comissário encarregado do caso.


O que parecia banal é afinal muito mais profundo. Com uma história cheia de pistas subtis, Sciascia mostra-nos onde a lógica, a ética e a corrupção entram em confronto, e ao longo de todo o conto sentimos o peso silencioso da máfia siciliana.


Se perguntarmos a um siciliano:

E la mafia?

a resposta será, quase sempre:

La mafia non c'è!


* A Natividade com São Francisco e São Lourenço está desaparecida desde 1969, quando foi roubada do Oratório de São Lourenço em Palermo. Os investigadores acreditam que a pintura mudou de mãos entre a Máfia Siciliana nas décadas seguintes ao roubo e pode ainda estar escondida.

Uma réplica está pendurada no altar, desde 2015.


Itália

[Opinião] A Biblioteca do Censor de Livros - Bothayna Al-Essa

                                    


Título: A Biblioteca do Censor de Livros

Série: -

Autor: Bothayna Al-Essa

Data de Leitura: 01/11/2025 ⮞ 09/11/2025

Classificação: ⭐⭐⭐


Sinopse

Uma sátira ousada e fantástica sobre livros proibidos, arquivos secretos e o olho vigilante de um governo omnipresente e todo-poderoso.

Há semanas que o novo censor de livros não tem uma noite de sono tranquilo. Durante o dia ocupa-se a passar a pente fino manuscritos de livros num gabinete governamental, à procura de qualquer pormenor capaz de tornar o livro impróprio para publicação - alusões a homossexualidade, a religiões não aprovadas, qualquer menção sobre a vida antes da Revolução.

À noite, os seus sonhos povoam-se de personagens dos clássicos da literatura, e os romances que vai surripiando empilham-se na casa que partilha com a mulher e a filha. Ao mesmo tempo que continua a ser atraído pelo canto da sereia das leituras proibidas, mergulha num mundo subterrâneo onde se cruzam combatentes da Resistência, uma livreira clandestina e bibliotecários fora-da-lei que tentam salvar a sua história e cultura.

Face à ameaça que a liberdade de expressão enfrenta globalmente e ao futuro sombrio a que o mundo está praticamente condenado, Bothayna Al-Essa combina a acerada distopia de 1984 e de Fahrenheit 451 com o absurdo descabelado de Alice no País das Maravilhas.

A Biblioteca do Censor de Livros é, ao mesmo tempo, um sinal de alerta e uma declaração de amor pelas histórias e o delicioso ato de nos deixarmos perder nelas.


Minha review no GoodReads


Logo no primeiro parágrafo


Um dia de manhã, ao acordar possuído por palavras que não eram suas, o censor de livros deu por si em cima da cama transformado num leitor.


dei por mim a pensar, e posteriormente a confirmar, isto é o início d’ A Metamorfose!!


Uma manhã, ao despertar de sonhos inquietantes, Gregor Samsa deu por si na cama transformado num gigantesco insecto.

(PEA – tradução de J.A. Teixeira Aguiar)


Depois apareceram os coelhos, numa clara alusão ao Alice no País das Maravilhas, e quando surgiu o Vida e Andanças de Alexis Zorbás fiquei curiosa sobre como a autora iria juntar estas e outras obras num mesmo romance. E fê-lo, não de forma linear nem previsível, mas através de um mosaico de referências que fazem deste livro uma espécie de jogo de espelhos sobre a leitura, a censura e o próprio acto de interpretar.


Bothayna Al-Essa constrói uma distopia linguística e literária, onde o pensamento é perigoso e a imaginação uma ameaça ao regime. Ler não é um direito, mas um crime.

E o protagonista, encarregado de censurar livros, acaba por torna-se leitor. Há algo de muito kafkiano nesta inversão, com um toque de Fahrenheit 451, o absurdo de Carroll e o desencanto de Zorbás.


Gostei da história, embora a tenha sentido um pouco juvenil — talvez porque hoje em dia a juventude precise de ler sem grandes exigências, e a autora, professora que é, sabe moldar o discurso ao público alvo. A linguagem é simples o que torna a leitura rápida, mesmo quando a história parece perder-se em repetições ou pequenos desvios. Em certos momentos, senti que andávamos à deriva, entre metáforas demasiado explícitas e digressões que pouco acrescentavam ao essencial.


Mesmo assim, há algo de encantador no modo como Bothayna Al-Essa transforma o amor pelos livros num acto de resistência. O problema é que, quando tudo parece caminhar para a redenção, o final surge sem a centelha de esperança que esperava. Uma ausência que pode ser intencional, um aviso para sob novas formas de censura, mais subtis, mais cómodas, mas igualmente eficazes.




Kuwait




[DNF] Alegrias e Tristezas de Martha Friel - Meg Mason

                                 


  

Título: Alegrias e Tristezas de Martha Friel

Série: -

Autor: Meg Mason

Data de Leitura: 12/10/2025 ⮞ 22/10/2025

Classificação: ⭐


Sinopse

Todos dizem que Martha Friel é inteligente e bonita, uma escritora brilhante que sempre foi amada durante toda a sua vida adulta por um homem, o seu marido Patrick. Um presente que, segundo a sua mãe, nem todos têm.

Então, porque está tudo destruído? Porque é que Martha, prestes a fazer quarenta anos, não tem amigos, salta de um trabalho mau para outro e está sempre triste? E porque é que Patrick se foi embora?

Talvez seja demasiado sensível, alguém que acha, muito mais do que a maioria das pessoas, que viver é muito difícil. Ou, talvez (o que Martha sempre achou) algo não funcione dentro dela. Algo que explodiu no seu interior quando tinha dezassete anos e a mudou de tal forma que nenhum médico, terapia ou droga conseguiu explicar ou desfazer os seus males.

Obrigada a viver novamente com os seus pais, boémios e disfuncionais, no lar da sua infância num bairro londrino pitoresco, mas sem a ajuda inestimável e devota da sua irmã Ingrid, Martha tem uma última aceitar que a sua vida está demasiado destruída para a melhorar ou começar de novo e escrever um fim melhor para ela.

Um best seller internacional, um romance que se lê compulsivamente, agudo, intrigante, sombrio e enternecedor e que combina a perspicácia psicológica de Sally Rooney com o humor agudo de Nina Stibbe e a ressonância emotiva de Eleanor Oliphant.



Minha review no GoodReads


DNF 31%


Estou numa fase de mau karma literário — ou então lançaram-me uma urucubaca de leitora. É já a terceira desistência do mês.


O ritual de limpeza energética já está em curso!



O título prometia alegrias e tristezas, talvez uma história agridoce sobre crises pessoais, com humor e uma pitada de melancolia.

Mas Martha Friel é uma mulher sem rumo, à deriva — e não há mal nenhum nisso, desde que a história nos interesse.

Não foi o caso. Nem a escrita, nem a personagem, nem o humor me conquistaram.


As tristezas ficaram; as alegrias faltaram à chamada.


Nova Zelândia