Translate

Pesquisar neste blogue

[Opinião] Um Detalhe Menor - Adania Shibli

                                  


    

Título: Um Detalhe Menor

Série: -

Autor: Adania Shibli

Data de Leitura: 01/04/2026 ⮞ 04/04/2026

Classificação: ⭐⭐⭐⭐⭐


Sinopse

No verão de 1949 - um ano depois da Nakba, a catástrofe que expulsou mais de 700 mil palestinianos das suas terras, e que os israelitas celebram como a Guerra da Independência -, uma unidade de soldados israelitas, ataca um grupo de beduínos no deserto do Negueve, dizimando-o. Entre as vítimas encontra-se uma adolescente que sobrevive ao massacre. É capturada e violada, e depois assassinada e enterrada na areia. É a manhã de 13 de agosto de 1949.

Muitos anos mais tarde, quase na atualidade, uma jovem mulher em Ramallah descobre acidentalmente uma breve menção a esse crime brutal. Obcecada com o assunto, não só devido à natureza macabra do caso, mas também devido ao detalhe menor de ter acontecido precisamente vinte e cinco anos antes de ela nascer, irá embarcar numa viagem para tentar desvendar alguns - dos detalhes que envolvem o crime.

Adania Shibli sobrepõe magistralmente estas duas narrativas translúcidas para evocar um presente para sempre assombrado pelo passado. Com uma prosa inquietante e precisa, Um Detalhe Menor evoca a experiência palestiniana do apagamento, da expropriação e da vida sob a ocupação, ao mesmo tempo que revela a complexidade permanente de se juntar as peças de uma narrativa ocultada por fragmentos de linguagem.


Minha review no GoodReads



Terminei Um Detalhe Menor, de Adania Shibli, e fiquei em silêncio. Não aquele silêncio confortável de quem fecha um livro satisfeito, mas um silêncio pesado, quase imóvel como se fosse preciso tempo para voltar ao mundo.

Dividido em duas partes, o livro constrói-se a partir de um acontecimento real e de uma ficção que o prolonga no tempo.


«Neste sítio, agora despovoado e isolado, nós estamos, de facto, a participar na batalha para que o nosso povo exista e permaneça na região sul. Por conseguinte, não estamos a levar a cabo apenas uma operação militar, mas também uma de cariz nacional. Não podemos deixar que o Negueve seja um deserto desolado, uma presa da aridez para os árabes e os seus animais molestarem.

“Não é o canhão que vencerá, é o homem.”»


Na primeira parte, somos transportados para um episódio ocorrido na Palestina, entre 9 e 13 de Agosto de 1949, em que uma rapariga beduína depois de capturada, violada acaba assassinada por soldados israelitas. Toda a descrição do que se passa nestes cinco dias é distanciada, toda a rotina é diluída em gestos repetitivos, descrições minuciosas, em detalhes insignificantes.


Na segunda parte, a voz muda. Passamos a acompanhar uma jornalista palestiniana que se torna obcecada por esse mesmo acontecimento, apenas por ter ocorrido exactamente 25 anos antes do seu nascimento.


Aconteceu numa manhã que coincidirá, exatamente um quarto de século depois, com a manhã do meu nascimento. Naturalmente, isto poderá parecer puro narcisismo, já que o que me interessou naquele incidente, o que me impressionou mesmo, foi um detalhe secundário quando comparado com os detalhes principais, que só podem ser descritos como trágicos.


A sua investigação leva-a a atravessar espaços físicos e simbólicos, enfrentando postos de controlo, 

Frequentemente ouvi dizer que a travessia do posto de Qalandia ao sábado, que é o dia de hoje, é a pior e a mais difícil altura para o fazer, porque para além de todos os habitantes de Jerusalém virem a Ramallah para comprar legumes frescos no mercado ou para tratar dos seus assuntos, os soldados estão de ânimo vingativo, ressentidos com toda a gente que atravessa o posto e os obriga a trabalhar durante o que era suposto ser o seu dia de descanso semanal, o sábado, dia em que o Senhor, Ele mesmo, descansou.

obstáculos, vigilância e uma constante sensação de ameaça. Aqui, o passado infiltra-se no presente, mostrando que a distância temporal não apaga nada, apenas transforma as formas de violência.

Achei interessante a ausência de nomes nas personagens. Não saber quem são torna tudo mais universal. Como se aquelas figuras pudessem ser substituídas por outras, noutro tempo, noutro lugar, sem que a violência deixasse de existir. 

Em contraste, os lugares são nomeados, antes e depois, como se a geografia carregasse uma memória que as pessoas são impedidas de fixar.

Reconheço o nome de algumas, de onde alguns colegas meus e conhecidos são provenientes, como, por exemplo, Lifta, al-Qastal, Ein Kárim, al-Maliha, al-Jura, Abu Shushah, Saris, Innaba, Jimzu e Deir Tarif. Mas a maioria são nomes que me parecem desconhecidos, a ponto de me causarem um estranho sentimento de melancolia. Khirbat al-‘Amur, Bir Ma‘in, al-Burj, Khirbat al-Buwayra, Beit Shanna, Salbit, al-Qubab, al-Kunayyisa, Kharruba, Khirbat Zakariyya, al-Barriyya, Deir Abu Salama, Al-Na‘ani, Jindas, al-Haditha, Abu al-Fadl, Kasla, e muitas outras.

(…)

com todas as mudanças que ocorreram nesse período e que persistem em confirmar a supressão de toda e qualquer presença palestiniana; nos nomes de cidades e aldeias escritos nas placas de indicação, nos edifícios recentes, nos cartazes publicitários escritos em hebraico, e até nos vastos campos que delimitam o horizonte à minha direita e à esquerda.


Ao longo do livro, certos elementos repetem-se: o cheiro a gasolina, os rituais de limpeza do corpo, a atenção obsessiva ao detalhe e o cão, criando ligações subtis entre as duas partes.

É um livro que não oferece conforto, mas também não é um panfleto. Não tenta explicar o conflito nem fornecer respostas fáceis. Não se trata de relativizar o que é certo ou errado, mas de mostrar como, em contextos de violência prolongada, a desumanização se instala de forma quase banal.



Flying Balloon Girl is perhaps one of Banksy’s most well known artworks. It was painted on a wall on the West Bank in Israel in 2005 and carries a poignant political message. Many believe that the piece signifies the children trapped by the conflict between Israelis and Palestine’s who are longing to fly away to freedom.”

Fonte: https://banksy.newtfire.org/img/graffiti/flying_balloon_girl.jpg


Territórios Palestinos Ocupados