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[Opinião] O Funil do Diabo - Júlia Lopes de Almeida

   




Título: O Funil do Diabo

Série: -

Autor: Júlia Lopes de Almeida

Data de Leitura: 29/03/2023 ⮞ 09/04/2023

Classificação: ⭐


Sinopse

No romance O Funil do Diabo  Julia Lopes de Almeida mergulha o leitor em uma intrincada história de mistério no coração de uma família burguesa, em plena era da industrialização brasileira. Intrigantes roubos assombram a casa da abastada família… Quem seria o responsável? Qual a motivação? Quais os meios usados? Desconfiança, intrigas e obsessão são os temperos desta obra.

Como em outros trabalhos, a escritora dá destaque à situação da mulher na sociedade patriarcal, a postura de autoanulação diante da autoridade dos maridos, a histeria feminina, tão em voga na época, são temas que não ficam intocado na trama.

Baseada na publicação póstuma, feita pelo "Jornal do Commercio", em 1934, que, em uma homenagem à autora recém-falecida, compartilhou com o público o texto até então inédito. Como as outras publicações da Janela Amarela, esta reedição teve ortografia atualizada e conta com notas explicativas, para termos e palavras fora de uso.

Esta edição

Texto integral do romance O Funil do Diabo escrito por Julia Lopes de Almeida, publicado postumamente no Jornal do Commercio (RJ).Trecho do discurso de Afonso Lopes de Almeida, por ocasião de sua posse na Academia Carioca de Letras, que traça um perfil da escritora.Biografia de Julia escrita pela filha, Margarida Lopes de Almeida.Primeiro trabalho jornalístico de Julia Lopes de a crítica à atriz Gemma Cinubertti, publicada na Gazeta de Campinas em 1881.



Minha review no GoodReads


Júlia Lopes de Almeida nasceu em 1862, no Rio de Janeiro, filha dos emigrantes portugueses Adelina Pereira Lopes, musicista, e Valentim José da Silveira (Visconde de São Valentim), médico. A família pertencia à classe alta, o que proporcionou uma excelente educação à promissora escritora.

O pai de Júlia descobriu a vocação da filha, e incentivou-a a que escrevesse um artigo para a Gazeta de Campinas. E foi assim que tudo teve início. Júlia foi uma escritora com uma vasta produção literária conseguindo, à época, viver dos rendimentos da sua profissão.

Era uma mulher muito à frente do seu tempo, era republicana, defendia a educação feminina, o divórcio e a abolição da escravatura.



... Os povos mais fortes, mais práticos, mais ativos, e mais felizes são aqueles onde a mulher não figura como mero objeto de ornamento; em que são guiadas para as vicissitudes da vida com uma profissão que as ampare num dia de luta, e uma boa dose de noções e conhecimentos sólidos que lhe aperfeiçoem as qualidades morais. Uma mãe instruída, disciplinada, bem conhecedora dos seus deveres, marcará, funda, indestrutivelmente, no espírito do seu filho, o sentimento da ordem, do estudo e do trabalho, de que tanto carecemos.

- Júlia Lopes de Almeida, em A Mensageira


Júlia Lopes de Almeida teve uma vida intelectual bastante activa, fez parte do grupo de intelectuais que criaram a Academia Brasileira de Letras, mas o seu nome não foi incluído. Era mulher - a ABL era um clube do Bolinha – e em vez dela foi considerado o nome do marido, Filinto de Almeida – Cadeira 3, sem produção literária de destaque.
Após a sua morte, em 1934, Júlia Lopes de Almeida foi caindo no esquecimento, mas o seu regresso aos escaparates das livrarias deveu-se à leitura obrigatória para o vestibular da Unicamp.

Aos mais desatentos (onde me incluo) há em Lisboa um busto da escritora, ali no Jardim Gomes de Amorim.




O Funil do Diabo, de Júlia Lopes de Almeida, é, à primeira vista, um romance de mistério centrado no desaparecimento de dinheiro e na tentativa de descobrir o culpado. Mas rapidamente percebemos que o verdadeiro interesse não está tanto na resolução do enigma, mas antes na forma como este serve de pretexto para explorar tensões familiares, jogos de aparência e a fragilidade da verdade num determinado meio social.


A história acompanha Juliana, que, perante o desaparecimento de rolos de libras do cofre do marido, se vê envolvida numa investigação que a leva não só a desconfiar dos que a rodeiam, mas também de si própria.


(…) mas isto faz com que me martirize a ideia de eu ter recomeçado com os meus pesadelos de criança e, em atos de sonambulismo, de movimento espontâneo ou não, ter por minhas próprias mãos retirado esse dinheiro do cofre... para o esconder... não sei onde!


É interessante como a lucidez feminina pode ser facilmente posta em causa, pela própria, como forma de justificar certos acontecimentos para os quais ainda não há explicação.


Ao longo do romance, há um ambiente de suspeita constante, onde as relações familiares se revelam instáveis e permeáveis a intrigas. Uma família burguesa que vive profundamente das aparências e prefere ignorar as evidências a enfrentar aquilo que pode comprometer a sua imagem.


A figura do padrasto, ligada à hipnose, acrescenta uma nova dimensão à história e reforça a dúvida entre razão e loucura.


Apesar de ser um romance que retrata bastante bem a sociedade da época, faltou-lhe alguma força e a intriga poderia ser mais impactante.


Júlia Lopes de Almeida não teve a oportunidade de ver esta obra publicada. Morreu em 1934, vítima de malária, oito dias após o retorno de uma viagem a Moçambique. O Funil do Diabo foi publicado postumamente pelo Jornal do Commercio, como “uma novela inédita”, no final do mesmo ano — uma homenagem à autora.


A edição que li inclui ainda dois anexos particularmente tocantes: uma homenagem dos filhos, com textos de Afonso Lopes de Almeida (trecho do discurso de posse na Academia Carioca de Letras) e Margarida Lopes de Almeida (biografia de D. Júlia).


Estes textos, para além do seu valor afectivo, ajudam-nos a perceber quem era esta mulher, oferecendo um olhar mais íntimo.


Uma leitura interessante, sobretudo pelo que revela nas entrelinhas, ainda que com alguns aspectos que poderiam ser mais desenvolvidos.