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[Opinião] As Sete Irmãs - Lucinda Riley

                                   


  

Título: As Sete Irmãs

Série: The Seven Sisters #1

Autor: Lucinda Riley

Data de Leitura: 02/01/2026 ⮞ 15/01/2026

Classificação: 


Sinopse

Se procura uma série envolvente e viciante, na qual a trama familiar é o ponto de partida para momentos épicos

em vários lugares e épocas, tem o livro perfeito nas mãos. Prepare-se para viver amores impossíveis, sonhos sem limites e surpresas impressionantes.

Maia D’Aplièse, a filha mais velha do misterioso Pa Salt, tem uma vida tranquila: isolada na casa de família no lago Genebra, na Suíça, não podia estar mais confortável. Mas, um dia, o chão abre-se sob os seus pés. A notícia da morte do pai, que adotou Maia e as suas cinco irmãs em pontos diferentes do mundo, deixa-a completamente desfeita.

Porém, antes de morrer, Pa Salt deixou pistas às seis filhas sobre as origens de cada uma. Maia, abalada com a perda do pai, não consegue também lidar com o reaparecimento de um antigo namorado - é demasiado. Resolve, então, seguir as pistas de Pa Salt - uma carta, coordenadas geográ­cas e um azulejo de pedra-sabão - e rumar ao Rio de Janeiro.

Envolvida pela atmosfera quente e sedutora da Cidade Maravilhosa, Maia descobre que a sua vida está ligada a uma trágica e comovente história de amor, passada entre a belle époque parisiense e a construção do Cristo Redentor. Maia tem de investigar os seus ancestrais e enfrentar os erros do passado. Mas, pelo meio, entre tempos e lugares, espreita, talvez, um novo amor.



Minha review no GoodReads


O ponto de partida de As Sete Irmãs está na mitologia grega. As Plêiades, filhas de Atlas, eram sete irmãs que acabaram transformadas em estrelas. Lucinda Riley pega neste mito antigo e usa-o como pano de fundo para uma série onde o passado nunca está verdadeiramente encerrado e onde a procura pela origem se transforma numa forma de autoconhecimento.


Neste primeiro volume conhecemos Maia, a irmã mais velha. Reservada, introspectiva e algo desligada do mundo exterior, Maia vive há anos quase em clausura, protegida pela grande casa da família, nas margens do Lac Genebra, e pela presença enigmática de Pa Salt. Da sua infância pouco sabemos, e a forma como foi adoptada permanece envolta em silêncio. É apenas após a morte do pai adoptivo que Maia se vê obrigada a sair da sua zona de conforto e a iniciar uma viagem em direcção às suas origens.


Nunca permitas que o medo decida o teu destino.


No presente, Maia vai descobrindo pequenas âncoras que a ajudam a avançar na sua própria vida e o Floriano é uma delas. Ele surge quase sem querer, discreto, mas torna-se rapidamente alguém de confiança, com quem se pode rir, partilhar medos e dar uns passos em frente. Não é um romance que ocupe toda a história, mas sim uma presença constante que aquece e suaviza os momentos mais solitários da Maia. Com ele, percebemos que a Maia não precisa de carregar tudo sozinha e que, às vezes, a vida tem jeito de surpreender com pequenas alegrias.

Ao mesmo tempo, a viagem da Maia leva-nos, inevitavelmente, ao passado, através da história de Izabela Bonifácio, que domina grande parte do livro. É aqui que a narrativa ganha corpo: conhecemos um Rio de Janeiro do início do século XX, em plena transformação, com todas as suas contradições e tensões sociais. Gostei bastante de toda a história à volta da construção do Cristo Redentor. Mais tarde, acompanhamos Izabela em Paris, cidade de descoberta, liberdade e formação, mas também palco do grande amor da sua vida. Uma relação intensa, desigual, cheia de paixão e de dor, que marca Izabela de forma irreversível. Paris não é apenas um lugar bonito por onde se passeia; é o sítio onde Izabela se constrói e, ao mesmo tempo, se parte um pouco. Mesmo sabendo desde cedo que este amor não terá um final feliz, é impossível não se deixar envolver por ele.

Ainda assim, senti que o livro passa demasiado tempo com Izabela e pouco com Maia. Embora compreenda a força da narrativa histórica, gostaria de ter acompanhado mais de perto o processo interior da Maia, a sua busca e as suas dúvidas. A sua evolução existe, e é até surpreendente em certos momentos, mas acontece muitas vezes à margem, como se Maia estivesse ali sobretudo para ligar pontas soltas.

Além do Rio e Paris, a narrativa leva-nos ainda à Suíça, onde Maia passa algum tempo numa casa à beira de lago, cercada de montanhas e vegetação. Este espaço é discreto, calmo, quase um refúgio, e serve para a Maia reflectir sobre tudo o que descobriu, dando à história uma pausa íntima e contemplativa.

Por fim, há Atlântida, a enorme mansão das irmãs no presente, que liga todas elas e mantém o mistério de Pa Salt. É um espaço de memórias e segredos, onde passado e presente se entrelaçam.

A escrita é simples e fluida, tornando a leitura rápida e agradável. Há algumas surpresas bem colocadas e personagens secundárias que funcionam muito bem. As outras irmãs, ainda pouco exploradas, deixam pistas suficientes para despertar curiosidade e vontade de continuar.


Resumindo: As Sete Irmãs foi uma leitura agradável, mas ficou aquém do que eu esperava. Passa-se bem o tempo, um pouco de romance, uns segredos pelo caminho, viagens pelo passado…tudo num romantsy para gajas.


Dou-lhe 3 estrelas, com a noção de que esta avaliação poderá mudar quando terminar a série e conseguir olhar para este primeiro livro como parte de um todo.

[Opinião] Duas Solidões. O Romance na América Latina - Mario Vargas Llosa - Gabriel García Márquez

                                     


 

Título: Duas Solidões. O Romance na América Latina

Série: -

Autor: Mario Vargas Llosa,Gabriel García Márquez

Data de Leitura: 06/01/2026 ⮞ 14/01/2026

Classificação: 


Sinopse

Em setembro de 1967, os jovens Gabriel García Márquez e Mario Vargas Llosa encontraram-se em Lima para discutir a literatura latino-americana. O primeiro já tinha vendido milhares de exemplares de Cem Anos de Solidão. O segundo acabava de ganhar o Prémio Rómulo Gallegos com A Casa Verde. Hoje são ambos considerados universalmente dois dos maiores expoentes da literatura, mas naquela época eram apenas dois jovens que estavam a começar a carreira de romancistas.

Em Duas Solidões, estão frente a frente dois escritores, dois génios literários, duas maneiras diferentes de entender a literatura, dois temperamentos um tanto contraditórios, duas maneiras diferentes de narrar. Estes são os tempos em que o boom da literatura latino-americana se está a formar e ainda não tinha sido inventado um nome para o que hoje conhecemos como «realismo mágico». Páginas emocionantes de uma conversa sem igual.

Esta edição inclui textos de Juan Gabriel Vásquez, Luis Rodríguez Pastor, José Miguel Oviedo, Abelardo Oquendo, Abelardo Sánchez León e Ricardo González Vigil, que recordam, na maioria como testemunhas, esse diálogo; e, além disso, duas entrevistas com o escritor colombiano, uma seleção fotográfica e a avaliação de Vargas Llosa sobre a vida e obra de García Márquez na atualidade. E conta ainda com um prefácio de Pedro Mexia para esta edição.



Minha review no GoodReads


Este livro reúne um conjunto de textos que funcionam como amuse-gueule para aquilo que verdadeiramente nos interessa que é  a conversa entre dois homens que viriam a tornar-se duas das maiores vozes da literatura latino-americana.


Antes do diálogo propriamente dito, encontramos quatro textos introdutórios:

Irmãos inimigos, de Pedro Mexia; 

Palavras recuperadas, de Juan Gabriel Vásquez; 

Uma vez e nunca mais, de Luis Rodríguez Pastor; 

e a nota preliminar de José Miguel Oviedo 

que ajudam a contextualizar e a preparar-nos para o encontro que se segue.


No centro do volume está o diálogo travado entre Mario Vargas Llosa e Gabriel García Márquez em Lima, nos dias 5 e 7 de Setembro de 1967.

Cem Anos de Solidão tinha acabado de ser publicado e García Márquez ainda não era o escritor planetário que viria a ser e Vargas Llosa, por sua vez, estava em plena afirmação crítica e intelectual. São dois escritores jovens, ambiciosos, lúcidos e ainda amigos.

Trata-se de uma conversa longa, densa e surpreendentemente generosa, em que dois escritores ainda em plena afirmação reflectem sobre a literatura. Falam sobretudo do romance latino-americano, do acto de escrever, do realismo mágico, das influências literárias, do papel do escritor na sociedade.

No final, o livro oferece um verdadeiro digestivo, uma série de testemunhos que prolongam este momento histórico, com textos de:

Abelardo Sánchez León - Foi há anos e não o esqueço;

Abelardo Oquendo - Vida e literatura;

Ricardo González Vigil - Encontro entre Mario Vargas Llosa e Gabriel García Márquez;

e ainda García Márquez por Vargas Llosa.


Há ainda um pequeno miminho com algumas entrevistas, textos adicionais como Forjámos o Grande Romance da América e Gabriel García Márquez. A sua chave: a sinceridade, e um conjunto de fotografias que eternizaram o momento.


Lido hoje, este livro ganha uma força adicional, não apenas como reflexão literária de alto nível, mas como o registo de um encontro irrepetível, anterior às rupturas pessoais e ideológicas que viriam a separar definitivamente estes dois escritores.


Peru



[Opinião] Como Poeira ao Vento - Leonardo Padura

                                      




Série: -

Autor: Leonardo Padura

Data de Leitura: 18/12/2025 ⮞ 11/01/2026

Classificação: 


Sinopse

O dia começa mal para Adela, jovem nova-iorquina de ascendência cubana, ao receber um telefonema da mãe. Há mais de um ano que as duas estão zangadas, porque não só Adela se mudou para Miami, como vive com Marcos, um jovem havanês recém-chegado aos Estados Unidos, por quem se perdeu de amores e que a mãe rejeita pelas suas origens. Como se isso não bastasse, nesse dia Marcos mostra a Adela uma fotografia sua em criança com o grupo de amigos dos pais, autodenominado o Clã. E quando, entre aqueles rostos, Adela reconhece um que lhe é particularmente familiar, o seu mundo ameaça ruir.

Como poeira ao vento é a história de um grupo de amigos que sobreviveu a um destino de exílio e dispersão em Barcelona, no extremo Noroeste dos Estados Unidos, em Madrid, em Porto Rico, em Buenos Aires… Que lhes fez a vida, a eles que se amavam tanto? Que aconteceu com os que partiram e com os que decidiram ficar? Como é que o tempo passou por eles? Tornarão a uni-los o magnetismo do sentimento de pertença e a força dos afetos? Ou serão as suas vidas como poeira ao vento?



Minha review no GoodReads


E a felicidade, quanto dura a felicidade?


Como Poeira ao Vento é um romance intenso que nos dá a conhecer a vida de um grupo de amigos cubanos, o “Clã”, desde os tempos de liceu até à vida adulta. 

Em 1990, após a queda do muro de Berlim e o fim da União Soviética, Cuba está à beira do colapso, e uma fotografia tirada numa festa de aniversário e dois acontecimentos perturbadores, um suicídio e um desaparecimento inexplicável, tornam-se o ponto de partida de uma história que se estende até 2016.

O romance avança como peças de um puzzle, memórias e recuos no tempo. Cada capítulo apresenta-nos uma vida, uma escolha, uma perda. Há amizades terminadas, fidelidades impossíveis, amores que resistem à distância e ilusões que se desfazem lentamente. No centro de tudo está Cuba. Cuba como pátria, ferida, obsessão e ausência. Cuba um lugar que se renega sem nunca ser verdadeiramente abandonado.

A narrativa acompanha as suas escolhas, os desgostos e as memórias de uma juventude marcada por amizade, sonhos e rupturas históricas.

Gostei da forma subtil como integra a realidade económica e social cubana. Sem doutrinamento, Padura mostra as carências, as restrições, a dualidade monetária e o fosso entre o discurso oficial e a vida quotidiana, e ajuda-nos a perceber tanto as razões da partida como as de quem ficou.

As personagens são ricas, complexas e humanas. Cada uma tem a sua história, carregada de feridas e conflitos íntimos. Bernardo, preso entre amores e vícios. Elisa, manipuladora e enigmática. Horacio, dividido entre exílio e destino. Irving, cúmplice das vidas dos outros. Clara, centro de gravidade do Clã, cuja casa é o palco das reuniões, celebrações e segredos do grupo. 

Leonardo Padura escreve com elegância, com uma prosa fluida, rica e que em nenhum momento se torna pesada. Foi uma agradável surpresa!

[Opinião] Quem Matou o Meu Pai - Édouard Louis

                                      



Título: Quem Matou o Meu Pai

Série: 

Autor: Édouard Louis

Data de Leitura: 05/01/2026 ⮞ 10/01/2026

Classificação: 


Sinopse

Do premiado autor de Para Acabar de Vez com Eddy Bellegueule, esta é a história comovente e fraturante do reencontro possível entre pai e filho, e um grito pungente de denúncia social.

Com voz apaixonada e urgente, Édouard Louis narra o retorno à sua cidade natal, um local feio e cinzento numa das regiões mais pobres de França, e à casa paterna. É o regresso a uma infância assombrada pela violência, a homofobia e a vergonha, mas também a tentativa de uma reconciliação com esse passado doloroso, materializado numa figura paterna dominadora, agora fisicamente diminuída, frágil e exposta.

Relato comovente do reencontro possível entre pai e filho, evocativo de Carta ao Pai de Franz Kafka, Quem Matou o Meu Pai representa o gesto que procura o perdão e ainda o grito de denúncia de um fosso social que devora a França há décadas, com o dedo apontado ao poder político, a essa casta privilegiada, verdadeira responsável por condenar a uma morte precoce as classes mais desfavorecidas.


Minha review no GoodReads


4,5

Quem Matou o Meu Pai é um livro duro, conciso e político, e funciona como um ajuste de contas que já não se dirige apenas à família ou à aldeia, mas a um sistema inteiro.


Durante toda a minha infância, desejei a tua ausência.


Se em Para Acabar de vez com Eddy Bellegueule a escrita parecia necessária para sobreviver aqui ela surge como um gesto de maturidade. Compreender que o pai, figura violenta e silenciosa no primeiro livro, foi também ele esmagado pelas mesmas forças sociais que tornaram a infância de Eddy insuportável.


Édouard Louis dirige-se directamente ao pai e constrói um texto simultaneamente acusatório e íntimo. Não há condescendência, mas também não há generalização. Há contextualização, não absolvição. A violência doméstica, o racismo, a homofobia e a dureza afectiva surgem como consequências de uma vida sem escolha, sem futuro possível. A vergonha de ser pobre, de depender do Estado, de falhar enquanto homem atravessa todo o livro.


As políticas públicas são nomeadas, os responsáveis enumerados, as datas assinaladas.

Hollande, Valls, El Khomri, Hirsch, Sarkozy, Macron, Bertrand, Chirac. A história do teu sofrimento tem nomes.

É preciso coragem para o fazer.


O corpo do pai torna-se um documento político, um arquivo vivo de decisões governamentais que retiram direitos, precarizam o trabalho e impedem até o acesso aos cuidados de saúde. A literatura aqui não suaviza, expõe.


Mas há ali, surpreendentemente, uma declaração de amor. Édouard reconhece a transformação do pai, mesmo que essa transformação tenha chegado demasiado tarde.


Mudaste, nos últimos anos. Tornaste-te outra pessoa. Conversámos muito, durante muito tempo, explicámo-nos; eu queixei-me da pessoa que foste quando eu era criança, da tua dureza, do teu silêncio, das cenas que tenho contado aqui, e tu escutaste-me. E eu escutei-te. Tu, que toda a vida repetiste que o problema da França vinha dos estrangeiros e dos homossexuais, agora criticas o racismo francês, pedes-me que te fale do homem que amo. Compras os livros que publico, oferece-los às pessoas à tua volta. Mudaste de um dia para o outro; um amigo meu diz que são os filhos que transformam os pais, e não o contrário.

Mas aquilo que fizeram ao teu corpo não te dá a possibilidade de descobrires a pessoa em que te tornaste.


Um livro poderoso, com apenas 80 páginas!

[Opinião] Friends, Amantes e Aquela Coisa Terrível - Matthew Perry

                                      



Série: -

Autor: Matthew Perry

Data de Leitura: 14/11/2025 ⮞ 09/01/2026

Classificação: -


Sinopse

Numa história extraordinária que só ele poderia contar - e da forma sentida, hilariante e calorosamente familiar que só o ator poderia escrever - Matthew Perry expõe a família fraturada que o criou (e que também o deixou entregue a si mesmo), o desejo de reconhecimento que o levou à fama e o vazio dentro de si, que não podia ser preenchido nem mesmo pela realização dos seus maiores sonhos. Mas também fala sobre a paz que encontrou na sobriedade e como se sentiu em relação à omnipresença de Friends, partilhando histórias sobre os seus colegas de elenco e outras estrelas que conheceu ao longo do caminho. Com franqueza, autoconsciência e com o seu humor caraterístico, Perry descreve vividamente a sua batalha ao longo da vida contra a dependência e o que a alimentou, apesar de, aparentemente, ter tudo.


Matthew Perry foi um ator, produtor-executivo e dramaturgo canadiano-americano, mundialmente conhecido pelo papel de Chandler desempenhado na série Friends.

A estrela de Friends leva-nos aos bastidores da sitcom de sucesso e à sua luta contra a dependência neste livro de memórias.

«Olá, o meu nome é Matthew, mas talvez me conheçam por outro nome. Os meus amigos chamam-me Matty. E eu devia estar morto.»

É assim que começa a fascinante história do aclamado ator Matthew Perry, que nos acompanha na sua viagem desde a ambição de infância até à fama, passando pelo vício e pela recuperação após um susto de saúde que pôs em risco a sua vida. Antes das suas frequentes idas ao hospital e das passagens pela reabilitação, existia Matthew, de cinco anos, que viajava de Montreal para Los Angeles, alternando entre os seus pais separados; Matthew, de catorze anos, que era uma estrela do ténis no ranking nacional do Canadá; Matthew, de vinte e quatro anos, que conseguiu um cobiçado papel como membro do elenco principal no conhecido episódio-piloto, então chamado Friends Like Us...e muito mais.

Friends, Amantes e Aquela Coisa Terrível é um livro de memórias inesquecível, simultaneamente íntimo e revelador - bem como uma mão estendida a qualquer pessoa que esteja a lutar pela sobriedade. Incrivelmente honesto, comovente e também divertido, este é o livro pelo qual todos os seus fãs têm estado à espera.



Minha review no GoodReads


Embora tenha o livro em português, achei que a melhor opção seria ouvir o audiobook, narrado pelo próprio. Só assim faria sentido.

Aproveitei os momentos em que ponho as minhas asas de fada do lar e fui ouvindo o que o Matthew tinha para dizer.

Saber que Perry morreu pouco tempo depois da publicação do livro torna tudo isto ainda mais triste.

É um testemunho devastador de alguém que nunca conseguiu sair do centro da própria dor.


Friends é uma das séries mais icónicas que passaram na televisão.

Monica Geller. Rachel Green. Phoebe Buffay. Joey Tribbiani. Ross Geller. Chandler Bing.

Todos os conhecemos. Conhecemos as suas qualidades e os seus defeitos, os melhores e os piores momentos e, mais importante do que tudo, sabemos que estarão sempre lá uns para os outros.


Chandler Bing é o tipo que usa o humor como mecanismo de defesa, humor como escudo, ironia como forma de sobrevivência. O Chandler sofre, mas sabe que sofre; erra, mas aprende; tem medo do compromisso, mas cresce; usa o sarcasmo, mas não se esconde completamente atrás dele. E, segundo o actor que o interpretou, Matthew Perry, (…) eu era o Chandler (…).


O Matthew Perry não era o Chandler. O Chandler era aquilo que o Matthew Perry conseguia representar, mas não viver.


Matthew Perry cresceu entre o Canadá e os Estados Unidos, filho de pais separados. O sucesso chegou cedo e Friends transformou-o numa estrela mundial ainda na casa dos vinte anos, com dinheiro, reconhecimento e uma carreira que muitos descreveriam como “de sonho”.


O livro é marcado por um tom profundamente sombrio. Perry relata, com detalhe e sem filtros, o consumo de substâncias, as idas e vindas por clínicas de reabilitação, os danos físicos e emocionais e as sucessivas tentativas falhadas de controlo. Tudo me pareceu muito circular: os acontecimentos repetem-se, os cenários mudam, mas a lógica mantém-se.


Não fiquei com a sensação de que tenha havido uma vontade verdadeiramente sustentada de mudar. O livro soa mais a uma explicação de tudo o que lhe foi acontecendo ao longo da vida do que a um exercício de interrogação ou de responsabilidade pessoal. A culpa recai quase sempre sobre a infância, o meio, a fama ou as circunstâncias.


E, visto de fora, é difícil ignorar o contexto de privilégio em que toda esta história se desenrola: há dinheiro, acesso a cuidados médicos de primeira linha, uma profissão que amava, família e amigos, mas uma aparente incapacidade de querer mudar de facto.


Também não gostei do tom arrogante com que fala do meio onde trabalhou (era desnecessário o insulto a Keanu Reeves) e dos colegas de Friends. Incomodou-me a forma como se gabou de ser um garanhão que “comia” todas as mulheres de Los Angeles, e ainda mais o facto de ter exposto o nome de algumas delas.


O retrato que fica é o de um homem com um grande complexo, e um ego grande.


Sem entrar em juízos morais fáceis, há ali uma sensação constante de imobilidade emocional. É difícil não sentir que ele não aproveitou a vida. Não por falta de oportunidades, mas por uma dependência que se tornou identidade.

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[Opinião] Para Acabar de Vez com Eddy Bellegueule - Édouard Louis

                                      



Série: -

Autor: Édouard Louis

Data de Leitura: 02/01/2026 ⮞ 05/01/2026

Classificação: 


Sinopse

Criado no seio de uma família da classe trabalhadora, na Picardia, interior da França, Eddy não é igual às outras crianças. Os seus modos, a sua maneira de falar e a sua delicadeza valeram-lhe humilhações, ameaças e a incompreensão, tanto por parte dos colegas de escola, como do pai, «um duro», alcoólico e irascível, e da mãe, uma mulher cansada e alheada. Eddy cresce assim, preso na contradição de tanto gostar como odiar a pessoa que é, do fascínio e asco pelos seus desejos mais íntimos, de querer a liberdade de uma outra vida, mas nunca conseguindo colocar verdadeiramente de parte o seu amor pelos pais.


Primeiro romance de Edouard Louis, que lhe valeu o imediato aplauso da crítica e a fama internacional, Para Acabar de Vez com Eddy Bellegueule é um livro audacioso, feito de memória pessoal e de ficção, um romance temerário e franco, que procura responder à derradeira pergunta: como pode cada um de nós inventar a sua própria liberdade?


Minha review no GoodReads


Enquanto lia Para Acabar de Vez com Eddy Bellegueule, tive de confirmar, por diversas vezes, em que país, cidade, ano e século a narrativa se situava.


França, Picardia, finais da década de 1990, inícios dos anos 2000, já em pleno século XXI. Amiens fica a pouco mais de 150 km de Paris, mas a aldeia onde Eddy vivia parecia existir a séculos de distância, presa a um mundo de violência, miséria social e exclusão.


Custou-me a acreditar.


Apesar de ter a indicação de “ficção”, o romance é assumidamente autobiográfico. Edouard Louis constrói um retrato cru da sua juventude


“Da minha infância, não tenho nenhuma recordação feliz.”


num meio operário marcado pelo alcoolismo


“Tens de perceber isto, Eddy, o teu pai é alcoólico, já não vai voltar ao trabalho.”,


pela pobreza


“Hoje à noite vamos comer leite, neologismo da miséria.”,


pela violência


“Para um homem, a violência era algo natural, evidente.”,


e pela homofobia


“As injúrias acompanhavam os socos, e o meu silêncio, sempre. Paneleiro, bicha, rabeta, maricas, panasca, roto, larilas... ou o homossexual, o gay.”


O livro está mais próximo de um exercício de denúncia e de memória, do que um romance no sentido clássico.


“As palavras amaricado, efeminado ressoavam constantemente à minha volta na boca dos adultos: não só na escola, não unicamente vindas da parte dos dois rapazes.”


O texto é directo, comovente, repetitivo por vezes, acredito para transmitir a dimensão do trauma, e realmente horrível, atinge onde dói.


“Hoje vou ser um duro”


The State of the Political Novel: An Interview with Édouard Louis


[Opinião] Entre a neve: Literatura - Eça de Queirós

                                 


    

Título: Entre a Neve

Série: -

Autor: Eça de Queirós

Data de Leitura: 26/12/2025 ⮞ 27/12/2025

Classificação: 


Sinopse

"A neve caía". Como um mantra que ecoa ao longo de todo esse extraordinário conto de Eça de Queiroz, a repetição da frase possibilita ao leitor mais sensível solidariza-se com o lenhador que enfrenta sozinho o frio dos montes do norte de Portugal, em busca de lenha para aquecer sua família.


Minha review no GoodReads


Nada como escolher os dias mais frios do ano – 4ºC de temperatura, -1ºC de sensação térmica em Lisboa - para ler Entre a Neve, de Eça de Queirós. Nem mesmo a lareira conseguiu afastar o frio que senti ao longo destas poucas páginas do conto.


(...) o bom Deus lá em cima parece que está tão bem agasalhado ao calor dos seus paraísos e das suas estrelas que não se lembra da pobre gente dos campos e dos montes que se arrepia de frio.


(…) e às vezes um corvo passando silencioso e noturno vinha bater o ar em redor dele com a selvagem palpitação de asas.


E o lenhador, com o peito erguido, os cabelos desmanchados, vermelho, trespassado de chuvas, feroz, com o machado erguido nas mãos, com justos e trágicos encarniçamentos, lutava contra os troncos, contra os ramos, contra a inchação das raízes, contra as duras cortiças e os filamentos tenazes; e enchia o chão de ramagens negras, de braços mortos de árvores, caídos e inertes como armaduras vencidas.


Estava só. Só. Nem pastores, nem vaqueiros, nem caminheiros perdidos. Só. E iam-se os pássaros, iam-se as folhas, ia-se a luz. Ele ficava só.


A neve riscava a noite de branco. Ao longe uivavam os lobos.

E a neve descia. As sombras dos corvos sumiram-se para além das ramas negras. Os cabelos desapareceram. Só ficou a neve!