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[Opinião] Uma Livraria em Tempos de Guerra - Alan Hlad

                


      

Título: Uma Livraria em Tempos de Guerra

Série: -

Autor: Alan Hlad

Data de Leitura: 22/03/2025 ⮞ 30/03/2025

Classificação: 


Sinopse

Uma bibliotecária americana e um livreiro português, juntos numa missão perigosa. Inspirado em histórias verídicas de bibliotecários espiões na Segunda Guerra Mundial, o novo livro do autor de Um Longo Caminho Para Casa - um best-seller internacional- transporta os leitores da Biblioteca Pública de Nova Iorque para uma livraria em Lisboa, numa história extraordinária e apaixonante. 1942. Com o resultado da guerra em suspenso, Maria, especialista em microfilmes da Biblioteca Pública de Nova Iorque, com treino em espionagem, é enviada para Lisboa, capital de um país declarado neutro. A sua missão: fotografar livros, manuais técnicos e todas as publicações alemãs, de forma a reunir e enviar para Londres informações sobre a localização das tropas e armamento e sobre os planos militares dos alemães. Cada pedaço de informação pode ser crucial. Maria conta com a ajuda de Tiago Soares, um corajoso e honrado dono de uma livraria em Lisboa, com a sua própria missão secreta: fornecer passaportes e vistos falsos a refugiados judeus para que possam escapar dos nazis. É na livraria de Tiago que Maria encontra um livro grosso, encadernado em couro, que se vai revelar crucial: A Herança Industrial da Alemanha. À medida que Maria e Tiago se aproximam, qualquer futuro entre os dois é posto em causa, quando os superiores de Maria lhe pedem para se fazer passar por agente dupla, e fornecer informações erradas a Lars Steiger, um rico banqueiro suíço e simpatizante nazi que faz a lavagem do ouro de Hitler. Ganhar a confiança de Lars levará Maria ao coração do círculo íntimo do Führer e dar-lhe-á a oportunidade de mudar o curso da guerra. Isto, se ela estiver disposta a correr riscos tão grandes, como as possíveis recompensas...


Minha review no GoodReads


Acabo este livro com vista para a pista do antigo Aeroporto Marítimo de Cabo Ruivo, sobre o Mar da Palha, no rio Tejo. O aeroporto situava-se onde hoje se encontra o Oceanário de Lisboa e foi palco de dois acidentes de aviação de que nunca tinha ouvido falar.


• A queda de um hidroavião inglês, o Golden Horn, no Mar da Palha, enquanto efectuava um voo de teste, a 9 de Janeiro de 1943.


• A 22 de Fevereiro de 1943, despenhou-se um Clipper da Pan Am, de nome "Yankee Clipper". Morreram 24 pessoas e 15 sobreviveram, algumas com lesões permanentes. A cantora Jane Froman, uma celebridade da época, conseguiu sobreviver ao acidente, apesar de ter ficado gravemente ferida. A sua história viria a dar origem ao filme With a Song in My Heart, produzido em 1952.


Descobri um documentário sobre este acidente com o nome:

“Naufrágio no Mar da Palha”: quando o maior avião do mundo caiu no Tejo

É neste voo que chega a Lisboa a protagonista desta história, Maria Alves, filha de mãe alemã e pai português.

Maria é bibliotecária na Biblioteca Pública de Nova Iorque e foi recrutada pelo Gabinete de Serviços Estratégicos (GSE) para comprar e posteriormente microfilmar livros de oposição cultural, religiosa ou política, material de referência alemão, polaco ou italiano, bem como publicações de autores judeus. Enfim, tudo o que poderia estar em risco com as queimas nazis.


Mas, claro, ela não se fica por aqui. Conhece Tiago Soares, o dono da Livraria Soares, ali para os lados da Rua do Crucifixo, na Baixa, e entre os dois nasce uma bela parceria – ou melhor, a famosa história de amor.


É uma história que envolve falsificação de passaportes, ajuda a judeus que fugiam da perseguição nazi e o seu embarque para os Estados Unidos da América, espionagem, agentes duplos, confrontos com a PVDE – tudo passado na cidade de Lisboa.


Embora seja um romance de ficção há muitas coisas baseadas em factos reais:


a Operação Fortitude ocorreu entre dezembro de 1943 e março de 1944, e usei os principais factos do plano de engodo dos Aliados como parte do papel de Maria como agente dupla.


Além disso, algumas personagens foram inspiradas em pessoas reais:


A personagem de Maria foi inspirada numa agente real chamada Adele Kibre, que estava destacada em Estocolmo. Kibre era uma especialista em microfilmagem, fluente em sete idiomas, e era –de acordo com registos de pesquisa– a mais talentosa agente do CID.


Maria era determinada, corajosa, inteligente, confiante, engenhosa, independente e não tinha medo de correr riscos ou quebrar regras. Tiago era altruísta, determinado, tímido, inteligente, desejoso de ajudar e muito corajoso. Rosa, uma personagem muito simpática, era maternal, extremamente inteligente, enganadora, leal, digna de confiança e uma boa amiga.


Hlad explora bem o ambiente histórico, mas há algumas incorreções que me fizeram revirar os olhos:


• os portugueses não comem só sardinhas assadas (muito menos em fevereiro e março) e azeitonas, e há mais vida para além do pastel de nata;

• o Banco Espírito Santo na década de 40 chamava-se Banco Espírito Santo e Comercial de Lisboa;

• o Estoril é uma povoação e Cascais uma vila, nenhuma delas são cidades;

• Obersalzberg, o local que abrigou “O Ninho da Águia” o quartel-general de Adolf Hitler não fica milhares de metros acima da cidade de Berchtesgaden.


Foi uma leitura prazerosa, daquelas que nos fazem viajar no tempo e imaginar Lisboa como um verdadeiro palco de espionagem em plena Segunda Guerra Mundial. Anda ali entre as 3.5 e as 4 estrelas, mas desta vez arrendo para cima.

[Opinião] O Inimigo Secreto - Agatha Christie

       


Título: O Inimigo Secreto

Série: Tommy & Tuppence Mysteries #1

Autor: Agatha Christie

Data de Leitura: 22/03/2025 ⮞ 28/03/2025

Classificação: 


Sinopse

Tommy e Tuppence encontram-se por acaso numa rua de Londres. Tommy é discreto, Tuppence é exuberante. Juntos, formam o par perfeito para combater o crime. Pelo menos, é o que pensam quando se unem numa parceria a que chamam "Jovens Aventureiros Lda". Eles dizem-se "dispostos a tudo" mas quando os seus sonhos de aventura se realizam com muita rapidez e ainda mais perigo, serão obrigados a questionar os seus próprios limites… e não só.


O inimigo secreto (The secret adversary) foi originalmente publicado em 1922 na Grã-Bretanha, tendo sido editado no mesmo ano nos Estados Unidos. Foi adaptado para televisão em 1928 (a primeira adaptação de um romance da autora) e em 1983.


Minha review no GoodReads

Já perdi a conta às vezes que vi as séries televisivas de:


• Miss Marple (lembro-me bem de algumas actrizes: Joan Hickson, Geraldine McEwan e Julia McKenzie),

• Hercule Poirot (com dois actores inesquecíveis: Peter Ustinov e David Suchet),

• Colonel Race,

• Ariadne Oliver (com a maravilhosa Zoë Wanamaker),

• Superintendent Battle,

• Tommy & Tuppence


David Walliams e Jessica Raine

Talvez por isso, às vezes sinta alguma resistência em regressar aos livros de Agatha Christie.


Durante a adolescência – sobretudo naquelas intermináveis férias de verão de mais de quatro meses – acredito que os li a todos. Mas depois vieram as séries, e agora é difícil distinguir o que realmente li do que apenas vi.


Em 2023, as obras da autora foram alvo de reformulações e supressões pela HarperCollins. Nessa altura, considerei regressar a Agatha Christie, mas outras leituras acabaram por se intrometer, e a ideia ficou para trás.

Agora, em 2025, eles voltam a entrar nos meus objectivos de leitura. Este ano, começo por Tommy & Tuppence (que, por acaso, nem são das minhas personagens favoritas, mas siga…). Depois, a ideia é ir lendo regularmente todas as outras obras.


Publicado em 1922, O Inimigo Secreto foi o segundo romance de Agatha Christie, e marca a estreia da dupla de detectives Tommy e Tuppence.


Eram duas horas da tarde do dia 7 de maio de 1915. Atingido por dois torpedos consecutivos, o Lusitania afundava-se rapidamente enquanto os barcos salva-vidas eram lançados à água com a maior rapidez possível.


O Inimigo Secreto decorre logo após a Primeira Guerra Mundial. Os amigos Tommy Beresford e Prudence “Tuppence” Cowley reencontram-se em Londres, em 1920, e descobrem que ambos estão à procura de emprego. Decidem então criar os “Jovens Aventureiros, Lda”, e as intenções não eram as melhores.


– Sim, já tentámos todas as maneiras ortodoxas de trabalhar. Mas imagina que tentamos o não-ortodoxo. Tommy, vamos ser aventureiros!

– Com certeza – respondeu Tommy, animado. – Como é que começamos?

– Essa é a parte difícil. Se conseguirmos tornar-nos conhecidos, as pessoas poderão contactar-nos para cometermos crimes por elas.


Após ouvir a conversa da dupla um homem aborda-os com uma proposta inesperada: encontrar Jane Finn, uma rapariga desaparecida há cerca de cinco anos, quando o Lusitania se afundou. Acredita-se que ela possa ter consigo documentos secretos do governo. Tommy e Tuppence lançam-se numa aventura repleta de agentes estrangeiros, do enigmático Sr. Brown, amnésia, raptos, propostas inesperadas e muito mais.


Gostei da dupla e das suas peripécias. Foi uma aventura cheia de diversão, diálogos engraçados, vilões maquiavélicos e alguma acção. Não é um Agatha Christie clássico, mas gostei do tom leve e cativante da história.

[Opinião] Eles e Elas - Júlia Lopes de Almeida

       


 
          

Título: Eles e Elas

Série: -

Autor: Júlia Lopes de Almeida

Data de Leitura: 03/03/2025 ⮞ 22/03/2025

Classificação: 


Sinopse



Minha review no GoodReads



Júlia Lopes de Almeida nasceu em 1862, no Rio de Janeiro, filha dos emigrantes portugueses Adelina Pereira Lopes, musicista, e Valentim José da Silveira (Visconde de São Valentim), médico. A família pertencia à classe alta, o que proporcionou uma excelente educação à promissora escritora.

O pai de Júlia descobriu a vocação da filha, e incentivou-a a que escrevesse um artigo para a Gazeta de Campinas. E foi assim que tudo teve início. Júlia foi uma escritora com uma vasta produção literária conseguindo, à época, viver dos rendimentos da sua profissão.
Era uma mulher muito à frente do seu tempo, era republicana, defendia a educação feminina, o divórcio e a abolição da escravatura.


... Os povos mais fortes, mais práticos, mais ativos, e mais felizes são aqueles onde a mulher não figura como mero objeto de ornamento; em que são guiadas para as vicissitudes da vida com uma profissão que as ampare num dia de luta, e uma boa dose de noções e conhecimentos sólidos que lhe aperfeiçoem as qualidades morais. Uma mãe instruída, disciplinada, bem conhecedora dos seus deveres, marcará, funda, indestrutivelmente, no espírito do seu filho, o sentimento da ordem, do estudo e do trabalho, de que tanto carecemos.
- Júlia Lopes de Almeida, em A Mensageira

Júlia Lopes de Almeida teve uma vida intelectual bastante activa, fez parte do grupo de intelectuais que criaram a Academia Brasileira de Letras, mas o seu nome não foi incluído. Era mulher - a ABL era um clube do Bolinha – e em vez dela foi considerado o nome do marido, Filinto de Almeida – Cadeira 3, sem produção literária de destaque.
Após a sua morte, em 1934, Júlia Lopes de Almeida foi caindo no esquecimento, mas o seu regresso aos escaparates das livrarias deveu-se à leitura obrigatória para o vestibular da Unicamp.

Aos mais desatentos (onde me incluo) há em Lisboa um busto da escritora, ali no Jardim Gomes de Amorim.


O monumento, obra de Margarida Lopes de Almeida, composto de busto em bronze sobre pedestal de pedra, foi oferecido pelas mulheres brasileiras às mulheres portuguesas. O busto, executado em 1939, só viria a ser inaugurado, no Jardim Gomes de Amorim, localizado na Praceta da Av. António José de Almeida, em 28 de Março de 1953.


****

O livro Eles e Elas é composto por 37 monólogos e diálogos alternados entre maridos e esposas, que trocam críticas mútuas num tom satírico e com algum humor à mistura. A história desenrola-se num ambiente burguês, afastado de questões como a pobreza ou dificuldades económicas, mas revela, ainda assim, uma verdadeira batalha entre os sexos, evidenciada pelas diferentes formas como homens e mulheres pensam e se expressam.


Cada Vez Que...

Cada vez que peço dinheiro a meu marido e que ele acompanha o gesto de o tirar da algibeira com estas palavrinhas: “Oh, já acabaste com todo o dinheiro que te dei ontem?!” sinto um calafrio subir-me dos calcanhares à nuca. (…) De humilhada que me sinto, parece-me então que me contentaria com o mais humilde cantinho da terra e que despida de todos os luxos, roendo ervas cruas como os cabritos, eu me sentiria mais gloriosa, por mais independente, do que nesta contingência de pedir, de precisar...


Ah! Os Senhores Feministas!

Ah! Os senhores feministas! Pudesse eu enforcá-los a todos com uma só corda.
São as suas teorias desordenadas, subversivas e a tragédia burlesca das suas justas reivindicações, que tem posto a sociedade neste estado. Pois quando é que se viu uma senhora casada e mãe de filhos, como é a minha, não estar em casa à hora em que o marido entra para o jantar! De mais a mais, nem deixou dito para onde ia.
Plena liberdade, hein? Os tempos aconselham estas independências, aproveitemo-las!... E o marido? O marido que ceda, que se sujeite, que sorria, que diga amém!

Os Serões Familiares

Dindinho esqueceu-se de que se deleitou na vida com a variedade de três lares diferentes, porque casou e enviuvou sucessivamente três vezes, além de vinte paixões avulsas, para atacar agora o divórcio como uma lei destruidora e fatal. E, o senhor meu marido esqueceu-se da felicidade que lhe dou, e que nenhuma outra mulher lhe daria tão perfeita, para defender esse mesmo divórcio, (…) Uma ideia! Para castigo do sofrimento que meu marido me infligiu ontem, quem vai logo à noite fazer a apologia do divórcio, sou eu! Sempre quero ver a cara que ele faz…

Há de ter muita graça

Há de ter muita graça que o senhor meu marido, sabendo perfeitamente que morro por ir ao teatro, tivesse tido a coragem de ir hoje a algum deles sem mim... Não duvido; só para me dizer depois, com aquele arzinho de desdém, quando eu manifestar o desejo de ver esta ou aquela peça: “Não vale a pena, minha filha; aquilo é uma bambochata, não imaginas!”
Amanhã, porém, quando eu lhe pedir que me acompanhe à casa de minha madrinha, para tomarmos chá com ela, adivinho que volverá para mim olhos suplicantes e dirá, com aquele tom de voz, que não sei onde vai buscar quando quer seduzir: “Tens coragem de trocar pela casa dos outros a doçura deste nosso serão a dois, na comodidade desta nossa salinha, onde hoje eu tencionava estudar um pouco, bem pertinho de ti?! Se tens muita necessidade de ir, vamos; sacrifico as minhas leituras, não quer dizer nada, mas…”


Já desanimei

Por que não o hei de enganar do mesmo modo? Em consciência, não há homens nem mulheres: há seres com iguais direitos naturais, mesmas fraquezas e iguais responsabilidades. Mas não há meio dos homens admitirem semelhantes verdades. Eles teceram a sociedade com malhas de dois tamanhos: grandes para eles, para que os seus pecados e faltas saiam e entrem sem deixar sinais; e extremamente miudinhas para nós.

As mulheres pensam

As mulheres pensam... Não! As mulheres não pensam, devaneiam apenas; e isso mesmo às vezes...Pois eu não vejo? Se querem agir por si, ao mínimo embaraço olham logo em redor, procurando socorro! Ainda não encontrei uma única que soubesse fazer um simples requerimento sem pedir conselho ao homem mais à mão... Que deliberasse negócios sérios com a suficiente clareza... Que se não deixasse arrastar mais pela fantasia do que pelo bom senso, nem se desprendesse, em momentos de resolução, de certas ninharias e contemplações sentimentais.


 

[Opinião] Caro Idiota - Virginie Despentes

                


      

Título: Caro Idiota

Série: -

Autor: Virginie Despentes

Data de Leitura: 03/03/2025 ⮞ 22/03/2025

Classificação: 


Sinopse

Da autora mais provocadora da literatura francesa, um romance atual sobre a violência das relações humanas. Rebecca tem cinquenta anos, é uma atriz famosa e, embora se ache mais atraente do que nunca, começa a sentir na sua própria pele a discriminação da indústria cinematográfica. Oscar é um escritor só um pouco mais novo do que ela, cuja vida pessoal e carreira se encontram num caos ao descobrir-se no centro do mais recente escândalo MeToo. Zoé Katana, feminista e bloguista, é a jovem vítima que regressou do passado para finalmente ajustar contas com ele. Os três irão iniciar um diálogo tenso, por meio de chat, e descobrir como uma amizade improvável pode nascer entre pessoas que, à primeira vista, nada têm que ver umas com as outras, e como essa força desconhecida as pode ajudar a lidar melhor com as suas ansiedades, neuroses, vícios, complexos, vergonhas e medos. Regresso aguardado e festejado de Virginie Despentes, Caro Idiota é um romance epistolar dos nossos tempos que aborda temas e episódios atuais, um livro de raiva e consolo sobre a violência das relações humanas e sobre as posturas ideológicas às quais estamos agarrados, mesmo quando há muito deixaram de nos fazer compreender não só a realidade mas também a velocidade e irreversibilidade da mudança.


Minha review no GoodReads

Caro Idiota começa de forma explosiva, intensa e sem filtro, onde o insulto é utilizado como uma arma cujo objectivo é destruir o interlocutor pela violência das palavras.


As personagens são três: Oscar Jayack, um escritor de sucesso que, depois de se cruzar com Rebecca Latte, uma actriz igualmente famosa, decide fazer um post a arrasá-la:


essa mulher sublime que iniciou tantos adolescentes naquilo que foi o fascínio da sedução feminina no seu apogeu, transformada, hoje em dia, neste mostrengo. Não apenas envelhecida. Mas pesadona, descuidada, a pele ascorosa, uma personagem de mulher suja, estrepitante.


Rebecca não se fica e responde-lhe, e a partir daqui seguem-se trocas de mensagens e e-mails, onde ambos trocam confidências, até porque têm algumas coisas em comum.


A terceira personagem é Zoë Katana, uma blogger feminista que aproveita o movimento #MeToo para denunciar Oscar por comportamentos inadequados quando era sua assessora de imprensa.


Depois de um início promissor, a coisa acalma. As partes sobre drogas e as reuniões dos NA tornam-se repetitivas e cansativas, como se estivéssemos sempre a ler a mesma coisa.

Oscar e Rebecca são dois egocêntricos que apenas trocam mensagens para se ouvirem a si próprios, sem realmente ouvirem o outro. A voz das personagens pareceu-me toda a mesma, escrevem todos da mesma maneira, o que torna a leitura um pouco monótona.


Mas, Despentes escreve bem, é directa, provocadora e divertida, propõe uma reflexão sobre a condição feminina e juntando a isto tudo alguns momentos e frases marcantes não posso dar-lhe menos que 4 estrelas.

[Opinião] A Idade do Ferro - J.M. Coetzee

              


 
        

Título: A Idade do Ferro

Série: -

Autor: J.M. Coetzee

Data de Leitura: 01/03/2025 ⮞ 22/03/2025

Classificação: 


Sinopse

Na Cidade do Cabo, uma mulher, idosa e só, está a morrer de cancro. Durante toda a sua vida, conseguiu distanciar-se dos horrores e da violência do apartheid. No final dos seus dias, porém, é obrigada a confrontar-se com as dramáticas brutalidades forjadas por um regime a que sempre se opôs.

A Idade do Ferro retrata a situação de muitos sul-africanos que se viram mergulhados num clima de tensão social a que não estavam habituados nem previam; mas, ao mesmo tempo, é uma perturbante metáfora sobre um regime político que se sustentou pela injustiça até provocar uma irrupção de revolta que a todos atingiu.


Minha review no GoodReads


J.M. Coetzee – Prémio Nobel da Literatura, 2003

"que com inumeráveis disfarces retrata o envolvimento surpreendente do forasteiro"


 

A Idade do Ferro é um romance intenso e melancólico passado na África do Sul durante os últimos anos do apartheid. A protagonista, Elizabeth Curren, é uma professora universitária reformada que descobre estar na fase terminal de um cancro. Sem esperanças e distante da filha, que emigrou para os Estados Unidos, decide escrever-lhe uma longa carta, transformando a narrativa numa espécie de testemunho e reflexão sobre a sua vida e sobre o estado do seu país.

Ao longo da história, Elizabeth confronta-se com a violência e a brutalidade do regime segregacionista. A sua relação com Florence, a sua empregada doméstica negra, e, sobretudo, com Vercueil, um sem-abrigo alcoólico que se instala perto da sua casa, são catalisadores de mudanças profundas na sua visão do mundo. A morte violenta do filho de Florence durante uns protestos intensifica o seu sentimento de impotência e culpa.

A deterioração física de Elizabeth é também uma metáfora para a decadência moral e social da África do Sul. A sua dor pessoal e o sofrimento do país entrelaçam-se, evidenciando a brutalidade de um sistema que desumaniza todos. Está velha, doente e sem esperança, é um retrato da fragilidade, mas também da lucidez.

Vercueil, por mais inesperado que pareça, acaba por tornar-se a única companhia verdadeira da protagonista, acompanhando-a nos seus últimos dias. A amizade entre os dois é muito marcante.


Coetzee cria uma narrativa poderosa e profundamente angustiante e o impacto emocional que provoca é grande.


África do Sul

[Opinião] Somos o esquecimento que seremos - Héctor Abad Faciolince


                       

Título: Somos o esquecimento que seremos

Série: -

Autor: Héctor Abad Faciolince

Data de Leitura: 01/03/2025 ⮞ 15/03/2025

Classificação: 


Sinopse

A obra-prima do escritor colombiano é um comovente tributo à memória pessoal, familiar e política do seu pai. Um dos romances latino-americanos mais celebrados do século XXI.


A 25 de Agosto de 1987, o médico colombiano Héctor Abad Gómez é assassinado por paramilitares na cidade de Medellín, a poucos dias de umas eleições em que era candidato. Seis balas na cabeça puseram fim a uma vida de luta contra a opressão e a desigualdade social, num país amordaçado pelo narcotráfico e pela política suja.


Vinte anos depois, o filho, o escritor Héctor Abad Faciolince, decidiu contar a história do pai até ao terrível epílogo. O resultado é um livro belíssimo, poderoso no que conta, comovente no que deixa intuir, uma história dilacerada e dilacerante sobre família e pertença, sobre perda e luto.


Educação sentimental, romance de formação, radiografia da sociedade colombiana desfigurada pela violência, Somos o Esquecimento que Seremos é um romance em que pulsam memórias e afetos, escrito com a cabeça e com o coração, que emociona sem sentimentalismo, que indigna sem reclamar vingança. A obra-prima de um dos mais elogiados escritores colombianos do nosso tempo.


Minha review no GoodReads


Héctor Abad Faciolince nasceu em Medellín, na Colômbia, em 1958. Em 1987, o pai foi assassinado por paramilitares colombianos. Vinte anos depois decidiu contar a história do pai.


É um dos paradoxos mais tristes da minha vida: quase tudo o que escrevi foi escrito para alguém que não pode ler-me, e mesmo este livro não é mais do que uma carta a uma sombra.


Num testemunho comovente do amor de um filho pelo seu pai, Faciolince conseguiu transmitir-me todas as suas emoções – o amor incondicional, a ternura e a admiração.


Eu amava o meu pai com um amor animal. Gostava do cheiro dele, e também da lembrança do cheiro dele, sobre a cama, quando estava de viagem, e pedia às criadas e à minha mãe que não mudassem os lençóis nem a fronha da almofada.


Nos anos 80, a Colômbia era um país mergulhado numa violência desmedida. O conflito entre o Estado, o narcotráfico, os grupos paramilitares e as guerrilhas de esquerda (quem não se lembra das FARC?!) tornou Medellín numa das cidades mais perigosas do mundo. O cartel liderado por Pablo Escobar tinha o domínio absoluto sobre a cidade e espalhava o terror. A repressão política e o combate ao narcotráfico resultavam em sequestros, assassinatos e desaparecimentos. Foi neste ambiente que viveu e morreu um homem que lutou pela dignidade humana e cuja única arma era a palavra.


Héctor Abad Gómez era médico e professor universitário, profundamente comprometido com a saúde pública e os direitos humanos. Defendia a medicina preventiva como forma de combater a desigualdade e a pobreza, lutava pela vacinação gratuita, pelo acesso a água potável e por condições sanitárias dignas para os bairros mais pobres de Medellín.


O trabalho de Héctor Abad Gómez incomodava os poderosos. O seu discurso, pautado pela justiça e pelo humanismo, colidia com os interesses daqueles que lucravam com a desigualdade. No entanto, nunca recuou. Escrevia artigos em jornais onde denunciava os abusos do governo, marchava pelas ruas exigindo mudanças e enfrentava com coragem aqueles que queriam silenciá-lo.


Héctor Abad Faciolince, como narrador, resgata o pai do esquecimento e traça o retrato de um homem íntegro, idealista, que se recusava a aceitar a injustiça como um destino inevitável.


(…) cristão na religião, (…) marxista na economia, (…) liberal em política,(…)


Faciolince recorda a infância feliz passada ao lado de um pai carinhoso, presente e protector. Cresceu numa casa cheia de mulheres – a mãe, as irmãs, as tias – e encontrou um porto seguro no pai. Esta relação profundamente carinhosa está presente em cada página.


A mãe, mais pragmática e religiosa, equilibrava-se com o espírito livre e racionalista do pai. Enquanto ela seguia a fé católica, ele era um livre-pensador. Essa diferença nunca os afastou e fortaleceu a dinâmica familiar.


Os momentos de ternura, as conversas sobre literatura, as brincadeiras inocentes, tudo isso mostram uma infância feliz. Mas essa felicidade tinha prazo de validade.


E então acontece o irreparável.


No dia 25 de agosto de 1987, Héctor Abad Gómez é assassinado por dois jovens numa mota, que descarregam as suas armas contra ele. 


Ergue o rosto e vê a cara malévola do assassino, o clarão no cano da pistola, ouve, ao mesmo tempo, os tiros e sente que uma pancada no peito o derruba. Cai de costas, saltam-lhe os óculos e partem-se e, já no chão, enquanto pensa pela última vez, tenho a certeza, em todos os que ama, sentindo dores lancinantes no peito, consegue ver, confusamente, a boca do revólver a cuspir fogo outra vez e finalizar com vários tiros na cabeça, no pescoço e, uma vez mais, no peito. Seis tiros, o que quer dizer que um dos assassinos esvaziou o carregador inteiro para o matar.


Durante anos, Héctor Abad Faciolince foi incapaz de escrever sobre a morte do pai. Cada tentativa era sufocada pelas lágrimas. A dor era insuportável. Mas, vinte anos depois, as palavras finalmente encontraram o seu caminho.


Ao esvaziar os bolsos do pai no dia da sua morte, Faciolince encontrou um papel com um poema de Jorge Luis Borges:


Epitáfio

Já somos o esquecimento que seremos.

O pó elementar que nos ignora

e que foi o rubro Adão, e que é agora,

todos os homens, e que não veremos.

Já somos no túmulo as duas datas

do princípio e do termo. O caixão,

a mortalha e a obscena corrupção,

os triunfos da morte, e as endechas.

Não sou o insensato que se aferra

ao mágico som do seu nome.

Penso com esperança naquele homem

que não saberá quem fui sobre a terra.

Sob o indiferente azul do céu

esta meditação é um consolo.


O livro é a tentativa do autor de impedir esse esquecimento, e que bela tentativa.


[Lido] O Melhor da Disney - Carl Barks

   


         
          

Título: O Melhor da Disney

Série:  Carl Barks #6

Autor: Carl Barks

Data de Leitura: 11/01/2019 ⮞ 11/01/2019

Classificação: 


Sinopse

Neste volume:

Paraíso Perdido

O Mistério de José Constantino

As Cidades do Ouro

Investimento Anônimo

O Ouro e o Repolho

Patinhas é o Candidato

O Lemingue e a Correntinha

Corrida Complicada

A Fabulosa Pedra Filosofal

Herança de Família


Minha review no GoodReads

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