Série: -
Autor: Mary Wollstonecraft Shelley
Data de Leitura: 10/02/2026 ⮞ 23/02/2026
Classificação: ⭐⭐⭐⭐⭐
Sinopse
Mary Shelley começou a escrever Frankenstein quando tinha apenas dezoito anos. Simultaneamente um thriller gótico, um romance apaixonado e um conto de advertência sobre os perigos da ciência, Frankenstein conta a história do estudante de ciências Victor Frankenstein. Obcecado em descobrir a origem da vida e conseguindo animar matéria inerte, Frankenstein monta um ser humano a partir de partes do corpo roubadas; porém, ao trazê-lo à vida, recua horrorizado ante a fealdade da criatura. Atormentada pelo isolamento e pela solidão, a criatura outrora inocente vira-se para o mal e desencadeia uma campanha de vingança assassina contra o seu criador, Frankenstein.
Frankenstein, um best-seller instantâneo e um antepassado importante do terror e da ficção científica, não só conta uma história aterrorizante, como também suscita perguntas profundas e perturbadoras sobre a própria natureza da vida e o lugar da humanidade no cosmos: o que significa ser humano? Quais são as responsabilidades que temos uns com os outros? Até onde podemos ir na manipulação da Natureza? Na nossa época, cheia de notícias sobre a engenharia genética, doação de órgãos e bioterrorismo, estas questões são mais relevantes do que nunca.
Minha review no GoodReads
Quando era criança, num tempo em que havia apenas dois canais de televisão, vi a versão de 1931 — o célebre “It’s alive! It’s alive! It’s aliiiive!”” — de Frankenstein de James Whale, e não gostei.
A imagem daquela criatura afastou-me durante décadas da obra que lhe deu origem, mas a maturidade algum dia chega, e resolvi despir-me de todos os preconceitos e “abraçar a obra”.
Frankenstein, de Mary Wollstonecraft Shelley, publicado anonimamente em 1818, nasceu num verão improvável, o de 1816, o “ano sem verão”, passado na Suíça com Lord Byron e John Polidori. O desafio de contar histórias de terror gerou uma obra intemporal da literatura. Shelley tinha apenas 18 anos. E, ainda assim, escreveu um romance que continua a dialogar connosco dois séculos depois.
Naquele tempo era assim, quando não havia nada para fazer escreviam-se obras-primas!
O subtítulo é revelador The Modern Prometheus. Tal como Prometeu roubou o fogo aos deuses para o oferecer aos homens, Victor Frankenstein ousa roubar o segredo da vida.
Mas o romance não é sobre ciência “maligna”. É sobre ambição sem ética. Sobre criar sem assumir responsabilidade. Sobre querer o feito grandioso e fugir das consequências.
Victor não é apenas um “cientista louco”. É profundamente humano, orgulhoso, deslumbrado com a própria capacidade, incapaz de lidar com o erro. Cria vida e abandona-a. E é esse abandono que desencadeia a tragédia.
A criatura não nasce má. Aprende pela observação. Descobre a linguagem. Comove-se com a família De Lacey. Lê Paraíso Perdido de John Milton e identifica-se primeiro com Adão, depois com Satanás — criado, mas rejeitado.
A maldade não surge da natureza, mas da exclusão. Da solidão extrema. Da ausência de amor.
Shelley parece perguntar-nos: quem é verdadeiramente monstruoso? O ser que suplica por companhia ou o criador que lhe vira as costas?
A criatura é violenta, mas também profundamente sensível. Victor é culpado, mas também trágico. Não há caricaturas. Há humanidade em conflito.
E puxando este clássico para os nossos dias é impossível lê-lo hoje sem pensar em inteligência artificial, manipulação genética, clonagem.
Criamos tecnologia cada vez mais autónoma, editamos genes, sonhamos com a superação dos limites biológicos. Tal como Victor, somos fascinados pela possibilidade de ultrapassar a morte, de melhorar a condição humana, de dominar a natureza.
Onde acaba o tratamento e começa a ambição desmedida?
Se criarmos algo que sofre, temos o direito de o criar?
E se o criador abandona a sua criação, deixa de ser responsável por ela?
Shelley, há mais de duzentos anos, já estava a dialogar com estas inquietações, e é isso que torna este romance intemporal não é apenas a temática científica. É a sua compreensão da condição humana, a necessidade de ser reconhecido, o impacto devastador da rejeição, o peso do orgulho, a solidão que atravessa criador e criatura.
No final, não estamos perante um romance de terror. Estamos perante uma tragédia moral. Um livro que nos obriga a conversar sobre ciência, ética, responsabilidade, amor, abandono, identidade.
Cinco estrelas porque Frankenstein não é apenas um clássico, é um livro que nos lê a nós.








