Título: Os Retratos de Golden
Série: -
Autor: Allen Levi
Data de Leitura: 09/10/2026 ⮞ 17/10/2026
Classificação: ⭐⭐⭐
Sinopse
Numa manhã, um estranho chega à pequena cidade de Golden. Ninguém sabe quem é nem de onde veio. O seu nome é Theo, é português e tem 86 anos. E talvez não tenha chegado ali por acaso.
Ao entrar no café da cidade, Theo fica fascinado pelos noventa e dois retratos a lápis pendurados nas paredes, desenhados por um artista local. Um a um, começa a comprá-los para os devolver aos seus «verdadeiros donos». A cada retrato entregue nasce uma nova história, uma amizade inesperada e uma vida transformada. E naquele pequeno lugar, a presença de Theo torna-se impossível de ignorar. Mas quem é realmente Theo? E o que o trouxe até Golden?
Comovente, luminoso e profundamente humano, um romance inesquecível sobre generosidade, relações humanas e a extraordinária capacidade que os pequenos gestos têm de mudar vidas. Porque uma única pessoa pode mudar a vida de muitos
Minha review no GoodReads
Já há alguns meses que via muita gente, americanos sobretudo, a indicar este livro. Não sou muito de seguir recomendações, menos ainda de gente que não conheço. Mas fui ler a sinopse e gostei muito da ideia dos retratos e de Theo os comprar para depois os devolver aos seus «donos». Uma ideia simples, mas com potencial para dar origem a histórias interessantes sobre as pessoas, as suas vidas e a forma como se relacionam com os outros.
E, neste aspecto, o livro não me desiludiu por completo. Gostei de algumas das histórias e da forma como os retratos acabam por funcionar como ponto de partida para conhecermos pessoas que, à primeira vista, pouco teriam para nos dizer. Gostei muito da história de Ellen, e também de Lamisha, Asher e Tony, cuja história mostra que as feridas da Guerra do Vietname continuam por sarar. Quanto a Willa, sempre acreditei que Theo …
Pelo caminho, Allen Levi vai deixando umas quantas farpas à sociedade norte-americana, umas mais discretas do que outras. A personagem de Pearce é um bom exemplo daquela mentalidade em que a primeira coisa que interessa saber sobre alguém é o que faz profissionalmente e quanto ganha por ano. É preciso perceber rapidamente se estamos perante um winner ou um loser, porque, pelos vistos, a profissão e o rendimento são excelentes indicadores do valor de uma pessoa. Ou então não!
A questão da imigração é outra farpa lançada ao longo do romance. O episódio do «homenzinho» da Guatemala, um imigrante sem autorização legal que atropelou uma criança, é particularmente significativo. Num país onde a discussão sobre imigração está tão carregada de preconceitos e hostilidade, percebe-se a intenção de nos levar a olhar para a pessoa para lá do rótulo de «ilegal». Ainda assim, acho que o autor poderia ter sido mais incisivo nesta questão.
E depois temos Theo, o português.
Confesso que a sua nacionalidade me deixou algumas dúvidas. Começando pelo nome, Theophilus Gomes Zilavez, que não é propriamente aquilo que me vem à cabeça quando penso num português da sua geração, e continuando pela escassez de elementos que o ligam ao país, fiquei com a sensação de que Portugal serve sobretudo como cenário para um passado nostálgico. Tirando Pinhão nas margens do Douro, a Quinta das Carvalhas, o fado e o vinho do Porto, pouco ou nada o identifica como português.
Até a conversa sobre o café me pareceu desajustada. Em Lisboa bebe-se bica.
Theo estava habituado ao café intenso da Europa — abatanado e pingado em Lisboa, café con leche em Madrid, espresso em Bolonha, café noisette em Marselha.
A certa altura, comecei a imaginar que Allen Levi teria um amigo que lhe falou durante anos das maravilhas de Portugal, do Douro, das vinhas e das tradições, e que o autor resolveu aproveitar essas conversas para construir a personagem. É apenas uma suposição, obviamente, mas o Portugal que encontramos no livro parece-me mais próximo de um postal ilustrado do que de um lugar verdadeiramente conhecido e vivido.
Não é preciso encher uma personagem de referências nacionais para a tornar portuguesa, mas, neste caso, a sua origem parece ter mais importância para a história do que expressão na própria personagem.
E depois há o hino nacional. Quando decidimos pôr um português a cantar A Portuguesa, nunca me lembraria de colocar esta parte:
Se um português, homem, mulher ou criança, tivesse passado por ali naquele momento, teria percebido que Theo estava a cantar o hino nacional. (…) A Portuguesa sozinho, em voz alta e com orgulho.
Theo não interrompeu o ritmo. Estava quase no fim do hino — «Saudai o sol que desponta / Sobre um ridente porvir» — (…)
Outra questão que me incomodou ao longo de todo o romance foi a religião. Percebo que, tendo em conta o momento que se vive nos Estados Unidos, haja uma tentação de recorrer a mensagens de bondade, compaixão e reconciliação. E compreendo a intenção de contrapor a generosidade de Theo a uma sociedade tantas vezes obcecada com o dinheiro, o estatuto e a exclusão dos outros. O problema é que senti que Allen Levi estava a evangelizar em demasia.
Não é preciso professar uma religião para ser uma boa pessoa, ter empatia pelos outros, ser solidário ou praticar o bem. A fé pode ser uma fonte de conforto e de orientação para quem acredita, mas não é proprietária da bondade nem constitui um requisito para a humanidade. Os valores humanistas não precisam de uma justificação religiosa para fazer sentido. E, quando um romance insiste demasiado nesta associação, corre o risco de transformar uma mensagem universal numa mensagem que nem todos os leitores estarão dispostos a subscrever.
Aliás, parece-me haver aqui uma contradição. O livro procura mostrar-nos que devemos olhar para as pessoas para lá das etiquetas que lhes colocamos, mas a insistência na religião pode acabar por privilegiar uma determinada forma de compreender o mundo. A intenção do autor poderá ser meritória, mas isso não significa que todas as suas opções me convençam.
Também não fiquei particularmente impressionada com a escrita. Ao contrário do que vi em algumas reviews, não achei a prosa assim tão eloquente. Por vezes, pareceu-me demasiado simples. Não precisava de uma escrita rebuscada, mas de uma linguagem capaz de dar maior profundidade aos temas e às personagens.
Fica a sensação de que havia aqui matéria para muito mais. Gostei da ideia dos retratos, de algumas das histórias e das farpas à sociedade norte-americana, mas a representação de Portugal, a insistência religiosa e uma escrita que nem sempre faz justiça aos temas acabaram por pesar na leitura.
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