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[Opinião] Murmúrios da terra - Anna Mariano

                             


 
          

Título: Murmúrios da Terra

Série: -

Autor: Anna Mariano

Data de Leitura: 05/10/2026 ⮞ 15/10/2026

Classificação: ⭐⭐⭐⭐


Sinopse

Uma saga familiar sobre coragem, pertencimento e os caminhos que moldaram o Brasil

Em uma narrativa que mistura ficção e realidade, histórias de amor, receitas de família e acontecimentos que marcaram o país, Murmúrios da terra acompanha quatro décadas da vida de homens e mulheres de diferentes origens e etnias que desafiaram o destino em busca de novas oportunidades.

No centro dessa jornada estão Cecília e Palmira, duas mulheres fortes e resilientes cujas trajetórias atravessam gerações. Enquanto enfrentam desafios, perdas, preconceitos e recomeços, seus caminhos se cruzam em um Brasil em plena transformação, marcado pelo avanço da fronteira agrícola e pelos movimentos migratórios que levaram milhares de famílias a deixar as colônias do Sul e se lançar às amplitudes então solitárias do Centro-Oeste e do Norte do país.

Com sensibilidade e apuro histórico, a premiada escritora Anna Mariano resgata um capítulo pouco explorado da história brasileira. Uma emocionante saga familiar sobre os murmúrios que atravessam gerações e nos lembram que a verdadeira herança de uma família não está no que ela acumula, mas nas histórias que escolhe preservar.


Minha review no GoodReads

Há muito que a migração dos gaúchos para outros estados brasileiros me despertava a curiosidade. Sempre ouvi dizer que foram eles que levaram as grandes plantações para o Paraná, Mato Grosso (ainda antes da divisão) e que chegaram até ao Pará. Conheço bem o Rio Grande do Sul e o Paraná, pelo que, quando soube que Anna Mariano tinha escrito um romance precisamente sobre este movimento migratório, achei que o devia ler.


Três milhões é o número estimado de gaúchos que abandonaram o Rio Grande para tentar a sorte fora.


O Brasil é gigante. Cada região tem as suas características, as suas gentes vindas de partes específicas do mundo, tradições, costumes e uma natureza tão díspar que quase parece estarmos a falar de países diferentes. Já tinha encontrado, noutras leituras, referências aos movimentos migratórios internos, mas a partir de outras realidades. Rachel de Queiroz e Graciliano Ramos deram-me a conhecer as deslocações de populações - os retirantes - do Sertão e do Nordeste em direcção às grandes cidades do Sul–Sudeste. Jorge Amado levou-me à época de ouro do café na Bahia, enquanto Monteiro Lobato retratou o declínio da cultura cafeeira nas cidades do Vale do Paraíba. Faltava-me conhecer melhor esta outra face da história brasileira, vista a partir do Rio Grande do Sul.


Em Murmúrios da Terra, acompanhamos a saga de famílias gaúchas e a sua deslocação para outras regiões do Brasil, num período de grandes transformações na agricultura. A 4.ª Colónia, as raízes familiares e culturais,


Em toda a Quarta Colônia não havia quem não conhecesse os Bortollo. Eram quinze irmãos, grandes, barulhentos, e todos — com exceção de Celestino, marido de Rosa, e Pedro, o mais moço — dependentes do pai.


a vontade de partir e a procura de melhores condições de vida fazem parte de uma narrativa que tem na expansão da soja um dos seus elementos centrais.


É uma planta orgulhosa, que não se preocupa com pessoas. É uma rainha que traz incrustadas em seu manto fábricas de óleo, de adubo, de máquinas, de rações, produção de suínos e de frangos. Traz também silos, hidrovias, portos, estradas, caminhões, comércio de beira de estrada, lojas, oficinas, borracharias. É uma rainha monstruosa com muitos braços, centenas de olhos ou, se preferires, uma água-viva gigante com milhares de filamentos, que pode te encantar com sua beleza, mas pode também te matar.


Aliás, o senhor percebeu que as pessoas estão começando a chamá-la de “a soja”, palavra feminina? Acho que está certo, igual às mulheres, essa planta tem uma capacidade enorme de adaptação. Já há algum tempo a chamo assim, usando o feminino, não só pela já citada adaptabilidade, mas pela atração que exerce sobre os homens e pelo pecado de ambição que faz nascer. Como toda mulher, pelo menos na visão de nós, homens, a soja é uma bênção e uma praga.


Este romance é, acima de tudo, uma celebração dos gaúchos que queriam evoluir, que não se conformaram com o que tinham e partiram em busca de novas oportunidades. A soja foi a forma que encontraram para concretizar os seus objectivos. É esta vontade de progredir, de arriscar e de construir um futuro diferente que me parece constituir a principal mensagem do livro.


Mas uma saga familiar vive, naturalmente, das suas personagens, e aqui há uma tríade feminina que merece destaque: Rosa, Cecília e Palmira. Três mulheres muito fortes, cada uma à sua maneira.


Rosa é a coragem, a resiliência e o amor maternal. É a mama italiana, aquela figura que acolhe, cuida e ama, que representa as raízes e a força da família. Há nela uma capacidade de resistência que não dispensa a ternura.


Cecília é impulsiva, corajosa, empreendedora e aventureira, uma mulher que não parece ter medo de partir à descoberta. No entanto, há uma contradição na sua maneira de viver o amor que não posso deixar de assinalar. Depois de enviuvar do primeiro marido, e já apaixonada por Francesco, casa com ele e muda-se para Porto Alegre. Para satisfazer o segundo marido, aceita que os filhos do primeiro casamento passem a viver noutra casa. Sabe também das traições de Francesco, mas nunca o confronta. É neste aspecto que a considero amorosamente submissa. Uma mulher com garra na vida, mas que, por amor, aceita abdicar de demasiado.


Palmira é outra força da natureza. Inteligente, observadora e lutadora, é uma personagem que se impõe pela capacidade de compreender o mundo à sua volta e de enfrentar as dificuldades. Sendo uma mulher negra, a sua presença tem um peso próprio na narrativa. A relação com Pedro é também uma parte importante da sua história.


Continuo negra, mulher e brasileira, tenho esses três “defeitos”, mas sinto orgulho do que conquistei.


E Pedro foi uma personagem de que gostei particularmente. Aventureiro, empreendedor e cheio de vontade de progredir, representa bem esse espírito de iniciativa que atravessa o romance. Gostei sobretudo da maneira como fala. Há expressões e uma forma de comunicar que me fizeram lembrar alguns amigos gaúchos, o que tornou a personagem ainda mais próxima de mim.


Vou te dizer pra ti o que me agonia: a quantidade de coisa que se tem ainda pra fazer neste país, uma vida só não vence, não sei no que vai dar tudo isso, mas a gente tenta…


Hoje, plantando grande, precisa ter lucro e, pra ter lucro, tem que aprender a lidar com máquina, semente, fertilizante, defensivo, silagem, pá-pá-pá, e isso e aquilo.


Gostava, porém, de ter tido mais Pierina. A história da filha mais velha de Cecília ficou aquém do que esperava, e teria gostado que a autora lhe tivesse dedicado mais espaço. É uma das minhas reservas numa leitura de que, no conjunto, gostei bastante.


Há um comportamento de eternidade nos caramujos. Eles carregam com paciência o início do mundo.