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[Opinião] Perdeu-se Relógio de Senhora - Alice Brito

                                 


      


Título: Perdeu-se Relógio de Senhora

Série: -

Autor: Alice Brito

Data de Leitura: 28/08/2026 ⮞ 05/09/2026

Classificação: 


Sinopse

Um romance fundamental, de indesmentível valor literário, sobre o fascismo e o 25 de Abril no feminino.


Portugal, anos de fascismo. As vidas de três mulheres vão-se desvendando, inscritas num tempo com pouca cor, sob o olhar vigilante da polícia política e de uma moral repressiva, num país sob a sombra da guerra colonial e já farto da ditadura.


Por um acaso do destino, estas três mulheres, que tinham tudo para não se cruzar, acabarão a partilhar a mesma casa, um apartamento na Duque d'Ávila, em Lisboa. E, embora a vida de cada uma tenha seguido, até ao momento desse acaso, o seu percurso distinto, sobre todas elas pesou a pata da ditadura. Assim no-lo diz uma narradora sagaz, que vai recuperando a memória de como se vivia, alertando para os perigos de não se saber olhar para trás e lembrando Abril, esse mês em que se matou a sede.


Perdeu-se relógio de senhora é um romance fundamental, de indesmentível valor literário, e Alice Brito, uma autora cuja voz, límpida e acutilante, urge ouvir.


Minha review no GoodReads

Este é um daqueles livros que me conquistou pela capa e, principalmente, pelo título. Mal eu sabia que era uma senha usada pelo Partido Comunista quando alguém era preso, e que consta de um auto de declarações num processo instaurado pela PIDE.


Caso ele não aparecesse durante três dias, deveria pôr um anúncio n’O Século, com o título «Perdeu-se relógio de senhora». O corpo do anúncio deveria depois dizer «Perdeu-se relógio de senhora, marca Relide, entre o Rossio e os Restauradores. Gratifica-se.»


É através de três mulheres, cada uma de sua parte do país e de condições sócio-económicas muito diferentes, que vamos acompanhando os anos do fascismo até à Revolução dos Cravos e à democratização do país.


Gostei de acompanhar as histórias destas mulheres, que sofreram cada uma à sua maneira e que a vida acabou por fazer encontrar em Lisboa. São três percursos muito diferentes, marcados pelas circunstâncias em que nasceram e viveram, mas que acabam por se cruzar num país a caminho de uma mudança que nenhuma delas poderia ignorar.


Gostei sobretudo dessa viagem pelas vidas das três e pela forma como o romance nos mostra, através delas, um país profundamente desigual e condicionado pela época em que viviam.


Já não gostei tanto da forma algo apressada com que o romance acaba. Fiquei com a sensação de que algumas histórias mereciam mais tempo e que o final poderia ter sido mais desenvolvido.


E depois há o narrador. Eu sei que as suas intervenções são, muitas vezes, pertinentes e até acrescentam qualquer coisa à história, mas não gosto particularmente quando um narrador fala connosco como se nos conhecesse de algum lado. E quando se intromete repetidamente na narrativa, confesso que a minha veia burguesa vem ao de cima e começo a ficar um bocadinho irritada. 😏


Apesar disso, gostei do livro, das personagens e da forma como estas três mulheres acabam por se encontrar. Mas entre o final apressado e um narrador que, por vezes, me tirou do sério, ficam as 4 estrelas.