Série: -
Autor: Mary del Priore
Data de Leitura: 02/08/2026 ⮞ 04/09/2026
Classificação: ⭐⭐⭐⭐
Sinopse
O grande terramoto de 1755, em Lisboa, não alterou apenas a aparência da, à época, capital do império português. Este fenómeno brutal da natureza alterou, também, a natureza e a dimensão da relação do homem com o Céu e a Terra. Mais, expôs impiedosamente as tensões que, à vez, alimentavam e minavam a sociedade portuguesa da altura.
O fatídico 1.º de Novembro de 1755, dia de Todos os Santos, constitui um dos mais terríficos e fascinantes acontecimentos de todo o século XVIII. A devastação da cidade de Lisboa, a perda de incontáveis vidas, a surpresa e o horror da destruição pelo abalo, primeiro, pela água, depois, e, por fim, pelo fogo, impuseram a subversão da ordem vigente e abriram a porta a fantasmas que povoavam os imaginários mais apocalípticos da época, a começar pela mudança. Com efeito, depois do terramoto, muito, se não tudo, mudaria.
Se Voltaire e Kant dedicaram parte do seu pensamento e escritos a este acontecimento, tal não é menos verdade para inúmeros outros, mais ou menos anónimos, que, tendo vivido o horror e o trauma in loco e sobrevivido para contar, deixaram o seu testemunho sob a forma de cartas, poemas e memórias. Foram estes os documentos que Mary del Priore, reputada historiadora brasileira, leu e releu, analisou e esmiuçou, na bem-sucedida empresa de reconstituir a sociedade, a economia e a geografia lisboeta antes, durante e depois do terramoto.
Minha review no GoodReads
❤️ Lisboa
E talvez ame ainda mais esta cidade por não ter nascido aqui. Vim de outro continente, de terras mais a sul, de paisagens tropicais e de uma realidade muito diferente. Mas Lisboa adoptou-me. Fez-me sua, entranhou-se em mim e, com o tempo, tornou-me filha das suas ruas, da sua história e das suas gentes.
Por isso, há acontecimentos que fazem parte da história de Lisboa que, de alguma forma, também sinto como meus. O Terramoto de 1755 é um deles. Um acontecimento que marcou profundamente a cidade e o país e que, ainda hoje, é impossível dissociar da própria identidade de Lisboa.
Sou daquelas pessoas que gosta de ler sobre o Terramoto de Lisboa e, depois desta leitura, só posso dizer que Mary del Priore fez um trabalho notável.
Em O Mal Sobre a Terra, através de cartas, relatos, documentos e outros registos da época, a autora consegue reconstruir não apenas o terramoto, mas também a Lisboa que existia antes da tragédia e o que aconteceu depois. É uma narrativa histórica muito bem construída, rica em detalhes e que nos revela aspectos que acredito serem desconhecidos para a maioria dos portugueses.
Mais do que contar a destruição provocada pelo terramoto, pelo maremoto e pelos incêndios, a autora dá-nos uma perspectiva muito humana da catástrofe. O medo, a confusão, a morte, a procura de sobreviventes e a necessidade de encontrar explicações para algo que, naquela época, parecia impossível de compreender.
O impacto do Terramoto ultrapassou as fronteiras de Portugal. O acontecimento provocou uma profunda reflexão na Europa sobre a religião, a natureza e a própria existência do mal, chegando a influenciar pensadores como Voltaire e Kant.
E talvez seja precisamente isso que mais gostei neste livro,apesar de conhecermos o acontecimento, há sempre qualquer coisa nova para descobrir. Mary del Priore pega num episódio tantas vezes contado e consegue fazê-lo parecer novamente próximo, quase como se estivéssemos a percorrer as ruas daquela Lisboa de 1755.
