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[Opinião] Pessoa. Uma Biografia - Richard Zenith

                            


 
          


Título: Pessoa. Uma Biografia

Série: -

Autor: Richard Zenith

Data de Leitura: 17/11/2024 ⮞ 09/08/2026

Classificação: 


Sinopse

Fernando Pessoa é, a par de Luís de Camões, o maior poeta português. E é uma das figuras proeminentes do modernismo europeu, juntamente com escritores como Kafka, Joyce e Proust. O seu vastíssimo legado - da poesia, drama e ficção ao artigo de opinião e escrita mediúnica, cruzando e aprofundando inúmeros domínios do conhecimento (da literatura à religião, passando pela história, a filosofia, a astrologia e tantos outros) - tem vindo a ser progressivamente conhecido pelos leitores portugueses e de todo o mundo.


Porém, o homem por detrás da extraordinária multiplicidade de vozes (os heterónimos e dezenas de outros autores ficcionais), e de uma das obras literárias mais complexas e ricas de todos os tempos, é quase um desconhecido. João Gaspar Simões, com a publicação da sua biografia em 1950, teve o grande mérito de reconhecer a importância de Fernando Pessoa numa altura em que o poeta ainda não era justamente apreciado. Mas a obra não se baseou numa pesquisa mais aprofundada e desde há muitos anos que se sentia a falta de uma obra biográfica de referência.


PESSOA: A BIOGRAPHY, do autor norte-americano naturalizado português Richard Zenith, publicado nos EUA e na Grã-Bretanha em 2021 e que agora se publica em Portugal, vem suprir definitivamente essa lacuna.


Minha review no GoodReads


Foi na altura do 9.º ano que fui apresentada a Fernando Pessoa. A professora de Português, quando nos deu a estudar o episódio do Adamastor n'Os Lusíadas, decidiu também mostrar-nos «O Mostrengo», da Mensagem. Ainda hoje me lembro da forma como declamou o poema e do impacto que aquelas palavras tiveram em mim. Foi o meu primeiro contacto com Pessoa e bastou para despertar uma curiosidade que viria a acompanhar-me durante anos.


V. O MOSTRENGO


O mostrengo que está no fim do mar

Na noite de breu ergueu-se a voar;

À roda da nau voou três vezes,

Voou três vezes a chiar,

E disse: «Quem é que ousou entrar

Nas minhas cavernas que não desvendo,

Meus tectos negros do fim do mundo?»

E o homem do leme disse, tremendo:

«El-Rei D. João Segundo!»


«De quem são as velas onde me roço?

De quem as quilhas que vejo e ouço?»

Disse o mostrengo, e rodou três vezes,

Três vezes rodou imundo e grosso,


«Quem vem poder o que só eu posso,

Que moro onde nunca ninguém me visse

E escorro os medos do mar sem fundo?»

E o homem do leme tremeu, e disse:

«El-Rei D. João Segundo!»


Três vezes do leme as mãos ergueu,

Três vezes ao leme as reprendeu,

E disse no fim de tremer três vezes:

«Aqui ao leme sou mais do que eu:

Sou um Povo que quer o mar que é teu;

E mais que o mostrengo, que me a alma teme

E roda nas trevas do fim do mundo,

Manda a vontade, que me ata ao leme,

De El-Rei D. João Segundo!»


Ilustração a tinta-da-china de José de Almada Negreiros, datada de 1934.

Representação artística para o poema "O Mostrengo", parte da obra Mensagem de Fernando Pessoa.

Colecção do Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian


Mais tarde, no 12.º ano, voltei a encontrar-me com a sua obra. Li tudo o que estava ao meu alcance na época e tornei-me uma admiradora assumida. A complexidade dos heterónimos, a riqueza do pensamento e a singularidade da sua escrita conquistaram-me por completo.


Por isso, quando surgiu a oportunidade de ler Pessoa. Uma Biografia, de Richard Zenith, finalista do Prémio Pulitzer de 2022 na categoria de Biografia, não hesitei. Comecei a leitura a 17 de Novembro de 2024, sem qualquer pressa. Com cerca de 1.200 páginas, este não é um livro para devorar; é um livro para acompanhar, absorver e digerir aos poucos. Em doses homeopáticas.


Ao longo destas páginas, Zenith reconstrói minuciosamente a vida de Fernando Pessoa, desde a infância até à morte, recorrendo a uma investigação impressionante e a um vasto conhecimento da obra e do contexto histórico. Mas o grande mérito desta biografia não está apenas em contar a história do poeta. Está também na forma como nos transporta para a Lisboa da época, para as transformações políticas do país, para as correntes intelectuais da Europa e para um mundo em rápida mudança.


Se a minha admiração pelo escritor se manteve intacta, o mesmo não posso dizer da minha opinião sobre o homem. Já sabia que Pessoa era uma figura excêntrica, contraditória e socialmente desajustada. Esta biografia, porém, revelou-me alguém ainda mais difícil de admirar enquanto pessoa. Arrogante, muitas vezes preconceituoso, frequentemente alheado da realidade prática e, não raras vezes, profundamente irritante.


É precisamente por isso que raramente procuro saber demasiado sobre os autores que leio. Há sempre o risco de encontrar traços de personalidade, opiniões ou comportamentos que entram em choque com os meus valores. Fernando Pessoa não foi excepção. Continuo a considerá-lo um génio literário, mas terminei esta leitura com uma simpatia muito menor pelo homem do que aquela com que a comecei.


Ainda assim, esse desconforto não diminuiu em nada a qualidade da experiência de leitura. Pelo contrário. Zenith evita tanto a veneração cega como a condenação simplista, apresentando um retrato complexo, contraditório e sem concessões de uma das figuras mais importantes da literatura portuguesa.


No final, fiquei com uma admiração renovada pela obra de Pessoa e uma visão muito mais crítica do seu autor. E talvez seja precisamente essa a maior força desta biografia: mostrar-nos que o génio e as fragilidades humanas podem coexistir na mesma pessoa.


Uma obra extraordinária, exigente e indispensável para quem deseja conhecer Fernando Pessoa para lá do mito.



Ilustração é do livro "Fernando Pessoa, o Menino que era Muitos Poetas", escrito por José Jorge Letria e ilustrado por João Fazenda.