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[Opinião] Maus hábitos - Alana S. Portero

                               


 
        

Título: Maus Hábitos

Série: -

Autor: Alana S. Portero

Data de Leitura: 07/07/2026 ⮞ 17/07/2026

Classificação: 


Sinopse

Um desafio a corações empedernidos: assim é Maus Hábitos, a história lírica e feroz de uma menina presa num corpo de rapaz, desbravando o caminho rumo à sua identidade, à revelia de tudo e de si mesma.

Este romance leva-nos numa travessia pelo território mais íntimo da natureza humana — uma travessia da qual não saímos incólumes. Maus Hábitos é a história do encontro de uma pessoa consigo mesma, alguém que nasce no corpo errado, no lugar mais triste e sem futuro, num tempo desolado. Pela mão da protagonista, vamos até à sua infância em San Blas — um bairro operário suburbano e dizimado pela heroína nos anos oitenta —, passamos pela adolescência selvagem nas noites clandestinas de Madrid e chegamos ao raiar do milénio, quando a promessa de liberdade é soterrada por um episódio de insuportável violência. Contudo, das cicatrizes mais fundas há de emergir não a redenção, mas a esperança.


Minha review no GoodReads

4.5


Todas as meninas trans crescem sozinhas.


Há livros que contam uma história e há livros que abrem uma janela para uma realidade que continua muitas vezes escondida.


É um romance de formação, mas é também um retrato de uma época, de uma cidade, de um bairro (San Blas) e de todas as pessoas que cresceram a tentar encontrar o seu lugar num mundo que nem sempre lhes abriu espaço. Através da infância e adolescência da protagonista, acompanhamos uma Madrid dos anos 80 e 90 muito diferente daquela imagem mais conhecida da liberdade e da efervescência cultural da Movida. A autora leva-nos para os bairros periféricos, para as ruas onde convivem a pobreza, a droga, a violência, a solidão e a luta diária de quem vive à margem.


A questão da identidade de género é uma das grandes linhas do romance, mas o livro é muito mais do que uma história sobre ser uma mulher trans. É um livro sobre crescer, sobre sentir-se diferente, sobre procurar uma linguagem para aquilo que se é quando o mundo insiste em negar essa possibilidade. É sobre o corpo, o desejo, a família, a amizade e sobre a necessidade universal de sermos reconhecidos.


Desde cedo percebemos a importância das pessoas que funcionam como espelhos para a protagonista. 


Saúl, o filho do meio de Aurelio e Luisa, (...) lindíssimo, com os mesmo olhos verdes e maliciosos da sua irmã (...) Às vezes queria ser como ele. Fascinante, único e feminino. Chamavam-lhe maricas, (...) Não lhe davam descanso (...) Saúl foi-se embora sem alarido. (...) Creio que essa foi a última vez que o vi. (...) Calculei que, para onde ia, o rei das fadas não precisava de bagagem.


Alana S. Portero constrói um romance extremamente visual, quase cinematográfico, onde conseguimos ver os lugares, os corpos e as pessoas que habitam aquela Madrid. O parágrafo inicial conquistou-me imediatamente. Uma imagem dura e inesquecível de uma geração de jovens destruídos pela droga e pelo abandono, descritos através de referências religiosas e artísticas que transformam a miséria em algo quase sagrado. 


Vi cair como anjos mortais uma geração inteira de rapazes. Adolescentes com a pele acinzentada e falta de dentes, a cheirarem a amoníaco e a urina. Figuras esquálidas como Cristos de Mantegna, (…) Cobertos de agulhas como São Sebastião. Sentados ou deitados no chão como calhasse. Quase sem se moverem, lentos e sincopados como bonecos partidos. Com o sorriso sublime dos crucificados. Indefesos, mas flutuando já em lugares onde nada os atingia. Vi-os despontar e tornarem-se cada vez mais lentos até chegarem à quietude final e se decomporem na lama que se acumulava no nosso bairro com nome de santo, mas abandonado por Deus.


A cultura popular tem um papel importante na construção da identidade da protagonista. Boy George, Prince, Irene Cara ou Madonna aparecem como pequenos sinais de possibilidade num mundo onde ela ainda não consegue encontrar o seu lugar. São os seus pirilampos numa gruta negra e húmida.

As personagens com quem a protagonista se cruza ao longo da história são outro dos grandes pontos fortes do livro. Muitas delas tornam-se inesquecíveis e têm um papel fundamental no seu crescimento. São pessoas que carregam as suas próprias feridas, mas que também oferecem protecção, carinho, conhecimento e resistência. Algumas mostram a crueldade do mundo, outras mostram que é possível encontrar uma espécie de família onde menos se espera.


— Peruca. Chamam-te sempre Peruca. (…)

— Com que então Peruca… — disse a partir daquela lonjura.

Se aquele não foi o mais lento início de gargalhada da história, para mim tornou-se eterno. (…) Contagiámo-nos uma à outra durante algum tempo e até houve quem parasse por instantes para nos ver. Uma criança não muito favorecida, que deixara há pouco de ser um bebé, e uma anciã grotesca a divertir-se com alguma coisa que só elas percebiam.


É um livro duro, por vezes desconfortável e violento, que não tenta suavizar as experiências das suas personagens. Mas existe sempre uma possibilidade de redenção. Não uma redenção fácil ou milagrosa, mas aquela que nasce dos encontros, da memória, do amor e da capacidade de finalmente reconhecer o próprio valor.


(...) a desgraça é uma coisa que nos fazem, não que trazemos desde o nascimento como a marca de uma bruxa.
é quase a síntese do romance. Ninguém nasce destinado à vergonha ou à marginalidade.


É um romance de formação com tudo para se tornar um clássico da literatura queer contemporânea, e para quem nunca se reviu totalmente nos romances de formação tradicionais. E talvez seja essa a maior conquista deste livro, mostrar que também estas histórias merecem ser contadas, que também estas vidas têm lugar no imaginário literário.


Não tinha nome, mas existia. Habitava a minha própria lenda; não tinha nome, mas era Hécuba triunfante, Cassandra, Carmilla, Lá-Fora-No-Telheiro, a madrasta da Branca de Neve, a Bikina, a Llorona, a Dama do Lago, Afrodite, Cristina Ortiz, Roberta Marrero, sóror Juana Inés e a Rainha de Maio. Era todas as mulheres.



#incunábulos @mastodon