Série: -
Autor: Maggie O'Farrell
Data de Leitura: 15/03/2026 ⮞ 31/03/2026
Classificação: ⭐⭐⭐⭐⭐
Sinopse
Hamnet é um romance sobre o filho de Shakespeare. Mas esse é apenas o ponto de partida para Maggie O’Farrell construir uma obra actual, que interroga a origem da dor e envereda por caminhos menos conhecidos do amor e da maternidade.
Numa narrativa que mistura realidade e ficção, a autora irlandesa cria uma das mais importantes obras literárias deste início do século XXI.
Minha review no GoodReads
4,5⭐
Hamnet, de Maggie O'Farrell, é um romance que se impõe mais pela forma como nos faz sentir do que pelo que conta. Partindo de um episódio periférico da vida de William Shakespeare, a morte do seu filho, a autora constrói uma história íntima, onde o centro não está no dramaturgo, mas na figura de Agnes, uma mulher de contornos quase indomáveis, intuitiva, enraizada na natureza e naquilo que escapa à razão.
A escrita é, sem dúvida, o grande trunfo do romance. Há nela uma delicadeza envolvente, uma cadência que nos conduz por entre gestos mínimos, sensações subtis e emoções densas. Maggie O’Farrell cria uma atmosfera onde tudo respira, desde os silêncios da casa até aos ritmos do corpo e da terra.
O episódio da propagação da peste é conduzido através de um percurso inesperado e quase autónomo dentro da narrativa. Esse “conto” introduz uma mudança de ritmo decisiva, expandindo o espaço do romance e ligando a esfera íntima da família a uma tragédia de dimensão global. É também aí que se instala uma tensão e uma sensação de inevitabilidade que nos acompanham até ao desfecho.
Dois momentos destacam-se pela força emocional:
✨ A cena em que Hamnet, diante da doença da irmã, tenta ocupar o seu lugar. Do ponto de vista realista, pode parecer pouco verosímil, mas funciona como um poderoso gesto simbólico. Mais do que um acontecimento credível, trata-se de uma expressão extrema de amor e desespero, que intensifica o peso da perda e confere ao romance uma dimensão quase mítica.
O seu filho era feito, é no que está a pensar, dele e dela. Fizeram-no juntos; sepultaram-no juntos. Nunca mais voltará. Uma parte dela gostaria de enovelar o tempo, guardá-lo num novelo, como um fio de lã. Gostaria de fazer a roda de fiar andar para trás, de desfazer o novelo da morte de Hamnet, da sua meninice, da sua infância, do seu nascimento, sempre para trás, até ao momento em que ela e o marido se uniram naquela cama para gerar os gémeos. Gostaria de desbobinar tudo isso até ser de novo lã crua, de encontrar o caminho de volta até àquele momento, e levantar-se-ia, voltaria o rosto para as estrelas, para o céu, para a Lua, e pedir-lhes-ia que alterassem aquilo que estava reservado para ele, rogar-lhes-ia que planeassem um desfecho diferente para ele, por favor, por favor. Tudo faria por isso, daria tudo, sujeitar-se-ia àquilo que os céus quisessem.
O ritmo, sobretudo na primeira metade, pode revelar-se por vezes lento, com longos momentos de contemplação que nem sempre nos agarram a atenção. No entanto, quando o romance encontra o seu equilíbrio, o impacto é inegável. Hamnet é, acima de tudo, uma meditação sobre o amor, a maternidade e o luto, conduzida com uma sensibilidade que evita o excesso e privilegia o silêncio, o gesto e a memória.
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