Série: -
Autor: Fernanda Teixeira Ribeiro
Data de Leitura: 12/01/2026 ⮞ 19/02/2026
Classificação: ⭐⭐
Sinopse
Ambientado no começo do século XX, Cantagalo narra a trajetória de uma família marcada por um casamento arranjado incomum entre a herdeira de uma fazenda de café e o filho de uma escravizada com um homem branco. A partir dessa união se desdobra a história de suas descendentes, empregadas e moradoras dos arredores. Vencedor do Prémio Revelação Literária UCCLA, o livro costura a vida das mulheres que vivem no cafezal à realidade de um lugar e um momento histórico bem delimitados — a Minas Gerais do pós-abolição.
Minha review no GoodReads
Cantagalo, de Fernanda Teixeira Ribeiro, venceu o Prémio Revelação Literária UCCLA–CM Lisboa, distinção que despertou a minha curiosidade.
A autora, nascida em 1984, em Uberaba, Minas Gerais - Brasil, é bacharel em Comunicação Social, doutorada em Ciências do Desenvolvimento Humano, investigadora na área da neurobiologia das emoções, jornalista e editora de ciência. Integra ainda o colectivo artístico In-Fâmia e é co-autora da antologia Somos Todos Perigosos.
A sinopse prometia um romance histórico ambientado na região de Minas Gerais do pós-abolição, centrado num casamento arranjado improvável entre a herdeira de uma fazenda de café e o filho de uma mulher escravizada com um homem branco. A partir dessa união, desenrola-se a história das mulheres da família e das que vivem à sombra do cafezal.
A premissa é forte e o enquadramento histórico pertinente. No entanto, a execução não me convenceu. A escrita, fragmentada e excessivamente descritiva, cria uma atmosfera densa que, em vez de aprofundar a complexidade das personagens, acaba por se tornar arrastada.
O que mais me afastou da leitura foi a forma como surge a pedofilia incestuosa. Não se trata apenas de um tema difícil, até porque a literatura não tem de evitar assuntos incómodos, mas da sensação de gratuitidade com que é trabalhado. As descrições não acrescentam densidade moral nem reflexão estrutural suficiente; antes contribuem para uma impressão de sujidade e normalização perturbadora que me levou a pôr a leitura de lado demasiadas vezes.
Digamos que foram vários períodos de nojo num livro de apenas 288 páginas!
Não gostei do estilo de escrita da autora, mas reconheço que há passagens bem construídas e percebe-se uma intenção simbólica consistente.
As gavetas de uma cômoda são como os vãos da memória, atira-se de um tudo dentro, na impossibilidade de se jogar fora. Em uma gaveta, encontrou o camafeu de ouro da mãe, hoje no seu pescoço; em outra, escondeu a pulseira de marfim. As duas joias, o mesmo homem, mas para isso as gavetas: uma para as colchas de se mostrar às visitas, outra para os paninhos higiênicos, toalhas e outros tecidos carregados dos humores e aflições do corpo. O camafeu fica na gaveta do pai, guarda-se com o cafezal e o livro de contas, aquela harmonia dos armários organizados, bonita de ver; a pulseira, na gaveta do barão Honório, emperrada; há ali um lobo-guará, fedor de estábulo, não abra.
Ainda assim, para mim, o romance ficou muito aquém do impacto prometido. Mais pesado do que profundo, mais desconfortável do que revelador.
