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[Opinião] Quem Matou o Meu Pai - Édouard Louis

                                      



Título: Quem Matou o Meu Pai

Série: 

Autor: Édouard Louis

Data de Leitura: 05/01/2026 ⮞ 10/01/2026

Classificação: 


Sinopse

Do premiado autor de Para Acabar de Vez com Eddy Bellegueule, esta é a história comovente e fraturante do reencontro possível entre pai e filho, e um grito pungente de denúncia social.

Com voz apaixonada e urgente, Édouard Louis narra o retorno à sua cidade natal, um local feio e cinzento numa das regiões mais pobres de França, e à casa paterna. É o regresso a uma infância assombrada pela violência, a homofobia e a vergonha, mas também a tentativa de uma reconciliação com esse passado doloroso, materializado numa figura paterna dominadora, agora fisicamente diminuída, frágil e exposta.

Relato comovente do reencontro possível entre pai e filho, evocativo de Carta ao Pai de Franz Kafka, Quem Matou o Meu Pai representa o gesto que procura o perdão e ainda o grito de denúncia de um fosso social que devora a França há décadas, com o dedo apontado ao poder político, a essa casta privilegiada, verdadeira responsável por condenar a uma morte precoce as classes mais desfavorecidas.


Minha review no GoodReads


4,5

Quem Matou o Meu Pai é um livro duro, conciso e político, e funciona como um ajuste de contas que já não se dirige apenas à família ou à aldeia, mas a um sistema inteiro.


Durante toda a minha infância, desejei a tua ausência.


Se em Para Acabar de vez com Eddy Bellegueule a escrita parecia necessária para sobreviver aqui ela surge como um gesto de maturidade. Compreender que o pai, figura violenta e silenciosa no primeiro livro, foi também ele esmagado pelas mesmas forças sociais que tornaram a infância de Eddy insuportável.


Édouard Louis dirige-se directamente ao pai e constrói um texto simultaneamente acusatório e íntimo. Não há condescendência, mas também não há generalização. Há contextualização, não absolvição. A violência doméstica, o racismo, a homofobia e a dureza afectiva surgem como consequências de uma vida sem escolha, sem futuro possível. A vergonha de ser pobre, de depender do Estado, de falhar enquanto homem atravessa todo o livro.


As políticas públicas são nomeadas, os responsáveis enumerados, as datas assinaladas.

Hollande, Valls, El Khomri, Hirsch, Sarkozy, Macron, Bertrand, Chirac. A história do teu sofrimento tem nomes.

É preciso coragem para o fazer.


O corpo do pai torna-se um documento político, um arquivo vivo de decisões governamentais que retiram direitos, precarizam o trabalho e impedem até o acesso aos cuidados de saúde. A literatura aqui não suaviza, expõe.


Mas há ali, surpreendentemente, uma declaração de amor. Édouard reconhece a transformação do pai, mesmo que essa transformação tenha chegado demasiado tarde.


Mudaste, nos últimos anos. Tornaste-te outra pessoa. Conversámos muito, durante muito tempo, explicámo-nos; eu queixei-me da pessoa que foste quando eu era criança, da tua dureza, do teu silêncio, das cenas que tenho contado aqui, e tu escutaste-me. E eu escutei-te. Tu, que toda a vida repetiste que o problema da França vinha dos estrangeiros e dos homossexuais, agora criticas o racismo francês, pedes-me que te fale do homem que amo. Compras os livros que publico, oferece-los às pessoas à tua volta. Mudaste de um dia para o outro; um amigo meu diz que são os filhos que transformam os pais, e não o contrário.

Mas aquilo que fizeram ao teu corpo não te dá a possibilidade de descobrires a pessoa em que te tornaste.


Um livro poderoso, com apenas 80 páginas!