Série: -
Autor: Édouard Louis
Data de Leitura: 02/01/2026 ⮞ 05/01/2026
Classificação: ⭐⭐⭐⭐
Sinopse
Criado no seio de uma família da classe trabalhadora, na Picardia, interior da França, Eddy não é igual às outras crianças. Os seus modos, a sua maneira de falar e a sua delicadeza valeram-lhe humilhações, ameaças e a incompreensão, tanto por parte dos colegas de escola, como do pai, «um duro», alcoólico e irascível, e da mãe, uma mulher cansada e alheada. Eddy cresce assim, preso na contradição de tanto gostar como odiar a pessoa que é, do fascínio e asco pelos seus desejos mais íntimos, de querer a liberdade de uma outra vida, mas nunca conseguindo colocar verdadeiramente de parte o seu amor pelos pais.
Primeiro romance de Edouard Louis, que lhe valeu o imediato aplauso da crítica e a fama internacional, Para Acabar de Vez com Eddy Bellegueule é um livro audacioso, feito de memória pessoal e de ficção, um romance temerário e franco, que procura responder à derradeira pergunta: como pode cada um de nós inventar a sua própria liberdade?
Minha review no GoodReads
Enquanto lia Para Acabar de Vez com Eddy Bellegueule, tive de confirmar, por diversas vezes, em que país, cidade, ano e século a narrativa se situava.
França, Picardia, finais da década de 1990, inícios dos anos 2000, já em pleno século XXI. Amiens fica a pouco mais de 150 km de Paris, mas a aldeia onde Eddy vivia parecia existir a séculos de distância, presa a um mundo de violência, miséria social e exclusão.
Custou-me a acreditar.
Apesar de ter a indicação de “ficção”, o romance é assumidamente autobiográfico. Edouard Louis constrói um retrato cru da sua juventude
“Da minha infância, não tenho nenhuma recordação feliz.”
num meio operário marcado pelo alcoolismo
“Tens de perceber isto, Eddy, o teu pai é alcoólico, já não vai voltar ao trabalho.”,
pela pobreza
“Hoje à noite vamos comer leite, neologismo da miséria.”,
pela violência
“Para um homem, a violência era algo natural, evidente.”,
e pela homofobia
“As injúrias acompanhavam os socos, e o meu silêncio, sempre. Paneleiro, bicha, rabeta, maricas, panasca, roto, larilas... ou o homossexual, o gay.”
O livro está mais próximo de um exercício de denúncia e de memória, do que um romance no sentido clássico.
“As palavras amaricado, efeminado ressoavam constantemente à minha volta na boca dos adultos: não só na escola, não unicamente vindas da parte dos dois rapazes.”
O texto é directo, comovente, repetitivo por vezes, acredito para transmitir a dimensão do trauma, e realmente horrível, atinge onde dói.
“Hoje vou ser um duro”
The State of the Political Novel: An Interview with Édouard Louis
