Série: -
Autor: W. Somerset Maugham
Data de Leitura: 12/01/2026 ⮞ 26/01/2026
Classificação: ⭐⭐⭐⭐
Sinopse
A vida de Larry Darrell muda para sempre quando um amigo e colega de combate morre ao tentar salvá-lo. Para o jovem aviador americano, a morte passa então a ter um rosto. O inexorável mistério da morte leva-o a questionar o significado último da frágil condição humana e a embarcar numa obstinada e redentora odisseia espiritual. Ao recusar viver segundo as convenções impostas pela sociedade para buscar o sentido da vida (que encontrará, certa manhã, algures na Índia), Larry torna-se simultaneamente uma frustração para os que o rodeiam – principalmente para Isabel, a namorada, e Elliott, tio desta, que cultivam acima de tudo a aceitação e o prestígio sociais – e a personificação de um ideal de espiritualidade e não-compromisso. Por duas vezes adaptado ao cinema, "O Fio da Navalha" é um romance intemporal. As ansiedades e dúvidas de Larry são também as nossas; continuamos até hoje a buscar um sentido para a nossa existência. Para encarnar essa luta contra o destino, Somerset Maugham criou um dos mais fascinantes personagens do seu vasto legado literário. Da Primeira à Segunda Guerra Mundial, passando pela Grande Depressão, ele leva-nos, através das sociedades francesa, americana e inglesa, à verdade mais recôndita da alma e do sentimento humanos.
Minha review no GoodReads
O Fio da Navalha é daqueles romances que parecem simples, mas ao longo da leitura leva-nos a uma pergunta incómoda, O que é, afinal, uma vida bem vivida?
Somerset Maugham coloca essa questão sem respostas pré-definidas e fá-lo através de um confronto entre espiritualidade e materialismo.
Logo no título, retirado do Katha Upanishad, está contida essa exigência
“The sharp edge of a razor is difficult to pass over; thus the wise say the path to Salvation is hard.”
O caminho é estreito, difícil, e não admite distrações. A metáfora atravessa todo o romance, sugerindo que qualquer tentativa de viver com autenticidade implica risco, renúncia e desequilíbrio.
Larry Darrell, a personagem em torno da qual tudo gravita, é também a mais estranhamente ausente. Marcado pela Primeira Guerra Mundial, regressa incapaz de aceitar o guião social que lhe é oferecido: carreira, riqueza e estabilidade. Em vez disso, escolhe procurar o sentido da vida. Essa procura raramente nos é mostrada directamente por Larry. A sua vida chega-nos quase sempre filtrada pelo olhar dos outros. A felicidade que Larry persegue é invisível, apenas se vive.
Do lado oposto está Isabel Bradley, que escolhe o materialismo de forma consciente, lúcida e informada. Não acredita numa felicidade desprovida de dinheiro, conforto, beleza e segurança, e recusa pagar o preço da instabilidade emocional e económica que Larry lhe oferece. Maugham tem a inteligência de não a castigar por isso. Isabel consegue exactamente aquilo que queria, mas permanece inquieta. O romance não condena as suas escolhas limita-se a mostrar que nenhuma delas vem sem custos.
É aqui que O Fio da Navalha me conquistou, a felicidade não é apresentada como um modelo universal. O que funciona para Larry não funciona para Isabel, o que satisfaz Gray não salva Sophie. Cada percurso é único, e qualquer tentativa de impor uma ideia de felicidade aos outros surge como erro ou violência subtil. Talvez por isso ninguém consiga “salvar” ninguém neste livro, apesar das boas intenções.
Há, ainda assim, um momento em que o livro me cansa: o capítulo da experiência espiritual de Larry na Índia. Aí, o romance entra num território mais declaradamente místico que me diz pouco.
Achei feliz e esclarecedora a definição de Larry como “um homem profundamente religioso que não acredita em Deus.” A frase afasta-o de qualquer dogma ou fé instituída e desloca a espiritualidade para o campo da ética pessoal. Larry não segue uma religião, pratica uma disciplina interior. Não acredita em Deus, mas acredita na necessidade de coerência, atenção e desapego. É uma espiritualidade laica, sem proselitismo e sem promessa de salvação e, por isso mesmo, profundamente solitária.
Não há soluções fáceis, e isso percebe-se desde o primeiro parágrafo:
“Nunca comecei a escrever um romance com tantos receios. Se lhe chamo romance é só por não saber o que mais lhe chamar. Tenho pouca história para contar e não termino nem com uma morte nem com um casamento. A morte põe fim a todas as coisas, sendo por isso a conclusão cabal para uma história, mas o casamento também a remata de forma muito conveniente, e os mais sofisticados costumam até desdenhar erradamente do que se convencionou designar por final feliz.”
Nada termina porque nada se resolve. Não há catarse, nem redenção, nem final feliz, apenas vidas que continuam, com escolhas feitas e consequências assumidas.
O Fio da Navalha mostra que qualquer caminho é estreito, precário e pessoal, como andar sobre um fio de navalha. Ninguém está certo, ninguém está totalmente errado, e viver continua a ser um exercício sem manual de instruções.
