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[Opinião] Três Mulheres no Beiral - Susana Piedade

       



Título: Três Mulheres no Beiral

Série: 

Autor: Susana Piedade

Data de Leitura: 06/07/2022 ⮞ 17/07/2022

Classificação: 


Sinopse

Em plena Baixa do Porto há uma rua icónica com uma fiada de prédios, onde os modos tripeiros convivem com a música dos artistas, a sinfonia das obras, a vozearia dos bares e os bandos de turistas curiosos. É numa dessas casas que vive a octogenária Piedade desde que se lembra e onde tem amigas de longa data. Mas o terror instala-se quando - ofuscados pelo potencial deste Porto Antigo - os proprietários e investidores não olham a meios para se livrarem dos velhos inquilinos, que vão resistindo às suas ameaças como podem, mas começam a sentir na pele as represálias.

Neste cenário tenso e desumano desenrola-se a história de Três Mulheres no Beiral, que é também a de uma família reunida por força das circunstâncias, mas dividida por sentimentos e interesses: Piedade, que trata a casa como gente; José Maria, o filho incapaz de se impor e tomar decisões; Madalena, a neta que regressa com a filha ao lugar onde foi criada para reviver episódios marcantes do seu passado; e Eduardo, o neto egocêntrico e conflituoso que sonha ser rico desde criança e a quem a venda da casa só pode agradar.

Com personagens extremamente bem desenhadas num confronto familiar que trará ao de cima segredos que se pensavam esquecidos e enterrados, Susana Piedade mantém a expectativa até ao final neste romance notável e de rara humanidade que foi finalista do Prémio LeYa em 2021.



Minha review no GoodReads

Na maioria das cidades o turismo é uma atividade que dinamiza e contribui economicamente para o crescimento das mesmas, principalmente nas áreas mais antigas e degradadas. Criam-se novos empregos, reabilitam-se espaços e gera-se riqueza. Se ficássemos apenas por aqui estávamos muito bem, mas o turismo massificado traz alguns efeitos negativos, nomeadamente a pressão imobiliária que se faz sentir nas zonas nobres das grandes cidades.


Três Mulheres no Beiral é a história de Piedade, uma senhora de 80 anos, da sua família e vizinhos. Piedade vive numa casa velha, tão velha quanto ela, na baixa do Porto, numa das ruas que está sob uma pressão imobiliária gigantesca. Nem ela nem os vizinhos querem sair, mas os investidores e alguns familiares não olham a meios para os expulsar.


No começo da primavera, Agustina saiu de casa a arrastar as pantufas e, cheia de tremeliques, bateu à porta da amiga para lhe contar que o senhorio vendera o imóvel e os novos proprietários queriam despejá-la à pressa. Não faltavam imobiliárias, sociedades e Fundos a comprarem casas e lojas a granel por aquelas bandas. Mas uns levavam as investidas ao limite. Primeiro, deixaram-lhe um recado na caixa do correio. Depois, voltaram com promessas e papéis, garantindo-lhe um apartamento jeitoso não muito longe, mais aconchegante, que era uma forma de dizer assim para o pequeno, nem os móveis lá cabiam; mas, quando ela recusou, trocaram logo as simpatias por ameaças e incumbiram dois brutamontes de lhe passar a mensagem. Quando lhe cortaram a eletricidade para a amedrontar, andou à luz de velas e lamparinas a óleo, sempre com medo de pegar fogo à casa, sobressaltando-se só de ouvir o batente ou a serenata dos gatos esfomeados à porta.

Assim nascia o terror.

O senhor Alberto até pagara a um homem com corpanzil para o proteger, mas depois andava à míngua o resto do mês, só pele e osso, a pedinchar a sopa dos pobres, remédios a fiado, e não resistiu à miséria por muito tempo. Restava-lhe a dignidade.

(…)

Nem Piedade se livrou da praga.

Começou também com uns bilhetinhos metidos na caixa de correio, brotavam como cogumelos venenosos. Depois do primeiro, ela apanhava-os e deitava-os ao lixo sem os ler. Talvez os intrusos julgassem que a vergavam facilmente; naquela idade, as pessoas não precisavam de muito para morrer, e para eles tanto dava, mais velho, menos velho. Uma vez bateram-lhe à porta com uma conversa fiada de vendedores de Bíblias, como quem anuncia a chegada do Salvador, mas Piedade estava de sobreaviso e percebeu logo ao que iam. Fez-se de desentendida e despachou-os em três tempos, porque, ao contrário da maior parte dos vizinhos, arrendatários tratados abaixo de cão, a casa pertencia-lhe. Julgou que o assunto ficara arrumado, mas eles voltaram.


Uma história triste sobre o envelhecimento, o isolamento, o abandono, o sofrimento e a morte, mas também nos dá o outro lado da moeda, a amizade, o amor, o carinho e a dedicação.