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[Opinião] Memórias duma mulher de época: seguido por Pedras falsas - Diana de Liz

                                 


        


Título: Memórias duma mulher de época: seguido por Pedras falsas

Série: -

Autor: Diana de Liz

Data de Leitura: 19/09/2026 ⮞ 29/09/2026

Classificação: ⭐⭐⭐⭐


Sinopse

É o testemunho de uma mulher que se recusou a ser apenas um reflexo do seu tempo e escolheu, em cada linha, o desafio de ser livre.


Minha review no GoodReads

Não conhecia esta autora. Acho que não devo ser a única! Ao que parece, é bastante desconhecida no nosso país, tirando, vá, o nome de uma rua em Évora, no Alentejo.

Descobri-a através da editora brasileira Lampião Literário, que tenta recuperar autores e obras esquecidas. A intenção é boa, vamos é ver se tem pernas para andar.

E foi assim que esta autora portuguesa chegou até mim.


Diana de Liz foi o pseudónimo de Maria Eugénia Haas da Costa Ramos, escritora e jornalista nascida em Évora, em 1892, e falecida em Lisboa, em 1930. Usou também o pseudónimo Mimi Haas, com o qual colaborou em vários jornais e revistas, entre eles o Correio da Manhã, Diário de Notícias, Diário de Lisboa, Magazine Bertrand e Vida Feminina.

Morreu aos 38 anos e deixou uma obra dispersa pela imprensa, parte da qual foi reunida postumamente por Ferreira de Castro em Pedras Falsas (1931) e Memórias duma Mulher da Época (1932).





Gostei bastante da leitura. Escrito em forma de diário, o livro acompanha as experiências e desilusões das personagens femininas, sobretudo em relação ao casamento, aos homens e ao lugar reservado às mulheres na sociedade da época.

A novela que abre o livro – Memórias duma Mulher da Época – está dividida em duas partes. A primeira parte começa com uma jovem prestes a casar.

Amanhã, amanhã! A minha alma abre-se, ansiosa, para a Vida, essa Vida que desconheço e tantas vezes me tem feito meditar.

Acompanhamos as expectativas da personagem relativamente ao casamento e à vida adulta.

Na segunda parte, reencontramos a personagem mais tarde, quando recupera um caderno que estive quase seis anos esquecido numa gaveta.

E é aqui que a coisa se torna mais interessante. A crítica à sociedade e aos costumes da época, ao patriarcado, ao casamento, etc., é inteligente, certeira e pontuada com alguma fina ironia. Há momentos bastante novelescos, mas que nos remetem para a época em questão.

E depois há passagens que são bastante directas, que mostram que Diana de Liz não tinha papas na língua:

Casei há três meses e meio e estou já sucumbida, amarrotada pela desilusão. Não posso deixar de pensar, com pavor, no que sucederá daqui a três ou quatro anos... (…) “Teu marido atraiçoa-te após alguns escassos meses de casados, e, em troca, tu não lhe tens amor.

Porque, aparentemente, há coisas que só se descobrem depois de casar. Como ela própria diz em Clotilde, Clarinha, Clarisse:

“Nós, em solteiras, sabemos lá se um rapaz é ou não um marido ideal?! Só depois de casar é que essas coisas se sabem. Antes disso ... Eles enganam a gente, com aquelas palavrinhas sentimentais!”

A crítica ao casamento e àquilo que se esperava das mulheres é uma constante. E nem sequer é preciso disfarçá-la muito. A certa altura, depois de se confrontar mais uma vez com aquilo a que chama toda a extensão do infortúnio feminino, a narradora atira pela janela um livro que a indignou pela acentuada má fé contra a mulher, a eterna sacrificada, a vítima do homem, a débil expiadora dos erros e do egoísmo masculinos...

Não é propriamente uma subtileza!

E depois há o casamento como negócio, ou melhor, como “venda legal” da mulher. A narradora reconhece que, se fosse mais calculista e voltasse a casar com um homem que considera detestável, seria provavelmente elogiada pelo seu bom senso:

mas quantas outras bocas louvariam o meu bom senso e o meu tato, por ter realizado sem escrúpulos a venda legal de mim mesma!...

É difícil ser mais clara sobre o que pensa das convenções sociais.

É interessante que, no final da novela de abertura, a personagem, depois de se divorciar e de ter outros relacionamentos, chegue à conclusão de que também não encontrou nos outros homens aquilo que imaginava. Há aqui uma certa circularidade: casamento, divórcio, descoberta do mundo e desilusão.

Mas eu nada sabia da vida... E julgava o mundo infinitamente melhor...

Em Pedras Falsas, temos a compilação de alguns escritos de Diana de Liz. Há, como em tudo, alguns bons e outros nem tanto.

Vale a pena referenciar As impressões de Silvina, viúva, um pequeno texto em Memórias de outra Mulher. Uma maravilha.

Diana de Liz era uma autora que observava os costumes, questionava o papel reservado às mulheres e não tinha grande paciência para as justificações habituais para o comportamento dos homens. E fê-lo muitas vezes com uma ironia que ainda resulta bastante bem.
Morreu jovem, mas deixou uns papéis bem interessantes. Pena que tenha ficado praticamente esquecida. Mais uma para a longa lista de mulheres escritoras que sofreram um apagamento.