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[Opinião] Os Náufragos do Wager: Uma história de motim e assassínio - David Grann

                                 


      


Título: Os Náufragos do Wager: Uma história de motim e assassínio

Série: -

Autor: David Grann

Data de Leitura: 17/07/2026 ⮞ 14/08/2026

Classificação: 


Sinopse

Em 1742, uma embarcação rudimentar - com trinta homens à beira da morte - deu à costa no litoral do Brasil. Eram sobreviventes do Wager, um navio britânico que deixara a Inglaterra em 1740, parte de uma esquadra de navios de guerra com 2000 homens e uma missão secreta: perseguir e capturar um galeão espanhol cheio de tesouros.

Porém, o Wager acaba por naufragar numa ilha na costa da Patagónia. Seis meses depois, outra embarcação ainda mais decrépita deu à costa chilena com três náufragos que contavam uma história muito diferente: os trinta marinheiros que haviam desembarcado no Brasil não eram heróis - eram amotinados.

Entre acusações de traição, rebeldia, assassínio, tirania, quebra de autoridade, o Almirantado queria saber quem dizia a verdade - e enforcar os culpados. A narrativa de David Grann não explora apenas os perigos e a crueldade da vida no mar, desafiando o escorbuto, a violência e a morte: mostra como a cobiça e a ganância se desenvolveram no gene da humanidade e relata o custo físico e psicológico dessas campanhas imperiais.


Minha review no GoodReads

3,5 ⭐️


Não é uma leitura muito habitual para mim, mas Os Náufragos do Wager: Uma história de motim e assassínio pareceu-me, desde o início, uma história demasiado absurda para ser ignorada. E, de facto, a história é extraordinária. O problema é que, no final, gostei mais daquilo que aconteceu do que da forma como David Grann decidiu contá-lo.



Charles Brooking's 1744 - HMS Wager in extremis


O Wager fazia parte de uma expedição britânica que, em 1740, partiu para o Pacífico com o objectivo de passar o Cabo Horn e de atacar os espanhóis e capturar os seus navios carregados de riquezas.


Como os mares do extremo sul são as únicas águas que fluem ininterruptamente à volta do globo, ganham uma potência enorme, com ondas que chegam a formar-se ao longo de vinte e um mil quilómetros, acumulando força enquanto rolam por um oceano a seguir ao outro. Quando, finalmente, chegam ao Cabo Horn, são comprimidas num corredor estreito entre os promontórios americanos mais a sul e a parte mais a norte da Península Antártica. Este funil, conhecido como a Passagem de Drake, torna a torrente ainda mais pulverizadora. As correntes são não só as mais longas da terra como também as mais fortes, transportando mais de quatro mil milhões de pés cúbicos de água por segundo, mais de seiscentas vezes a descarga do rio Amazonas. E depois ainda há os ventos. Zurzindo consistentemente em direção a leste a partir do Pacífico, onde não há terras que os obstruam, aceleram frequentemente até atingir a força de um furacão e conseguem ultrapassar os trezentos e vinte quilómetros por hora. Os marinheiros referem-se às latitudes em que sopram com nomes que capturam essa intensidade crescente: os Quarenta Rugidores, os Cinquenta Furiosos e os Sessenta Uivantes.


Dito assim até parece uma aventura gloriosa. Na realidade, era uma espécie de sentença de morte voluntária. Anos no mar, tempestades, fome, doenças, frio, disciplina brutal e uma probabilidade bastante razoável de nunca mais voltar a ver terra. Sinceramente, é preciso ter muito pouco amor pela própria vida para embarcar numa coisa destas.


A parte de que mais gostei foi, sem dúvida, o naufrágio e tudo o que se segue. A tripulação do Wager fica entregue a si própria, sem comida suficiente, sem condições, sem saber exactamente onde está e com a autoridade a desmoronar-se aos poucos. É aqui que a história se torna verdadeiramente fascinante. Perceber até onde pode ir um grupo de pessoas quando a sobrevivência passa a ser a única prioridade.


Depois há os relatos contraditórios sobre o que aconteceu. Grann fez um trabalho interessante ao cruzar diários, cartas, testemunhos e outros documentos da época para reconstruir os acontecimentos e tentar perceber quem estava a dizer a verdade. Essa utilização das fontes históricas foi, para mim, um dos pontos fortes do livro. Há qualquer coisa de muito interessante em conseguir reconstruir uma aventura do século XVIII através das palavras daqueles que realmente a viveram.


Embora não tenha sentido particular empatia por nenhuma das personagens, houve uma que teve uma cunha literária: John Byron, o avô de Lord Byron.


Mas foi precisamente aqui que comecei a sentir que faltava qualquer coisa. Quando a história dos náufragos termina, há material extraordinário que parece ser despachado demasiado depressa. Gostava de ter sabido muito mais sobre a viagem de regresso dos homens que partiram com Bulkeley e, sobretudo, sobre Cheap e os homens que ficaram para trás. O que se passou durante os anos em que permaneceram naquela situação? Como sobreviveram? Como se reorganizaram? Como lidaram psicologicamente com tudo aquilo?


Queria mais sumo.

E acho que este foi o meu maior problema com o livro. A história tinha potencial para ser muito mais completa do que aquilo que Grann escolheu contar.


O estilo também não me conquistou totalmente. A narrativa avança quase como se estivéssemos a assistir a um filme. Isso torna a leitura bastante fluida, mas, para mim, também lhe retira alguma profundidade. Fiquei muitas vezes com a sensação de que estava a ver os acontecimentos de fora, quando teria gostado de entrar mais naquele mundo e perceber melhor a mentalidade daqueles homens.


E houve ainda alguns pormenores que me fizeram torcer o nariz. Por exemplo, no epílogo Grann fala de uma "edição americana" do relato de Bulkeley publicada em 1757.


John Bulkeley escapou para uma terra onde os emigrantes se podiam livrar do fardo do passado e reinventar-se: a América. Instalou-se na colónia da Pensilvânia, esse futuro foco de rebelião, e, em 1757, publicou uma edição americana do seu livro.


Só que em 1757 os Estados Unidos ainda nem sequer existiam. Tratava-se de uma edição publicada em Filadélfia, na colónia britânica da Pensilvânia. Pode parecer um pormenor, mas numa obra que pretende reconstruir acontecimentos históricos com base documental, este tipo de simplificação incomoda-me.


Gostei do naufrágio, da sobrevivência e da capacidade daqueles homens de continuarem vivos em condições que hoje nos parecem inimagináveis. Gostei da utilização dos documentos históricos e da tentativa de reconstruir diferentes versões dos acontecimentos. Mas faltou-lhe mais tempo passado com aqueles homens nas diferentes viagens de regresso.


Faltou-lhe um pouco mais de "sumo".



Wager remains treated timber found at the Wager wreck site in 2006

https://www.damninteresting.com/dead-reckoning/


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