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[Opinião] A Rapariga de Ninguém - Virginia Roberts Giuffre

                               


Título: A Rapariga de Ninguém

Série: -

Autor: Virginia Roberts Giuffre

Data de Leitura: 27/06/2026 ⮞ 07/07/2026

Classificação: ⭐⭐⭐⭐⭐


Sinopse

A história real de Virginia Roberts Giuffre, uma das principais vítimas do caso Jeffrey Epstein.

O mundo conhece Virginia Roberts Giuffre como uma das vozes mais corajosas contra os abusos de Jeffrey Epstein e Ghislaine Maxwell. A mulher cuja denúncia ajudou a levá-los à justiça e cuja história abalou algumas das figuras mais poderosas do mundo. A sua verdade nunca tinha sido contada. Até agora.

Em abril de 2025, Giuffre pôs termo à própria vida, deixando para trás um manuscrito que desejava ver publicado. A Rapariga de Ninguém é o relato comovente e implacável de uma jovem como outra qualquer que enfrentou circunstâncias extraordinárias e sobreviveu para as denunciar.

Neste duríssimo testemunho, Virginia Giuffre revela os abusos de que foi vítima desde a infância, o tráfico a que foi sujeita por Epstein e Maxwell, e a coragem que encontrou para escapar e reconstruir a sua vida. Mais do que uma sobrevivente, tornou-se uma voz incansável na luta por justiça e pela proteção de outras vítimas.

Íntimo, poderoso e profundamente humano, este livro é um testemunho de força diante do horror e um legado que não pode ser ignorado.


Minha review no GoodReads



(…) por que razão deveria eu sentir vergonha? Eu era uma criança quando adultos abusaram de mim.

— Não, não é vergonhoso — respondi. — E devemos falar sobre isso. Porque está a acontecer por aí e vai continuar a acontecer se as pessoas não falarem.

(…) algumas pessoas ainda acham que o Epstein foi uma anomalia, um caso isolado. E essas pessoas estão enganadas.

(…) não é incomum entre certos homens poderosos que se julgam acima da lei. E muitos deles ainda andam por aí, a viver as suas rotinas, a aproveitar os benefícios do poder. 



Nos últimos anos temos assistido a uma mudança significativa na forma como são encaradas e discutidas as denúncias de abuso e de violência contra as mulheres. Durante muitos anos estes assuntos eram falados quase em segredo. Sabia-se que existiam, mas raramente chegavam à praça pública. O movimento #MeToo não iniciou esta luta, mas obrigou muita gente a deixar de fingir que não via o problema.


Mas esta é uma luta que está longe de terminar. Basta olhar para tudo o que continua por esclarecer no caso Jeffrey Epstein (Epstein Files) para perceber que o dinheiro, o poder e os contactos ainda conseguem proteger demasiadas pessoas. Fazem panelinha, protegem-se uns aos outros e as vítimas continuam a ser as que têm de lutar para provar aquilo que viveram.



Foi por causa da fotografia com Andrew Mountbatten-Windsor que a maioria das pessoas ouviu falar de Virginia Giuffre. Mas Virginia é muito mais do que essa fotografia. É uma mulher que conseguiu sobreviver ao impensável e que teve a coragem de enfrentar uma máquina infinitamente mais poderosa do que ela.



Uma das coisas de que mais gostei nesta biografia foi precisamente o facto de não se limitar aos abusos. Virginia mostra-nos também o que aconteceu depois de conseguir fugir da dupla Epstein/Maxwell. E isso é importante. Porque há quem ache que tudo termina quando a vítima consegue escapar. Não termina. É aí que começa outra luta.


Os abusos sexuais deixam marcas profundas e duradouras. Cada vítima lida com o trauma de forma diferente, e em alguns casos, esse peso torna-se tão insuportável que conduz a actos extremos.


É impossível sair desta leitura indiferente. Revolta-nos, entristece-nos e obriga-nos a pensar quantas Virginias existirão neste momento sem voz, sem apoio e sem justiça.


Haveria muito mais para dizer. Sobre Epstein. Sobre Maxwell. Sobre todos os que continuam protegidos pelo dinheiro e pelo poder, mas prefiro acabar a dizer: leiam, porque a luta ainda não acabou.


Virginia Roberts Giuffre 

09/08/1983 – 25/04/2025


[Percebo que a Presença tenha optado por aproveitar a tradução brasileira (deve sair mais barato!), mas a adaptação para português merecia uma revisão muito mais cuidada.]


Progressão de leitura e citações:


4.0% "(...) um ano depois de o corpo sem vida do Epstein ter sido encontrado na cela, a Maxwell foi presa (...) Mas continuo a sentir-me assombrada pelos fantasmas famintos dos dois.(...) O trauma é um inimigo ardiloso. Quem sobrevive aos seus horrores muitas vezes surpreende-se com a rapidez com que ele parece recuar, pelo menos à primeira vista."


5.0% "Eu conheço monstros. Na infância, sofri quase todos os tipos de abuso: incesto, negligência parental, castigos físicos severos, assédio sexual, violação. Na adolescência, já tinha sido vítima de tráfico sexual por outro pedófilo, antes de conhecer o Jeffrey Epstein e a Ghislaine Maxwell. Mas aqueles dois duplicaram o meu sofrimento. (...) Acreditei que morreria como escrava sexual."

13.0% "Quando me tornei uma «figura pública» — quero dizer, uma mulher cuja história de sobrevivência foi contada e recontada pela imprensa (...) Nunca disse publicamente que o meu pai abusava de mim nem que me entregou a outro homem para que também fizesse o mesmo.

[Virginia tinha sete anos]"


19.0% "O q eu ñ sabia era q, qdo o Eppinger me chamou p/ entrar na limusina, em dez de 1998, a Perfect 10, a «agência de modelos» q ele dizia ter, era na verdade um serviço de acompanhantes q cobrava mil dólares por noite. (.) Eppinger e dois cúmplices checos recrutaram mulheres no estrangeiro e enviaram­-nas p/ o sul da Florida p/ trabalharem c/ prostitutas. (.) abriu uma exceção: eu era a única americana no estábulo dele"


21.0% "No verão de 2000, o meu pai, que trabalhava na manutenção do Mar-a-Lago Club do Donald Trump, em Palm Beach, conseguiu-me um emprego lá como assistente de vestiário, a ganhar nove dólares por hora."


30.0% "Foi nessa altura q o Epstein começou a alargar as tarefas q esperava q eu desempenhasse para ele. (.) O ajudasse a vestir-se todas as manhãs. Primeiro, eu aplicava-lhe creme nos pés, depois puxava as meias, colocava-as na ponta dos dedos e fazia-as subir pelos calcanhares, como uma mãe faria com um filho.(.) Depois começou a pedir-me que o deitasse toas as noites na cama, forrada com um lençol de cetim cor-de-rosa."


36.0% "Na manhã seguinte, 10 de março de 2001, a Maxwell acordou-me a cantarolar:

— Sai da cama, dorminhoca!

Ia ser um dia especial, disse. Tal como a Cinderela, eu ia conhecer um belo príncipe. O velho amigo dela, o príncipe André, jantaria connosco nessa noite, e havia muito a fazer para me preparar."


69.0% "Consegue lembrar-se de como eram os Estados Unidos antes do movimento #MeToo? (...) naquela altura, as sobreviventes de abuso que enfrentavam publicamente os seus agressores eram rotineiramente desacreditadas, tratadas como prostitutas e novamente atacadas pela imprensa."