Título: Amor & C.ª
Série: Trois #1
Autor: Julian Barnes
Data de Leitura: 19/07/2026 ⮞ 30/07/2026
Classificação: ⭐⭐⭐⭐
Sinopse
Oliver, Stuart e Gillian. Oliver é o melhor amigo de Stuart e Stuart é o melhor amigo de Oliver. Gillian é namorada de Stuart, com quem virá a casar. Oliver e Stuart não podiam ser mais diferentes: o primeiro, extravagante, está convencido de que é uma luminária; o segundo é sóbrio, tímido e ligado ao «lado prático da vida». Gillian é bonita, inteligente, e ama Stuart; defende que falar de alguém ou de um assunto de forma exaustiva (como propõe o título original em inglês, Talking It Over) só é bom quando não somos o objeto em análise. Depois do casamento, uma explosão: Oliver descobre que está apaixonado por Gillian. Para contar esta história atribulada, cómica e errática, os três revezam-se na narração - com os seus pontos de vista, tiques e tópicos preferidos. Porém, o que começa como uma comédia de equívocos depressa desliza para uma exploração sombria e profunda dos pântanos da alma. Uma história interminável.
Minha review no GoodReads
É curioso como um livro onde acontece tão pouco consegue dar tanto que pensar. Quando comecei Amor & C.ª, pensei que ia ler mais um romance sobre um casamento, um adultério e uma amizade desfeita. No final, percebi que essa história era apenas o pretexto para Julian Barnes explorar a forma como cada pessoa interpreta e reconta a sua própria vida.
O essencial do romance resume-se em poucas linhas. O que faz deste livro uma leitura tão particular é precisamente aquilo que acontece depois. Ou melhor, aquilo que as personagens nos contam sobre o que aconteceu.
Não existe um narrador tradicional. Stu, Oliver, Gillian e, ocasionalmente, outras personagens dirigem-se directamente ao leitor. Falam connosco como se estivéssemos sentados à sua frente, confidenciando-nos a sua versão dos acontecimentos. O curioso é que todos falam, mas quase nunca parecem ouvir-se uns aos outros. Cada um constrói a sua própria narrativa, interpreta os mesmos episódios de forma diferente e tenta convencer-nos de que é quem melhor compreende a verdade.
Todos eles estão a tentar manipular o leitor. Barnes nunca nos deixa confortavelmente instalados ao lado de uma única personagem.
Embora a tradução portuguesa me tenha parecido muito competente, decidi continuar a leitura em audiobook, narrado em inglês britânico.
Julian Barnes escreve um humor muito próprio, feito de ironia, sarcasmo e pequenas subtilezas da linguagem que ganham outra vida quando são ouvidas na língua em que foram escritas. Não é uma crítica à tradução, mas há nuances que inevitavelmente se esbatem quando passam para outra língua. Foi sobretudo na voz de Oliver que isso se tornou evidente. O seu humor mordaz, a sua eloquência exagerada e aquele ar de intelectual convencido fizeram-me lembrar, por várias vezes, o humor britânico dos Monty Python.
Stu representa a estabilidade, a previsibilidade e a segurança. Oliver é brilhante, espirituoso e profundamente egocêntrico, uma personagem capaz de nos irritar e divertir na mesma página. Gillian permanece sempre envolta numa certa ambiguidade, tornando impossível classificá-la apenas como vítima ou culpada.
Mas, curiosamente, a personagem de quem mais gostei foi Mme. Rives. Talvez porque, ao contrário dos restantes, não sente necessidade de justificar constantemente quem é nem de conquistar a simpatia do leitor. Limita-se a observar, e essa serenidade foi uma verdadeira acalmia no meio de tanto ego.
Pouco a pouco, percebemos que o triângulo amoroso é apenas o ponto de partida para uma reflexão sobre as relações humanas. Sobre a forma como amamos, como recordamos e, sobretudo, como reescrevemos as nossas memórias para conseguirmos viver com elas.
Amor, etc. A proposição é simples. O mundo divide-se em duas categorias: os que acreditam que a finalidade, a função, o pedal dos graves e a melodia principal da vida é o amor, e que tudo o mais — tudo o mais — é um mero etc.; e os muitos, muitos infelizes que acreditam primeiro nos etc. da vida, e para quem o amor, por agradável que seja, não passa de agitação fugaz da juventude, prelúdio mecânico à tarefa de mudar a fraldinha do bebé, mas não algo de tão sólido, constante e seguro como, digamos, a decoração de interiores. É esta a única diferença que conta, entre as pessoas.
Barnes mostra-nos que não existe uma verdade absoluta quando falamos de relações humanas. Existem apenas diferentes perspectivas, diferentes memórias e diferentes formas de justificar as mesmas decisões.
No fim, percebemos que, na realidade, acontece muito pouco. São apenas três pessoas a falar sobre aquilo que lhes aconteceu. E, no entanto, é dessa conversa interminável que Barnes constrói um romance inteligente sobre o amor, a amizade, a memória e a forma como todos tentamos convencer os outros (e a nós próprios) de que a nossa versão da história é a verdadeira.

