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[Opinião] Compromisso de Long Island - Taffy Brodesser-Akner

             


                          


Título: Compromisso de Long Island

Série: -

Autor: Taffy Brodesser-Akner

Data de Leitura: 06/06/2026 ⮞ 20/06/2026

Classificação: 


Sinopse

Em 1983, o milionário Carl Fletcher é raptado à porta de sua casa em Long Island. A família recebe o pedido de resgate e, menos de uma semana depois, ele está de regresso sem grandes mazelas. Todos voltam ao conforto das suas vidas, como se nada tivesse acontecido.


Agora, passados quarenta anos, os Fletcher estão reunidos no funeral da matriarca quando os seus conflitos interiores vêm subitamente à tona. Afinal, parece que ninguém conseguiu superar coisa nenhuma. Durante quatro décadas, Carl tentou esquecer o rapto, bem como o mistério nunca desvendado da sua autoria; ao passo que Ruth se dedicou exclusivamente a proteger o marido. No que toca aos filhos, a situação não é muito melhor: o medo crónico de Nathan impede-o de viver normalmente; Beamer, argumentista em Hollywood, controla o pânico descontrolando-se em tudo o resto (comida, drogas, mulheres…); e Jenny, a mente mais brilhante dos três, passou a vida tão empenhada em provar que não é um produto da patologia da sua família que acabou por se definir precisamente por isso. Embora o dinheiro os tenha colocado em perigo, foi também o dinheiro a garantir a sua segurança… pelo menos até agora.


Compromisso de Long Island estende-se ao longo de gerações, percorrendo décadas de história até ao vertiginoso presente, detendo-se, pelo caminho, em temas intemporais como riqueza, sofrimento e a própria essência da alma judaico-americana.


Minha review no GoodReads


Há famílias complicadas. Há famílias disfuncionais. E depois há os Fletcher.


Quando Carl Fletcher, um judeu-americano, é raptado à porta de casa, em plena Long Island dos anos 80, a família nunca mais volta a ser a mesma. O curioso é que, apesar de o sequestro ser o acontecimento que desencadeia toda a narrativa, Compromisso de Long Island não é propriamente um livro sobre um rapto. É um livro sobre as consequências. Sobre as marcas que ficam. Sobre a forma como um acontecimento pode transformar-se na história oficial de uma família durante décadas.


Ao longo de várias gerações acompanhamos os Fletcher, uma família rica, privilegiada e profundamente incapaz de lidar com os seus próprios problemas. Não há aqui personagens exemplares. Todos mentem, escondem, distorcem, evitam conversas difíceis e tomam decisões questionáveis. 


Em certos momentos parece até haver um exagero deliberado na quantidade de traumas, neuroses e comportamentos autodestrutivos que a autora coloca em cena.


E, no entanto, funciona.


Uma das escolhas mais interessantes do romance é a forma como a narrativa se constrói a partir de diferentes perspectivas. Não existe uma versão única da história dos Fletcher, existe um conjunto de versões. Cada personagem filtra os acontecimentos através da sua própria memória, das suas justificações e das suas fragilidades. O passado não é fixo, é continuamente reinterpretado, muitas vezes para proteger a imagem que cada um construiu de si próprio.


Desta forma a família parece ainda mais disfuncional, porque não partilha apenas experiências, mas também versões incompatíveis dessas experiências. E isso acaba por reforçar a sensação de que ninguém ali é totalmente fiável, não por maldade, mas por auto-protecção.


É um drama familiar viciante, daqueles em que não conseguimos desviar o olhar mesmo quando as personagens nos irritam profundamente. 

Gostei de Jenny e achei Beamer a personagem mais bem construída do romance, cheia de contradições e vulnerabilidades que o tornam simultaneamente frustrante e fascinante. Já Nathan teve o efeito oposto, que fulano irritante.


Outra ideia que atravessa o livro é a herança emocional dentro das famílias. Não apenas os traumas, mas também os silêncios, as expectativas e as histórias que passam de geração em geração. O dinheiro está sempre presente, mas nunca surge como solução para nada. Pelo contrário, parece apenas oferecer novas formas de evitar enfrentar os problemas.


Nem tudo me convenceu. Houve momentos em que senti que o livro se prolongava mais do que precisava e outros em que a acumulação constante de disfunções familiares dificultava a criação de empatia pelas personagens. Ainda assim, nunca perdi o interesse pela história.


Compromisso de Long Island é um retrato mordaz, por vezes cruel, de uma família que nunca conseguiu libertar-se do seu passado. Não é um livro de personagens simpáticas, mas é um livro de personagens bastante interessantes. E, para quem aprecia bons dramas familiares, isso vale muito.