Série: -
Autor: Claudia Piñeiro
Data de Leitura: 26/04/2026 ⮞ 05/05/2026
Classificação: ⭐⭐⭐⭐⭐
Sinopse
Uma história poderosa que dá voz ao silêncio e afirma a liberdade de escolha.
Depois de Rita ser encontrada morta na torre do sino da igreja que frequentava, a investigação oficial sobre o caso é rapidamente encerrada. A sua mãe é a única que não desiste de esclarecer o crime. No entanto, fragilizada pela doença, é também quem tem menos condições para liderar a busca pelo assassino.
Uma difícil viagem pelos subúrbios da cidade, uma antiga dívida de gratidão e uma conversa reveladora compõem a trama de um romance íntimo e crítico, em que os segredos das personagens são desvendados a par das facetas ocultas do autoritarismo e da hipocrisia da nossa sociedade.
Minha review no GoodReads
Como diz Jane Campbell em Escovar a Gata e Outras Histórias
(…) a velhice não é para medricas.
Mas, eu digo:
A velhice é uma merda, e com esta puta de doença de merda (…) é só para corajosas.
Em Elena Sabe não há cá espaço para romantizações. A velhice não é apresentada como um tempo de sabedoria, mas como um momento de perda, desgaste e dependência.
A doença, Parkinson Plus, não é só um diagnóstico, é um carrasco que organiza o tempo, dita os movimentos e limita as escolhas e faz com que tudo dependa de comprimidos e horários,
Tem de apanhar o comboio que vai para a capital às dez da manhã; o próximo, às onze, já não serve, porque ela tomou o comprimido às nove, então pensa, e sabe, que tem de apanhar o das dez, pouco depois de a medicação fazer com que o seu corpo cumpra a ordem do seu cérebro. Logo a seguir. O das onze, não, porque nessa altura o efeito da medicação terá diminuído até desaparecer (…)
e, com esta falta de autonomia, a identidade começa também a desaparecer..
A filha, Rita, torna-se cuidadora da mãe, e vê-se esmagada com essa responsabilidade. Há desgaste, ressentimento e culpa.
parece-lhe pouco o que já temos, doutor?, (…) e depois continuou, mais do que se babar, do que fazer chichi nas calças e, mesmo que se lave, cheirar sempre a urina velha, mais do que não poder dar um passo à vontade, mais do que arrastar os passos que consegue dar graças à sua levodopa, (…) mais do que se sentar e só conseguir levantar-se com ajuda, mais do que não conseguir cortar as unhas dos pés, nem atar os atacadores dos ténis, mais?, há mais do que engolir com dificuldade, sentir que o ar não passa e que se pode morrer sufocado?, mais do que comer com as mãos, do que ter de tentar cem vezes antes de conseguir engolir um comprimido, mais do que só conseguir beber através da ridícula circunferência de uma palhinha de plástico ou do buraco de uma bombilla, mais do que não conseguir despir ou vestir as cuecas sozinha, nem limpar o rabo depois de ir à casa de banho, (…) mais do que não conseguir abotoar uma blusa, nem colocar o relógio de pulso, nem fechar o fecho de uma mala, mais do que não conseguir colocar ou tirar a dentadura postiça, mais do que cair de lado se ninguém segurar o seu corpo, aos poucos, quase sem perceber, até ficar deitada em qualquer banco, em qualquer lugar, na frente de quem quer que seja, mais do que assinar com dificuldade e mal entender a própria letra, mais do que aceitar que a boca se contraia, se recuse a modular e não deixe entender, a não ser com muito esforço e imaginação, as palavras que pronuncia, mais?, o doutor diz que há mais?
E como se o corpo não fosse já um campo de batalha suficiente, há ainda a questão do aborto num país católico. É com a Isabel que Claudia Piñeiro expõe o controlo social e religioso sobre o corpo feminino, onde escolhas íntimas se tornam matéria de julgamento colectivo.
e a vergonha de não querer ser mãe, porque todos, aqueles que dizem saber, garantem que uma mulher tem de querer ser mãe.
É um livro sobre o que resta quando o corpo falha, quando a dignidade se esbate, quando a vontade já não chega. Não há redenção, nem consolo fácil. Há apenas a lucidez de quem como Elena sabe que resistir também pode ser uma forma de coragem.
