Série: -
Autor: Percival Everett
Data de Leitura: 15/03/2026 ⮞ 26/03/2026
Classificação: ⭐⭐⭐⭐⭐
Sinopse
Uma série de homicídios macabros toma de assalto a cidade de Money, Mississípi. O xerife, os seus ajudantes, o médico-legista e demais habitantes daquela localidade orgulhosamente branca reagem com desconfiança quando uma dupla de detetives estaduais, negros, chega para ajudar na investigação. Em cada uma das cenas do crime, um mesmo elemento deixa-os a todos cada vez mais perplexos: um segundo corpo, de um homem incrivelmente semelhante a Emmett Till, rapaz negro linchado naquela cidade 65 anos antes. Quando os detetives se convencem de que se trata de uma vingança, são surpreendidos pelo facto de haver registo de mortes em moldes idênticos um pouco por todo o país. À medida que os corpos se amontoam, a investigação é conduzida até à casa de uma senhora centenária com um assombroso arquivo histórico. As Árvores é um romance audacioso, de sátira mordaz, que avança a ritmo veloz, sem desviar o olhar dos fantasmas que encontra pelo caminho. Livro do ano para publicações como The New York Times, NPR, The Chicago Tribune e TIME, recebeu, entre várias distinções, o Prémio Bollinger Everyman Wodehouse para escrita de comédia e foi finalista do Prémio Booker 2022.
Minha review no GoodReads
Percival Everett nasceu em 1956, na Geórgia, Estados Unidos, e é um dos nomes mais originais da literatura contemporânea americana.
Com mais de trinta livros publicados, Everett escreve entre géneros — romance, sátira, western, ficção filosófica — e aborda frequentemente questões de identidade, linguagem, racismo e história americana. As Árvores foi finalista do Booker Prize, e exemplifica bem a sua capacidade de provocar, desconcertar e obriga-nos a pensar para lá do óbvio.
Antes de mais, um aviso:
Este não é um livro para leitores sensíveis. Há violência explícita, linguagem dura, racismo, descrições gráficas de crimes, bem como humor negro e um sarcasmo que podem não agradar a todos.
O ponto de partida leva-nos até Money, Mississippi, que parece exatamente o que o nome sugere, num retrato inicial que mistura ironia e crítica: uma marca de constrangida ignorância que poderia muito bem ser assumida pois […] não vai desaparecer. E talvez esteja tudo aí, esse passado que insiste em ficar.
É neste cenário que começam a surgir homicídios estranhos. Homens brancos assassinados, sempre acompanhados pelo corpo de um homem negro que ninguém consegue identificar… e que insiste em reaparecer. Quando os casos começam a ligar-se, entram em cena dois detectives enviados para investigar.
Há aqui ecos claros da história real de Emmett Till a pairar sobre toda a narrativa. E é impossível ignorar o peso disto. Não é apenas um mistério, é um confronto directo com um passado de violência racial que nunca desapareceu verdadeiramente.
Mas o mais interessante é a forma como o autor constrói tudo isto. As Árvores começa como um policial, mas rapidamente se recusa a ficar por aí, mistura crime, sátira, horror e absurdo de uma forma que nunca nos deixa assentar. Quando achamos que estamos a ler um thriller, surge o humor; quando começamos a rir, volta a violência.
E esse humor é muitas vezes desconcertante. Surge em diálogos inesperados, quase absurdos
— O relatório diz que você trouxe consigo o cadáver do negro para Hattiesburg.
— Parece que as pessoas em Money não conseguiam acompanhar o passo dele — disse Ed.
— Então, acha que alguém levou o corpo?
— Os mortos não andam — disse Jim.
— Exceto Jesus — disse Safer.
ou em piadas que escondem verdades incómodas,
Contava-se como uma velha piada em Money, Mississípi, que quem quisesse descobrir quem pertencia ao Klan só precisava de ficar à espera na Lavandaria do Russell.
E, por vezes, o humor é tão seco que quase passa por choque directo:
— Eu fiz mal àquele pretinho. Como diz o bom livro: cá se fazem, cá se pagam.
— Que bom livro é esse? — perguntou Charlene. — O Armas e Munições?
— Não, a Bíblia, sua ateia.
Ao mesmo tempo, há frases que nos obrigam a parar
A História é muito cabrona
directa, seca, impossível de ignorar. Ou ainda aquela ideia inquietante de que (…) A morte nunca é um desconhecido. É por isso que temos medo dela.
E depois há o que está por baixo de tudo isto, a memória. A necessidade de registar, de nomear, de não deixar desaparecer. Uma das passagens mais fortes do livro resume isso de forma quase dolorosa:
— Quando escrevo os nomes, eles tornam-se reais, não meras estatísticas. Quando escrevo os nomes, eles voltam a ser reais. É quase como se ganhassem mais uns segundos aqui. Percebe o que eu quero dizer? Eu nunca seria capaz de inventar estes nomes todos. Os nomes têm de ser reais. Têm de ser reais. Não têm?
Mama Z encostou a mão à face de Damon.
— Porquê a lápis?
— Quando acabar, vou apagar todos estes nomes, libertá-los.
— Continua, meu filho — disse a velha senhora.
É talvez aqui que o livro se revela por completo.
O próprio título não é inocente: As Árvores remetem, por um lado, para o cenário dos linchamentos (testemunhas silenciosas de uma violência brutal) e, por outro, para as árvores genealógicas, onde essa mesma violência parece prolongar-se de geração em geração. Entre memória e herança, tudo está ligado.
À medida que a história avança, essa ideia torna-se ainda mais clara, e o que Everett faz é precisamente recusar esse esquecimento.
— Toda a gente fala de genocídios por esse mundo fora, mas quando o morticínio é lento e se estende ao longo de centenas de anos, ninguém dá por ela. Onde não há valas comuns, ninguém repara.
O que mais me impressionou foi esse equilíbrio improvável. Entre o grotesco e o cómico, entre o absurdo e o profundamente sério. Entre uma leitura que flui quase como entretenimento e uma reflexão que fica a moer muito depois de o livro acabar. Um livro que entretém, desconcerta e incomoda na mesma medida e que prova que, às vezes, rir também pode ser uma forma de enfrentar o que há de mais duro.
![]() |
| Achievement Star Selections |

