Série: -
Autor: Nuno Camarneiro
Data de Leitura: 17/07/2022 ⮞ 30/07/2022
Classificação: ⭐⭐⭐⭐
Sinopse
Que linhas unem um imigrante que lava vidros num dos primeiros arranha- céus de Nova Iorque a um rapaz misantropo que chega a Lisboa num navio e a uma criança que inventa coisas que depois acontecem? Muitas. Entre elas, as linhas que atravessam os livros. Em 1910, a passagem de dois cometas pela Terra semeou uma onda de pânico. Em todo o mundo, pessoas enlouqueceram, suicidaram-se, crucificaram-se, ou simplesmente aguardaram, caladas e vencidas, aquilo que acreditavam ser o fim do mundo. Nos dias em que o céu pegou fogo, estavam vivos os protagonistas deste romance - três homens demasiado sensíveis e inteligentes para poderem viver uma vida normal, com mais dentro de si do que podiam carregar. Apesar de separados por milhares de quilómetros, as suas vidas revelam curiosas afinidades e estão marcadas, de forma decisiva, pelo ambiente em que cresceram e pelos lugares, nem sempre reais, onde se fizeram homens. Mas, enquanto os seus contemporâneos se deixaram atravessar pela visão trágica dos cometas, estes foram tocados pelo génio e condenados, por isso, a transformar o mundo. Cem anos depois, ainda não esquecemos nenhum deles. Escrito numa linguagem bela e poderosa, que é a melhor homenagem que se pode fazer à literatura, No Meu Peito não Cabem Pássaros é um romance de estreia invulgar e fulgurante sobre as circunstâncias, quase sempre dramáticas, que influenciam o nascimento de um autor e a construção das suas personagens.
Minha review no GoodReads
Karl é um imigrante solitário em Nova York.
Há uma dor dentro que pede alimento e é isso que Karl lhe dá. Um mau amor é um fogo grande que só aquece se puder queimar o que toca. Um braço, uma perna, que lindo é o nosso amor, um sonho, um desejo de chamas altas direitas a nada. Os amores assim são acelerados, vão correndo sempre mais depressa em direção ao fim e ao fim de quem os não sabe escusar. Um amor que se sente em dor é uma doença dos sentidos que mata muitas vezes.
Fernando é um jovem que gosta de escrever e vai morar com as tias em Lisboa.
Os homens multiplicam-se a cada cruzamento, os homens são assim. Caminho para aqui, caminho por ali, uma direcção na vida e outra no pensar. Quatro cruzamentos são dezasseis homens, vinte são um milhão, quarenta e oito mil, quinhentos e setenta e seis homens. Gabardine ou sobretudo, café curto ou cheio, a pé ou de eléctrico, almoço no escritório ou no Alves, dezasseis homens. Passou um meio dia e é já difícil encontrar mesa onde sentar tanta gente, acabe o dia, venha outro, uma semana, um mês, um ano, e nem na China cabem os homens que saem de um homem.
Jorge é um rapaz argentino que se entrega quase o tempo todo a jogos da imaginação.
A meio da vida Jorge deixa num caderno uma lista de coisas que ainda hão-de ser escritas: um homem que sabia falar e contar segredos com o corpo; uma sociedade que sobreviveu à ausência de amor; dois irmãos que vão do berço à cova sem que um deles tenha chegado a nascer; a língua perfeita de um só falante; os índios que descobriram a Europa antes do tempo e voltaram calados do futuro; um homem que ama uma mulher sem fazer perguntas; o canto esquecido dos cães; a segunda morte de Cristo; o contrário do tempo; os ventos todos.
Nem mil Jorges poderiam alguma vez preencher o que falta. O mundo é um vazio desmedido que não queremos nem podemos aceitar, os homens também, as cidades, os países, os planetas também. Não há palavras que encham tanto vazio. Os livros que deixamos são obras de filigrana, fios ténues de sentido com que delimitamos o volume do que não entendemos.