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[Opinião] Éramos Seis - Maria José Dupré

     




Título: Éramos Seis

Série: -

Autor: Maria José Dupré

Data de Leitura: 28/06/2022 ⮞ 05/07/2022

Classificação: 


Sinopse

A história de Dona Lola e sua família, uma bondosa e batalhadora mulher que faz de tudo pela felicidade do marido, Júlio, e dos quatro filhos: Carlos, Alfredo, Julinho e Maria Isabel. A vida de Dona Lola é narrada desde a infância das crianças, quando Júlio trabalha para pagar as prestações da casa onde moram, passando pela chegada dos filhos à fase adulta e de Dona Lola à velhice. Conforme os anos passam, vão se modificando as coisas na vida de Dona Lola: a morte de Júlio; o sumiço de Alfredo pelo mundo; a união de Isabel com Felício, um homem separado; a ascensão de Julinho, que se casa com uma moça de família rica. O título do livro vem da situação de Dona Lola ao fim da vida, sozinha num asilo: eram seis, agora só resta ela. Também são expostos no livro outras personagens, como os familiares de Lola: na cidade de Itapetininga, interior paulista, moram a mãe, Dona Maria; a tia Candoca; as irmãs Clotilde, solteira, e Olga, casada com Zeca, seu cunhado; na cidade, vive a rica tia Emília, irmã de seu pai; e a filha dela, Justina.



Minha review no GoodReads


Um clássico da literatura infanto-juvenil brasileira.


É uma história de luta e perseverança de uma família.

Nos capítulos iniciais percebemos a força e união da família Lemos para conseguir pagar as prestações da tão sonhada casa própria – localizada na Avenida Angélica - e dar um futuro melhor aos quatro filhos.


A história é narrada por Dona Lola, uma típica dona de casa do início do século XX e a partir das suas lembranças percorremos as dificuldades e desafios que surgem ao longo da sua vida assim como alguns momentos históricos que ocorrem em São Paulo e no mundo.


Júlio, o patriarca da família, é aquele típico machista da época. Um homem rude, autoritário e amargo.


—Diga uma coisa, quem é que manda aqui? Serei eu ou você? Vamos, diga.

Continuei calada; ele gritou mais:

—Diga quem manda nesta casa? Quem é que paga tudo? Hein? Por que não fala? Chego exausto do serviço, sento na mesa para jantar e ela vem me dizer que não devo comer isto ou aquilo. Fique sabendo que como o que quero e ninguém tem nada com isso. Ouviu?


Dona Lola é a dona de casa, submissa, que não é tida nem achada nas decisões da família e que quando alguma coisa corre mal é a culpada de todos os infortúnios.


Às três da manhã, Júlio começou a se desesperar, dizendo que eu era culpada; que se fosse mais enérgica, ele não fugiria, e que eu estragava a educação dos filhos com os mimos que dava; que não se pode fazer a vontade das crianças como eu fazia e o resultado era esse.


À medida que a história avança Dona Lola torna-se uma mulher forte, batalhadora, trabalhadora e amiga.


Carlos, o primogénito e o mais afeiçoado à mãe, é um rapaz estudioso, trabalhador e que representa uma certa burguesia da época.


Carlos começou a cursar o primeiro ano de Medicina e um dia disse que podia trabalhar nas horas vagas. Havia tempo de sobra e assim não nos ficava tão pesado. Então arranjou com um médico conhecido nosso para ser entregador de amostras. Trabalhava e estudava, tinha todas as horas tomadas e começou a receber um ordenado regular, o que nos aliviou muito.


Alfredo é um estroina, não gosta de trabalhar nem de estudar e acaba a ter que fugir do Brasil por conta dos seus ideais políticos.


- Que livros são esses, Alfredo? Você comprou?

Riu-se alegremente:

- Um amigo me emprestou, mamãe. Por quê?

- Fala em “sistema marxista”, em “Karl Marx”, em “bolchevismo”. O que é isso?


Julinho tem o sonho de ser engenheiro, mas torna-se comerciante como o pai. A diferença é que casa com a filha do patrão.


Uma noite, quase no fim do ano, o dono da loja de Julinho, veio nos fazer uma visita; elogiou muito o serviço de Julinho, dizendo que era um empregado tão correto que desejaria mandá-lo para o Rio de Janeiro, na filial do irmão, uma casa importante, e de muito futuro.


Isabel é a princesa da família e a menina do pai. É uma rapariga inteligente e educada, estuda para ser professora, mas a opção de casar com um divorciado – algo inaceitável na época - afasta-a da família.


- Será possível Isabel, será possível que nada adianta? Nem conselhos, nem ralhos, nem nada? Você não parece minha filha. A filha que criei com todo o carinho e cuidado me desobedecendo desta forma vergonhosa. Então minhas palavras não valem nada? Estou falando para o vento?

Ela tinha se aproximado da mesa e pegando um pedaço de massa de doce, começou a fazer bolinhas, a cabeça baixa, sem nada dizer.

- Fale, Isabel, não tem mesmo vergonha? Continua a andar com aquele ordinário?

Ela se revoltou:

- Ele não é ordinário.

- Como, não é ordinário? Um homem casado namorando uma menina solteira? Como vai casar com você? Largue a massa do doce!

- Ele não é casado; já disse que está separado e tratando do desquite.

- É casado. Que desquite nada! É casado, continua casado. Abandonou a mulher, mas é casado.


No desenrolar da história os seis acabam por ficar cinco, quatro, três…até ficar apenas Dona Lola.


O céu está sombrio e escuro, cinzento-escuro. O que foi a vida em todos esses anos? Sacrifício e devotamento. É como ver numa tarde assim de chuva, pesada de tristezas.

Mas não sei lamentar; se fosse preciso recomeçar novamente, novamente faria minha vida a mesma que foi, de sacrifício e devotamento. Devo ser feliz porque cada filho seguiu o caminho escolhido. Grossas gotas de chuva caem do céu sobre a terra, sobre as árvores e sobre os telhados. Cor de cinza. Solidão.